INTRODUÇÃO
O objetivo desse Blog é levar você a uma reflexão maior sobre a vida, buscando pela compreensão das leis divinas o equilíbrio
necessário para uma vida saudável e produtiva.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Prezados irmãos e amigos. Não pretendo com esse Blog modificar o pensamento das pessoas. Não tenho a pretensão de ser dono da verdade, pois acredito que nenhuma religião ou seita detém o privilégio de monopolizá-la. Apenas estou transmitindo informações, demonstrando a minha crença, a minha verdade. Cabe a cada indivíduo a escolha de como quer entender as coisas do mundo em que vive, como quer viver a sua vida, e quais os métodos que quer utilizar para suas colheitas. Como disse Jesus, "A semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória", ou seja, o plantio é opcional, você planta o que quiser, mas vai colher o que plantar. Por isto, muito cuidado com o que semear.
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Aprendendo com o Evangelho - Início do Estudo


O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
Deve-se expor a vida por um malfeitor?
15. Acha-se em perigo de morte um homem; para o salvar tem um outro que expor a vida. Sabe-se, porém, que aquele é um malfeitor e que, se escapar, poderá cometer novos crimes. Deve, não obstante, o segundo arriscar-se para o salvar?
Questão muito grave é esta e que naturalmente se pode apresentar ao espírito. Responderei, na conformidade do meu adiantamento moral, pois o de que se trata é de saber se se deve  expor a vida, mesmo por um malfeitor. O devotamento é cego; socorre-se um inimigo; deve-se, portanto, socorrer o inimigo da sociedade, a um malfeitor, em suma. Julgais que será somente à morte que, em tal caso, se corre a arrancar o desgraçado? É, talvez, a toda a sua vida passada. Imaginai, com efeito, que, nos rápidos instantes que lhe arrebatam os derradeiros alentos de vida, o homem perdido volve ao seu passado, ou que, antes, este se ergue diante dele. A morte, quiça, lhe chega cedo demais; a reencarnação poderá vir a ser-lhe terrível. Lançai-vos, então, ó homens; lançai-vos todos vós a quem a ciência espírita esclareceu; lançai-vos, arrancai-o à sua condenação e, talvez, esse homem, que teria morrido a blasfemar, se atirará nos vossos braços. Todavia, não tendes que indagar se o fará, ou não; socorrei-o, porquanto, salvando-o, obedeceis a essa voz do coração, que vos diz: “Podeis salvá-lo, salva-o”. (Lamennais, Paris, 1862).
Nesse questionamento de Kardec se devemos ou não correr risco de vida (de morte) para salvar um malfeitor, a resposta não é tão simples quanto parece.
O Espiritismo, esclarecendo a continuidade da vida do Espírito, demonstra que sempre a caridade deve falar mais alto, independentemente das qualificações das pessoas, pois ninguém pode prever as reações dos homens, diante de um ato de amor.
Assim, mesmo se não acontecer a vontade de transformar-se, ainda assim, a caridade para com o próximo será sempre a melhor solução, tanto para quem dá como para quem recebe.
Como ninguém pode saber o que se passa no interior de qualquer pessoa, não se pode deixar de fazer o bem para evitar supostas consequências.
Nesta simples avaliação, tentarei abordar esta questão segundo o meu próprio raciocínio (adiantamento moral).
Comecemos pelos mandamentos segundo Jesus:
“Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. - Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos.”
“Se somente amardes os que vos amam, que mérito se vos reconhecerá, uma vez que as pessoas de má vida também amam os que os amam? - Se o bem somente o fizerdes aos que vo-lo fazem, que mérito se vos reconhecerá, dado que o mesmo faz a gente de má vida? - Se só emprestardes àqueles de quem possais esperar o mesmo favor, que mérito se vos reconhecerá, quando as pessoas de má vida se entreajudam dessa maneira, para auferir a mesma vantagem? Pelo que vos toca, amai os vossos inimigos, fazei bem a todos e auxiliai sem esperar coisa alguma.”
O Novo Testamento apresenta dois relatos que nos servem como ensinamento e que demostram reações humanas: 1) a traição de Judas e; 2) as três vezes que Pedro negou Jesus. Estes relatos são para nos lembrar de que, mesmo diante de Jesus, ainda colocamos nossos interesses pessoais em primeiro plano.
Podemos lembrar também que se houver o desencarne do salvador, provavelmente, ele já estava previsto para ser desta forma, por alguma dívida do passado. Ele fez o que sentiu dever fazer. Mas, mesmo se assim não for, esse desencarne será sempre um ato de amor ao próximo, que o engrandecerá diante da Espiritualidade Maior.
A resposta de Lamennais caracteriza a abordagem de um espírito elevado, pois ele diz que “O devotamento é cego; socorre-se um inimigo; deve-se, portanto, socorrer o inimigo da sociedade, a um malfeitor..." e que "Podes salvá-lo, salva-o!".
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
Caridade para com os criminosos
14. A verdadeira caridade constitui um dos mais sublimes ensinamentos que Deus deu ao mundo. Completa fraternidade deve existir entre os verdadeiros seguidores da sua doutrina. Deveis amar os desgraçados, os criminosos, como criaturas, que são, de Deus, às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem, como também a vós, pelas faltas que cometeis contra sua Lei. Considerai que sois mais repreensíveis, mais culpados do que aqueles a quem negardes perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles não conhecem Deus como o conheceis, e muito menos lhes será pedido do que a vós.
Não julgueis, oh! Não julgueis absolutamente, meus caros amigos, porquanto o juízo que proferirdes ainda mais severamente vos será aplicado e precisais de indulgência para os pecados em que sem cessar incorreis. Ignorais que há muitas ações que são crimes aos olhos do Deus de pureza e que o mundo nem sequer como faltas leves considera?
A verdadeira caridade não consiste apenas na esmola que dais, nem, nas palavras de consolação que lhe aditeis. Não, não é apenas isso o que Deus exige de vós. A caridade sublime, que Jesus ensinou, também consiste na benevolência de que useis sempre e em todas as coisas para com o vosso próximo. Podeis ainda exercitar essa virtude sublime com relação a seres para os quais nenhuma utilidade terão as vossas esmolas, mas que algumas palavras de consolo, de encorajamento, de amor, conduzirão ao Senhor supremo.
Estão próximos os tempos, repito-o, em que nesse planeta reinará a grande fraternidade, em que os homens obedecerão à lei do Cristo, lei que será freio e esperança e conduzirá as almas às moradas ditosas. Amai-vos, pois, como filhos do mesmo Pai; não estabeleçais diferenças entre os outros infelizes, porquanto quer Deus que todos sejam iguais; a ninguém desprezeis. Permite Deus que entre vós se achem grandes criminosos, para que vos sirvam de ensinamentos. Em breve, quando os homens se encontrarem submetidos às verdadeiras leis de Deus, já não haverá necessidade desses ensinos; todos os Espíritos impuros e revoltados serão relegados para mundos inferiores, de acordo com as suas inclinações.
Deveis, àqueles de quem falo, o socorro das vossas preces; é a verdadeira caridade. Não vos cabe dizer de um criminoso: “É um miserável; deve-se expurgar da sua presença a Terra; muito branda é, para um ser de tal espécie, a morte que lhe infligem”. Não, não é assim que vos compete falar. Observai o vosso modelo: Jesus. Que diria ele, se visse junto de si um desses desgraçados? Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia um doente bem digno de piedade; estender-lhe-ia a mão. Em realidade, não podeis fazer o mesmo; mas, pelo menos, podeis orar por ele, assistir-lhe o Espírito durante o tempo que ainda haja de passar na Terra. Pode ele ser tocado de arrependimento, se orardes com fé. É tanto vosso próximo, como o melhor dos homens; sua alma, transviada e revoltada, foi criada, como a vossa, para se aperfeiçoar; ajudai-o, pois, a sair do lameiro e orai por ele. (Isabel de França. Havre, 1862).
Hoje, em nossa sociedade, a violência nos envolve todo o tempo, nas ruas, na mídia e, muitas vezes, dentro de nossos lares. Esse estudo “Caridade para com os Criminosos”, provoca as mais variadas reações. Quando pensamos no perdão e na caridade para com os criminosos, nos encontramos muitas vezes a dizer para nós mesmos: perdoar, ser caridoso… nunca! Quando encontramos criaturas assim, ou nós mesmos agimos assim, podemos ter certeza de que o alerta de Jesus ainda não encontrou eco em nossos espíritos.
Sempre que a sociedade se abala diante de um crime bárbaro, clama-se por revisões na lei. Cabe refletir, à luz da Doutrina Espírita, sobre os crimes e sobre a lei. O mandamento maior da lei divina inclui a caridade para com os criminosos, por mais difícil que possa parecer ter este sentimento diante da barbárie. Perante a Lei de Deus somos todos irmãos, por mais que repugne a alguns tal ideia.
Isabel de França lembra, nesta mensagem, da caridade em relação aos criminosos, aos infelizes, também filhos de Deus, a quem Ele ama e lhes dará o perdão e a misericórdia, após seu arrependimento, dando-lhes novas oportunidades de reparação e de aperfeiçoamento, como faz para com todos.
O amor de Deus, sempre absoluto, não faz distinção de pessoas, porque Ele é imutável e a parábola da ovelha perdida, narrada por Mateus, 18: 10 a 14, por Lucas, 15:3 a 7, a dos Trabalhadores da Última Hora, Mateus, 20: 1 a 16, dando oportunidades a todos que quiseram trabalhar, a parábola do Filho Pródigo, Lucas, 15:11 a 32, contadas por Jesus, atestam bem o amor do Pai por todos os seus filhos.
Seu amor e misericórdia são imutáveis e sua justiça também, portanto, cada um receberá sempre segundo suas obras.
Lembra a autora que caridade não é só dar esmolas nem mesmo quando acompanhadas de palavras de consolação. É muito mais do que isso.
É ser benevolente, constantemente, e em todas as coisas para com o próximo, e ser benevolente é ter boa vontade para com os outros, tanta quanto a deseja para si.
Assim, ser caridoso com os criminosos não é deixar-lhes livres para continuar cometendo desatinos, mas sim, compreendê-los como pessoas equivocadas. Considerá-los como doentes, muito necessitados, filhos de Deus, criados como todos os demais, que um dia, graças às leis divinas, tornar-se-ão bons e sábios, exatamente, como todos.
Ser caridoso com os criminosos é pensar neles, com piedade pelo que fazem orar por eles, pedindo a Deus, que eles possam conhecer a realidade da vida espiritual, eterna e progressiva, a fim de que se arrependam e busquem transformar-se, ao invés de pensar e dizer: “É um miserável; deve ser extirpado da Terra”. Jesus diria isso? Quem garante que não fizemos coisas piores em um passado talvez remoto?
Afirma a autora que se deve sempre perdoar os criminosos. Recusando esse perdão, a pessoa está sendo mais repreensível, mais culpada do que eles, porque quase sempre esses criminosos “não conhecem a Deus como o conheceis, e lhes será pedido menos do que a vós”.
Não se deve esquecer nunca de que os homens são julgados pelas leis divinas, exatamente com julgam os outros, e que enquanto Espíritos em desenvolvimento, estamos, todos nós, sujeitos a erros, a enganos e todos precisamos de indulgência.
Menciona ela algo muito importante, nem sempre evidenciado, no viver cotidiano: “Não sabeis que há muitas ações que são crimes aos olhos do Deus de pureza, mas que o mundo não considera sequer como faltas leves?”
No processo evolutivo do Espírito imortal, sua responsabilidade nos seus atos, é sempre de acordo com seu entendimento. Quanto mais inferior, menos se lhe é exigido, pois, ninguém pode dar o que não possui; quanto mais evolui em entendimento, mais responsável é pelo que sente, pensa e faz.
Perdoar aos criminosos, não é, pois, livrá-los das consequências dos seus atos, mas amenizá-las tanto quanto possível, na confiança de sua regeneração, na sua perfectibilidade e nas leis de Deus.
Um dia, a lei divina trazida por Jesus reinará no mundo. Para isso é preciso que nos amemos uns aos outros como filhos de um mesmo Pai, com a mesma origem, o mesmo destino, as mesmas potencialidades, as mesmas oportunidades.
Por isso, não devemos desprezar ninguém. A presença de grandes criminosos na Terra é possível, por ser ela um mundo de expiações e de provas, onde estamos todos nos desenvolvendo, nas variadas experiências que este viver nos propicia.
Assim, o bem e o mal se mesclam, para que os homens aprendam e distingui-los, acolhendo um e rejeitando o outro, mas amparando sempre o que faz o mal.
Dessa maneira, o mal na Terra pode se constituir em instrumento de aprendizado para a evolução espiritual do Espírito imortal.
Quando a lei do amor imperar na Terra, não haverá mais necessidade dessa mescla de bem e mal “e todos os Espíritos impuros serão dispersados pelos mundos inferiores, de acordo com as suas tendências” , onde irão continuar seu desenvolvimento moral.
Questões para reflexão:
1 - Como fazer a caridade a um criminoso?
Não lhe desejando mal, não julgando seus atos, visitando-o no presídio, levando-lhe uma mensagem que poderá conduzi-lo à regeneração.
A violência é fruto do desamor, do egoísmo e da indiferença para com o próximo.
2 - A desencarnação seria um bem para o criminoso?
Só a Deus cabe julgar. Mas, podemos acreditar que, a partir do ato salvacionista, a vida do malfeitor poderia reformular-se para melhor, e conquistaríamos um amigo para a eternidade, disposto a ouvir nossas propostas renovadoras.
Sem a caridade das almas nobres, o malfeitor demoraria muito mais para renovar-se.
3 - Pode um homem vir a se arrepender de seus atos incorretos, se tiver, diante da morte iminente, a chance de ser salvo?
É possível, pois, nesse instante, o homem perdido vê surgir diante de si todo o seu passado, fazendo-se ver a chance de redimir-se vivendo mais algum tempo na recuperação renovadora.
Conclusão do Estudo:
A nossa atitude diante de um criminoso deverá ser de benevolência, de amor, de consolação e encorajamento. Se tivermos oportunidade de salvá-lo diante da morte, não deveremos desperdiçá-la. Ele é tanto nosso irmão quanto o melhor dos homens.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
A Fé e a Caridade
13. Disse-vos, não há muito, meus caros filhos, que a caridade, sem a fé, não basta para manter entre os homens uma ordem social capaz de os tornar felizes. Pudera ter dito que a caridade é impossível sem a fé. Na verdade, impulsos generosos se vos depararão, mesmo entre os que nenhuma religião têm; porém, essa caridade austera, que só com abnegação se pratica, com um constante sacrifício de todo interesse egoístico, somente a fé pode inspirá-la, porquanto só ela dá se possa carregar com coragem e perseverança a cruz da vida terrena.
Sim, meus filhos, é inútil que o homem ávido de gozos procure iludir-se sobre o seu destino nesse mundo, pretendendo ser-lhe lícito ocupar-se unicamente com a sua felicidade. Sem dúvida, Deus nos criou para sermos felizes na eternidade; entretanto, a vida terrestre tem que servir exclusivamente ao aperfeiçoamento moral, que mais facilmente se adquire com o auxílio dos órgãos físicos e do mundo material. Sem levar em conta as vicissitudes ordinárias da vida, a diversidade dos gostos, dos pendores e das necessidades, é esse também um meio de vos aperfeiçoardes, exercitando-vos na caridade. Com efeito, só a poder de concessões e sacrifícios mútuos podeis conservar a harmonia entre elementos tão diversos.
Tereis, contudo, razão, se afirmardes que a felicidade se acha destinada ao homem nesse mundo, desde que ele a procure, não nos gozos materiais, sim no bem. A história da cristandade fala de mértires que se encaminhavam alegres para o suplício. Hoje, na vossa sociedade, para serdes cristãos, não se vos faz mister nem o holocausto do martírio, nem o sacrifício da vida, mas única e exclusivamente o sacrifício do vosso egoísmo, do vosso orgulho e da vossa vaidade. Triunfareis, se a caridade vos inspirar e vos sustentar a fé. (Espírito protetor, Cracóvia, 1861).
O Espírito protetor, como se intitulou o autor da mensagem, faz uma afirmação, difícil de aceitar à primeira leitura: “Eu vos disse, recentemente, meus queridos filhos, que a caridade sem a fé não seria suficiente para manter entre os homens uma ordem social capaz de fazê-los felizes. Deveria ter dito que a caridade é impossível sem a fé”.
Pelo texto, compreende-se que ele se refere à fé em Deus, nas Suas leis, na vida futura, à fé religiosa.
Todavia, sabemos que existem, e sempre existiram, pessoas sem fé em Deus, sem fé religiosa, que usaram de caridade para com o próximo.
Mas, a caridade a que ele se refere é a do amor em ação, ou seja, é aquela que leva o homem às renúncias de si mesmo em favor de outros; aquela, exercida com abnegação, com dedicação, colocando as necessidades alheias acima das suas; aquela que sacrifica todo o interesse egoísta para pensar nos interesses alheios; aquela que se compraz, sente prazer em beneficiar, não precisando de satisfações pessoais para sentir-se contente, colocando a sua felicidade no ato de tornar os outros felizes; aquela que leva o homem a esquecer-se de si para lembrar-se de outros.
Essa caridade, somente a fé firme e segura em Deus, no seu amor, na sua justiça, na sua sabedoria, nas suas leis, é capaz de vivenciar, “porque nada além dela nos faz carregar com coragem e perseverança a cruz desta vida”.
A fé consciente, inabalável, leva o homem a compreender a transitoriedade da vida na Terra, dando, aos valores materiais, a importância relativa que eles têm para o Espírito imortal, não se prendendo a eles, mas buscando usá-los em favor de outros, a fim de suavizar os sofrimentos alheios.
Somente uma fé religiosa, bastante firme e segura, é capaz de demonstrar ao homem que ele está na Terra para desenvolver-se, intelectual e moralmente, desviando-o da busca ávida de uma felicidade nos prazeres materiais, que lhe dão apenas a ilusão de ser feliz.
Vivemos em um mundo, “aparentemente” injusto, visto apenas do ponto de vista de uma única existência. Todavia, analisando sob o ponto de vista das vidas sucessivas, compreendemos que as “aparentes” injustiças, são os efeitos dos males praticados nesta vida ou em outras: é a lei de causa e efeito, acontecendo, a fim de auxiliar o aperfeiçoamento espiritual do homem.
Mas, não estamos condenados a viver assim, eternamente. À medida que os homens da Terra forem se desenvolvendo, moralmente, tanto quanto intelectualmente, as dores e os sofrimentos vão se tornando menores até se tornarem desnecessários.
Aí, nosso mundo se tornará um mundo melhor, mais fraterno, mais solidário, com preocupações de paz e felicidade para todos, em todos os aspectos.
Até lá, necessário é desenvolver a fé raciocinada, que sabe quem somos quem fomos o que seremos o que aqui devemos fazer e como fazer, para, no desenvolvimento do amor em nós, vivenciarmos o amor ao próximo.
Até lá, precisamos exercitar a solidariedade, a fraternidade, a tolerância, a generosidade, todas as facetas da caridade, uns para com os outros, como pudermos, aperfeiçoando-nos nos valores espirituais que só a fé religiosa tem condição de despertar, de fazer desabrochar.
Até lá, precisamos aprender a viver na diversidade de gostos, de interesses, de tendências, de necessidades, que esta humanidade apresenta, exercitando-nos na caridade que a fé religiosa estimula, porque “somente à custa de concessões e de sacrifícios mútuos, é que podeis manter a harmonia entre elementos tão diversos”.
 A felicidade plena não existe na Terra, pela própria imperfeição dos seus habitantes. Todavia, pode-se gozar de uma felicidade relativa, dedicando-se à prática do bem, sem perder tempo em procurá-la onde não está.
Diferentemente dos primeiros tempos do cristianismo, hoje não é necessário, para o verdadeiro cristão, o sacrifício da vida, mas faz-se premente “o sacrifício do egoísmo, do orgulho e da vaidade. Triunfareis se a caridade vos inspirar e fordes sustentados pela fé”.
Questões para reflexão:
1 - Por que a fé é importante para manter entre os homens uma ordem social capaz de torná-los felizes?
Porque a fé nos conduz à caridade, desenvolvendo em nós o espírito de solidariedade, eliminando as divergências que tanto separam as criaturas.
A fé constitui força motriz que impulsiona a caridade, em cujo trabalho o espírito se engrandece e alcança a plenitude da felicidade.
2 - Podemos dizer que as dificuldades da vida estão vinculadas à falta de caridade?
Sim, e nela, unicamente, está a solução. Quando nos voltamos para o bem-estar do próximo, aliviamos nossas dores e concorremos para a paz social.
A maior receita de fraternidade está contida na fórmula sagrada e imutável anunciada por Jesus no amai-vos uns aos outros.
3 - O que é necessário para sermos verdadeiros cristãos?
É necessário, tão somente, que sacrifiquemos o nosso egoísmo, nosso orgulho e nossa vaidade, em benefício do próximo.
O verdadeiro cristão se distingue pelo muito que ama o seu próximo.
Conclusão do Estudo:
A caridade só é verdadeira e capaz de promover a evolução do espírito, quando praticada com abnegação e um constante sacrifício de todo interesse egoístico. Mas, para isso, ela tem que ser inspirada e sustentada pela fé, que lhe constitui a mola propulsora.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
O Egoísmo
11. O egoísmo, chaga da Humanidade, tem que desaparecer da Terra, a cujo progresso moral obsta. Ao Espiritismo está reservada a tarefa de fazê-la ascender na hierarquia dos mundos. O egoísmo é, pois, o alvo para o qual todos os verdadeiros crentes devem apontar suas armas, dirigir suas forças, sua coragem. Digo; coragem, porque dela muito mais necessita cada um para vencer-se a si mesmo, do que para vencer os outros. Que cada um, portanto, empregue todos os esforços a combatê-lo em si, certo de que esse monstro devorador de todas as inteligências, esse filho do orgulho é o causador de todas as misérias do mundo terreno. É a negação da caridade e, por conseguinte, o maior obstáculo à felicidade dos homens.
Jesus nos deu o exemplo da caridade e Pôncio Pilatos o do egoísmo, pois, quando o primeiro, o Justo, vai percorrer as santas estações do seu martírio, o outro lava as mãos, dizendo: Que me importa! Animou-se a dizer aos judeus: Este homem é justo, por que o quereis crucificar? E, entretanto, deixa que o conduzam ao suplício.
É a esse antagonismo entre a caridade e o egoísmo, à invasão do coração humano por essa lepra que se deve atribuir o fato de não haver ainda o Cristianismo desempenhado por completo a sua missão. Cabem-vos a vós, novos apóstolos da fé, que os Espíritos superiores esclarecem, o encargo e o dever de extirpar esse mal, a fim de dar ao Cristianismo toda a sua força e desobstruir o caminho dos pedrouços que lhe embaraçam a marcha. Expulsai da Terra o egoísmo para que ela possa subir na escala dos mundos, porquanto já é tempo de a Humanidade envergar sua veste viril, para o que cumpre que primeiramente o expilais dos vossos corações. (Emmanuel, Paria, 1861).
 “É bem sabido que a maior parte das misérias da vida tem origem no egoísmo dos homens. Desde que cada um pensa em si antes de pensar nos outros e cogita antes de tudo de satisfazer aos seus desejos, cada um naturalmente cuida de proporcionar a si mesmo essa satisfação, a todo custo, e sacrifica sem escrúpulo os interesses alheios, assim nas mais insignificantes coisas, como nas maiores, tanto de ordem moral, quanto de ordem material. Daí todos os antagonismos sociais, todas as lutas, todos os conflitos e todas as misérias, visto que cada um só trata de despojar o seu próximo.
O egoísmo, por sua vez, se origina do orgulho. A exaltação da personalidade leva o homem a considerar-se acima dos outros”
Algumas vezes o egoísmo aparece tão disfarçado que mal o percebemos agindo em nós.
Os benfeitores espirituais nos ensinam que o egoísmo é a chaga que deve desaparecer da face da Terra. E por causa do egoísmo nosso progresso moral anda a passos lentos. O homem egoísta pensa em si e somente em si. Tudo que vê, observa, acredita que deva lhe servir.
Negação da caridade, o egoísmo gera insegurança para os homens, porque como o egoísmo e o orgulho andam de mãos dadas, a vida será sempre uma corrida em que vencerá o mais esperto. Uma luta de interesses, em que nada, nem ninguém merecem respeito.
Existem muitas almas solitárias simplesmente porque não se resolvem a arrebentar as amarras do egoísmo para serem úteis a alguém. O egoísmo pode ser considerado como uma velha e inútil roupa que se conserva no lar do orgulho. O melhor antídoto para o mal do egoísmo é o conhecimento da vida espiritual.
Kardec também cita esse mal, juntamente, com o orgulho, como as duas maiores chagas, da humanidade, impedindo seu progresso moral.
O egoísmo, “filho do orgulho”, é o monstro devorador de todas as inteligências, porque as domina, direcionando-as para o mal, para a dor e para o sofrimento, é a fonte de todas as misérias terrenas, porque leva o homem a pensar somente em si, impedindo-o de fazer crescer o amor, inerente em si, no ser espiritual, em potencialidade a ser desenvolvida por sua vontade.
Tendo o espiritismo, a tarefa de colaborar para o desenvolvimento moral da humanidade, o que elevará a Terra na hierarquia dos mundos, o egoísmo é o alvo, para o qual, os espíritas, principalmente, devem dirigir suas armas, suas forças e sua coragem, combatendo-o em si próprio.
As armas são a vontade, vinda da compreensão e da aceitação da necessidade de eliminá-lo de si, para que o amor possa se desenvolver.
As forças são o direcionamento das suas energias, das suas vibrações, da sua inteligência, da sua sensibilidade, no uso da vontade para os dois objetivos: desenvolver o amor e combater o egoísmo.
A coragem é a tenacidade, a bravura, a intrepidez, a firmeza de espírito, a determinação, necessárias para vencer-se a si mesmo.
Isso não se faz com facilidade, nem em pouco tempo, mas, uma vez iniciada a luta, no processo da mesma, surgem os estímulos adequados, nas pequeninas vitórias e na percepção do amparo espiritual.
Emmanuel afirma que a causa do cristianismo não ter ainda conseguido cumprir sua missão na Terra, está no egoísmo, na sua invasão nos corações humanos, no seu antagonismo à caridade, impedindo a ação desta na mente e nos corações dos homens.
Cita como o exemplo de caridade, Jesus, e como exemplo do egoísmo, Pilatos, que não reconhecendo no acusado, nenhuma das acusações, tendo, pois a chance de libertá-lo, não o fez, lavou suas mãos, entregando à multidão, influenciada pelas autoridades religiosas de Israel, a decisão da condenação à morte na cruz.
E esclarece que cabe, agora, aos espíritas, a tarefa de combater o egoísmo, para fortalecer o Cristianismo, limpando todos os obstáculos que entravam a marcha libertadora dos homens.
Essa responsabilidade atual dos espíritas está nas palavras de Jesus: “Porque a todo aquele, a quem muito foi dado, muito será pedido, e ao que muito confiaram, mais contas lhe tomarão”. (Lucas, XII : 47e 48).
Assim, aos espíritas, no aceitarem a 3ª revelação, o espiritismo revelado pelos Espíritos, e codificado por Allan Kardec, pelos muitos esclarecimentos recebidos, tendo, por consequência, maiores e melhores condições de viverem os ensinos de Jesus, muito será pedido, mas, também, muito será dado aos que souberem aproveitar esses ensinamentos na sua melhoria e na dos seus próximos.
A fé raciocinada, a “que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da humanidade”, como escreveu Kardec, neste livro que estudamos, capítulo XIX, item 7, é a fé.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A Lei de amor
10. Meus caros discípulos, os Espíritos aqui presentes vos dizem, por meu intermédio: “Amai muito, a fim de serdes amados”. É tão justo esse pensamento, que nele encontrareis tudo o que consola e abranda as penas de cada dia; ou melhor; pondo em prática esse sábio conselho, elevar-vos-eis de tal modo acima da matéria que vos espiritualizareis antes de deixardes o invólucro terrestre. (...)
Amar, no sentido profundo do termo, é o homem ser leal, probo, consciencioso, para fazer aos outros o que queira que estes lhe façam; (...)
“Amai bastante, para serdes amados”. (Sanson, ex-membro da Sociedade Espírita de Paris. 1863).
Sanson, com humildade, diz que os Espíritos presentes falam pela sua voz: “Amai muito para serdes amados”. Todos os Espíritos, encarnados ou desencarnados, aspiram ser amados, queridos, mas nem todos pensam ou sabem que antes de receber é preciso dar. Logo, quem quer ser amado precisa, antes de tudo, amar. Quem não busca amar não merece ser amado. O amor é força que atrai. Sem esse imã, como atrair amor? Por outro lado, se todos desejam ser amados e para isso é necessário que amem, tal fato é prova de que o amor existe em todos os Espíritos, iniciado seu desenvolvimento nos animais superiores, embora esses não tenham consciência disso. Portanto, quem se sente sozinho, sem amores, que se abra aos que lhe sejam seus próximos, e procure interessar-se por eles, por seus valores, por seus sonhos, por suas necessidades, a fim de que o amor crescendo dentro de si, se expandindo na direção de outros, atraia o amor dos outros para si.
No esforço de amar-se o próximo, “de tal maneira vos elevareis acima da matéria, que vos espiritualizareis antes mesmo de despirdes o vosso corpo terreno”.
O espiritismo ampliou a visão da vida futura, mostrando-a com uma continuação da vida na Terra, dando a certeza da progressão contínua em direção a Deus, à perfeição possível, à paz e à felicidade, provando que podemos sonhar com o melhor para todos nós, porque temos todas as condições, as possibilidades e o determinismo divino de consegui-lo.
Lembra-nos Sansão que também devemos elevar-nos bem alto, sem as restrições da matéria, buscando a visão de toda a trajetória do Espírito imortal, dirigindo nossos pensamentos a Deus, antes de julgarmos os outros. Isso é um ato de amor ao próximo.
“Amar, no sentido profundo do termo, é ser leal, probo, consciencioso, para fazer aos outros aquilo que se deseja para si mesmo”. Para isso é preciso olhar para o outro como a um irmão, um ser igual a si próprio, com qualidades, defeitos, sonhos de felicidade... É ver o outro como membro de uma grande família, a humanidade, caminhando todos os seus membros para se elevarem em direção a planos mais puros e sublimes.
Em assim vendo e compreendendo, os homens serão capazes de somente fazer aos outros o que desejam para si, buscando aliviar os sofrimentos alheios, no combate ás causas que os provocam e dirigindo-se aos sofredores com palavras de ajuda e esperança.
Sansão escreve que a máxima “Amai muito para serdes amados” é revolucionária, indicando uma rota firme e invariável, o que se percebe na própria história dos homens, que, na atualidade, já progrediram muito, sendo muitos e muitos capazes de aceitar, sem repulsas, idéias sobre a liberdade e a fraternidade que, em um passado, rejeitaram.
Ele cita a melhoria dos que o ouvem, que estão melhores do que há cem anos, mais abertos às novas ideias que o Espiritismo traz de liberdade e fraternidade, rejeitadas antes, afirmando que, de então a mais cem anos, esses que o ouvem, serão capazes de aceitar, com a mesma facilidade, as ideias que, naquele momento, não conseguiam entender e aceitar.
Pode ser que, nesse trecho, o autor se refira a pessoas que rejeitaram, ou não souberam entender os ideais de liberdade e fraternidade, que culminaram na Revolução Francesa, na França, no século anterior, reencarnados e aceitando essas idéias, na doutrina espírita, na importância do livre-arbítrio, na liberdade com responsabilidade, gerando o sentimento de fraternidade entre todos, no entendimento da justiça e na renovação que se dá através dos tempos.
Penso nessa possibilidade, devido ele falar em cem anos antes e cem anos depois, e também, dirigir-se a “Mas vós, que já haveis progredido, vós que me escutais: sois infinitamente melhores do que há cem anos”.
De qualquer maneira, ele demonstra, nesse parágrafo, o progresso que é realizado pelos homens, através das reencarnações, favorecendo-lhes sempre o desenvolvimento dos raciocínios e da sensibilidade espiritual.
“É que estais preparados por uma semeadura fecunda: a do último século, que implantou na sociedade as grandes ideias do progresso. E como tudo se encadeia, sob as ordens do Altíssimo, todas as lições recebidas e assimiladas resultarão nessa mudança universal do amor ao próximo. Graças a elas, os Espíritos encarnados, melhor julgando e melhor sentindo, dar-se-ão as mãos até os confins do vosso planeta. Todos se reunirão, para se entenderem e se amarem, destruindo todas as injustiças, todas as causas de desentendimento entre os povos.”
Isso acontecerá um dia, talvez, neste milênio, porque depende do trabalho dos próprios homens.
Busquemos, pois, fazer a nossa parte, em nosso campo de ação, fazendo o melhor no esforço de amarmos a todos, cada vez mais, com esse amor incondicional, que nada exige e tudo dá a quem quer que seja, pois, dentro de nós, ele já existe, esperando apenas, a nossa vontade e o esforço em desenvolvê-lo.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
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CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A Lei de amor
9. O amor é de essência divina e todos vós, do primeiro ao último, tendes, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado. É fato, que já haveis podido comprovar muitas vezes, este; o homem, por mais abjeto, vil e criminoso que seja, volta a um ente ou a um objeto qualquer viva e ardente afeição, à prova de tudo quanto tendesse a diminuí-la e que alcança, não raro, sublimes proporções.
A um ente ou um objeto qualquer, disse eu, porque há entre vós indivíduos que, com o coração a transbordar de amor, despendem tesouros desse sentimento com animais, plantas e, até, com coisas materiais; espécies de misantropos que, a se queixarem da Humanidade em geral e a resistirem ao pendor natural de suas almas, que buscam em torno de si a afeição e a simpatia, rebaixam a lei de amor à condição de instinto. Entretanto, por mais que façam, não logram sufocar o gérmen vivaz que Deus lhes depositou nos corações ao criá-los. Esse gérmen se desenvolve e cresce com a moralidade e a inteligência e, embora comprimido amiúde pelo egoísmo, torna-se a fonte das santas e doces virtudes que geram as afeições sinceras e duráveis e ajudam a criatura a transpor o caminho escarpado e árido da existência humana.
Há pessoas a quem repugna a reencarnação, com a ideia de que outros venham a partilhar das afetuosas simpatias de que são ciosas. Pobres irmãos! O vosso afeto vos torna egoístas; o vosso amor se restringe a um círculo íntimo de parentes e de amigos, sendo-vos indiferentes os demais. Pois bem! Para praticardes a lei de amor, tal como Deus o entende, preciso se faz chegueis passo a passo a amar a todos os vossos irmãos indistintamente. A tarefa é longa e difícil, mas cumprir-se-á; Deus o quer e a lei de amor constitui o primeiro e o mais importante preceito da vossa nova doutrina, porque é ela que um dia matará o egoísmo, qualquer que seja a forma sob que se apresente, dado que, além do egoísmo pessoal, há também o egoísmo de família, de casta, de nacionalidade. Disse Jesus: “Amai o vosso próximo como a vós mesmos”. Ora, qual o limite com relação ao próximo? Será a família, a seita, a nação? Não; é a Humanidade inteira. Nos mundos superiores o amor recíproco é que harmoniza e dirige os Espíritos adiantados que os habitam, e o vosso planeta, destinado a realizar em breve sensível progresso, verá seus habitantes, em virtude da transformação social por que passará, a praticar essa lei sublime, reflexo da Divindade.
Os efeitos da lei de amor são o melhoramento moral da raça humana e a felicidade durante a vida terrestre. Os mais rebeldes e os mais viciosos se reformarão, quando observarem os benefícios resultantes da prática deste preceito: Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam; fazei-lhes, ao contrário, todo o bem que vos esteja ao alcance fazer-lhes.
Não acrediteis na esterilidade e no endurecimento do coração humano; ao amor verdadeiro, ele, a seu mau grado, cede. É um ímã a que não lhe é possível resistir. O contato desse amor vivifica e fecunda os germens que dele existem, em estado latente, nos vossos corações. A Terra, orbe de provação e de exílio, será então purificada por esse fogo sagrado e verá praticados na sua superfície a caridade, a humildade, a paciência, o devotamento, a abnegação, a resignação e o sacrifício, virtudes todas filhas do amor. Não vos canseis, pois, de escutar as palavras de João, o Evangelista. Como sabeis, quando a enfermidade e a velhice o obrigaram a suspender o curso de suas prédicas, limitava-se a repetir estas suavíssimas palavras: “Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros”.
Amados irmãos, aproveitai dessas lições; é difícil o praticá-las, porém a alma colhe delas imenso bem. Crede-me, fazei o sublime esforço que vos peço: “Amai-vos e vereis a Terra em breve transformada num Paraíso onde as almas dos justos virão repousar”. (Fénelon, Bordéus, 1861).
Fénelon escreve sobre o amor, neste capítulo. Ele inicia dizendo que esse sentimento “é de essência divina”, visto que todos os homens possuem “a centelha desse fogo sagrado” em si. Lembra que o mais abjeto dos homens, o mais criminoso, sente uma afeição, frequentemente, “atingindo alturas sublimes”, por alguém, por algum objeto. Cita também, as pessoas, que dispensam todo o amor que já desenvolveram em si, aos animais, às plantas e até mesmo a objetos materiais, mas resistem a dispensá-los às pessoas que lhe estão próximas, que é a tendência natural da alma. Todavia, não conseguirão “sufocar o germe vivaz que Deus depositou em seus corações, no ato da criação”. O sentimento do amor cresce no homem, com o desenvolvimento da moralidade e da inteligência, apesar de ser, frequentemente, “oprimido pelo egoísmo”, constituindo-se na ”fonte das santas e doces virtudes que constituem as afeições sinceras e duradouras, e que os ajudam a transpor a rota escarpada e árida da existência humana.” Muitos há que resistem à afeição por pessoas, por já terem sofrido desilusões por não terem sido correspondidas. É preciso reconhecer que não se pode exigir, de outros, sentimentos que devam vir de dentro do ser, simplesmente, porque os sentimos em nós. Outros buscam amar somente a um círculo de parentes ou de amigos, muitas vezes exigindo que esses também o façam, sentindo-se ofendidos, enciumados, quando alguém demonstra simpatia por outros, fora desse círculo.
Esse amor em desenvolvimento está sendo oprimido pelo amor a si mesmo, que é o egoísmo, que torna as pessoas, além de exigentes e intolerantes, infelizes e insatisfeitas, precisando ser combatido, com persistência e disciplina. Isso só se consegue com a vontade firme de querer desenvolver o amor, que se dá, que se doa, e não o que se quer receber, só para si ou sem nada doar de si. O amor ao próximo como a si mesmo, determinismo divino, deve ser o objetivo de quem quer a verdadeira felicidade, e a verdadeira paz interior.
Cita Fénelon, a objeção que algumas pessoas fazem à reencarnação, pela ideia de outras pessoas participarem da afeição das que lhe são caras. Desconhecem os que assim pensam que o amor, sendo o sentimento por excelência, o que resume todos os demais, contraria a lei matemática, pois, quanto mais se dá, quanto mais se divide, mais cresce e se sublima nos corações humanos. Não tenhamos medo de amar, de abrir nossas mentes e corações, nossos braços para envolver todos os que de nós se aproximam, a fim de que, um dia, sejamos capazes de amar, seja quem for, como a nós mesmos. É uma tarefa difícil, mas são as coisas difíceis que trazem as maiores vitórias e as maiores recompensas.
“Deus o quer, e a lei do amor é o primeiro e o mais importante preceito da vossa doutrina, porque é ela que deve um dia matar o egoísmo, sob qualquer aspecto em que se apresente, pois além do egoísmo pessoal, há ainda o egoísmo de família, de casta, de nacionalidade”.
Quando Jesus disse “Amai o vosso próximo como a vós mesmos”, não estabeleceu qualquer limite. “Qual é o limite do próximo? Será a família, a seita, a nação?”
O próximo constitui, para nós, a humanidade da Terra, todos os encarnados e desencarnados, conforme o exemplo de Jesus, que, por amor, deixou os páramos celestiais, para viver em um mundo material, atrasado e conviver com homens ainda muito ignorantes e imperfeitos, somente, para ensinar o caminho da perfeição e da felicidade, sabendo o quanto seria incompreendido, e que seria levado à morte na cruz. Sabia também que sua vinda ficaria como exemplo e seus ensinos acabariam por ser entendidos, não importando quando, porque tudo no Universo tende ao progresso e à perfeição. Jesus nos deu o exemplo maior de amor ao próximo!
Fénelon escreve: “Nos mundos superiores, é o amor recíproco que harmoniza e dirige os Espíritos adiantados que os habitam. E o vosso planeta, destinado a um progresso que se aproxima, para a sua transformação social, verá seus habitantes praticarem essa lei sublime, reflexo da própria Divindade”.
Se concordamos com isso, temos de compreender que “os efeitos da lei do amor são o aperfeiçoamento da raça humana e a felicidade durante a vida terrena.” Embora ainda seja a Terra um lugar de dores e sofrimentos, pela imperfeição dos seus habitantes, os que se esforçam por viver essa lei, já percebem alegrias e felicidade em seu viver, que lhes permitem avaliar a felicidade de toda a humanidade, quando essa lei imperar na grande maioria dos homens. Então, a minoria se renderá a ela também, ou será encaminhada a um mundo inferior, para aprender a amar. E o mal desaparecerá da Terra, porque, todos seguirão o “Não façais aos outros o que não quereis que os outros vos façam, mas fazei, pelo contrário, todo o bem que puderdes”.
“Não acrediteis na esterilidade e no endurecimento do coração humano, que cederá, mesmo de malgrado, ao verdadeiro amor. Este é um imã a que ele não poderá resistir, e o seu contato vivifica e fecunda os germes dessa virtude, que estão latentes em vossos corações”.  Acreditemos, pois, na perfectibilidade de todos os homens, por piores que alguns ou muitos, se apresentem na atualidade. Busquemos fazer o melhor que pudermos em favor do bem, desenvolvendo o amor dentro de nós, no esforço de usar o que já temos em benefício dos nossos próximos, porque, somente, quando muitos viverem em direção dessa meta, é que a Terra se transformará em um mundo melhor.
Lembremo-nos de João, o Evangelista, que, diz-nos o autor dessa mensagem: “quando a doença e a velhice interromperam o curso de sua pregações, ele repetia apenas essas doces palavras :” Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros.!”
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CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A Lei de amor
Dentre as Leis Divinas, expressão do amor de Deus, há a Lei de Progresso a qual estamos submetidos e que nos dá condição de desenvolvermos e sedimentarmos essa substância criadora e mantenedora do Universo, o Amor.
8. O amor resume a doutrina de Jesus toda inteira, visto que esse é o sentimento por excelência, e os sentimentos são os instintos elevados à altura do progresso feito. Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. A lei de amor substitui a personalidade pela fusão dos seres; extingue as misérias sociais. Ditoso aquele que, ultrapassando a sua humanidade, ama com amplo amor os seus irmãos em sofrimento! Ditoso aquele que ama, pois não conhece a miséria da alma, nem a do corpo. Tem ligeiros os pés e vive como que transportado, fora de si mesmo. Quando Jesus pronunciou a divina palavra, amor, os povos sobressaltaram-se e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo.
O Espiritismo a seu turno vem pronunciar uma segunda palavra do alfabeto divino. Estai atentos, pois que essa palavra ergue a lápide dos túmulos vazios, e a reencarnação, triunfando da morte, revela às criaturas deslumbradas o seu patrimônio intelectual. Já não é ao suplício que ela conduz o homem; condu-lo à conquista do seu ser, elevado e transfigurado. O sangue resgatou o Espírito e o Espírito tem hoje que resgatar da matéria o homem.
Disse eu que em seus começos o homem só instintos possuía. Mais próximo, portanto, ainda se acha do ponto de partida, do que da meta, aquele em quem predominam os instintos. A fim de avançar para a meta, tem a criatura que vencer os instintos, em proveito dos sentimentos, isto é, que aperfeiçoar estes últimos, sufocando os germes latentes da matéria. Os instintos são a germinação e os embriões do sentimento; trazem consigo o progresso, como a glande encerra em si o carvalho, e os seres menos adiantados são os que, emergindo pouco a pouco de suas crisálidas, se conservam escravizados aos instintos. O Espírito precisa ser cultivado, como um campo. Toda a riqueza futura depende do labor atual, que vos granjeará muito mais do que bens terrenos; a elevação gloriosa. É então que, compreendendo a lei de amor que liga todos os seres, buscareis nela os gozos suavíssimos da alma, prelúdios das alegrias celestes. (Lázaro, Paris, 1862).
Como nos fala a lição, no início o homem só tem instintos e uma longa caminhada para atingir o ponto mais delicado do sentimento. O instinto objetiva concorrer para os desígnios da providência. Pela necessidade de viver, o homem se conserva buscando, instintivamente, o melhor para si, prelúdio do amor próprio. Instruindo-se e purificando-se, o homem atinge o sentimento, e o mais sublime é o amor e o amor resume toda a doutrina do nosso mestre Jesus, pois, sendo o amor humanizado com a sua vibração faz com que aquele que o encontre se modifique, ou seja, aquele que encontra Jesus nunca mais é o mesmo.
A Doutrina Espírita nos esclarece, através da Lei da Reencarnação, que podemos e devemos cultivar, desde já, este sentimento, pois, somente assim é que conseguiremos obter a cota de bem-aventuranças que já podemos desfrutar dentro do grau evolutivo que nos encontramos. Somente amando-nos e perdoando-nos conseguiremos amar e perdoar o próximo, pois, somente damos aquilo que possuímos. Assim, constatamos a necessidade de desenvolvermos o amor próprio, ou seja, desenvolver as potências para doarmos.
O Espírito Lázaro resume de uma forma simples e sábia, toda lei de evolução espiritual do homem, que muitos e muitos, instruídos e ignorantes, ainda não a aceitam. O homem primitivo, Espírito encarnado, também primitivo, vindo dos chamados reinos inferiores, iniciando o desenvolvimento da razão e da sensibilidade, traz em si, todos os instintos básicos, necessários ao seu processo evolutivo. À medida que vai evoluindo, através dos milênios, esses instintos vão se manifestando, juntamente com a inteligência, com a vontade e com a liberdade. O homem passa a viver na busca das sensações que lhe trazem prazer, desprezando as que lhe são desagradáveis, ainda presos às decepções físicas. E só bem mais tarde, começa a desenvolver uma sensibilidade espiritual que lhe permite desenvolver sentimentos em relação ao próximo, não mais só em busca do prazer, dos seus interesses, mas também desejando oferecer algo bom e prazeroso ao outro. Assim, os instintos, no decorrer de um longo processo evolutivo, atingirão um ponto em que estarão, nos Espíritos puros, totalmente sublimados, porque o amor pleno, o requinte do sentimento se constituirá no Guia racional e sensível de todas as suas capacidades intelectuais e morais. O homem caminha da animalidade para a angelitude, no autoburilamento, libertando-se das paixões e adquirindo experiências superiores, sublimando as expressões do instinto no tempo em que desenvolve a inteligência e penetra nas potencialidades transcendentes da intuição.
O Espírito comunicante ainda nos fala sobre a lição que o espiritismo vem pronunciar uma segunda palavra do alfabeto divino: a reencarnação, que conduz o homem a conquista do seu ser. Reencarnação um aspecto da Lei de Amor, pois, através dela podemos retificar nossas falhas, conquistar aquilo que ainda não conquistamos e aprender tudo aquilo que necessitamos. A reencarnação, assim, nos conduzirá a conquista do nosso eu profundo, como nos fala a parábola dos talentos, multiplicando os dons divinos.
Tudo isso, e muito mais, podemos fazer, graças à lei divina das vidas sucessivas, que evidencia e prova o amor, a justiça e a misericórdia de Deus. Todos nós, habitantes da Terra, encarnados e desencarnados, estamos distantes do alvo a ser atingido, que é conquistar em si, o amor, o requinte do sentimento, mas estamos indo, em direção a essa conquista.
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CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
Daí a César o que é de César
5. Os fariseus, tendo-se retirado, entenderam-se entre si para enredá-lo com as suas próprias palavras. Mandaram então seus discípulos, em companhia dos herodianos, dizer-lhe: Mestre, sabemos que és veraz e que ensinas o caminho de Deus pela verdade, sem levares em conta a quem quer que seja, porque, nos homens, não consideras as pessoas. Dize-nos, pois, qual a tua opinião sobre isto: É-nos permitido pagar ou deixar de pagar a César o tributo?
Jesus, porém, que lhes conhecia a malícia, respondeu: Hipócritas, por que me tentais? Apresentai-me uma das moedas que se dão em pagamento do tributo. E, tendo-lhe eles apresentado um denário, perguntou Jesus: De quem são esta imagem e esta inscrição? De César, responderam eles. Então, observou-lhes Jesus: Daí, pois, a César o de César e a Deus o que é de Deus.
Ouvindo-o falar dessa maneira, admiraram-se eles da sua resposta e, deixando-o, se retiraram. (Mateus, cap. XXII, vv. 15 a 22. E Marcos, cap. XII, vv. 13 a 17).
Esse ditado popular, usado quando queremos dizer que cada um deve receber o que merece, tem uma conhecida origem bíblica.
No tempo de Jesus, sua região era dominada pelo Império Romano. E o principal símbolo da dominação romana era o imposto. Irritavam-se os judeus de serem obrigados a pagar tributos aos romanos, que os dominavam. Os fariseus se opunham abertamente ao imposto, mas os partidários de Herodes, rei deles, aceitavam o pagamento do imposto a César, imperador de Roma. Tanto os fariseus quanto os herodianos eram adversários de Jesus, e queriam pegá-lo em contradição para ter um motivo para prendê-lo.
Reflitamos por um instante sobre a passagem, analisando primeiramente a postura dos fariseus:
Incomodados com a Verdade que Jesus ensinava e que os incitava à mudança íntima, buscaram comprometê-lo, colocando-o numa situação delicada, pois, se Jesus dissesse para não pagarem o tributo a César, seria preso pelos herodianos presentes, e se dissesse para que pagassem o tributo, aguçaria a ira dos Judeus.
Buscavam, portanto, por um meio escuso, de forma melíflua, com falsa consideração, condenar Jesus, para resolver os seus problemas internos.
Nesse momento, só pensavam em si, não importando o que aconteceria ao outro (Jesus), desde que se vissem livres do seu incômodo interno e que eles projetavam no Mestre. Perguntaram a ele, então, se era justo pagar o imposto a César. Jesus pediu a eles uma moeda romana que pudesse ser usada para pagar o imposto de César. Alguém lhe apresentou uma moeda romana e Jesus então perguntou que nome estava escrito nela. Eles responderam que era o nome de César, e então Jesus proferiu uma de suas famosas frases: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
No dia a dia de nossas vidas, muitas pessoas, ou por inveja, ou por orgulho ou por egoísmo, ao se depararem com alguém que os incomoda pela sua superioridade (pelo menos elas assim o veem), buscam colocar esse alguém em situações embaraçosas para o denegrir, instituindo o chamado "bode expiatório". E isso pode acontecer nas mais diversas situações de relacionamento.
A reflexão é válida, pois, não raro podemos estar envolvidos nessas situações, ora como vítimas, ora como algozes desse processo infeliz. Sempre que nos reconheçamos algozes, tenhamos a coragem de refazer a nossa postura, evitando dissabores maiores e buscando superar os sentimentos que nos levaram a uma atitude tão infeliz e buscando transformar o orgulho, o egoísmo, a inveja em verdadeiro amor ao próximo. Desde que nos reconheçamos "vítimas", no entanto, reflitamos sobre essa passagem, aprendendo com Jesus.
Questões para reflexão:
1 - Qual o verdadeiro sentido da sentença: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus"?
Eles não queriam, propriamente, conhecer a opinião de Jesus a respeito do pagamento dos tributos. Por trás desta atitude escondiam sua verdadeira intenção: fazer com que Jesus se traísse com as próprias palavras e, assim, tivesse contra ele a autoridade romana.
2 - Como colocar em prática esse ensinamento de Jesus: "Dai a César o que é de César"?
Cumprindo todos os deveres contraídos para com a família, a autoridade, as instituições e a sociedade e observando o princípio da fraternidade, segundo o qual "devemos proceder para com os outros como queiramos que os outros procedam para conosco".
Respeitar, pois, as leis humanas, tanto quanto se deve respeitar as divinas no “cumprimento dos deveres contraídos para com a família, a sociedade, a autoridade, bem como para todos os indivíduos.”
"É condenável todo prejuízo material que se possa causar a outrem."
3 - E o ensinamento "Dar a Deus o que é de Deus", como exercitá-lo em nosso dia-a-dia?
Observando os preceitos divinos de amor e caridade, que nos levam à reforma íntima e nos conduzem ao aprimoramento espiritual.
Para que cumpramos a Lei de Deus é necessário amar o próximo e praticar a caridade.
Para que nos elevemos espiritualmente necessitamos viver em sociedade, ao lado do nosso próximo.
Conclusão do Estudo:
Para cumprir o preceito ensinado por Jesus, Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, devemos não só respeitar as leis humanas cumprindo nossas obrigações com a família, as instituições e a sociedade, como observar os preceitos divinos de amor e caridade, que nos possibilitam o progresso moral e espiritual.
Para que cumpramos a Lei de Deus é necessário amar o próximo e praticar a caridade.
Relembremos que Jesus nos recomendou: - "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus", sem qualquer indicação de que devamos dar a César mais do que o lícito e necessário.
Portanto, espíritas irmãos, doemos a César, personificado nas exigências passageiras do mundo, o respeito e a colaboração digna a que estamos debitados pela própria natureza, mas sob qualquer roupagem exterior com que nos caracterize, saibamos viver para o Cristo, a fim de que estejamos efetivamente na construção do reino de Deus.
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CAPÍTULO XI – AMAR O PRÓXIMO COMO A SI MESMO
O mandamento maior. Fazermos aos outros o que queiramos que os outros nos façam. Parábola dos credores e dos devedores
1. Os fariseus, tendo sabido que ele tapara a boca aos saduceus, reuniram-se; e um deles, que era doutor da lei, para o tentar, propôs-lhe esta questão: - “Mestre, qual o mandamento maior da lei?” Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito; este o maior e o primeiro mandamento. E aqui tendes o segundo, semelhante a esse: Amarás o teu próximo, como a ti mesmo. Toda a lei e os profetas se acham contidos nesses dois mandamentos”. (Mateus, cap. XXII, vv. 34 a 40).
2. Fazei aos homens tudo o que queirais que eles vos façam, pois é nisto que consistem a lei e os profetas. (Mateus, cap. VII, v. 12).
Tratai todos os homens como querereis que eles vos tratassem. (Lucas, cap. VI, v. 31).
3. O reino dos céus é comparável a um rei que quis tomar contas aos seus servidores. Tendo começado a fazê-lo, apresentaram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas, como não tinha meios de os pagar, mandou seu senhor que o vendesse a ele, sua mulher, seus filhos e tudo o que lhe pertencesse, para pagamento da dívida. O servidor, lançando-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: “Senhor, tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo”. Então, o senhor, tocado de compaixão, deixou-o ir e lhe perdoou a dívida. Esse servidor, porém, ao sair, encontrando um de seus companheiros, que lhe devia cem dinheiros, o segurou pela goela e, quase a estrangulá-lo, dizia: “Paga o que me deves”. O companheiro, lançanso-se-lhe aos pés, o conjurava, dizendo: “Tem um pouco de paciência e eu te pagarei tudo”. Mas o outro não quis escutá-lo; foi-se e o mandou prender, para tê-lo preso até pagar o que lhe devia.
Os outros servidores, seus companheiros, vendo o que se passava, foram, extremamente aflitos, e informaram o senhor de tudo o que acontecera. Então, o senhor, tendo mandado vir à sua presença aquele servidor, lhe disse: “Mau servo, eu te havia perdoado tudo o que me devias, porque mo pediste. Não estavas desde então no dever de também ter piedade do teu companheiro, como eu tivera de ti?” E o senhor, tomado de cólera, o entregou aos verdugos, para que o tivessem, até que ele pagasse tudo o que devia.
É assim que meu Pai, que está no céu, vos tratará, se não perdoardes, do fundo do coração, as faltas que vossos irmãos houverem cometido contra cada um de vós. (Mateus, cap. XVIII, vv. 23 a 35).
Lamentavelmente, esta é, ainda em nossos dias, a norma de conduta de grande parte da Humanidade. Reconhece-se pecadora, não nega estar sobrecarregada de dívidas perante Deus, cujas leis transgride a todo instante, mas, ao mesmo tempo que suplica e espera ser perdoada de todas as suas prevaricações, age, com relação ao próximo, de forma diametralmente oposta, negando-se a desculpar e a tolerar quaisquer ofensas, por mais mínimas que sejam.
Recalcitrantes no erro, somos devedores inadimplentes que, amiúde, recorremos ao Senhor para comutação das nossas penas. O Pai, bom e misericordioso, perdoa-nos dando-nos oportunidades novas para remissão de pecados, por maiores que eles sejam. Ocorre, entretanto, que nem sempre agimos com a mesma tolerância e brandura, tal como fomos beneficiados, quando irmãos desventurosos não correspondem às nossas expectativas. Qual o mau servo da parábola “O Credor Incompassivo”, de devedores penitentes que humildemente pedem clemência, transformamo-nos em credores intransigentes, desapiedados.
Virtude santificante é saber perdoar, mas poucos sabem usá-la. Jesus Cristo, na hora extrema da sua crucificação, ergueu os olhos aos Céus e rogou ao Pai que perdoasse os seus algozes, porque eles não sabiam o que estavam fazendo, representando essa sua atitude um autêntico exemplo de bondade e de tolerância para com as faltas alheias. Essa demonstração de amor ao próximo deve servir de paradigma para todas as gerações.
A falta cometida por qualquer pessoa, reclama reajustamento no futuro, e as piores coisas que podem acontecer aos nossos Espíritos, ao adentrarem a vida futura, é levar os corações inundados de ódio e de sentimentos de vingança. Isso, indubitavelmente, servirá para acarretar sensíveis atrasos em nosso processo evolutivo.
Quando suplicamos ao Pai, na oração dominical: "Perdoai as nossas dívidas, assim como perdoamos aos nossos devedores", geralmente fazemos uma promessa inócua, um verdadeiro engodo. Queremos realmente que Deus perdoe as nossas grandes dívidas e ofensas, em retribuição prometemos, mas não cumprimos, dispensar o perdão àqueles que nos devem muito pouco.
Não devemos, desta maneira, agir como o credor incompassivo. Sempre que suplicarmos o perdão a Deus, devemos ter em mente que torna-se mister possuirmos um coração limpo de qualquer ressentimento, estando sempre animados do propósito de perdoar o nosso próximo, com o esquecimento de todos os males que nos tenham atingido.
Conclusão do Estudo:
Amar o próximo como a si mesmo é preceito contido no mandamento maior da Lei de Deus. Constitui a expressão mais completa da caridade porque resume todos os deveres do homem para com o próximo, e o meio mais eficaz para se eliminar o orgulho e o egoísmo.
Não nos é fácil, dada a imperfeição de caráter, exercermos de imediato o perdão amplo e irrestrito como convém ao cristão, no entanto, é imprescindível aprendermos a desculpar já e exercitarmos a vigilância e a oração como escudo para não nos deixarmos enredar nas malhas do ressentimento, do rancor, da insensibilidade.
Vale atentarmos para os dois últimos parágrafos do item 16 do capítulo X de O Evangelho segundo o Espiritismo:
“Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros. Lembrai-vos daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas vozes: anátema! Tereis, quiçá, faltas mais graves. Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita”.
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CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
É permitido repreender os outros, notar as imperfeições de outrem, divulgar o mal de outrem?
Itens de 19 a 21
Este capítulo não estaria completo sem essas perguntas e respostas, visto que o homem em geral, estando mais próximo da animalidade do que da angelitude, não pode deixar de ver o mal, para que, observando e analisando as consequências, sinta a vontade de eliminá-lo, de si próprio e de toda a humanidade.
Eis uma questão muito delicada. Como agir diante de circunstâncias, fatos, posturas que denotem conduta inadequada? Quando devemos e como fazermos para chamar a atenção de alguém por comportamentos que comprometem a segurança e paz de outras criaturas, por exemplo? Ou de alguém que se rebela diante dos critérios de funcionamento de uma reunião ou instituição?
Há que se considerar que cada caso é um caso por si só. Há agravantes, atenuantes, características próprias e peculiaridades a cada situação que nunca permitem estabelecer-se uma receita pronta que resolva todas as ocorrências. Por isso recorramos à Doutrina Espírita.
No item 13 deste capítulo, Allan Kardec escrevendo sobre a frase de Jesus “Não julgueis para não serdes julgados”, disse que essa não deve ser tomada no seu sentido absoluto, visto que “a letra mata e o espírito vivifica”.
Jesus não podia proibir de se reprovar o mal, pois, Ele mesmo nos deu o exemplo disso, e o fez em termos enérgicos. Mas quis dizer que “A autoridade da censura está na razão da autoridade moral daquele que a pronuncia”, e que “A única autoridade legítima, aos olhos de Deus, é a que se apoia no bom exemplo”.
 Ao Espírito São Luís, Kardec fez três perguntas:
1ª – (19) Ninguém sendo perfeito, não se segue que ninguém tem o direito de repreender o próximo?
“Certamente que não, pois cada um de vós deve trabalhar para o progresso de todos e, sobretudo, dos que estão sob a vossa tutela”.
Por tudo que vimos nesses estudos, parece-me bem claro que o mal tem de ser visto, comentado, combatido, a fim de ser eliminado da mente e dos corações humanos, bem como da Terra.
O que Jesus demonstra, com suas palavras e em todo o seu viver neste mundo, é que antes de tentar corrigir os erros dos outros, deve o homem corrigir, ou pelo menos, esforçar-se por corrigir os seus. Quem assim o faz, pode tentar esclarecer seus irmãos, com a intenção de auxiliá-los no seu desenvolvimento espiritual, com discrição, sem alarde, sem gerar escândalos, sem imposições, de forma a mostrar-lhe sua verdadeira intenção de ajudar. Em assim fazendo, o outro não vai ter motivo para sentir-se humilhado, principalmente, porque percebe a boa intenção de seu crítico, que demonstra ser seu amigo.
Jesus combate, sim, esse hábito desastroso de querer denegrir o outro, da exigência em relação ao comportamento alheio, querendo quem assim o faz, mostrar-se melhor do que é, sem falhas, superior aos demais, o que demonstra a maldade, o orgulho que existem ainda nos homens.
Esclarece Jesus, que mesmo quando percebemos no outro uma falha, da qual ele pode libertar-se com nossa ajuda, devemos também incluirmo-nos na censura e no esforço de corrigi-la em nós. Desse modo, estaremos melhorando a nós e aos que nos rodeiam, contribuindo para o progresso geral.
2ª – (20) Será repreensível observar as imperfeições dos outros quando disso não possa resultar nenhum benefício para eles, e mesmo que não as divulguemos?

S. Luís responde que depende da intenção. Se essa observação das falhas alheias for o aprendizado pessoal, para evitá-las em si, corrigindo-as se as tiver, só pode ser benéfica essa atitude.
Aprende-se muito nas análises dos próprios erros, das suas consequências, tanto quanto fazendo o mesmo com os alheios.
Jesus ensinou-nos a combater o mal fazendo o bem. Para isso, é preciso ver o mal onde ele existir, em nós e ao redor de nós. Não se pode combater o que não se vê ou não se percebe.
“O erro está em fazer essa observação em prejuízo do próximo, desacreditando-o, sem necessidade, na opinião pública. Seria ainda repreensível fazê-la com um sentimento de malevolência e de satisfação por encontrar os outros em falta.”
3ª - Há casos em que seja útil descobrir o mal alheio?
A caridade bem compreendida deve sempre falar mais alto, na análise das consequências desse mal. Se as imperfeições de uma pessoa trouxerem prejuízos somente a ela, não existe nenhum motivo para divulgá-las. Pode-se tentar conversar com ela, sem imposição, com raciocínios claros, inspirados pelo amor, pela amizade, se ela o permitir. Mas comentar com outros, divulgar a quem quer que seja, é agir contra a caridade. O seu próprio viver vai lhe mostrando essas imperfeições e dando-lhe oportunidades de corrigir-se, quando ela quiser. Todavia, quando esse mal pode trazer prejuízos a outras pessoas, o interesse do maior número de prejudicados deve sobrepor-se ao interesse de um. Torna-se, então um dever a sua divulgação.
“Conforme as circunstâncias, desmascarar a hipocrisia e a mentira pode ser um dever, pois, é melhor que um homem caia, do que muitos serem enganados e se tornarem suas vítimas. Em semelhante caso, é necessário balancear as vantagens e os inconvenientes”.
Essas perguntas e suas respostas mostram a importância do raciocínio e do conhecimento das leis morais para poder escolher as melhores soluções para as diversas situações. Para saber optar por essa ou aquela conduta, com acerto, sem provocar novos problemas, muitas vezes mais sérios, o conhecimento da moral divina, trazida por Jesus é, a meu ver, condição sine qua nom para fazer-se a escolha mais correta, a que possa resolver, sem causar danos maiores a ninguém. Sempre em dúvida, apelar para a caridade bem compreendida, pesando as vantagens e os inconvenientes para os envolvidos.
Questões para Reflexão:
1 - Mesmo imbuídos de boa intenção e moderação, que outro fator devemos levar em conta ao censurar o procedimento do próximo?
Devemos primeiramente, verificar se não adotamos o mesmo procedimento que reprovamos no próximo. Senão, onde encontramos a força moral necessária para repreendê-lo?
Devemos tomar para nós os conselhos que dermos aos outros. Em termos de bons procedimentos, ninguém pode exigir de outrem, aquilo que não pratica.
2 - Que proveito devemos tirar para nós das imperfeições alheias?
Elas nos alertam para o dever de nos autoavaliar, a fim de verificar o que temos a corrigir, antes de censurar os outros, sobretudo porque cada um tem o direito de agir como melhor lhe apraz.
3 - Que outra maneira (indireta) existe de repreender o erro do próximo, sem alardear?
Podemos demonstrar, também, a nossa reprovação ante as imperfeições do próximo, e alertá-lo para isso, através do bom exemplo que possamos dar com o nosso proceder.
Enquanto a censura - bem intencionada - consegue esclarecer e orientar, o bom exemplo convence.
Por outro lado, o tema também é abordado na questão 903 de O Livro dos Espíritos:
Incorre em culpa o homem, por estudar os defeitos alheios? Incorrerá em grande culpa, se o fizer para os criticar e divulgar, porque será faltar com a caridade. Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade. Importa, porém, não esquecer que a indulgência para com os defeitos de outrem é uma das virtudes contidas na caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se de vós não poderão dizer o mesmo. Tratai, pois, de possuir as qualidades opostas aos defeitos que criticais no vosso semelhante. Esse o meio de vos tornardes superiores a ele. Se lhe censurais o ser avaro, sede generosos; se o ser orgulhoso, sede humildes e modestos; se o ser áspero, sede brandos; se o proceder com pequenez, sede grandes em todas as vossas ações. Numa palavra, fazei por maneira que se não vos possam aplicar estas palavras de Jesus: Vê o argueiro no olho do seu vizinho e não vê a trave no seu próprio”.
Portanto, haverá casos e casos, mas sempre a caridade deverá pautar nossas ações, ainda que para advertir, afastar ou orientar alguém. Muitas vezes nos depararemos com pessoas e situações que trarão prejuízos a muitos e o dever da caridade impõe nossa ação de Falar ao invés de Não falar. Porém, sem interferir no livre-arbítrio das criaturas. E, ao mesmo tempo, usando da indulgência, como ensinam os Bons Espíritos. Eis o desafio a nos ensinar...
Conclusão do Estudo:
Antes de repreender alguém, verifiquemos se não praticamos o ato censurado: a autoridade de censura está no exemplo do bem que dá aquele que censura. Enquanto a censura bem intencionada esclarece e orienta, o bom exemplo convence.
       
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A Indulgência
Itens de 16 a 18
16. Espíritas, queremos falar-vos hoje da indulgência, sentimento doce e fraternal que todo homem deve alimentar para com seus irmãos, mas do qual bem poucos fazem uso.
A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulga-los. Ao contrário, oculta-os, a fim de que se não tornem conhecidos senão dela unicamente, e, se a malevolência os descobre, tem sempre pronta uma escusa para eles, escusa plausível, séria, não das que, com aparência de atenuar a falta, mais a evidencia com pérfida intenção.
A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as mais das vezes, velados. Quando criticais, que consequência se há de tirar das vossas palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que estais a censurar; que valeis mais do que o culpado. Ó homens! Quando será que julgareis os vossos próprios corações, os vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos?
Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros. Lembrai-vos daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas vozes: anátema! Tereis quiçá, cometido faltas mais graves.
Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao passo que o rigor desanima, afasta e irrita. (José, Espírito protetor. Bordéus, 1863).
Com essas palavras, o Espírito comunicante inicia sua sublime mensagem sobre a indulgência, sentimento que leva o homem a perdoar culpas, usar de clemência, ter misericórdia, ser tolerante com as atitudes que lhe pareçam estranhas ou são negativas.
Quem lê essas palavras, penetrando-lhes no seu profundo significado, vai esforçar-se para vivenciá-las. Vai falhar muitas vezes, vai pegar-se, em flagrante, na malevolência, outras muitas vezes, porque muito mais difícil do que adquirir um hábito novo é perder hábitos antigos, e comentar falhas e erros alheios é um hábito muito arraigado no Espírito humano, que aparece sempre nas conversas entre pessoas, um mau hábito social, como se fora algo sem importância, inocente.
Como o homem aprende e fixa o aprendizado pelo exercício, quanto mais pratica o hábito da malevolência, da maledicência, mais se distancia da indulgência.
Sentir indulgência para com os outros, procurando não destacar seus defeitos, mas exaltar suas boas qualidades é uma excelente atitude para estimular o outro a querer ser melhor do que é, sem que se sinta ferido no seu orgulho.
Todos nós poderíamos evoluir com menos dores e sofrimentos, se eliminássemos esse mau hábito de ver, apontar, criticar, comentar os erros alheios, principalmente, na ausência dos mesmos, como se não errássemos nunca; se fôssemos mais indulgentes com os outros e mais severos conosco; se buscássemos entender as dificuldades alheias tanto quanto enxergamos as nossas; se ao percebermos uma falha em alguém, procurássemos evitá-la em nós ao invés de a ressaltarmos no outro; se tentássemos auxiliar o que erra, com benevolência, com discrição, com humildade.
Mas se houver perseverança e vontade nesse esforço, um dia iremos conseguir ser indulgentes para com os erros dos outros, como queremos que os outros o sejam para com os nossos erros.
17. Sede indulgentes com as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não julgueis com severidade senão as vossas próprias ações e o Senhor usará de indulgência para convosco, como de indulgência houverdes usado para com os outros.
Sustentai os fortes; animai-os à perseverança. Fortalecei os fracos, mostrando-lhes a bondade de Deus, que leva em conta o menor arrependimento; mostrai a todos o anjo da penitência estendendo suas brancas asas sobre as faltas dos humanos e velando-as assim aos olhares daquele que não pode tolerar o que é impuro. Compreendei todos a misericórdia infinita de vosso Pai e não esqueçais nunca de lhe dizer, pelos pensamentos, mas, sobretudo, pelos atos; “Perdoai as nossas ofensas, como perdoamos aos que nos hão ofendido”. Compreendei bem o valor destas sublimes palavras, nas quais não somente a letra é admirável, mas principalmente o ensino que ela veste.
Que é o que pedis ao Senhor, quando implorais para vós o seu perdão? Será unicamente o olvido das vossas ofensas? Olvido que vos deixaria no nada, porquanto, se Deus se limitasse a esquecer as vossas faltas, Ele não puniria, é exato, mas tampouco recompensaria. A recompensa não pode constituir prêmio do bem que não foi feito, nem, ainda menos, do mal que se haja praticado, embora esse mal fosse esquecido. Pedindo-lhe que perdoe os vossos desvios, o que lhe pedis é o favor de suas graças, para não reincidirdes neles, é a força de que necessitais para enveredar por outras sendas, as da submissão e do amor, nas quais podereis juntar ao arrependimento a reparação.
Quando perdoardes aos vossos irmãos, não vos contenteis com o estender o véu do esquecimento sobre suas faltas, porquanto, as mais das vezes, muito transparente é esse véu para os olhares vossos. Levai-lhes simultaneamente, com o perdão, o amor; fazei por eles o que pediríeis fizesse o vosso Pai celestial por vós. Substitui a cólera que conspurca, pelo amor que purifica. Pregai, exemplificando, essa caridade ativa, infatigável, que Jesus vos ensinou; pregai-a, como ele o fez durante todo o tempo em que esteve na Terra, visível aos olhos corporais e como ainda a prega incessantemente, desde que se tornou visível tão-somente aos olhos do Espírito. Segui esse modelo divino; caminhai em suas pegadas; ela vos conduzirão ao refúgio onde encontrareis o repouso após a luta. Como ele, carregai todos vós as vossas cruzes e subi penosamente, mas com coragem, o vosso calvário, em cujo cimo está a glorificação. (João, bispo de Bordéus. 1862).
“Sede indulgentes para as faltas alheias, quaisquer que elas sejam; não julgueis com severidade senão as vossas próprias ações, e o Senhor usará de indulgência para convosco, como usastes para com os outros.” Assim inicia sua mensagem João, bispo de Bordeaux.
Novamente, a mesma recomendação da mensagem anterior, levando-nos à importância do entendimento de que, perante Deus e suas leis, somos todos iguais e nossa conduta em relação aos outros determina a maneira como essas leis serão aplicadas a nós.
Na prece do Pai Nosso que milhões e milhões de pessoas dizem, diariamente, na frase: “Perdoai-nos, Senhor, assim como perdoamos aos nossos devedores”, está-se assumindo, com Deus, o compromisso do esforço de perdoar aos que ofendem, mas, poucos se dão conta de que esse compromisso, não é o do pensamento ou da palavra, mas sim o da ação.
No exercício de sermos severos para com nossas falhas, estamos exigindo de nós o que devemos e podemos fazer, pois se já somos capazes de perceber nossos erros, já temos evolução suficiente para evitá-los. O contrário se dá, quando julgamos o outro, do qual nada sabemos, por mais que o conheçamos. Não sabemos das suas experiências anteriores, dos seus sonhos, das suas angústias, frustrações e sofrimentos, das suas necessidades, dos motivos que o levam a agir dessa ou de outra forma. Para julgar alguém precisaríamos conhecê-lo como nos conhecemos. Daí a necessidade de sermos severos para conosco e indulgentes para com os outros, se queremos ter paz interior, evitando maiores sofrimentos para nós mesmos.
Perdoar não é só o esquecimento das faltas, pois se as leis divinas se esquecerem das faltas, esquecerão também das consequências das ações boas, dos méritos. Sendo as leis divinas sábias e justas, nada pode ser simplesmente apagado, esquecido. O perdão de Deus não pode suspender as consequências de suas leis, visto que Ele, AMOR e SABEDORIA, não iria infringi-las.
Quando pedimos perdão a Deus por nossas faltas, estamos ou deveríamos estar pedindo que Ele nos faculte os meios de repará-las da melhor maneira possível. Que Ele nos dê forças para não recairmos nos mesmos erros, proteção para libertarmo-nos das imperfeições que lhes dão origem e auxílio para entrarmos nesse novo caminho de arrependimento, de reparação, de submissão e de amor. Assim, devemos perdoar aos que nos ofendem. Esquecer as ações ofensivas, mas ir além, procurar ter para com ele pensamentos e sentimentos bons, fazendo por ele o que faríamos para com um amigo, assim como queremos que Deus faça conosco. Esse é o perdão que vem do coração esclarecido pela razão. É o amor em ação, é a caridade ativa e infatigável! “Substituí a cólera que mancha, pelo amor que purifica. Pregai pelo exemplo essa caridade ativa, infatigável, que Jesus ensinou. Pregai-a como ele mesmo o fez por todo o tempo em que viveu na Terra, visível para os olhos de corpo, e como ainda prega sem cessar, depois que se fez visível apenas para os olhos do Espírito. Segui esse divino modelo, marchai sobre as suas pegadas: elas vos conduzirão ao refúgio onde encontrareis o descanso após a luta. Como ele, tomai a vossa cruz e subi, penosamente, mas corajosamente, o vosso calvário: no seu cume está a glorificação.”
18. Caros amigos, sede severos convosco, indulgentes para com as fraquezas dos outros. É esta uma prática da santa caridade, que bem poucas pessoas observam. Todos vós tendes maus pendores a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar; todos tendes um fardo mais ou menos pesado a alijar, para poderdes galgar o cume da montanha do progresso. Por que, então, haveis de mostrar-vos tão clarividentes com relação ao próximo e tão cegos com relação a vós mesmos? Quando deixareis de perceber, nos olhos de vossos irmãos, o pequenino argueiro que os incomoda, sem atentardes na trave que, nos vossos olhos, vos cega, fazendo-vos ir de queda em queda? Crede nos vossos irmãos, os Espíritos. Todo homem, bastante orgulhoso para se julgar superior, em virtude e mérito, aos seus irmãos encarnados, é insensato e culpado; Deus o castigará no dia da sua justiça. O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, que consistem em ver cada um apenas superficialmente os defeitos de outrem e esforçar-se por fazer que prevaleça o que há nele de bom e virtuoso, porquanto, embora o coração humano seja um abismo de corrupção, sempre há, nalgumas de suas dobras mais ocultas, o gérmen de bons sentimentos, centelha vivaz da essência espiritual.
Espiritismo! Doutrina consoladora e bendita! Felizes dos que te conhecem e tiram proveito dos salutares ensinamentos dos Espíritos do Senhor! Para esses, iluminado está o caminho, ao longo do qual podem ler estas palavras que lhes indicam o meio de chegarem ao termo da jornada; caridade prática, caridade do coração, caridade para com o próximo, como para si mesmo; numa palavra: caridade para com todos e amor a Deus acima de todas as coisas, porque o amor de Deus resume todos os deveres e porque impossível é amar realmente a Deus, sem praticar a caridade, da qual fez ele uma lei para todas as criaturas. (Dufêtre, bispo de Nevers. Bordéus).
Dufétre, bispo de Nevers, do qual não encontramos referências, traz a terceira e última mensagem deste capítulo, sobre a indulgência, iniciando-a com a mesma recomendação das duas anteriores: “sede severos para vós mesmos e indulgentes para as fraquezas alheias.” A insistência do conselho nos mostra a importância da prática dessa ação em nossas vidas, neste planeta de expiações e de provas, como condição sine-qua-non de nossa evolução espiritual, de nossa paz interna e externa. Para que possamos conseguir vivenciar no cotidiano essa recomendação, parece-me, indispensável, a aceitação de que somos todos iguais em potencialidades, desde a nossa criação, e que estamos todos fazendo nossa caminhada evolutiva para atingir a perfeição e a felicidade. Para isso há necessidade da aceitação da continuidade da vida do Espírito. Essa certeza acaba com o orgulho e o egoísmo, desenvolve a humildade, que leva o homem a sentir-se igual ao outro, nem superior, nem inferior, tornando-o indulgente para as fraquezas alheias, e exigente consigo, porque compreende o que pode exigir de si mesmo.
Enquanto os homens viverem com a ideia de uma vida única, vivendo-a guiados pelo orgulho e egoísmo, não vendo senão seus próprios interesses, julgando-se mais merecedores do que os outros, as lutas entre pessoas e entre nações continuarão trazendo dores e sofrimentos, além de atrasar o progresso geral.
O autor dessa mensagem escreve que seguir a recomendação acima é fazer “a santa caridade”, visto que todos nós, os habitantes da Terra, encarnados e desencarnados, temos “más tendências a vencer, defeitos a corrigir, hábitos a modificar”. Temos um fardo mais ou menos pesado para alijar, ou seja, para livrarmo-nos, para retirar de nós, a fim de que possamos atingir o “cume da montanha do progresso”.
Por que, então, enxergarmos com tanta clareza as falhas alheias, sendo tão cegos com as nossas? Por que faltar com essa caridade? “O verdadeiro caráter da caridade é a modéstia e a humildade, e consiste em não se verem superficialmente os defeitos alheios, mas em procurar destacar o que há de bom e virtuoso no próximo. Porque, se o coração humano é um abismo de corrupção, existem sempre, nos seus mais ocultos refolhos, os germes de alguns bons sentimentos, centelhas ardentes da essência espiritual”.
Escreve sobre o espiritismo, considerando felizes os que o conhecem e põem em prática seus claros ensinos, que lhes ensinam que a caridade em relação ao próximo tem de ser praticada como para si mesmo. “Caridade para com todos e amor a Deus sobre todas as coisas, porque o amor a Deus resume todos os deveres, e porque é impossível amar a Deus sem praticar a caridade, da qual Ele fez uma lei para todas as criaturas”.
Enquanto não nos libertarmos do hábito de destacar as imperfeições alheias, por muito que façamos em atividades de beneficência, não estamos sendo caridosos, estamos amparando necessitados, mas não estamos aproveitando essas atividades para nossa transformação moral, visto que estamos sendo malévolos para com nossos irmãos e orgulhosos em não vermos ou camuflarmos as nossas próprias mazelas.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
Perdão das ofensas
Itens de 14 e 15

14. Quantas vezes perdoarei a meu irmão? Perdoar-lhe-eis, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes. Aí tendes um dos ensinos de Jesus que mais vos devem percutir a inteligência e mais alto falar ao coração. Confrontai essas palavras de misericórdia com a oração tão simples, tão resumida e tão grande em suas aspirações, que ensinou a seus discípulos, e o mesmo pensamento se vos deparará sempre. Ele, o justo por excelência, responde a Pedro; perdoarás, mas ilimitadamente; perdoarás cada ofensa tantas vezes quantas ela te for feita; ensinarás a teus irmãos esse esquecimento de si mesmo, que torna uma criatura invulnerável ao ataque, aos maus procedimentos e às injúrias; serás brando e humilde de coração, sem medir a tua mansuetude; farás, enfim, o que desejas que o Pai celestial por ti faça. Não está ele a te perdoar frequentemente? Conta porventura as vezes que o seu perdão desce a te apagar as faltas?
Prestai, pois, ouvidos a essa resposta de Jesus e, como Pedro, aplicai-a a vós mesmos. Perdoai, usai de indulgência, sede caridosos, generosos, pródigos até do vosso amor. Daí, que o Senhor vos restituirá; perdoai, que o Senhor vos perdoará; abaixai-vos, que o Senhor vos elevará; humilhai-vos, que o Senhor fará vos assenteis à sua direita.
Ide, meus bem-amados, estudai e comentai estas palavras que vos dirijo da parte daquele que, do alto dos esplendores celestes, vos tem sempre sob as suas vistas e prossegue com amor na tarefa ingrata a que deu começo, faz dezoito séculos. Perdoai aos vossos irmãos, como precisais que se vos perdoe. Se seus atos pessoalmente vos prejudicaram, mais um motivo aí tendes para serdes indulgentes, porquanto o mérito do perdão é proporcionado à gravidade do mal. Nenhum merecimento teríeis em relevar os agravos dos vossos irmãos, desde que não passassem de simples arranhões.
Espíritas, jamais vos esqueçais de que, tanto por palavras, como por atos, o perdão das injúrias não deve ser um termo vão. Pois que vos dizeis espíritas, sede-o. Olvidai o mal que vos hajam feito e não penseis senão numa coisa; no bem que podeis fazer. Aquele que enveredou por esse caminho não tem que se afastar daí, ainda que por pensamento, uma vez que sois responsável pelos vossos pensamentos, os quais todos Deus conhece. Cuidai, portanto, de os expungir de todo sentimento de rancor. Deus sabe o que demora no fundo do coração de cada um de seus filhos. Feliz, pois, daquele que pode todas as noites adormecer, dizendo: Nada tenho contra o meu próximo. (Simeão, Bordéus, 1862).
Sobre o autor da mensagem, sabemos apenas que foi um personagem do Novo Testamento, que teria abençoado Jesus quando seus pais o levaram para ser circuncidado no Templo de Jerusalém.
Simeão inicia dizendo que o ensino de Jesus sobre perdoar o irmão setenta vezes sete vezes é um dos que “devem calar em vossa inteligência e falar bem alto ao coração.” Ensina, pois, que o homem, para agir, acertadamente, de acordo com as leis do bem, deve usar de raciocínios para compreender e entender a necessidade dos ensinos de Jesus, na Terra, moradia de espíritos em evolução. Esses ensinos devem mergulhar, penetrar fundo, ou seja, “atingir ou alcançar o âmago, a essência de (algo) ou o íntimo de (alguém), produzindo impressão forte, profunda”. Devem também “falar bem alto ao coração”, ou seja, ser captado pela sensibilidade espiritual, para que, juntamente com o uso da inteligência possam ser sentidos, percebidos, compreendidos, aceitos, despertando a vontade de praticá-los.
Todos os dias, milhões e milhões de pessoas oram a Prece do Pai   Nosso, ensinada por Jesus, provavelmente sem prestar muita atenção na frase: “Perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos os nossos devedores”, na qual está condicionada, ao perdão de Deus às nossas faltas, o nosso perdão às faltas dos outros. E continuam, pela vida toda a dizê-la sem, pelo menos, tentar colocar em prática essa lei divina, que é básica para a paz e felicidade do homem e da humanidade. Quem perdoa, está vivenciando o esquecimento de si mesmo, o que o torna invulnerável às agressões, aos maus tratos e às injúrias, porque não os recolhe ao coração, porque busca, pelo raciocínio, compreender as dificuldades alheias, não se sentindo, pois, ofendido. Evidentemente, que só na prática perseverante de perdoar o mais possível, esse ideal será atingido e o que perdoa irá se tornando uma pessoa doce e humilde de coração, fazendo aos outros o que deseja que Deus faça por ela. “Ouvi, pois, essa resposta de Jesus, e como Pedro, aplicai-a a vós mesmos. Perdoai, usai a indulgência, sede caridosos, generosos, e até mesmo, pródigos no vosso amor. Conclama os espíritas a não tornar, em palavras e em atos, o perdão, uma expressão vazia. Se vos dizeis espíritas, sede-o de fato: esquecei o mal que vos tenham feito e pensai apenas uma coisa: no bem, no bem que possais fazer. Aquele que entrou nesse caminho não deve afastar-se dele, nem mesmo em pensamento.
O espiritismo nos ensina que somos todos responsáveis por tudo que fazemos. Para fazermos algo, essa ação ou ato existiu antes, na ideia, e essa surgiu do que se sentiu diante de alguma coisa. Um sentimento de mágoa ou de rancor leva o ser a pensamentos rancorosos, que por sua vez, podem levar a um ato de ofensa, de vingança.
Daí a chamada de Simeão quanto à responsabilidade do espírita no esforço de esquecer o mal, pensar somente no bem que pode fazer, não dando lugar a pensamentos maus, a fim de poder sentir-se feliz, conforme suas palavras: “Feliz aquele que pode dizer cada noite, ao dormir: nada tenho contra o meu próximo”.
15. Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio; perdoar aos inimigos é dar-lhes uma prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar-se melhor do que era. Perdoai, pois, meus amigos, a de que Deus vos perdoe, porquanto, se fordes duros, exigentes, inflexíveis, se usardes de rigor até por uma ofensa leve, como querereis que Deus esqueça de que cada dia maior necessidade tendes de indulgência? Oh! Ai daquele que diz: “Nunca perdoarei”, pois pronuncia a sua própria condenação. Quem sabe, aliás, se, descendo ao fundo de vós mesmos, não reconhecereis que fostes o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por uma alfinetada e acaba por uma ruptura, não fostes quem atirou o primeiro golpe, se vos não escapou alguma palavra injuriosa, se não procedestes com toda a moderação necessária? Sem dúvida, o vosso adversário andou mal em se mostrar excessivamente suscetível; razão de mais para serdes indulgentes e para não vos tornardes merecedores da invectiva que lhe lançastes. Admitamos que, em dada circunstância, fostes realmente ofendido; quem dirá que não envenenastes as coisas por meio de represálias e que não fizestes degenerasse em querela grave o que houvera podido cair facilmente no olvido? Se de vós dependia impedir as consequências do fato e não as impedistes, sois culpados. Admitamos, finalmente, que de nenhuma censura vos reconheceis merecedores; mostrai-vos clementes e com isso só fareis que o vosso mérito cresça.
Mas há duas maneiras bem diferentes de perdoar; há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem, com referência ao seu adversário: “Eu lhe perdoo”, mas, interiormente, alegram-se com o mal que lhe advém, comentando que ele tem o que merece. Quantos não dizem: “Perdoo” e acrescentam; “mas, não me reconciliarei nunca; não quero tornar a vê-lo em toda a minha vida”. Será esse o perdão, segundo o Evangelho? Não; o perdão verdadeiro, o perdão cristão é aquele que lança um véu sobre o passado; esse o único que vos será levado em conta, visto que Deus não se satisfaz com as aparências. Ele sonda o recesso do coração e os mais secretos pensamentos. Ninguém se lhe impõe por meio de vãs palavras e de simulacros. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras. (Paulo, apóstolo. Lião, 1861).
O que significa, realmente, perdoar?
O Apóstolo Paulo, nessa mensagem, afirma que: Perdoar aos inimigos é pedir perdão para vós mesmos; perdoar aos amigos é dar prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar que se melhora, Perdoai, pois, para que Deus vos perdoe. Porque se fordes, duros, exigentes, inflexíveis, se guardardes até mesmo uma ligeira ofensa, como quereis que Deus esqueça que todos os dias tendes uma grande necessidade de indulgência?
Compreendemos a verdade dessa afirmação, porém deparamos com a dificuldade em aplicar o perdão, porque ao nos sentirmos vítimas, baseamo-nos em razões que  desconhecemos. Nosso conceito de perdão tem influência decisiva nessa dificuldade; esse conceito tanto pode facilitar quanto limitar nossa capacidade de perdoar. Perdoar não é apoiar comportamentos que nos tragam dores físicas ou morais, não é fingir que tudo corre bem, quando percebemos o contrário a nossa volta. Perdoar não é "ser conivente" com as condutas inadequadas. Perdoar é compreender amplamente o outro, seus limites, suas razões, sem abdicarmos dos nossos direitos e porque não, dos nossos limites também. Perdoar é postura íntima, é modo de viver!
Questões para reflexão:
1 - Como a atitude de perdoar ou não reflete em nossa vida?
Se perdoarmos, também seremos perdoados. Se, ao contrário, formos duros, exigentes, inflexíveis e usarmos de rigor até por uma ofensa leve, o mesmo tratamento receberemos.
"Como querereis que Deus esqueça de que cada dia maior necessidade tendes de indulgência?"
Ai daquele que diz: 'Nunca perdoarei'; pois pronuncia a sua própria condenação.
2 - Perdoar é simplesmente afastar-se do agressor?
Não. Aquele que diz perdoar desde que jamais se aproxime do inimigo não perdoou verdadeiramente: guarda ainda no coração ódio e ressentimento.
"O rancor é sempre sinal de baixeza e inferioridade."
3 - Como podemos vivenciar este ensinamento no dia-a-dia?
Buscando libertar-nos dos sentimentos de ódio e mágoa que guardamos do nosso próximo, através do perdão sincero; e, paralelamente, evitando que simples dissensões derivem para malquerenças e inimizades, pela vivência constante da fraternidade, ensinada no Evangelho de Jesus.
"Quando transportamos para a vida prática os luminosos ensinamentos do Cristo, preferindo perdoar a usar de represálias, retribuindo ao mal com o bem, a paz e a alegria farão morada permanente em nossos corações."
Conclusão do Estudo:
Perdoemos sempre, para que Deus nos perdoe; pois o rigor que usarmos para com o próximo será igualmente usado para conosco.
A ausência de mágoa e o esquecimento da ofensa é que estabelecem a diferença entre o perdão dos lábios e o perdão do coração. E não podemos nos esquecer que o verdadeiro perdão se reconhece pelos atos, muito mais que pelas palavras.
Nossa meta é aprender a não nos sentirmos ofendidos, e aprender a perdoar é uma das etapas deste processo.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

Não julgueis, para não serdes julgados. – Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado.
Itens de 11 a 13
11. Não julgueis, a fim de não serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servido para com os outros. (Mateus, cap. VII, vv. 1 e 2).
O objetivo deste estudo é levar a criatura a fazer reflexão sobre os seus julgamentos. Há a possibilidade de suprimi-los? Isto ajudaria na conquista de uma vida mais plena e mais centrada em nossa evolução espiritual?
Essa frase de Jesus relatada por Mateus continua sendo lida, estudada, repetida; e nós que nos consideramos cristãos, ainda não nos desvencilhamos do hábito de apontar, criticar, censurar, condenar. O Cristo, no seu ensinamento, deixa bem claro a necessidade que todos têm da indulgência, visto sermos espíritos em desenvolvimento, sujeitos, pois, a enganos e omissões. O fato é, que, quando aceitamos algum erro nosso, o que nem sempre é feito, encontramos sempre motivos para explicar e justificar nossas atitudes e ações. Porém, somos exigentes e severos com os erros dos outros. Pior ainda, quando, para defendermo-nos de alguma censura ou crítica de alguém, acusamos esse alguém de outras falhas, que nada tem com o fato e a situação atual.
Quando o que se tem para medir é o comportamento alheio, o bom senso recomenda em primeiro lugar, cautela, prudência, já que, como ensinava Jesus, da maneira como julgarmos os outros seremos julgados. Na verdade, nenhum de nós gosta de ser julgado; mais uma razão para que não nos disponhamos a julgar alguém.
Antes de atribuir a alguém uma falta, devemos pensar se a mesma censura não nos pode ser feita. Antes de julgar alguém com severidade, procuremos ser tão indulgentes para com essa pessoa quanto o seríamos para conosco.
A vida é sábia mestra que nos ensina as lições da humildade e da indulgência, levando-nos, de um lado, ao reconhecimento das próprias faltas, e de outro, à compreensão das faltas alheias.
Mas então não se pode criticar o que está errado?
Allan Kardec esclarece que pode haver dois motivos na censura da conduta alheia: reprimir o mal ou desacreditar a pessoa cujos atos se critica. Esse último não tem a menor justificativa, decorrendo da maledicência e da maldade, demonstrando imperfeição moral, necessitando, quem assim age, de reeducação de seus sentimentos e emoções, partindo do reconhecimento de suas falhas. Quanto ao primeiro motivo, é necessário que ele exista e seja cumprido a fim de que o mal seja banido dos corações humanos e, por consequência, eliminado da sociedade. Assim, esse ensino de Jesus não pode ser levado em conta, no seu sentido absoluto, uma vez que o mal para ser debelado, tem de ser reconhecido. Apontá-lo, pois, onde aparece, com o propósito de combatê-lo, pode ser uma atitude louvável, uma vez que daí pode surgir um bem. “Aliás, não deve o homem ajudar o progresso dos seus semelhantes?” Jesus não podia, pois, proibir de se reprovar o mal. Demonstrou, com clareza e objetividade, que “a autoridade da censura está na razão da autoridade moral daquele que a pronuncia. Tornar-se culpável daquilo que se condena-nos outros é abdicar dessa autoridade e, mais ainda, é arrogar-se o direito de repressão. A consciência íntima, de resto, recusa qualquer respeito e toda submissão voluntária àquele que, investido de algum poder, viola as leis e os princípios que está encarregado de aplicar. A única autoridade legítima, aos olhos de Deus, é a que se apoia no bom exemplo. É o que resulta, evidentemente, das palavras de Jesus”.

12. Então, os escribas e os fariseus lhe trouxeram uma mulher que fora surpreendida em adultério e, pondo-a de pé no meio do povo, disseram a Jesus: - “Mestre, esta mulher acaba de ser surpreendida em adultério; ora, Moisés, pela lei, ordena que se lapidem as adúlteras. Qual sobre isso a tua opinião?” Diziam isto para o tentarem e terem de que o acusar. Jesus, porém, abaixando-se, entrou a escrever na terra com o dedo. Como continuassem a interroga-lo, ele se levantou e disse: “Aquele dentre vós que estiver sem pecado, atire a primeira pedra”. Em seguida, abaixando-se de novo, continuou a escrever no chão. Quanto aos que o interrogavam, esses,  ouvindo-o falar daquele modo, se retiraram, um após outro, afastando-se primeiro os velhos. Ficou, pois, Jesus a sós com a mulher, colocada no meio da praça.
Então, levantando-se, perguntou-lhe Jesus: - “Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?” Ela respondeu: “Não Senhor”. Disse-lhe Jesus: “Também eu não te condenarei. Vai-te e de futuro não tornes a pecar”. (João, cap. VIII, vv. 3 a 11)
A cena descrita por João transporta-nos ao tempo de Jesus, em um lugar público, onde um grupo de homens se aproxima dele, colocando uma mulher assustada no centro de uma roda que se formara, para exigir-lhe uma posição diante da lei. Nessa passagem, podemos perceber claramente o objetivo dos escribas e fariseus, que era colocar Jesus contra a lei Mosaica. Mas Jesus, como de outras vezes, não só escapou de forma brilhante da armadilha que lhe prepararam, como também deixou um ensinamento moral àqueles homens.
Vemos Jesus ouvindo as perguntas, percebendo a intenção do grupo presente de conseguir um motivo, para acusá-lo de desrespeitar a lei. Vê a mulher atemorizada, sabendo o que a esperava, porque conhecia a lei injusta e cruel. Não se altera, não se horroriza, não acusa ninguém, não tenta convencê-los a mudar de atitude. Chega a agachar-se para escrever com o dedo na terra. Como os homens insistiram, porque queriam pegá-lo em falta em relação ao cumprimento da lei mosaica, ou em contradição aos seus ensinos, visto que o apedrejamento da mulher adúltera seria uma incoerência, uma contestação aos seus ensinos, simplesmente, diz que aquele, dentre eles, que estivesse sem pecado, isto é sem erros, sem infringência das leis, que atirasse na mulher, a primeira pedra, continuando a escrever na terra. O espanto deve ter sido muito grande: não havia nas palavras de Jesus nada que desrespeitasse Moisés, nem incoerência com seus ensinos; apenas demonstrou-lhes que nenhum deles estava isento de erros, portanto, não tinham autoridade moral para julgar, condenar e aplicar a pena.
Nesse episódio há ainda um fato relevante a considerar: se a mulher havia cometido adultério, onde estava o seu parceiro? Por que, então, só a mulher deveria ser apedrejada? Não deveriam ambos, homem e mulher sofrer a mesma pena, segundo a Lei de Moisés? A prova de que assim era encontramos no Velho Testamento (Levítico, 20:10), de acordo com o qual, pelo ato de adultério, mereciam condenação tanto o homem quanto a mulher; logo, de acordo com Lei Mosaica, ambos deveriam ser mortos por apedrejamento. Mas, com o passar do tempo, a punição passou a ser aplicada apenas à mulher, tendo em vista tratar-se de uma sociedade patriarcal e machista.
Questões para reflexão:

1 - Por que Jesus nos ensina a não julgarmos o próximo?
Para que não sejamos igualmente julgados, pois agirão para conosco do mesmo modo que agirmos para com os outros.
"(...) empregar-se-á convosco a mesma medida de que vos tenhais servindo para com os outros."
2 - Por que os mais velhos se afastaram em primeiro lugar?
Porque, tocados pela palavra de Jesus, refletiram sobre as inúmeras faltas cometidas ao longo da vida e reconheceram-se mais pecadores que os jovens, sentindo-se, portanto, incapazes de condenar um ato que talvez já houvessem praticado.
3 - Não sendo perfeitos, nunca podemos reprimir o mal?
A questão não é essa. Jesus não disse que não podemos reprimir o mal, nem deixar de denunciá-lo, se necessário. Ao contrário; em várias passagens do Evangelho vemos o Mestre repreendendo os fariseus e doutores da lei, chamando-os de hipócritas e víboras, porque não praticavam o que ensinavam.
Conclusão do Estudo:
Dessas duas passagens ressalta um importante ensinamento: a autoridade moral para julgar. Quando o Mestre disse - Aquele que estiver sem pecado atire a primeira pedra, Ele fez com que cada um dos presentes analisasse a própria consciência e percebesse que nenhum possuía autoridade moral para julgar e condenar aquela mulher.
O Mestre esperou calmamente pelo resultado que suas palavras causaram naqueles homens endurecidos. Ele era o único que, naquela circunstância, possuía autoridade moral para isso; no entanto, Jesus não julgou e não condenou, nem disse se deveriam apedrejá-la ou não. Jesus apenas aguardou. Quando todos se retiraram e Jesus ficou só com a mulher, esta ouve dele a frase: Vá e não peques mais. Ao dizer: Vá, Jesus nos mostra que somente a Deus cabe julgar. E, ao dizer: não peques mais, Jesus demonstra o quanto Deus é misericordioso, pois aquela mulher, como todos nós, temos más tendências a vencer, defeitos a corrigir e a misericórdia divina se traduz pela oportunidade que Deus nos dá de corrigir nossos erros. Jesus mostra, também, que, assim como Ele, todos podemos ser indulgentes e capazes de desculpar os erros dos outros, pois nenhum de nós está apto a julgar próximo, levando-se em consideração a nossa inferioridade e a nossa caminhada evolutiva, repleta de erros e, portanto, a nossa própria necessidade de indulgência em algum momento da vida.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

O argueiro e a trave no olho
Itens 9 e 10

9. Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma trave no vosso olho? Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro do teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? Hipócritas, tirai primeiro a trave do vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão. (Mateus, cap. VII, vv. 3 a 5).

10. Uma das insensatezes da Humanidade consiste em vermos o mal de outrem, antes de vermos o mal que está em nós. Para julgar-se a si mesmo, fora preciso que o homem pudesse ver seu interior num espelho, pudesse, de certo modo, transportar-se para fora de si próprio, considerar-se como outra pessoa e perguntar: Que pensaria eu, se visse alguém fazer o que faço? Incontestavelmente, é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo, os seus defeitos, tanto moral, quanto físicos. Semelhante insensatez é essencialmente contrária à caridade, porquanto a verdadeira caridade é modesta, simples e indulgente. Caridade orgulhosa é um contrassenso, visto que esses dois sentimentos se neutralizam um ao outro. Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do mal que o exalçaria? Por isso mesmo, porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a negação de muitas virtudes. Ele se encontra na base e como móvel de quase todas as ações humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal obstáculo ao progresso.
A palavra argueiro significa partícula leve, cisco; por extensão, coisa insignificante. Trave significa viga, pedaço de madeira ou de outro material utilizado para sustentar ou reforçar uma estrutura.
Este é mais um exemplo de Jesus se utilizando de coisas simples e chamativas, às vezes pela situação absurda, a fim de que suas palavras não se perdessem e se fixasse na memória dos que o ouviam, porque Ele sabia da necessidade de um longo tempo de desenvolvimento espiritual para que grande parte da Humanidade entendesse seus ensinos. Nessas palavras, citadas por Mateus, o Cristo destaca a facilidade que o homem tem em perceber os erros alheios e a dificuldade que tem em perceber os seus.
Retirar a trave do nosso olho significa retirar da nossa alma todos os vícios e tornar puro o coração, e, com isto retirado, daremos um salto das trevas para a luz. O Mestre nos ensinou que, antes de criticar os defeitos e as faltas cometidas pelo nossos semelhantes, devemos examinar a nossa própria conduta, fazendo uma severa crítica ao nosso proceder, fazendo um policiamento constante nos nossos atos, das nossas atitudes, e voltando para dentro de nós a atenção, no sentido de conhecer o nosso íntimo e, assim, corrigir os nossos defeitos, as nossas imperfeições, purificando o nosso coração, lavando a nossa alma, retirando vícios e paixões. Porém, temos dificuldade de perceber os defeitos que estão dentro de nós, que constituem essa trave nos nossos olhos. Se  essa percepção é difícil para nós, imaginem para os nossos irmãos de caminhada. Agora, se olharmos para nós mesmos, como se outra pessoa fosse, é a melhor maneira, talvez a única, de conhecer-se a si próprio, ideia já conhecida desde antes de Sócrates, que a divulgou há mais de trezentos anos antes de Cristo. Isto é possível ao homem, observando, perseverantemente, as suas relações nos acontecimentos, às situações da vida de relação e às pessoas com as quais se relaciona ou convive. Analisando essas reações com objetividade, sem complacência, nem justificativas, como se outra pessoa fosse, vai-se conhecendo a si próprio. A partir desse hábito, fica mais fácil conhecer as nossas qualidades em desenvolvimento, as que estão quais novas plantinhas, ainda frágeis, requerendo cuidados e atenções especiais. Fazendo esse autoconhecimento, perceberemos que tal como nós o nosso irmão também precisa mais de ajuda do que de censura. Não parar por aí, a fim de que o progresso, que é inevitável, não precise ser feito através de dores e sofrimentos.
Nessas descobertas sobre si mesmo, o homem vai perceber que é o orgulho que o leva a perceber e destacar no outro o mal que se recusa a ver em si. Por isso Kardec afirma que o orgulho, além de ser a fonte de muitos vícios, é também a negação de muitas virtudes. Foi por isso, que Jesus se empenhou em combatê-lo, como o principal obstáculo ao progresso.
Busquemos, então, todos nós, que consideramos Jesus como nosso guia e modelo, procurar ver e destacar o bem que existe nos outros, sendo benevolentes com suas faltas, tanto quanto desejamos que os outros o sejam para conosco. Deixemos o rigor e a exigência para conosco, na luta contra nossas imperfeições morais, com a certeza de que todos trazemos a capacidade de tornarmo-nos perfeitos.
Questões para reflexão:
1 – O que Jesus quis ensinar, quando disse: “Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão quando não vedes uma trave no vosso olho"?
Ele nos ensinou que, antes de criticar os defeitos e as faltas cometidas por nosso próximo, devemos examinar nossa própria conduta, fazendo uma severa crítica do nosso modo de proceder.
É para dentro de nós mesmos que devemos voltar nossa atenção, no sentido de conhecer o nosso íntimo e, assim, corrigir os defeitos e imperfeições.
2 - Que atitudes devemos adotar, antes de nos tornarmos juízes das ações do próximo?
Devemos tentar perceber o nosso íntimo, como se fosse uma imagem projetada num espelho; como se estivéssemos examinando uma outra pessoa; e refletir se temos autoridade moral para reprová-lo ou se merecemos críticas mais duras.
Se antes de criticarmos as ações alheias fizermos nosso auto julgamento, perceberemos que, tal como nós, o nosso irmão precisa mais de auxílio que de censura.
Antes de criticar os outros perguntemos a nós mesmos: "Que pensaria eu, se visse alguém fazer o que faço?"
3 - Qual o principal empecilho para o progresso do espírito e de que modo devemos combatê-lo?
O orgulho, que o induz a dissimular para si mesmo seus defeitos, tanto morais quanto físicos e a reconhecer-se sempre superior aos outros.
A humildade é a chave que abre ao homem o entendimento de si próprio e o reconhecimento de suas próprias fraquezas; e o torna tolerante para com as fraquezas alheias.
Conclusão do Estudo:
Antes de julgar os atos do próximo, examinemos com honestidade nossas próprias ações. E então perceberemos que também cometemos faltas e necessitamos da indulgência e da compreensão de todos.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

O Sacrifício mais agradável a Deus
Itens 7 e 8

7. Se, portanto, quando fordes depositar vossa oferenda no altar, vos lembrardes de que o vosso irmão tem qualquer coisa contra vós, deixai a vossa dádiva junto ao altar e ide, antes, reconciliar-vos com o vosso irmão; depois, então, voltai a oferece-la. (Mateus, cap. V, vv. 23 e 24).
8. Quando diz: “Ide reconciliar-vos com o vosso irmão, antes de depositardes a vossa oferenda no altar”, Jesus ensina que o sacrifício mais agradável ao Senhor é o que o homem faça do seu próprio ressentimento; que, antes de se apresentar para ser por ele perdoado, precisa o homem haver perdoado e reparado o agravo que tenha feito a algum de seus irmãos. Só então a sua oferenda será bem aceita, porque virá de um coração expungido de todo e qualquer pensamento mau. Ele materializou o preceito, porque os judeus ofereciam sacrifícios materiais; cumpria-lhe conformar suas palavras aos usos ainda em voga. O cristão não oferece dons materiais, pois que espiritualizou o sacrifício. Com isso, porém, o preceito ainda mais força ganha. Ele oferece sua alma a Deus e essa alma tem de ser purificada. Entrando no templo do Senhor, deve ele deixar fora todo sentimento de ódio e de animosidade, todo mau pensamento contra seu irmão. Só então os anjos levarão sua prece aos pés do Eterno: “Deixai a vossa oferenda junto ao altar e ide primeiro reconciliar-vos com o vosso irmão, se quiseres ser agradável ao Senhor”.
O que significa isso? O que é reconciliação? É algo muito difícil, que bem poucos conseguem realmente fazer de coração, mas aqueles que conseguem nada mais temem da vida. Significa não apenas ir lá, e perdoar aqueles que cometem alguma falta para conosco, mas ajudá-los, compreendê-los, e até amá-los. Significa que não apenas devemos esquecer aquilo que fizeram conosco, mas também manter a amizade que tínhamos antes.
Lembremo-nos de que Jesus nada deixou escrito. Seus ensinos deveriam se fixar nas mentes e nos corações dos homens. Foi um ensino informal, ao sabor das circunstâncias, dos usos e dos costumes dos judeus, a fim de serem, mais facilmente, fixados na memória, mesmo sem o entendimento maior das lições.
Os judeus, como todos os demais povos da época, ofereciam sacrifícios materiais, como animais para serem mortos, conforme os ritos adequados, para agradarem e homenagearem a Deus.
O espiritismo nos ensina que, se estamos na Terra para espiritualizar nossos sentimentos, nossas emoções, nossos pensamentos e ações, a fim de desenvolvermos as qualificações divinas que trazemos em nós, Deus, “Inteligência suprema e causa primária de todas as coisas”, Absoluto em tudo, não precisa de sacrifícios materiais, mas quer que todos nos tornemos inteligentes e bons.
Assim, Jesus, aproveitando um costume religioso da época, deixou o ensinamento de que o sacrifício que devemos fazer, por ser o mais agradável a Deus, é o sacrifício de eliminar o orgulho, através do esforço do perdão, da reconciliação, sempre que houver alguma ofensa, mágoa ou ressentimento.
Os tempos passaram, usos e costumes se transformaram, mas os ensinos do Mestre Jesus, continuam sempre atuais, desafiando nossa inteligência, conclamando-nos ao sacrifício da eliminação dos nossos vícios morais, das nossas enfermidades espirituais.
Não adianta considerarmo-nos cristãos, aceitar seus princípios, se não houver o esforço para vivenciar esses ensinos no dia-a-dia, se não houver uma melhoria de sentimentos, pensamentos e ações, se não houver a transformação para uma melhor pessoa.
Uma das maiores dificuldades está no perdoar, visto que o orgulho ainda predomina, sob diversas maneiras, nos corações e nas mentes dos homens.
Todavia, sempre que nos voltamos para Deus, no altar da nossa consciência, numa prece de louvor, ou de agradecimento, ou para pedir, em qualquer lugar, devemos, pelo menos nesse instante, estar com o coração puro, sem ressentimentos, sem sentimentos negativos, com a confiança, a simplicidade e a humildade de uma criança.
Em assim fazendo, com a vontade de ter, um dia, uma consciência tranquila e paz no coração, vamos, como podemos, manter essa atitude de não nos sentirmos ofendidos, magoados com alguém, não somente quando em oração, mas o mais frequente possível, porque esse é o sacrifício mais agradável a Deus e o mais benéfico para nós, homens da Terra e Espíritos em desenvolvimento.
Questões para reflexão:
1 - O que Jesus recomenda fazer, antes de reverenciar a Deus, com nossos atos de sacrifício?
Ele recomenda que nos reconciliemos com nosso irmão, antes de efetivar qualquer tipo de sacrifício em reverência ao Pai.
Reconciliai-vos com vosso irmão, antes de apresentar a Deus a vossa oferenda.
2 - Qual o sacrifício mais agradável a Deus?
O que o homem faz do próprio ressentimento, ao se aproximar daquele a quem ofendeu ou por quem foi ofendido, num ato de humildade e amor.
Antes de se apresentar a Deus, para ser por Ele perdoado, precisa o homem haver perdoado e reparado o agravo que tenha feito a qualquer de seus irmãos.
3 - Por que é tão difícil aproximarmo-nos do nosso irmão, em busca de reconciliação?
Porque essa atitude exige renúncia, desprendimento, humildade - virtudes frontalmente contrárias ao egoísmo, orgulho e vaidade que ainda carregamos em nós.
Sejamos, a cada dia, operários da harmonia e da concórdia, removendo desentendimentos, eliminando rancores e construindo a paz.
Conclusão do Estudo:
O sacrifício mais agradável a Deus é o que o homem faz do próprio ressentimento, reconciliando-se com o seu irmão antes de elevar em prece o pensamento ao Pai.
O sacrifício mais agradável a Deus é aquele em que o individuo se coloca abertamente para aceitar, sem desânimo e sem reclamações, a determinação dos Espíritos de luz acerca de sua missão na terra.
Na condição humana em que nos encontramos reagimos com vigor a situações, pessoas ou coisas que nos façam sofrer. Esperneamos, choramos, reclamamos muito contra a dor ou algo que de parece errado.
Porém o preceito do Cristo se mostra completamente diferente. Ele coloca o sacrifício como uma oferenda, conforme o conceito do dicionário, um tributo à Divindade, com base na renúncia dos nossos instintos inferiores. E não pode ser de outro modo, considerando que não possuímos nada de material, pois tudo nos é dado por empréstimo, inclusive o corpo e os bens materiais que muitos, equivocadamente, associam à felicidade.
Todo sacrifício proposto por Jesus tem de ser de ordem espiritual, daquilo que realmente possuímos em nós mesmos. Que mais agradaria a Deus senão a nossa melhoria interior, ou seja, a tão sonhada reforma íntima ao vencer todo o sentimento de orgulho, vaidade e tantas outras mazelas espirituais que impedem o desenvolvimento de cada um?
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CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

Reconciliação com os adversários
Itens 5 e 6

5. Reconciliai-vos o mais depressa possível com o vosso adversário, enquanto estais com ele a caminho, para que ele não vos entregue ao juiz, o juiz não vos entregue ao ministro da justiça e não sejais metido em prisão. Digo-vos, em verdade, que daí não saireis, enquanto não houverdes pago o último ceitil. (Mateus, cap. V, vv. 25 e 26).
6. Na prática do perdão, como, em geral, na do bem, não há somente um efeito moral; há também um efeito material. A morte, como sabemos, não nos livra dos nossos inimigos; os Espíritos vingativos perseguem, muitas vezes, com seu ódio, no além-túmulo, aqueles contra os quais guardam rancor; donde decorre a falsidade do provérbio que diz: “Morto o animal, morto o veneno”, quando aplicado ao homem. O Espírito mau espera que o outro, a quem ele quer mal, esteja preso ao seu corpo e, assim, menos livre, para mais facilmente o atormentar, ferir nos seus interesses, ou nas suas mais caras afeições. Nesse fato reside a causa da maioria dos casos de obsessão, sobretudo dos que apresentam certa gravidade, quais os de subjugação e possessão. O obsidiado e o possesso são, pois, quase sempre vítimas de uma vingança, cujo motivo se encontra em existência anterior, e à qual o que a sofre deu lugar pelo seu proceder. Deus o permite, para os punir do mal que a seu turno praticaram, ou, se tal não ocorreu, por haverem faltado com a indulgência e a caridade, não perdoando. Importa, conseguintemente, do ponto de vista da tranquilidade futura, que cada um repare, quanto antes, os agravos que haja causado ao seu próximo, que perdoe aos seus inimigos, a fim de que, antes que a morte lhe chegue, esteja apagado qualquer motivo de dissenção, toda causa fundada de ulterior animosidade. Por essa forma, de um inimigo encarniçado neste mundo se pode fazer um amigo no outro; pelo menos, o que assim procede põe de seu lado o bom direito e Deus não consente que aquele que perdoou sofra qualquer vingança. Quando Jesus recomenda que nos reconciliemos o mais cedo possível com o nosso adversário, não é somente objetivando apaziguar as discórdias no curso da nossa atual existência; é, principalmente, para que elas se não perpetuem nas existências futuras. Não saireis de lá, da prisão, enquanto não houverdes pago até o último centavo, isto é, enquanto não houverdes satisfeito completamente a justiça de Deus.

A compreensão e a assimilação desses ensinamentos são de fundamental importância para nossos relacionamentos, nosso padrão de vida, nossa paz interior, nossa evolução. Porque, se "amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo" reúne "toda Lei e os ensinamentos dos profetas", concluímos que, enquanto odiarmos e retardarmos o autodescobrimento do amor incondicional, não teremos condições de entrar no "reino dos céus" interior, isto é, a maioridade espiritual que buscamos para nos afastarmos do sofrimento e alcançarmos estados d'alma de paz e júbilo ainda para nós desconhecidos.
Jesus pede nesta passagem para reconciliarmo-nos sem demora com o nosso adversário enquanto estivermos a caminho com ele. E isto a Doutrina Espírita explica completamente. Jesus fala da reencarnação, pois temos que aproveitar esta oportunidade na matéria sem deixarmos nenhuma mágoa e ódio para ser resolvido em vidas futuras.
O caminho em que estamos juntos com nosso adversário é a vida presente, durante a qual houve o atrito entre nós e ele. Enquanto estamos juntos, isto é, todos encarnados, e que convém desfazer os agravos e transformar as inimizades, por menores que sejam, em estima. Convém também, corrigir todo o mal que tivermos praticado; porque senão aproveitarmos a oportunidade que o Senhor nos dá e desencarnarmos odiando alguém e com ações malévolas pesando em nossa consciência, seremos colhidos pelo ciclo das reencarnações dolorosas; então o sofrimento nos ensinará a mudar todo o ódio em amor e a corrigir até a mais pequenina falta que tivermos cometido contra o nosso próximo. Então devemos refletir bastante sobre a natureza do nosso relacionamento no convívio social e lembrar que faz parte dos caminhos que levam a Deus.
A Doutrina Espírita nos ensina que fora da caridade não há salvação. Assim sendo, este também é um caminho para nos mantermos salvos dos processos obsessivos, pois no bem conseguiremos reformular valores e angariar a simpatia dos bons espíritos, sem nos esquecermos de que foi o próprio Mestre quem nos recomendou perdoar enquanto estivermos caminhando com o nosso adversário, pois quando este encontrar-se fora do corpo, terá mais facilidade em nos atormentar, fato no qual reside a maioria dos casos de obsessões. Jesus fala da necessidade do perdão para o bem do que se sente ofendido. Mas, como tudo se relaciona, os benefícios se estendem também ao que ofende, pois que o ofensor do momento, quase sempre, foi antes o ofendido, ou assim se sentiu. Amando, compreendendo, mudaremos de faixa vibratória, tornando-nos imune ao ataque, pois, como o Mestre nos falou, o Amor cobre a multidão de pecados.
Kardec afirma que há dois efeitos na prática do perdão e na prática do bem em geral: um moral e o outro material. O primeiro são os efeitos morais para quem dá e para quem recebe o perdão, efeitos no sentir, provocando sentimentos e emoções agradáveis e mais nobres. Ambos, ofensor e ofendido, se sentem mais aliviados, mais felizes. O outro elimina as vibrações negativas do ofensor e do que se sente ofendido, que se estabelecem entre um e outro, consequência da ação e dos sentimentos e pensamentos, igualmente negativos.
Conforme ensinamento do Cristo, o sacrifício mais agradável a Deus não é ir ao Centro Espírita ou mesmo ir fazer caridade junto a algum necessitado. Antes de fazermos tudo isto é necessário reconciliarmo-nos com o nosso adversário. Pois não adianta nada aprendermos o Evangelho e a Doutrina Espírita, se estes ensinos não são praticados no momento das dificuldades. Jesus nos fala para sermos humildes, pacientes e misericordiosos. A oferta verdadeira do espírita, não é aquela que podemos fazer com simples atos materiais ou exteriores, mas sim aquela que exige uma modificação espiritual, com atos de reflexão íntima e em favor do próximo. Sempre, o maior beneficiado com o perdão somos nós mesmos.
Quando Jesus disse que devemos reconciliar-nos sem demora com nosso adversário, pretendia nos ensinar a evitar as discórdias na vida presente, mas também que elas continuassem no plano espiritual e nas existências futuras, neste mundo, porque dele não sairemos enquanto não pagarmos nossas dívidas até o último ceitil, ou seja, até que a justiça esteja, completamente, satisfeita.
Relativamente à vida presente, a reconciliação com os adversários proporciona uma série de inapreciáveis benefícios. Paz na Consciência, o maior tesouro que o homem pode desejar no mundo. Ausência de inquietações e remorsos, patrimônio que ajuda na aquisição do equilíbrio interior. Sono tranquilo, assegurando bem-estar espiritual enquanto o corpo descansa. Despertar sereno, premiando o coração que se enriqueceu de experiências novas, no contato com benfeitores desencarnados. Construção de preciosas amizades, nesta e na vida extrafísica, o que é fundamental para todos nós.    A inimizade é uma brasa no coração humano. Queima, fere, abre chagas profundas. Faz sangrar por muito tempo.
Questões para reflexão:
1 - O que devemos entender pela expressão usada por Jesus: "Reconciliai-vos (...) enquanto estais a caminho"?
Que devemos nos reconciliar com os nossos adversários, enquanto estamos vivendo lado a lado, na condição de espíritos encarnados; somente assim aproveitaremos as oportunidades que a Misericórdia de Deus nos concede, de repararmos as faltas cometidas contra nossos irmãos em encarnações passadas.
Muitas das inimizades de hoje são frutos de malquerenças passadas, que nos compete superar pela perdão e pela conciliação.
2 - Como devemos tratar nossos adversários, se quisermos assegurar a tranquilidade futura?
Devemos reparar, quanto antes, os agravos que causamos ao próximo; perdoar os supostos inimigos e reconciliarmo-nos com eles, a fim de que, antes que a morte do corpo nos chegue, estejam apagados quaisquer motivos de mágoa, rancor ou vingança futuros.
"Por essa forma, de um inimigo encarnado neste mundo se pode fazer um amigo no outro."
Conclusão
Grande parte da obra evangélica e da Doutrina Espírita diz respeito ao relacionamento humano. Procura nos informar sobre a grande necessidade de aprendermos a nos relacionar melhor com os companheiros de vida. E para isto temos que questionar os nossos atos diários, aferindo se eles são benéficos ou maléficos, e assim chegarmos a uma importante conclusão: a de sempre utilizar uma lei de comportamento deixada por Jesus. Diz ela: Fazei ao próximo aquilo que quereis que o próximo faça a você. Com esta prática, iremos nos colocar sempre no lugar da pessoa que irá receber o nosso ato ou as nossas palavras. Se gostarmos do que ouvimos ou sentimos, estaremos fazendo o bem. Se não gostarmos, com certeza estaremos praticando o mal, e consequentemente iremos receber a consequência disto.
Por isso, enquanto estamos na Terra, ignorantes do nosso passado, devemos buscar não fazer novos adversários e, na valorização do tempo presente, esforcemo-nos para tornar os relacionamentos difíceis em relacionamentos agradáveis, os adversários em amigos, na prática do perdão, sempre que houver qualquer desentendimento, “para assim se extinguirem, antes da morte, todos os motivos de desavença, toda causa profunda de animosidade posterior”.
Não adiemos a tarefa de perdoar e reconciliar com os nossos adversários: façamos de cada instante de nossa vida ocasião de reparar o mal e construir a fraternidade.
Quando nos dispusermos a compreender e seguir o conselho do Mestre Jesus: "Os meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem", nossos corações inundar-se-ão de um júbilo diferente. De um júbilo sublime, que nenhum tesouro do mundo pode substituir ou compensar.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO X – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

Perdoai, para que Deus vos perdoe
Itens de 1 a 4

1.      Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque obterão misericórdia. (Mateus, cap. V, v7).
2.      Se perdoardes aos homens as faltas que cometerem contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; mas, se não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados. (Mateus, cap. VI, vv. 14 e 15).
3.      Se contra vós pecou vosso irmão, ide fazer-lhe sentir a falta em particular, a sós com ele; se vos atender, tereis ganho o vosso irmão. Então, aproximando-se dele, disse-lhe Pedro: Senhor, quantas vezes perdoarei a meu irmão, quando houver pecado contra mim? Até sete vezes? Respondeu-lhe Jesus: Não vos digo que perdoeis até sete vezes, mas até setenta vezes sete vezes. (Mateus, cap. XVIII, vv. 15, 21 e 22).
4.      A misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá ser brando e pacífico. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas. O ódio e o rancor denotam alma sem elevação, nem grandeza. O esquecimento das ofensas é próprio da alma elevada, que paira acima dos golpes que lhe possam desferir. Uma é sempre ansiosa, de sombria suscetibilidade e cheia de fel; a outra é calma, toda mansidão e caridade.
Ai daquele que diz: nunca perdoarei. Esse, se não for condenado pelos homens, sê-lo-á por Deus. Com que direito reclamaria ele o perdão de suas próprias faltas, se não perdoa as dos outros? Jesus nos ensina que a misericórdia não deve ter limites, quando diz que cada um perdoe ao seu irmão, não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes.
Há, porém, duas maneiras bem diferentes de perdoar; uma, grande, nobre, verdadeiramente generosa, sem pensamento oculto, que evita, com delicadeza, ferir o amor-próprio e a suscetibilidade do adversário, ainda quando este último nenhuma justificativa possa ter; a segunda é a em que o ofendido, ou aquele que tal se julga, impõe ao outro condições humilhantes e lhe faz sentir o peso de um perdão que irrita, em vez de acalmar; se estende a mão ao ofensor, não o faz com benevolência, mas com ostentação, a fim de poder dizer a toda gente: vede como sou generoso! Nessas circunstâncias, é impossível uma reconciliação sincera de parte a parte. Não, não há aí generosidade; há apenas uma forma de satisfazer ao orgulho. Em toda contenda, aquele que se mostra mais conciliador, que demonstra mais desinteresse, caridade e verdadeira grandeza dalma granjeará sempre a simpatia das pessoas imparciais.

Misericórdia, segundo os dicionários, quer dizer: sentimento de dor e solidariedade com relação a alguém que sofre uma tragédia pessoal ou que caiu em desgraça, acompanhado do desejo ou da disposição de ajudar ou salvar essa pessoa; dó, compaixão, piedade. Ato concreto de manifestação desse sentimento, como o perdão, indulgência, graça, clemência. Kardec declara que a misericórdia é o complemento da mansuetude, pois os que não são misericordiosos também não são mansos e pacíficos.
Como vemos, as virtudes se mesclam, umas originando outras, complementando-se, até o Espírito ser capaz de amar a qualquer outro, como a si mesmo, porque, então, vivenciará, naturalmente, as leis divinas que Jesus ensinou e exemplificou.
O misericordioso se apieda, se condói, dos sofrimentos alheios, buscando auxiliar, e também pratica esse sentimento no perdão às ofensas, quando esse perdão vem da compreensão das fraquezas humanas, dos sentimentos frustrados, da necessidade de ser amado, que todos nós temos dentro de nós.
Quem perdoa de pronto, irradiando vibrações amorosas ao ofensor, já traz dentro de si uma elevação espiritual muito acentuada. Todavia, a maioria dos que já conseguem perdoar as ofensas em nosso mundo, conseguem assim fazer, com o consentimento da razão e do coração, através de um grande esforço, porque ainda estão inseridos no processo do desenvolvimento das qualificações nobres. Muitos há que nem sequer cogitam da necessidade do perdão para a tão desejada felicidade. Por isso, Kardec afirma que o esquecimentos das faltas alheias, como consequência do perdão, é próprio das almas elevadas, que pairam acima do mal que lhe quiseram fazer, sendo, então, calmas, mansas, caridosas. As pessoas que não desejam perdoar, ou pensam ser impossível fazê-lo, são sem elevação e sem grandeza. Por isso, são inquietas, de uma sensibilidade sombria e amargurada; infelizes, portanto. Quando o Cristo declarou a Pedro que se deve perdoar setenta vezes sete vezes, declarou ser a misericórdia sem limites, sem condições.
Kardec cita duas maneiras de perdoar: uma, generosa, sem segunda intenção, que evita humilhar o ofensor, tratando-o com delicadeza, com sinceridade, minimizando a sua má ação, demonstrando compreendê-lo como pessoa humana, filha de Deus, em processo evolutivo. O exemplo maior desse perdão está com Jesus, sendo crucificado, numa morte considerada a mais infamante, como se fora um dos piores inimigos dos homens, dizendo: Perdoa-lhes Pai, porque não sabem o que fazem, A outra maneira é perdoar com exigências, sob condições humilhantes, realçando a falta do outro e a sua generosidade. Esse perdão nada tem com o perdão ensinado pelo Mestre, por ser apenas uma maneira de satisfazer o orgulho do que se julga ofendido. Perdoar, misericordiosamente, é olhar para o ofensor, afastando de si a mágoa ou ressentimento, auxiliá-lo se e quando houver oportunidade, como se faz com uma pessoa querida.
“Perdoai para que Deus vos perdoe”, é o tema do comentário de Kardec, lembrando-nos que todos nós, Espíritos imperfeitos, sujeito a erros, enganos e omissões, precisamos aprender a perdoarmo-nos, mutuamente, a fim de que Deus nos possa perdoar, dando-nos novas chances de reparação desses erros, enganos e omissões. Por enquanto, vamos tentando perdoar como podemos, no esforço de fazer o melhor, mantendo, porém, a meta a ser alcançada, ou seja, não precisar perdoar, por não se sentir ofendido.
Questões para reflexão:
1 - Que atitude devemos tomar, quando formos ofendidos por alguém?
Devemos procurá-lo em particular, para esclarecer a situação e buscar o entendimento, pondo fim à discórdia.
"Se contra vós pecou vosso irmão, ide fazer-lhe sentir a falta em particular, a sós com ele."
2 - Para que haja o verdadeiro perdão, basta-nos dizer que perdoamos?
Não. O perdão verdadeiro não é o dos lábios, mas o do coração nobre e generoso, sem pensamento oculto, que evita, com delicadeza, ferir o amor próprio e a suscetibilidade do adversário, ainda quando este último nenhuma justificativa possa ter.
É impossível uma reconciliação sincera de parte à parte, quando o ofendido estende a mão ao ofensor com arrogância e ostentação.
3 - É vergonhoso buscar a conciliação e a paz, perdoando a quem nos ofende?
Não. A lição de hoje nos ensina que, em qualquer desentendimento, o espírito mais elevado mostra-se mais conciliador e, com esta atitude, obterá sempre a simpatia das pessoas de bem e as graças de Deus.
Achamos difícil perdoar porque somos ainda almas inferiores, distanciadas de Deus, que nos aguarda compassivo a decisão de cumprir sua lei de amor.
Conclusão do Estudo:
Somos regidos pela lei de causa e efeito, que nos faz experimentar as mesmas situações que proporcionamos aos outros; portanto, sejamos misericordiosos, para que possamos obter misericórdia; e perdoemos sempre, para que sejamos perdoados pelos homens e por Deus.
Sejamos misericordiosos como é misericordioso Nosso Pai que está nos céus, ensinou-nos Jesus. Ser misericordioso significa saber perdoar as ofensas que recebemos, o mal que nos fizerem, ou o prejuízo que nos causarem.
Perdoar é ter o nosso coração livre de ódios ou de qualquer ressentimento contra nossos irmãos ou contra si mesmo. É ajudar o ofensor, caso necessite.
Ninguém deve aceitar a ofensa do outro, o seu ódio ou o seu desdém. Permanecer acima da ofensa, não deixar-se atingir pela agressão moral constituem o antídoto para o ódio. Por exemplo, se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, este continua pertencendo a quem o carregava consigo. Ou seja, se você não aceita a inveja, a raiva e os insultos, esses sentimentos continuam pertencendo somente ao ofensor. Quem guarda ódio afasta-se do amor. O ódio leva à vingança, que é um ato mesquinho e indigno.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IX – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO BRANDOS E PACÍFICOS

A Cólera
Itens 9 e 10
9. O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; a não suportardes uma comparação que vos possa rebaixar; a vos considerardes, ao contrário, tão acima dos vossos irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o menor paralelo vos irrita e aborrece. Que sucede então? Entregai-vos à cólera.
Pesquisai a origem desses acessos de demência passageira que vos assemelham ao bruto, fazendo-vos perder o sangue-frio e a razão; pesquisai e, quase sempre, deparareis com o orgulho ferido. Que é o que vos faz repelir, coléricos, os mais ponderados conselhos, senão o orgulho ferido por uma contradição? Até mesmo as impaciências, que se originam de contrariedades muitas vezes pueris, decorrem da importância que cada um liga à sua personalidade, diante da qual entende que todos se devem dobrar.
Em seu frenesi, o homem colérico a tudo se atira; à natureza bruta, aos objetos inanimados, quebrando-os porque lhe não obedecem. Ah! Se nesses momentos pudesse ele observar-se a sangue-frio, ou teria medo de si próprio, ou bem ridículo se acharia! Imagine ele por aí que impressão produzirá aos outros. Quando não fosse pelo respeito que deve a si mesmo, cumpria-lhe esforçar-se por vencer um pendor que o torna objeto de piedade.
Se ponderasse que a cólera a nada remedeia, que lhe altera a saúde e compromete até a vida, reconheceria ser ele próprio a sua primeira vítima. Mas, outra consideração, sobretudo, devera contê-lo, a de que torna infelizes todos os que o cercam. Se tem coração, não lhe será motivo de remorso fazer que sofram os entes a quem mais ama? E que pesar mortal se, num acesso de fúria, praticasse um ato que houvesse de deplorar toda a sua vida!
Em suma, a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede se faça muito bem e pode levar à prática de muito mal. Isto deve bastar para induzir o homem a esforçar-se a ela dominar. O espírita, ao demais, é concitado a isso por outro motivo: o de que a cólera é contrária à caridade e à humildade cristãs. (Um Espírito protetor. Bordéus, 1863).
10. Segundo a ideia falsíssima de que lhe não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. (...)
Indubitavelmente, temperamentos há que se prestam mais que outros a atos violentos, como há músculos mais flexíveis que se prestam melhor aos atos de força.(...)
O corpo não dá cólera àquele que não as tem, do mesmo modo que não dá outros vícios. Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a responsabilidade? (...)
Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei de progresso. (Hahnemann. Paris, 1863).
Os dicionários definem cólera como sendo o sentimento violento demonstrado por alguém diante de uma situação revoltante. Essa situação onde nós “botamos pra fora” todo o nosso instinto animal, ao invés de ser a exceção, tem sido a regra na sociedade atual. Não obstante as leis existentes nos impedirem de praticar atos hediondos contra o nosso semelhante, ainda nos utilizamos da palavra falada ou escrita para destilarmos todo o nosso ódio contra o nosso irmão que, muitas vezes, necessitava, apenas, de um pouco de compreensão e, não, de uma reprimenda que levasse a piorar ainda mais a sua condição de percepção, oriunda do seu já precário estado evolutivo.
A cólera é, sem dúvida, filha do orgulho. Esse vício da alma nos leva a crer que somos mais importantes do que realmente somos. Isso faz com que não tenhamos a mínima calma diante das situações que nos são adversas. Com efeito, basta que se faça uma alusão a certo defeito nosso; uma comparação que nos rebaixe ou simplesmente nos seja desfavorável; uma crítica, ainda que sincera e construtiva, a qualquer realização de que tenhamos sido responsáveis; ou que alguém não atenda a uma ordem, esqueça uma recomendação ou contrarie uma opinião nossa, para que a irritação se instale em nosso espírito, nos faça perder a razão e nos leve à violência verbal ou física.  Em vista disso, não apenas cometemos desatinos contra o nosso semelhante, mas, chegamos até mesmo a nos voltar contra seres inanimados. Não raras vezes, em uma discussão, batemos em portas, damos soco na parede, jogamos ao longe pratos e copos, tudo, no intuito de impor as nossas ideias pela violência e pelo medo. Nesses momentos de fúria, é comum, então, dizermos coisas que não sentimos, tomarmos atitudes que não condizem com as normas da civilidade, e até impondo maus-tratos em quem quer que esteja ao alcance das mãos ou dos pés. Quase sempre, muito nos arrependemos depois desses acessos de loucura, lamentando amargamente termos magoado e ofendido aqueles que estimamos, mas já o mal terá produzido seus efeitos: rancores em uns, traumas psíquicos em outros, etc. Muitas dessas criaturas que, diante das mínimas contrariedades, se descontrolam e se deixam empolgar pela cólera, atribuem-na ao temperamento com que a natureza os dotou, e, dando-se por justificadas, não diligenciam para extirpá-la. Como poderei agir de outro modo – dizem – se Deus me fez assim, com temperamento bilioso e explosivo? A verdade, porém, é que a cólera, como de resto todos os vícios, é uma imperfeição de nosso espírito, respondendo cada um por todos os desatinos que venha a praticar nesse estado. Assim, para deixarmos de ser coléricos, o que temos a fazer é exercitar-nos na mansidão, tomando por modelo o Mestre dos mestres, que, mesmo nas circunstâncias mais constrangedoras, jamais perdeu a calma, nunca teve um gesto de violência, nem se permitiu qualquer revide às ofensas e maus tratos de que foi alvo, e, por isso, tinha plena autoridade para aconselhar. A Doutrina Espírita esclarece-nos que devemos refrear o nosso mau gênio, esforçando-nos por ser mansos e pacíficos, não apenas por meras razões místicas, mas como medida de higiene mental, pois, sempre que nos encolerizamos, lançamos em nosso organismo forte dose de adrenalina, e isso, fazendo aumentar a pressão sanguínea, pode provocar uma apoplexia, arruinar-nos a saúde, senão mesmo causar-nos a morte.
Questões para reflexão:
1 - Onde encontramos a causa da cólera?
No orgulho ferido, que faz com que o homem se revolte diante da menor contrariedade e de situações que o obriguem a aceitar-se como um ser ainda imperfeito e, portanto, com graves erros a corrigir.
2 - Como defender os valores que julgamos corretos, sem nos encolerizar?
Agindo em conformidade com os mesmos, respeitando nos outros sua forma de pensar, sem perder a confiança em Deus e em sua sabedoria.
Para a definição consciente daquilo que realmente é correto, torne-se imprescindível a nossa constante ligação com Jesus.
3 - Mas, e se formos bloqueados em nossa ação, que julgamos acertada, não haveria aí razão justa para nos revoltar?
Não. Isso não seria justificativa para a cólera. Tampouco, impor nossa vontade, quando não somos compreendidos, não resolve o problema. O segredo do sucesso está em aguardar pacientes, pois a verdade prevalecerá.
Conclusão do Estudo:
A cólera é sentimento que contraria a lei de Deus e se expressa por atitudes rudes e grosseiras, acarretando sérios desajustes orgânicos àquele que a cultiva e fazendo deste a sua principal vítima. Além disso, revela um sentimento antifraterno de quem a ela se predispõe, perante os semelhantes. Trata-se de um mal cuja origem reside no orgulho ferido, que o homem terá de dominar, se deseja ser feliz.
A cólera atua como estilete lançado, que prende agressor e agredido através de um fio muito tênue, mas extremamente resistente, feito de ressentimento, de desamor e, até, de ódio. Agressor e agredido passam a vibrar no mesmo diapasão de desarmonia, tornando-se sujeitos a toda sorte de desequilíbrios físicos e psíquicos. Este fio é um laço que contém energias vibratórias desarmonizadas e que acarreta dor e sofrimento para aqueles que gravitam em torno delas. A ira desestabiliza o organismo perispiritual envenenando o ser com fluidos nocivos à sua saúde física e mental; a ira contraria frontalmente a humildade e a caridade, ferindo, portanto, a lei de Deus.


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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IX – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO BRANDOS E PACÍFICOS

Obediência e resignação
8. A doutrina de Jesus ensina, em todos os seus pontos, a obediência e a resignação, duas virtudes companheiras da doçura e muito ativas, se bem os homens erradamente as confundam com a negação do sentimento e da vontade. A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração, forças ativas ambas, porquanto carregam o fardo das provações que a revolta insensata deixa cair. O pusilânime não pode ser resignado, do mesmo modo que o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes. Jesus foi a encarnação dessas virtudes que a antiguidade material desprezava. Ele veio no momento em que a sociedade romana perecia nos desfalecimentos da corrupção. Veio fazer que, no seio da Humanidade deprimida, brilhassem os triunfos do sacrifício e da renúncia carnal.
Cada época é marcada, assim, com o cunho da virtude ou do vício que a tem de salvar ou perder. A virtude da vossa geração é a atividade intelectual; seu vício é a indiferença moral. Digo, apenas, atividade, porque o gênio se eleva de repente e descobre, por si só, horizontes que a multidão somente mais tarde verá, enquanto que a atividade é a reunião dos esforços de todos para atingir um fim menos brilhante, mas que prova a elevação intelectual de uma época. Submetei-vos à impulsão que vimos dar aos vossos espíritos; obedecei à grande lei do progresso, que é a palavra da vossa geração. Ao do espírito  preguiçoso, ai daquele que cerra o seu entendimento! Ai dele! Porquanto nós, que somos os guias da Humanidade em marcha, lhe aplicaremos o látego e lhe submeteremos a vontade rebelde, por meio da dupla ação no freio e da espora. Toda resistência orgulhosa terá de, cedo ou tarde, ser vencida. Bem-aventurados, no entanto, os que são brandos, pois prestarão dócil ouvido aos ensinos. Lázaro (Paris, 1863).
Mais uma mensagem do Espírito Lázaro. E para compreendermos melhor a profundidade de sua mensagem, recorremos ao dicionário a fim de deixar bem claro o que exatamente “Obediência e Resignação”. Obediência significa: Ação ou efeito de obedecer. Ceder, cumprir, seguir. Submeter-se à vontade de alguém. Cumprir uma ordem. Aceitar uma determinação Respeitar uma lei ou mandato. Respeitar um superior. Resignação quer dizer conformação, submissão, concordância. Lendo essas palavras, nosso orgulho, que chamamos de amor-próprio, logo se espanta, porque relacionamos o obedecer a abaixar a cabeça para tudo, enquanto resignar-se, nos lembra de passividade, subserviência, acomodação, mas, na realidade, os significados cristãos não são estes.
“A obediência é o consentimento da razão; a resignação é o consentimento do coração.” Assim afirma o autor da mensagem na explicação de que obediência e resignação não são a negação da vontade e do sentimento. Ao contrário, são virtudes que se expressam em ações muito ativas e difíceis para a maioria dos homens, porque refletem uma confiança plena em Deus e em suas leis. A obediência e a resignação cristãs, para assim serem qualificadas, devem ter o aval da razão e da sensibilidade, através de raciocínios que as tornem compreensivas, demonstrando seu valor e sua necessidade ao viver do homem na Terra e ao seu viver eterno. “Ambas são forças ativas, porque levam o fardo das provas que a revolta insensata deixa cair. O poltrão não pode ser resignado, assim como o orgulhoso e o egoísta não podem ser obedientes. Jesus foi a encarnação dessas virtudes”. Obedecer e resignar-se são atos e ações de quem age segundo a vontade de alguém, submetendo-se a ela. O cristão se submete ás leis divinas, porque confia no seu Criador. Na obediência e resignação cristãs, segundo o espiritismo, o homem de hoje esforça-se para entender as leis morais, trazidas por Jesus, pelo consentimento da razão e da sensibilidade, compreendendo serem essas ações morais necessárias para um viver produtivo em ações nobres, de transformações internas e de progresso espiritual. A obediência e a resignação, por medo ou ignorância, sem compreensão, apenas pela “autoridade” de quem as exige, cada vez mais, escasseiam, porque hoje o homem quer compreender antes de aceitar, ou acreditar. Jesus não renasceu na Terra, para agir com seus irmãos imperfeitos, usando os mesmos métodos usados pelos poderosos da Terra, ou seja, exigindo, pela força ou pelo temor, a obediência e a resignação às leis divinas. Não, ele veio trazer as leis morais, indispensáveis ao progresso moral da humanidade da Terra, que devem primeiro, se desenvolver na mente e no coração de cada Espírito, encarnado ou desencarnado, pela vontade de cada um. Quando a influência desses seus seguidores for maior do que a dos que as repelem, a Terra se tornará um mundo sem tormentos e angústias, possibilitando um viver agradável, prazeroso, com muito mais facilidades para o progresso no bem, pelo bem e para o bem. Assim, aquele que, entendendo que as causas das dores e sofrimentos da Terra estão dentro dos homens, que as ações externas, as situações e os acontecimentos, apenas estimulam reações oriundas do íntimo de cada um, esforça-se pela aceitação dos mesmos, resigna-se, isto é, não reclama, não se revolta, não se desespera, porque sabe que esses males são necessários ao seu progresso espiritual. Procura, então, com serenidade e confiança, a libertação dos mesmos, com a certeza de que esses sofrimentos lhe trarão benefícios, alguns já percebidos durante os mesmos, e que, esses bens não viriam de outra forma, por causa de sua própria rebeldia. Lázaro usa, às vezes, de uma linguagem dura, “o chicotearemos e forçaremos a sua vontade rebelde, com o duplo esforço do freio e da espora”, que devemos entender como metáforas e não como ações reais desses guias da humanidade. Refere-se, ele, à lei de causa e efeito, que dá a cada um o resultado do que fez, provocando que “toda resistência orgulhosa deverá ceder, cedo ou tarde. Mas, bem-aventurados os que são mansos, porque darão ouvidos dóceis aos ensinamentos”.
Questões para reflexão:
1 - Em que consiste a obediência aludida no texto?
É o cumprimento da lei de Deus. Pelo estudo do Evangelho e pela prática do mesmo, vamos ficando mais obedientes ao Pai, mais brandos, mais felizes, consequentemente.
"A obediência é o consentimento da razão."
2 - O que é resignação?
São os bons sentimentos que alimentamos em nosso coração. É compreender a necessidade de não nos revoltarmos, de sermos bons, a fim de sermos felizes.
"A resignação é o consentimento do coração."
3 - Como podemos aprender e desenvolver em nós essas duas virtudes?
A perfeita assimilação do Evangelho de Jesus, por cada um de nós, seja pela própria conscientização; pelo exemplo das pessoas de bem; pelas boas leituras; ou ainda, pela orientação das religiões que conduzem ao bem, nos levará a desenvolver essas e outras virtudes. Em último caso, a dor, decorrente dos nossos desvios, também contribuirá.
Conclusão do Estudo:
Jesus, em Seu Evangelho, sempre pregou a resignação, mas não aquela resignação passiva. A resignação pregada pelo Mestre está longe de ser a da inércia e do desânimo. Em Seus ensinamentos sempre estão presentes a serenidade e a fé, com que tratava os problemas, mesmo aqueles mais aflitivos.
Na síntese da doutrina do Cristo, encontramos o amor como a lei maior e, na Sua conduta na Terra, a ética e o comportamento, capazes de, se nos dedicarmos a imitá-lo, garantir o nosso crescimento espiritual.
A obediência e a resignação são duas virtudes que refletem o nosso ajustamento às leis divinas e nos permitem saldar mais rapidamente as faltas do passado, propiciando-nos o progresso, em voos espirituais maiores e, consequentemente, a nossa aproximação de Deus.
A obediência e a resignação são próprias dos brandos e pacíficos, aqueles que possuirão a Terra, que ao passar para mundo de regeneração, mudará o seu status. Haverá menos lágrimas e menos dores. Enfim, a Terra será um planeta onde imperará maior felicidade.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IX – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO BRANDOS E PACÍFICOS

A Paciência

7. A dor é uma bênção que Deus envia a seus eleitos; não vos aflijais, pois, quando sofrerdes; antes, bendizei de Deus onipotente que, pela dor, neste mundo, vos marcou para a glória no céu.
Sede pacientes. A paciência também é uma caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, conseguintemente, muito mais meritória; a de perdoarmos aos que Deus colocou em nosso caminho para serem instrumentos do nosso sofrer e para nos porem à prova a paciência.
A vida é difícil, bem o sei. Compõe-se de mil nadas, que são outras tantas picadas de alfinetes, mas que acabam por ferir. Se, porém, atentarmos nos deveres que nos são impostos, nas consolações e compensações que, por outro lado, recebemos, havemos de reconhecer que são as bênçãos muito mais numerosas do que as dores. O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a frente.
Coragem, amigos! Tendes no Cristo o vosso modelo. Mais sofreu ele do que qualquer de vós e nada tinha de que se penitenciar, ao passo que vós tendes de expiar o vosso passado e de vos fortalecer para o futuro. Sede, pois, pacientes, sede cristãos. Essa palavra resume tudo. Um Espírito protetor. (Havre, 1862).
Uma das súplicas que pedimos e ouvimos com mais frequência é: “Ah, meu Deus, dê-me paciência!”. Paciência uma palavra mágica, transformadora. Paciência é uma virtude maravilhosa que todos temos, mas que poucos sabem utilizá-la. Incessantemente suplicamos ao Criador essa virtude, porém nos falta perspicácia suficiente para perceber que Deus concede a virtude aliada à prática. E Ele, em sua infinita sabedoria, nos proporciona ocasiões para que sejamos pacientes. O hábito faz a perfeição! Quantas vezes você se deparou com uma situação na qual era suficiente um pouquinho mais de paciência para ser resolvida? Bastava respirar fundo e oxigenar o cérebro ao invés de responder com tanta aspereza. Perceba, que quando somos impacientes não resolvemos nada, muito pelo contrário, atropelamos as etapas que temos que percorrer em nossa vida e nos machucamos muito mais. Através da paciência, poderemos sempre encontrar uma porta aberta para nossa saída.
O Apóstolo Paulo recomenda-nos "seguir a verdade em caridade", para que venhamos a crescer no entendimento de Jesus, e O Evangelho Segundo o Espiritismo, na advertência da Esfera Superior, assevera-nos que "a paciência também é uma caridade", e que nos cabe pratica-la, em obediência aos ensinos do Mestre. A partir desse momento a paciência passou a ser um objetivo do Espírito que busca a própria consciência, o próprio progresso. Se Jesus nos ensinou a paciência como forma de atingir os objetivos, e se Paulo nos disse que é a chave para a "consolação", foi a Doutrina Espírita que, descortinando o Espírito como ser imortal, nos trouxe a chave do entendimento. A paciência é uma característica do Espírito que precisa ser exercitada e desenvolvida para que, com ela, saibamos aprender, entender o que nos traz a vida, e aumentarmos a nossa fé e nossa empatia com o Criador.
Questões para estudo:
1 - Por que a dor é uma bênção?
Porque ela é o veículo através do qual nos regeneramos perante os erros do passado, em razão dos nossos desvios da rota da felicidade.
Por isso, diante do sofrimento, ao invés de nos afligirmos, é mais lícito bendizer a Deus pela oportunidade de resgate que nos concede.
2 - Sendo uma bênção, como explicar o fato de a dor se tornar insuportável, levando as pessoas ao desespero?
Deus não põe fardos pesados em ombros frágeis. Desse modo, a dor está sempre na proporção das forças e capacidade de cada um. Logo, depende, igualmente, de cada um a iniciativa de buscar o meio para suportá-la, sem o que esta sempre parecerá maior do que é na realidade.
Deus, contudo, não desampara ninguém que O procura. A dificuldade toda está em nós para chegarmos até Ele.
3 - De que forma a paciência se constitui no remédio que ameniza as dores?
A paciência nos propicia a serenidade capaz de nos fazer ver que, a par do sofrimento, há um número bem maior de bênçãos, dádivas e compensações que emanam do Pai, diante das quais as nossas dores passam a ser bem menores e menos significativas, conquanto ainda nos afetem.
"O fardo parece menos pesado, quando se olha para o alto, do que quando se curva para a terra a fronte."
Para nossa paz interior, compreendamos que o caminho que nos levará à felicidade absoluta obedece à “longa via do ser” e, em muitas circunstâncias, reivindicará, de nossa parte, uma ação resignada, pois não há atalhos. Então, confiemos e cultivemos a preciosa paciência.
Conclusão do Estudo:
A paciência é uma virtude que nos faz olhar para o alto e nos colocar acima de nossos problemas, permitindo-nos visualizar sua solução sem atropelos. No Cristo temos o modelo e o maior exemplo da paciência.
Para evidenciarmos algo que todos nós já sabemos: temos a oportunidade de praticar a paciência em todos os dias de nossas vidas. Mas o difícil é lembrarmo-nos de sermos pacientes quando alguém "pisa no nosso calo", não é mesmo?
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IX – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO BRANDOS E PACÍFICOS

A afabilidade e a doçura

6. A benevolência para com os seus semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz a afabilidade e a doçura, que lhe são as formas de manifestar-se. Entretanto, nem sempre há que fiar nas aparências. A educação e a frequentação do mundo podem dar ao homem o verniz dessas qualidades. Quando há cuja fingida bonomia não passa de máscara para o exterior, de uma roupagem cujo talhe primoroso dissimula as deformidades interiores! O mundo está cheio dessas criaturas que têm nos lábios o sorriso e no coração o veneno; que são brandas, desde que nada as agaste, mas que mordem à menor contrariedade; cuja língua, de ouro quando falam pela frente, se muda em dardo peçonhento, quando estão por detrás.
A essa classe também pertencem esses homens, de exterior benigno, que, tiranos domésticos, fazem que suas famílias e seus subordinados lhes sofram o peso do orgulho e do despotismo, como a quererem desforrar-se do constrangimento que, fora de casa, se impõem a si mesmos. Não se atrevendo a usar de autoridade para com os estranhos, que os chamariam à ordem, acham que pelo menos devem fazer-se temidos daqueles que lhes não podem resistir. Envaidecem-se de poderem dizer: “Aqui mando e sou obedecido”, sem lhes ocorrer que poderiam acrescentar: “E sou detestado”.
Não basta que dos lábios manem leite e mel. Se o coração de modo algum lhes está associado, só há hipocrisia. Aquele cuja afabilidade e doçura não são fingidas nunca se desmente; é o mesmo, tanto em sociedade, como na intimidade. Esse, ao demais, sabe que se, pelas aparências, se consegue enganar os homens, a Deus ninguém engana. (Lázaro. Paris, 1861).

Nesta mensagem, o autor nos fala dessas duas virtudes, pouco citadas no cotidiano dos homens em geral, mas exaltadas por Jesus, que incentiva seus irmãos em desenvolvimento espiritual, a fazê-las crescer dentro de si, pois, com elas em ação, serão bem-aventurados.
Afabilidade é a qualidade de quem é cortês, delicado, amável, agradável, com quem se pode falar facilmente, acessível. Doçura é a qualidade de quem é suave, meigo, brando.
Escreve ele, que a afabilidade e a doçura se originam da benevolência (boa vontade, bondade para com alguém), que por sua vez, é fruto do amor ao próximo. Isso significa que não basta ter atitudes exteriores de boa educação, de gestos e atitudes suaves, ser afável no falar, se são resultados de treinamentos sociais, aparências de uma boa educação, de boa índole. Quem deseja ser afável e suave nos relacionamentos com os outros, precisa cultivar o amor ao próximo, para com ele, ter boa vontade com seus erros, suas imperfeições, suas dificuldades. São bem-aventurados os que, se esforçando por compreender e aceitar todas as pessoas como são, querendo para elas o que de melhor for possível, usando de benevolência para com suas faltas e omissões, tiver sempre atitudes de delicadeza e de afabilidade em todos os relacionamentos. Assim, Lázaro censura os que usam de “uma máscara para uso externo, uma roupagem, cujo corte bem calculado, disfarça as deformidades ocultas”, mas que na menor contrariedade, mostram-se como são por dentro, nas reações violentas que manifestam. Cita os que em casa são tiranos dos familiares, agressivos, incapazes de gestos de delicadeza, mas fora no lar, apresentam-se de forma bem educada no falar, no ouvir, afáveis e suaves. São pessoas dominadas pela hipocrisia, afastando-se, cada vez mais da autenticidade.
No “amar ao próximo como a si mesmo” está implícita a ideia de que o amor a si próprio existe em cada um de nós, e assim Deus nos fez. O que não está dentro da vontade divina é o egoísmo, esse amor exacerbado que só enxerga as suas necessidades, colocando-se no centro de tudo e de todos. Para libertarmo-nos do egoísmo, precisamos nos conhecer, aceitar as pequenas coisas boas que temos, bem como a nossas imperfeições, considerando que somos Espíritos em evolução. Todavia, não podemos, por amor a nós, conformarmo-nos com as poucas coisas boas e as muitas imperfeições que temos, pois, estamos reencarnando, tantas vezes quantas forem necessárias na Terra, para desenvolver nosso potencial divino e melhorarmo-nos, perseverantemente.  Assim, o aceite do como somos é apenas o primeiro passo para, no uso do livre-arbítrio, continuarmos, nesta existência, nosso processo evolutivo. Para que isso aconteça, precisamos ser honestos e sinceros para conosco, nos enxergando o mais real possível, a fim de reformar nosso caráter, reprimindo nossas más tendências, melhorando o que já temos de bom, permanecendo no caminho do progresso, difícil, lento, mas sempre progresso. A honestidade e a sinceridade conosco, nos leva a ser autênticos, a nos apresentarmos a todos como somos, imperfeitos sim, mas esforçando-nos para melhorarmo-nos. Assim termina Lázaro sua mensagem: “Aquele cuja afabilidade e doçura não são fingidas, jamais se desmente. É o mesmo para o mundo ou na intimidade, e sabe que se pode enganar os homens pelas aparências, não pode enganar a Deus.” Só pode dar amor quem o tem. Partindo, pois, do amor que sentimos por nós mesmos, podemos amar ao próximo.
Quando Jesus traça como regra de vida a afabilidade e a doçura, estas duas qualidades abrangem outras, como a paciência, a tolerância, a obediência e a resignação. Essas são as qualidades das almas nobres, dos homens bons. Todas as pessoas afáveis e doces são gentis. E a gentileza se exercita através de pequenos gestos; um simples bom dia; um sorriso; um agradecimento; dar passagem a quem está com pressa. Pode não parecer, mas esses pequenos gestos fazem muita diferença. É através de pequenos gestos que começamos a mudar o Mundo. A gentileza traz a paz, a tolerância, a paciência, a capacidade de perdoar. Não podemos pensar que a educação torna uma pessoa gentil. Gentileza é uma maneira de pensar, de enxergar as pessoas; é tratar o outro como gostaríamos de ser tratados; é muito mais do que um código de boa conduta ou de etiqueta. A pessoa verdadeiramente gentil não espera nada em troca; ela é verdadeira, honesta; não bajula ninguém apenas para ser gentil; ao contrário, diz “não” da mesma maneira que diz “sim”, quando necessário.
Questões para reflexão:
1 - Em que consiste a afabilidade e a doçura?
São atitudes pelas quais a criatura manifesta exteriormente a benevolência para com os seus semelhantes.
A benevolência, por sua vez, denota a extensão do sentimento de amor ao próximo que essa criatura possui.
2 - Quer dizer, então, que toda criatura afável e doce é benevolente e ama o próximo?
Não. Muitas vezes essas atitudes não passam de aparência que, cedo ou tarde, são desmascaradas pelo verdadeiro caráter do indivíduo, que vem à tona.
"A educação e a frequentação do mundo podem dar ao homem o verniz dessas qualidades."
3 - Devemos adotar um tratamento afável, ainda que isso contrarie o nosso íntimo?
Sim, porque demonstra disciplina. Devemos, entretanto, conscientizarmo-nos de que, em última análise, acabamos sempre refletindo no exterior o que somos interiormente. Daí, o nosso dever de melhorar o íntimo, não as aparências.
Se formos afáveis, não pelas aparências, mas pelo que somos intimamente, seremos tratados com afabilidade e concorreremos para a melhoria do relacionamento entre as pessoas.
Conclusão do Estudo:
A benevolência para com os semelhantes é fruto do amor ao próximo, e se manifesta pela afabilidade e doçura, virtudes que concorrem para a melhoria do relacionamento com as pessoas. Daí, a necessidade de cultivá-las e aplicá-las em nosso comportamento diário.
Jesus reunia em torno de si uma multidão de criaturas que buscavam consolo para suas dores e respostas para suas indagações. Imaginemos o dia em que todos o seguirem em busca de suas doces palavras.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IX – BEM-AVENTURADOS OS QUE SÃO BRANDOS E PACÍFICOS

O tema deste estudo, Injúrias e Violências, está contido no belíssimo Sermão da Montanha, lição de Jesus que constitui um dos mais belos ensinamentos que foram dados à Humanidade.
Injúrias e violências
1. Bem-aventurados os que são brandos, porque possuirão a Terra. (Mateus, cap. V, v. 4.)
2.  Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus. (Id., v.9)
3. Sabeis que foi dito aos antigos: Não matareis e quem quer que mate merecerá condenação pelo juízo. - Eu, porém, vos digo que quem quer que se puser em cólera contra seu irmão merecerá condenado no juízo; que aquele que disser a seu irmão: Raca, merecerá condenado pelo conselho; e que aquele que lhe disser: És louco, merecerá condenado ao fogo do inferno. (Id., vv. 21 e 22.)
O Evangelho Segundo o Espiritismo nos diz que por essas palavras, Jesus faz da brandura, da moderação, da mansuetude, da afabilidade e da paciência, uma lei. Condena, por conseguinte, a violência, a cólera e até toda expressão descortês de que alguém possa usar para com seus semelhantes, como por exemplo, “Raca”, que entre os hebreus, era um termo desdenhoso, ofensivo, que significava homem que não vale nada, e se pronunciava cuspindo e virando para o lado a cabeça. O Mestre a usou para exemplificar que, jamais, em nenhuma circunstância, devemos usar o verbo para ferir, humilhar. Mas, em que pode uma simples palavra revestir-se de tanta gravidade que mereça tão severa punição? É que toda palavra ofensiva exprime um sentimento contrário à lei do amor e da caridade que deve presidir às relações entre os homens e manter entre eles a concórdia e a união. Desde há dois mil anos que Jesus de Nazaré trouxe à Humanidade um código de conduta que traria ao homem a felicidade. Esse código de conduta, esses ensinamentos ético-morais que o Cristo deixou na Terra, são a garantia da paz, da felicidade, do bem-estar interior.
Os textos de Mateus são um convite ao exercício pleno da lei de amor. Observemos que Jesus reprova toda palavra que possa ferir; adverte àqueles que cometem homicídio. Matar é uma pena grave? Sim! O Cristo está colocando aqui. Mas, a mesma pena que Ele coloca para quem mata, Ele também coloca para aquele que encolerizar, aquele que sentir raiva, ódio contra seu irmão. Vejamos: será que sentir ódio é tão grave quanto matar? Sábias palavras do Mestre, Ele não estava fazendo uma ameaça, estava falando com sabedoria; porque sentir ódio é tão grave quanto matar. Na verdade, quando nós sentimos ódio, nós estamos matando a nós mesmos; é um suicídio involuntário, mas é um suicídio.
E o que vem a ser brando e pacífico, de fato? Seria simplesmente não reagir? Ficar impassível diante de provocações? É ter mansidão desde o lado mais interno nosso, com as outras pessoas, consequentemente é ter fé na Providência Divina, o que nos dá tranquilidade íntima de que não precisamos agredir, nem em pensamento, quem quer que seja, para que as coisas fiquem bem; que não precisamos forçar as coisas. É respirar fundo e refletir antes de reagir, e evitar que a reação venha contaminada das emoções desequilibradas.
Dentro do tema, um ponto que é necessário esclarecer refere-se à expressão "os brandos possuirão a Terra". O que exatamente significa isso, uma vez que Jesus nos prometia constantemente o "Reino dos Céus" e esta máxima parece apontar exatamente o oposto? Podemos entender que Ele quis dizer que até agora os bens da Terra são açambarcados pelos violentos, em prejuízo dos que são brandos e pacíficos. E promete que justiça lhes será feita, porque serão chamados filhos de Deus. A Terra, um dia, será um planeta feliz, um planeta regenerado, e aqueles que tiverem sido brandos e pacíficos poderão viver aqui. Possuir a Terra, certamente não significa possuir os bens materiais. As palavras de Jesus referem-se ao futuro estágio por que passará a Terra. No futuro, quando o planeta estiver mais depurado, aqueles que houverem sido brandos e pacíficos, artífices da paz coletiva, terão o privilégio de continuar reencarnando aqui.
Questões para reflexão:
1 - Quem são os considerados "brandos e pacíficos"?
São aqueles que, reconhecendo a necessidade de disseminar a paz entre os homens, a exemplo do Cristo, propagam a tranquilidade nos corações revoltados e violentos, estabelecendo a concórdia entre eles.
“A paz começa em nós e por nós. Os pacificadores são aqueles que aceitam em si o fogo das dissensões, de modo a extingui-lo com os recursos da própria alma, doando tranquilidade a todos que lhes compartilham a marcha."
2 - Afinal, o que há de tão ruim em alguém se colocar em cólera?
A cólera, além de se consistir numa atitude anti-fraterna das mais censuráveis para com o semelhante, provoca sérios desajustes orgânicos naquele que a cultiva, fazendo deste a sua principal vítima.
“A cólera é tempestade magnética, no mundo da alma, e qualquer palavra que arremessarmos, no momento da cólera, é semelhante ao raio que ninguém sabe onde vai cair."
3 - Como sobreviver com brandura num mundo de violência?
Cumprindo o nosso papel, segundo as recomendações do Mestre, agindo com brandura, moderação e paciência, e tendo sempre a confiança em Deus.
Nossa vida está sujeita a leis imutáveis, de sabedoria e amor. A violência é um desregramento transitório que a dor corrigirá.
4 - Mas, se mesmo com nossos atos de brandura, recebermos em troca pedradas de violência?
Nossa ação de brandura transformará essas pedras em flores de esperança aos infelizes protagonistas da violência, sob os acordes da justiça e da bondade de Deus, cuja atuação é individualizada para cada ser humano.
Os bens da Terra, hoje, ainda são dominados pelos fortes e violentos, em prejuízo dos que são brandos e pacíficos. Mas a perseverança destes se encarregará de conter o egoísmo daqueles.
Conclusão do Estudo:
A violência, sentimento contrário à lei de Deus, que é de paz, constitui um desregramento transitório. Deixará de existir na Terra, na medida em que adotarmos, para neutralizá-la, a brandura, a mansuetude, a afabilidade, a moderação e a paciência, sentimentos que nos farão merecedores de habitar este Planeta, depois que ele houver se transformado pelo amor, num mundo melhor.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VIII – BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS

Bem-aventurados os que têm fechados os olhos
Itens 20 e 21

Bem-aventurados os que têm os olhos fechados. É importante dizer que esta frase não faz parte do maravilhoso Sermão do Monte, proferido por Jesus.
Em Paris, um grupo de pessoas espíritas se reunia normalmente para o estudo dos ensinamentos dos Espíritos. Em uma noite do ano de 1863, um dos componentes do grupo levou para a reunião uma menina que havia ficado cega, com a intenção de rogar a intercessão dos amigos espirituais, em favor dela. Os demais companheiros do grupo aceitaram a sugestão. E, após os estudos de praxe, ocasião em que tiveram a oportunidade de buscarem o contato com a espiritualidade, através da mediunidade, um dos presentes lembrou-se de um Espírito muito amado na França, e resolveu evocar a presença de Jean-Marie Baptiste Vianney, também conhecido como Cura de Ars. E, para alegria de todos os presentes, o benfeitor espiritual se manifestou, e, utilizando-se das faculdades mediúnicas de um dos participantes da reunião, falou a todos os presentes, deixando uma mensagem de consolação e de esclarecimento. Eis a mensagem:
20. Meus bons amigos, para que me chamastes? Terá sido para que eu imponha as mãos sobre a pobre sofredora que está aqui e a cure? Ah! Que sofrimento, bom Deus! Ela perdeu a vista e as trevas a envolveram. Pobre filha! Que ore e espere. Não sei fazer milagres, eu, sem que Deus o queira. Todas as curas que tenho podido obter e que vos foram assinaladas não as atribuais senão àquele que é o Pai de todos nós. Nas vossas aflições, volvei sempre para o céu o olhar e dizei do fundo do coração: “Meu Pai, cura-me, mas faze que minha alma enferma se cure antes que o meu corpo; que a minha carne seja castigada, se necessário, para que minha alma se eleve ao teu seio, com a brancura que possuía quando a criaste”. Após essa prece, meus amigos, que o bom Deus ouvirá sempre, dadas vos serão a força e a coragem e, quiçá, também a cura que apenas timidamente pedistes, em recompensa da vossa abnegação.
Contudo, uma vez que aqui me acho, numa assembleia onde principalmente se trata de estudos, dir-vos-ei que os que são privados da vista deveriam considerar-se os bem-aventurados da expiação. Lembrai-vos de que o Cristo disse convir que arrancásseis o vosso olho se fosse mau, e que mais valeria lança-lo ao fogo, do que deixar se tornasse causa da vossa condenação. Ah! Quantos há no mundo que um dia, nas trevas, maldirão o terem visto a luz! Oh! Sim, como são felizes os que, por expiação, vêm a ser atingidos na vista! Os olhos não lhes serão causa de escândalo e de queda; podem viver inteiramente da vida das almas; podem ver mais do que vós que tendes límpida a visão! Quando Deus me permite descerrar as pálpebras a algum desses pobres sofredores e lhes restituir a luz, digo a mim mesmo: Alma querida, por que não conheces todas as delícias do Espírito que vive de contemplação e de amor? Não pedirias, então, que se te concedesse ver imagens menos puras e menos suaves, do que as que te é dado entrever na tua cegueira!
Oh! Bem-aventurado o cego que quer viver com Deus. Mais ditoso do que vós que aqui estais, ele sente a felicidade, toca-a, vê as almas e pode alçar-se com elas às esferas espirituais que nem mesmo os predestinados da Terra logram divisar. Abertos, os olhos estão sempre prontos a causar a falência da alma; fechados, estão prontos sempre, ao contrário, a fazê-la subir para Deus. Crede-me, bons e caros amigos, a cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração, ao passo que a vista é, com frequência, o anjo tenebroso que conduz à morte.
Agora, algumas palavras dirigidas a ti, minha pobre sofredora. Espera e tem ânimo! Se eu te dissesse: Minha filha, teus olhos vão abrir-se, quão jubilosa te sentirias! Mas, quem sabe se esse júbilo não ocasionaria a tua perda! Confia no bom Deus, que fez a ventura e permite a tristeza. Farei tudo o que me for consentido a teu favor; mas, a teu turno, ora e, ainda mais, pensa em tudo quanto acabo de dizer.
Antes que me vá, recebei todos vós, que aqui vos achais reunidos, a minha bênção. (Vianney, cura d’Ars. Paris, 1863).
Como ficou patenteado, a criança, embora estivesse amparada, não encontrou a solução para o seu problema. E, por que o Cura de Ars não curou aquela menina? Por certo, ele queria sim curar aquela criança. Vianney tinha poder para fazer a cura; ele também queria curar a menina. Porém, ele não pode efetuar essa cura, embora se sensibilizasse com o sofrimento daquela criança. O cura de Ars, provavelmente, percebeu que as leis magnânimas do Criador haviam instituído para aquele espírito aquela expiação necessária. Pois, era necessário que a criança vivenciasse aquela dor, ou seja, a cegueira. Naturalmente, quando o benfeitor olhou para aquela menina não viu, como os companheiros do grupo, só o presente. Ele identificou o passado, observou o presente, e vislumbrou o futuro. Ao ver o passado, compreendeu onde estava a causa do sofrimento presente, onde aquele espírito havia se equivocado. E, agora no presente, ele estava vivenciando a expiação necessária. E, vislumbrando o futuro, compreendeu a justiça de Deus, entendendo que, se aquele espírito vivenciasse essa expiação necessária, sairia da Terra vitorioso, quite com seus equívocos do passado. Por esse motivo, Vianney não pode interferir em respeito e obediência aos códigos superiores da vida.
“Esperai, pois, todos vós que aí viveis, causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas e profundas sejam as vossas dores, volvei o olhar para o céu e bendizei do Senhor por ter querido experimentar-vos”. E o remédio para o espírito é exatamente a própria dor que ele está enfrentando. É muito importante nós refletirmos sobre isso, porque, muitas vezes, nós chegamos à Casa Espírita, levados por alguém ou levados pela dor, em condições de sofrimento semelhantes a dessa menina da narrativa, e, por certo, os Benfeitores Espirituais irão nos ajudar. Mas, em se tratando da solução do nosso problema, da cura efetiva de nosso mal, nem sempre é possível que os Espíritos intercedam a nosso favor, isso porque, existem causas anteriores para o nosso padecimento atual, e esse sofrimento que nós enfrentamos é a nossa necessidade, é o nosso remédio para o nosso próprio crescimento espiritual. Deus, que é infinitamente bom e justo, jamais permite uma doença ou qualquer dificuldade se elas não tivessem um objetivo salutar para o espírito. Agora, por que Vianney disse que são bem-aventurados os que não podem enxergar? Para nós entendermos essas palavras do Cura de Ars, precisamos compreender que existem dois tipos de cegueira: a cegueira física e a cegueira espiritual. Com relação à cegueira física, narram alguns evangelistas que, certa vez, Jesus, acompanhado por seus discípulos, e passando pelo tanque de Siloé, avistou um homem que era cego, e um dos discípulos, alertando o Mestre, disse que aquele homem era cego de nascença, e perguntou quem havia pecado, ele ou seus pais para que ele nascesse assim, e o Cristo respondeu que nem ele nem os seus pais. Ele nasceu assim para dar testemunho do Reino dos Céus. Jesus deixou os discípulos e caminhou na direção daquele homem cego. Cuspiu na terra, e com a saliva fez uma espécie de pasta e aplicou nos olhos daquele homem, e mandou-o se lavar no tanque. Então, ele lavou os olhos e, a partir daquele momento, estava curado. Com relação à cegueira espiritual, vamos acompanhar um jovem doutor da Lei: ele segue com uma pequena comitiva em direção a Damasco. O seu propósito é prender um ancião, de nome Ananias, seguidor de um carpinteiro chamado Jesus. Mas, quando ele está se aproximando da cidade, um fato inusitado acontece. Uma luz esplendorosa brilha no céu. Saulo de Tarso cai de joelhos na areia e percebe que aquela luz magnífica começa a tomar forma. É o Mestre Jesus que estava vindo ao seu encontro. E o Rabi da Galileia faz apenas uma pergunta: Saulo, Saulo! Por que me persegues? Naquele instante, vislumbrando aquele homem vestido de luz e, diante daquela indagação, Saulo compreendeu que estava errado, estava numa profunda escuridão. Aquele ser de luz era o Messias que havia de vir. Então, ele também pergunta: Senhor, o que queres que eu faça? Jesus vai ao encontro daquele homem no tanque de Siloé e o cura da cegueira física; e, igualmente vai ao encontro daquele doutor da Lei e o cura da cegueira espiritual. Agora, já podemos entender porque Vianney disse que são bem-aventurados os que têm os olhos fechados. Porque a cegueira física do presente é a remissão do espírito. A Doutrina Espírita é uma doutrina de profundidade. Não é uma doutrina de superfície. Ela não promete curas espetaculares. O Espiritismo nos convida a ter fé raciocinada, a confiar na mensagem de Jesus.
21. NOTA: Quando uma aflição não é a consequência dos atos da vida presente, é necessário procurar a sua causa numa vida anterior. Isso que chamamos caprichos da sorte nada mais são que os efeitos da justiça de Deus. Ele não aplica punições arbitrárias, pois quer sempre que entre a falta e a pena exista correlação. Se, na sua bondade, lança um véu sobre os nossos atos passados, entretanto nos aponta o caminho a dizer: “Quem matou pela espada, pela espada perecerá”, palavras que podemos traduzir assim: “Somos sempre punidos naquilo em que pecamos”. Se, pois, alguém é afligido com a perda da visão, é que a vista foi para ele uma causa de queda. Talvez também tenha sido causa da perda da vista para outro; pode alguém ter ficado cego pelo excesso de trabalho que lhe impôs, ou ainda em consequência de maus tratos, de falta de cuidados, etc., e então sofre agora a pena de talião. Ele mesmo, no seu arrependimento, pode ter escolhido esta expiação, aplicando a si próprio estas palavras de Jesus: “Se vosso olho for motivo de escândalo, arrancai-o”.
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CAPÍTULO VIII – BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO
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Deixai que venham a mim as criancinhas

Itens 18 e 19

18. Disse o Cristo: “Deixai que venham a mim as criancinhas”. Profundas em sua simplicidade, essas palavras não continham um simples chamamento dirigido às crianças, mas, também, o das almas que gravitam nas regiões inferiores, onde o infortúnio desconhece a esperança. Jesus chamava a si a infância intelectual da criatura formada; os fracos, os escravizados e os viciosos. Ele nada podia ensinar à infância física, presa à matéria, submetida ao jugo do instinto, ainda não incluída na categoria superior da razão e da vontade que se exercem em torno dela e por ela.
Queria que os homens a ele fossem com confiança daqueles entezinhos de passos vacilantes, cujo chamamento conquistava, para o seu, o coração das mulheres, que são todas mães. Submetia assim as almas à sua terna e misteriosa autoridade. Ele foi o facho que ilumina as trevas, a claridade matinal que toca a despertar; foi o iniciador do Espiritismo, que a seu turno atrairá para ele, não as criancinhas, mas os homens de boa-vontade. Está empenhada a ação viril; já não se trata de crer instintivamente, nem de obedecer maquinalmente; é preciso que o homem siga a lei inteligente que se lhe revela na sua universidade.
Meus bem-amados, são chegados os tempos em que, explicados, os erros se tornarão verdades. Ensinar-vos-emos o sentido exatos das parábolas e vos mostraremos a forte correlação que existe entre o que foi e o que é. Digo-vos, em verdade: a manifestação espírita avulta no horizonte, e aqui está o seu enviado, que vai resplandecer como o Sol no cume dos montes. (João Evangelista. Paris, 1863).
19. Deixai venham a mim as criancinhas, pois tenho o leite que fortalece os fracos. Deixai venham a mim todos os que, tímidos e débeis, necessitam de amparo e consolação. Deixai venham a mim os ignorantes, para que eu os esclareça. Deixai venham a mim todos os que sofrem, a multidão dos aflitos e dos infortunados; eu lhes ensinarei o grande remédio que suaviza os males da vida e lhes revelarei o segredo da cura de suas feridas! Qual é, meus amigos, esse bálsamo soberano, que possui tão grande virtude, que se aplica a todas as chagas do coração e as cicatriza? É o amor, é a caridade! Se possuís esse fogo divino, que é o que podereis temer? Direis a todos os instantes de vossa vida: “Meu Pai, que a tua vontade se faça e não a minha; se te apraz experimentar-me pela dor e pelas tribulações, bendito sejas, porquanto é para meu bem, eu o sei, que a tua mão sobre mim se abate. Se é do teu agrado, Senhor, ter piedade da tua criatura fraca, dar-lhe ao coração as alegrias sãs, bendito sejas ainda. Mas, faze que o amor divino não lhe fique amodorrado na alma, que incessantemente faça subir aos teus pés o testemunho do seu reconhecimento”.
Se tendes amor, possuís preciosíssima pérola, que nem os acontecimentos, nem as maldades dos que vos odeiem e persigam poderão arrebatar. Se tendes amor, tereis colocado o vosso tesouro lá onde os vermes e a ferrugem não o podem atacar e vereis apagar-se da vossa alma tudo o que seja capaz de lhe conspurcar a pureza; sentireis diminuir dia a dia o peso da matéria e, qual pássaro que adeja nos ares e já não se lembra da Terra, subireis continuamente, subireis sempre, até que vossa alma, inebriada, se farte do seu elemento de vida no seio do Senhor. (Um Espírito protetor. Bordéus, 1861).
Na leitura que fazemos de O Evangelho Segundo o Espiritismo verificamos que Jesus sempre ressaltou a importância e o valor da pureza de coração, da humildade e da simplicidade, dizendo: “Todo aquele que se fizer pequeno como uma criança será o maior no Reino de Deus”, “E deixai vir a mim as criancinhas”.
Esta belíssima mensagem de Jesus, grafada por João, o Evangelista, é um apelo do Cristo aos seus discípulos, que queriam afastar as crianças, por pensarem que elas incomodariam o Mestre, que tinha o que dizer aos adultos, não às crianças, que não poderiam compreendê-lo.
Com este apelo, queria Jesus que os homens aceitassem seus ensinamentos, e se entregassem a Ele, com a confiança das crianças.
Assim, na sua maneira de ensinar, aproveitando as situações naturais, falando pouco e com muito significado, o Rabi submetia as almas à sua terna e misteriosa autoridade, que vinha de sua pureza de espírito.
O Cristo não disse categoricamente que basta ser criança para ter lugar no Reino de Deus, mas, sim, aqueles que possuem a pureza de coração e a humildade que caracterizam todas as crianças.
A Doutrina Espírita nos ensina que somos seres de muitas existências, todos nós já vivemos muitas vidas, todos indistintamente fomos criados simples e ignorantes. E que é através da reencarnação que vamos nos depurando, que vamos conquistando a pureza de coração. A reencarnação é o meio para atingirmos a igualdade e a harmonia de pensamento, pois o nosso destino é a angelitude onde gozaremos a verdadeira felicidade.
Por isso Jesus pega a criança como exemplo, pois a infância é um estado de humildade, pois todo recomeço requer essa virtude, o espírito nesta fase está na posse do melhor de si mesmo, de sua capacidade de amar, de seu desejo de aprender, essa fase faz parte da função educativa da reencarnação como nova oportunidade de reconstruir sua personalidade, daí a importância da educação que devemos dispensar as crianças.
O Espírito nesse período inicial de sua nova encarnação age realmente como criança, pois toda aquela bagagem que traz consigo estão adormecidas, nisso reside a verdadeira misericórdia Divina, é a benção do recomeço, nova oportunidade de progresso
Conclusão do Estudo:
O termo criancinhas se estende aos infelizes, fracos, escravizados, viciados de qualquer idade, aos quais Jesus concita a atenção e benevolência dos homens, e para os quais promete Ele o consolo e amparo de que são carentes. Para Deus, nosso Pai, somos ainda crianças espirituais, carentes de amor e orientação.
Questões para estudo:
1 - A quem mais se referiu Jesus com o termo "criancinhas", além de se reportar a estas propriamente?
Referiu-se, principalmente, aos infelizes, fracos, escravizados, viciados de qualquer idade, porquanto são estes os que mais carecem de auxílio.
"Jesus chamava a si a infância intelectual da criatura formada..."
2 - O que pretendia Jesus com o chamamento "Deixai que venham a mim as criancinhas"?
Jesus propôs que se dirigissem a Ele, com esperança e confiança, todos aqueles que, quais frágeis e indefesas crianças, necessitassem do seu amparo, pois Nele encontrariam acolhida.
"Queria que os homens a Ele fossem com a confiança daqueles entezinhos de passos vacilantes, cujo chamamento conquistava, para o seu, o coração das mulheres, que são todas mães."
3 - Como conseguir desenvolver o amor e a caridade, que são os veículos que nos levarão à felicidade?
Destruindo, primeiramente, o foco maior e causador de toda nossa degradação moral: o orgulho; depois, agindo consoante a recomendação e o exemplo do Cristo. Em resumo: tornando-nos mais criancinhas, no dizer de Jesus.
Ninguém pode doar amor e praticar a caridade sem, antes, tornar-se humilde ante os desígnios de Deus.
Conclusão do Estudo:
O termo criancinhas se estende aos infelizes, fracos, escravizados, viciados de qualquer idade, aos quais Jesus concita a atenção e benevolência dos homens, e para os quais promete Ele o consolo e amparo de que são carentes. Para Deus, nosso Pai, somos ainda crianças espirituais, carentes de amor e orientação.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VIII – BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO

Itens de 11 a 17
Escândalos. Se a vossa mão é motivo de escândalo, cortai-a
11. Se algum escandalizar a um destes pequenos que creem em mim, melhor fora que lhe atassem ao pescoço uma dessas mós que um asno faz girar e que o lançassem no fundo do mar.
Ai do mundo por causa dos escândalos; pois é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha.
Tende muito cuidado em não desprezar um destes pequenos. Declaro-vos que seus anjos no céu veem incessantemente a face de meu Pai que está nos céus, porquanto o filho do homem veio salvar o que estava perdido.
Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno. Se vosso olho vos é objeto de escândalo, arrancai-o e lançai-o longe de vós; melhor para vós será que entreis na vida tendo um só olho, do que terdes dois e serdes precipitados no fogo do inferno. (Mateus, cap. XVIII, vv. 6 a 11; cap. V, vv. 29 e 30).
Kardec selecionou este ensinamento de Jesus para compor este capítulo: “Os que têm puro o coração”. Realmente, o coração puro faz o homem caminhar conforme as Leis Divinas, e não semeia o sofrimento e a dor. Não escandaliza.
Muitos de nós guardamos este ensinamento sobre os escândalos junto com outros tantos ensinos do Cristo, que nos parecem incompreensíveis. A Doutrina Espírita encarregou-se de clarear o caminho da compreensão, abrindo portas para que o conhecimento pudesse adentrar o homem, através do raciocínio, e penetrar no coração dele.
Buscando compreender o que se entende por escândalo, encontramos nas traduções da Bíblia que essa palavra significa tropeço, e que Jesus a usava se referindo a tudo que leva o homem à queda, ou seja, o mau exemplo, os princípios falsos, o abuso de poder, etc.
No sentido moderno, a palavra escândalo representa a exposição pública de ato indecoroso, fazendo com que a imagem de quem cometeu tal ato seja manchada, e sua reputação ante a sociedade caia em declínio. Todavia, se apreciarmos o sentido evangélico da palavra, o sentido que Jesus lhe deu, podemos entender que, a repercussão pública, a exposição do erro, não se faz necessária. Escândalo, então, assume a conotação de tudo que é consequência efetiva do mal praticado. Mesmo abafado, escondido, camuflado, ele não deixa de ter uma repercussão ante as Leis Divinas, disparando o mecanismo de causa e efeito. Vamos exemplificar este escândalo. Um homem distinto, considerado de boa reputação comete um crime, um assassinato, por exemplo. Entretanto, este crime nunca é resolvido, ele nunca se faz exposto. Deixou de ter existido o crime? Não! O escândalo se fez! O mal se efetivou! A ocultação do crime não torna este homem menos responsável pelo acontecido. Da mesma forma dá-se com qualquer ato que resulte no sofrimento alheio. Jesus disse: é necessário que haja o escândalo! Vimos que o escândalo nada mais é do que o tropeço, o erro, uma ação má. Se pensarmos que fomos criados simples e ignorantes e que o mal nada mais é que o fruto desta ignorância, ou seja, o mal é resultado direto de nossa imperfeição, compreenderemos que, com propriedade, Jesus colocou-nos apenas em nossa condição de seres em evolução, onde o agir de forma desarmônica com as Leis Divinas expressa, na verdade o livre arbítrio que nos foi dado para traçar o próprio caminho, sendo que, o ponto final, o destino, é o mesmo para todos: alcançar a perfeição. Jesus também deu um complemento à sua frase: Mas, ai daquele por quem venha o escândalo! Jesus nos veio ensinar e mostrar a possibilidade da prática. Ai daquele que tropeça ainda em sua própria ignorância. Ele sabe da inevitável necessidade de erguermo-nos após a queda. Sabe que serão necessários alguns meios para despertarmos. Sabe que, muitas vezes, para compreendermos que aquilo que fizemos ao nosso próximo gera sofrimento e dor, precisamos vivenciar esta dor, senti-la em nosso peito, na tentativa de nos fazer acordar e continuar a caminhada. Não há neste sentido uma punição ao erro e sim uma tentativa de despertar, derrubar as justificativas que construímos em torno de nós mesmos, mostrar-nos que, o que antes parecia o mais certo a fazer não passava de pura ilusão. Ainda em sequência, Jesus nos mostra como nos livrarmos deste mal, o escândalo, das más tendências que Kardec afirma precisarmos eliminar, a fim de sermos bons. Se vossa mão é causa de escândalo, cortai-a. Esta figura de linguagem forte, enérgica traz uma proposta de reforma. Cada um de nós deve, ao longo da vida, procurar eliminar de si próprio toda e qualquer causa de escândalo. Arrancar as raízes dos vícios que nos cegam e estagnam na ignorância. A reforma íntima exige de nós esta atitude enérgica, esta luta contra nossa ignorância, mãe de todos os males. Exige que tenhamos uma visão clara de nós mesmos, pelo uso do autoconhecimento, e que nos libertemos de tudo que nos pesa na bagagem: o egoísmo, o orgulho, a intolerância. Somos a expressão do que vai dentro de nós. Dessas expressões nasce o escândalo. Cortar a mão significa fechar o canal de expressão que acaba por ferir o próximo. Eliminar o que, em nossas vidas, nos leva a cair. Kardec nos orientou rumo ao amor e a instrução. Sua célebre frase faz uma releitura dos maiores ensinamentos de Jesus: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo com a si mesmo, este o maior. E outro fundamental: Conhece a verdade e ela te libertará! Precisamos estar alertas de que a limpeza de nossos corações está diretamente relacionada ao remexer do solo, a remoção das ervas daninhas. O preparo deste solo, areando-o com amor e sabedoria, deixando o sol, que é o amor do Pai, penetrar-lhe o íntimo, espantando a escuridão. E então, seremos terreno fértil, onde as sementes Divinas brotarão e darão frutos.
Conclusão do estudo:
Para que aquele povo há 2000 mil anos atrás pudesse entender, muitas e muitas vezes, Jesus usou de expressões fortes e rigorosas nos Seus ensinos. Mas o verdadeiro sentido das palavras do Cristo era para que percebêssemos em nós os nossos erros como: se você rouba, se você maltrata com sua mão, então faça algo para mudar isso, que não a use mais para prejudicar ninguém, use sua mão para outra coisa que não seja maltratar, ou, não use mais sua mão. É melhor você deixar de fazer uso daquilo que te prejudica ou maltrate alguém do que usa-la. Fez uso de expressões usuais, para que fixassem o que ouviam, tais como pendurar a mó no pescoço e ser lançado ao mar, fogo eterno, fogo do inferno, apenas para que suas metáforas ajudassem na fixação das lições que, pretendia ele, fossem divulgadas por toda a humanidade. Quando Ele diz que é melhor entrar na vida manco ou aleijado, do que com as duas mãos e dois pés e ser lançado no fogo do inferno. (quer dizer ou ter sua vida prejudicada, por seus vícios e costumes e ficar com a consciência pesada por um longo período). Vemos hoje pessoas nascerem, com problemas físicos, sem mãos, sem um dedo, que é justamente para que não caiam nos erros anteriores. Pois em vidas passadas, viveram almejando as coisas dos outros, ou tirando, ou abusando do seu físico, inteligência, visão, audição etc... Dai o porquê hoje vem com alguns problemas, para que transformem e mudem sua maneira de ser durante uma encarnação inteira, e assim ajustem seu espirito e se reequilibrem, tornando-se uma pessoa melhor. Vindo sem as mãos elas não caem mais no erro, e mais que isso, elas vão precisar daqueles que ela prejudicou. Não devemos entender como um castigo, mas como reajuste do próprio espirito com aqueles que ele prejudicou.
O espiritismo explica que punição eterna contraria o amor e a justiça de Deus. Entende-se inferno, fogo do inferno, como sendo o sofrimento causado pelas infringências às leis divinas, pelo remorso dos erros cometidos, que pode ser extremamente doloroso, conforme os requintes de maldade com que essas faltas foram perpetradas, mas, sempre sofrimento provisório, levando o Espírito a querer libertar-se, passando a querer redimir-se, seja a que preço for.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VIII – BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO

Itens de 8 a 10
Verdadeira pureza – Mãos não lavadas

8. Então os escribas e os fariseus, que tinham vindo de Jerusalém, aproximaram-se de Jesus e lhe disseram: “Por que violam os teus discípulos a tradição dos antigos, uma vez que não lavam as mãos quando fazem suas refeições?”
Jesus lhes respondeu: “Por que violais vós outros o mandamento de Deus, para seguir a vossa tradição? Porque Deus pôs este mandamento: Honrai a vosso pai e a vossa mãe; e este outro: Seja punido de morte aquele que disser a seu pai ou a sua mãe palavras ultrajantes; e vós outros, no entanto, dizeis: Aquele que haja dito a seu pai ou a sua mãe – Toda oferenda que faço a Deus vos é proveitosa, satisfaz à lei, ainda que depois não honre, nem assista a seu pai ou a sua mãe. Tornam assim inútil o mandamento de Deus, pela vossa tradição.
Hipócritas, bem profetizou de vós Isaias, quando disse: Este povo me honra de lábios, mas conserva longe de mim o coração; é em vão que me honram ensinando máximas e ordenações humanas”.
Depois, tendo chamado o povo, disse: “Escutai e compreendei bem isto: Não é o que entra na boca que macula o homem; o que sai da boca do homem é que macula. O que sai da boca procede do coração e é o que torna impuro o homem; porquanto do coração é que partem os maus pensamentos, os assassínios, os adultérios, as fornicações, os latrocínios, os falsos-testemunhos, as blasfêmias e as maledicências. Essas são as coisas que tornam impuro o homem; o comer sem haver lavado as mãos não é o que o torna impuro”.
Então, aproximando-se dele, disseram-lhe seus discípulos: “Sabeis que, ouvindo o que acabais de dizer, os fariseus se escandalizaram?” Ele, porém, respondeu: “Arrancada será toda planta que meu Pai celestial não plantou. Deixai-os, são cegos que conduzem cegos; se um cego conduz outro, caem ambos no fosso”. (Mateus, cap. XV, vv. 1 a 20).
9. Enquanto ele falava, um fariseu lhe pediu que fosse jantar em sua companhia. Jesus foi e sentou-se à mesa. O fariseu entrou então a dizer consigo mesmo: “Por que não lavou ele as mãos antes do jantar?” Disse-lhe, porém, o Senhor: “Vós outros, fariseus, pondes grande cuidado em limpar o exterior do copo e do prato; entretanto, o interior dos vossos corações está cheio de rapinas e de iniquidades. Insensatos que sois! Aquele que fez o exterior não é o que faz também o interior?” (Lucas, cap. XI, vv. 37 a 40).
10. Os judeus haviam desprezado os verdadeiros mandamentos de Deus para se aferrarem à prática dos regulamentos que os homens tinham estatuído e da rígida observância desses regulamentos faziam casos de consciência. A substância, muito simples, acabara por desaparecer debaixo da complicação da forma. Como fosse muito mais fácil praticar atos exteriores, do que se reformar moralmente, lavar as mãos do que expurgar o coração, iludiram-se a si próprios os homens, tendo-se como quites para com Deus, por se conformarem com aquelas práticas, conservando-se tais quais eram, visto se lhes ter ensinado que Deus não exigia mais do que isso. Daí o haver dito o profeta: É em vão que este povo me honra de lábios, ensinando máximas e ordenações humanas.
Verificou-se o mesmo com a doutrina moral do Cristo, que acabou por ser atirada para segundo plano, donde resulta que muitos cristãos, a exemplo dos antigos judeus, consideram mais garantida a salvação por meio das práticas exteriores, do que pelas da moral. É a essas adições, feitas pelos homens à lei de Deus, que Jesus alude, quando diz: Arrancada será toda planta que meu Pai celestial não plantou.
O objetivo da religião é conduzir a Deus o homem. Ora, este não chega a Deus senão quando se torna perfeito. Logo, toda religião que não torna melhor o homem, não alcança o seu objetivo. Toda aquela em que o homem julgue poder apoiar-se para fazer o mal, ou é falsa, ou está falseada em seu princípio. Tal o resultado que dão as em que a forma sobreleva ao fundo. Nula é a crença na eficácia dos sinais exteriores, se não obsta a que se cometam assassínios, adultérios, espoliações, que se levantem calúnias, que se causem danos ao próximo, seja no que for. Semelhantes religiões fazem supersticiosos, hipócritas, fanáticos; não, porém, homens de bem.
Não bastam se tenham as aparências da pureza; acima de tudo, é preciso ter a do coração.
Neste estudo há um ponto de vista muito importante para nós todos, e esse ponto de vista é: “A finalidade da religião é conduzir o homem a Deus. Mas o homem não chega a Deus enquanto não se fizer perfeito. Toda religião, portanto, que não melhorar o homem, não atinge a sua finalidade”.
Entendemos hoje em dia o lavar as mãos, como uma necessidade higiênica, e não uma questão religiosa. Mas, naquele tempo em que Jesus viveu, o lavar as mãos era um ponto religioso e de cerimônia a ser observado. (Devia-se banhar as mãos, até os cotovelos; na primeira, eram retiradas as impurezas; na segunda, as gotículas residuais contaminadas; depois, ficavam erguidas, até secarem). Essa mera tradição dos antigos, tornara-se prática formal que se devia observar com rigor. Do ponto de vista de higiene, Jesus certamente não teria falado nada. Mas, como a reclamação era sob o aspecto religioso, Jesus ressaltou que, o que suja o homem e o faz imundo são as coisas que saem do coração, tais como maus pensamentos, adultérios, etc.. E, que, o comer com as mãos por lavar, isso não faz o homem imundo.
A maior divergência de Jesus com o judaísmo dominante era a intransigência deles. O Mestre reiterava que os aspectos exteriores da religião são secundários, o que importa é o empenho de renovação, o esforço por cumprir a vontade de Deus, amando e servindo o semelhante. Os judeus negligenciaram os verdadeiros mandamentos de Deus, para se apegarem à prática dos regulamentos estabelecidos pelos homens. Como era mais fácil observar os atos exteriores do que se reformar moralmente, lavar as mãos do que limpar o coração, os homens se iludiram e se acreditaram quites com Deus.
Quem eram os escribas e os fariseus? Os primeiros eram assim chamados por terem o cargo de escrever a lei e explicá-la. Já, no tempo de Jesus, essa designação referia-se, especialmente, aos doutores da lei, que ensinavam a lei de Moisés e a interpretavam para o povo. Jesus os citou juntos com os fariseus, porque eles partilhavam dos seus princípios e tinham aversão aos inovadores. Fariseus, adeptos da seita judia, fundada por Hilel, nos anos de 180 a 200 antes de Cristo, doutor judeu nascido na Babilônia. Foram perseguidos, recuperaram o poder, conservando-o até a queda de Jerusalém, pelos romanos, no ano 70 após Cristo, quando a seita desapareceu, com a dispersão dos judeus. Aceitavam que a fé só era dada pelas escrituras, acreditavam na Providência divina, na imortalidade da alma, na eternidade das penas, na ressurreição dos mortos. Eram rigorosos nas práticas exteriores do culto e das cerimônias; inimigos das inovações, afetavam grande severidade de princípios, mas tinham costumes dissolutos às escondidas; exerciam grande influência sobre o povo, pelo rigor na observação das práticas exteriores. A religião para eles era um meio de possuir o poder. As leis políticas, os usos e costumes do povo judeu eram frutos das interpretações das leis de Moisés. Todavia, pela própria imperfeição do homem em seguir os Dez Mandamentos, estes foram sendo negligenciados, no decorrer do tempo, de forma que, mais valorizadas eram as práticas exteriores dos mesmos, por serem mais visíveis, mais fáceis de serem percebidas e de serem cumpridas.
Na citação de Jesus, em relação ao mandamento: “Honrai teu pai e tua mãe”, fazia parte da lei o amparo material aos pais. Mas eles burlavam a lei alegando que o dinheiro que davam ao Senhor, nos templos, já era o cumprimento da lei, uma vez que, então, o Senhor cuidaria deles. E Jesus os desmascara com suas palavras. Quando Jesus diz: “Toda planta que meu Pai não plantou será arrancada”, referia-se a todo uso, costume, hábito, lei, que não estivassem de acordo com a Sua lei, o bem. Tudo que traz prejuízo a alguém, a si mesmo ou a outrem, que não beneficia, não foi criado por Deus, mas constitui-se em mandamentos dos homens imperfeitos, egoístas e orgulhosos, que se julgam poderosos, desaparecerão da Humanidade terrestre regenerada. Por isto, hoje, quem pretende seguir os ensinos de Jesus, precisa estar, continuamente, estudando-os, trazendo-os para os dias atuais, a fim de não se perder nos hábitos dos que buscam viver somente o presente, sem medir as consequências dos mesmos.
Questões para reflexão:
1.      Por que Jesus deu tão pouca importância ao fato de lavar as mãos antes das refeições?
Para chamar a nossa atenção sobre a importância maior de “lavar o nosso coração”, livrando-o das impurezas que ainda lhe são tão características.
2.      Qual o significado dessas palavras: “Arrancada será toda planta que meu Pai celestial não plantou”?
Significa que a lei de Deus é uma só e cujos mandamentos Jesus, sabiamente, enumerou em Seu Evangelho, para servir de roteiro único a todos nós. As distorções, acréscimos e desvios àquela lei, frutos da ignorância e imprevidência dos homens, são as plantas que o tempo e o progresso se incumbirão de arrancar.
3.      Qual a finalidade da religião?
Esclarecer a criatura sobre os princípios evangélicos e conduzi-la a Deus. Mas, para isto, é preciso que ela pratique o bem apontado pela religião. A religião não salva ninguém; o que salva o homem são suas atitudes voltadas para o bem. A religião apenas abre caminho para a conquista das virtudes que a Deus conduzem.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VIII – BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO

Itens de 5 a 7
Pecado por pensamento – Adultério

5. Aprendestes que foi dito aos antigos: “Não cometereis adultério. Eu, porém, vos digo que aquele que houver olhado uma mulher, com mau desejo para com ela, já em seu coração cometeu adultério com ela”. (Mateus, cap. V, vv. 27 e 28).
6. A palavra adultério não deve ser absolutamente ser entendida aqui no sentido exclusivo da acepção que lhe é própria, porém, num sentido mais geral. Muitas vezes Jesus a empregou por extensão, para designar o mal, o pecado, todo e qualquer pensamento mau, como, por exemplo, nesta passagem: “Porquanto se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras, dentre esta raça adúltera e pecadora, o Filho do homem também se envergonhará dele, quando vier acompanhado dos santos anjos, na glória de seu Pai”. (Marcos, cap. VIII, v. 38).
Comentário de Kardec:
A verdadeira pureza não está somente nos atos; está também no pensamento, porquanto aquele que tem puro o coração, nem sequer pensa no mal. Foi o que Jesus quis dizer; ele condena o pecado, mesmo em pensamento, porque é sinal de impureza.
7. Esse princípio suscita naturalmente a seguinte questão: Sofrem-se as consequências de um pensamento mau, embora nenhum efeito produza?
Cumpre se faça aqui uma importante distinção. À medida que avança na vida espiritual, a alma que enveredou pelo mau caminho se esclarece e despoja pouco a pouco de suas imperfeições, conforme a maior ou menor boa-vontade que demonstre, em virtude do seu livre-arbítrio. Todo pensamento mau resulta, pois, da imperfeição da alma, de acordo com o desejo que alimenta de depurar-se, mesmo esse mau pensamento se lhe torna uma ocasião de adiantar-se, porque ela o repele com energia. É indício de esforço por apagar uma mancha. Não cederá, se se apresentar oportunidade de satisfazer a um mau desejo. Depois que haja resistido, sentir-se-á mais forte e contente com a sua vitória.
Aquela que, ao contrário, não tomou boas resoluções, procura ocasião de praticar o mau ato e, se não o leva a efeito, não é por virtude da sua vontade, mas por falta de ensejo. É, pois, tão culpada quanto o seria se o cometesse.
Em resumo, naquele que nem sequer concebe a ideia do mal, já há progresso realizado; naquele a quem essa ideia acode, mas que a repele, há progresso em vias de realizar-se; naquele, finalmente, que pensa no mal e nesse pensamento se compraz, o mal ainda existe na plenitude da sua força. Num, o trabalho está feito; no outro, está por fazer-se. Deus, que é justo, leva em conta todas essas gradações na responsabilidade dos atos e dos pensamentos do homem.
Comentário:
Kardec esclarece, no primeiro parágrafo, que a palavra adultério, no texto não deve ser entendida no significado exclusivo próprio, mas no sentido mais amplo de mal, erro, pecado. Cita, para mostrar que Jesus a empregava algumas vezes, nesse sentido mais amplo, uma passagem de Marcos, VIII:38 : “ Porque, se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de mim e de minhas palavras, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai, acompanhado dos santos anjos.”
O que fica bem evidenciado, nas palavras de Jesus, citadas por Mateus, é que não se erra tão somente, por atos, mas também por pensamentos, visto que quem tem o coração puro, não sente o mal e nem pensa nele. Sente, pensa e faz somente o bem. Percebe o mal ao seu redor, mas compreende-o como fruto da ignorância e da imperfeição. O pensamento mau, proveniente de um sentimento mau, demonstra a imperfeição do homem, seu grau de impureza. Podemos, assim, avaliar nossas imperfeições pelos pensamentos, que nos surgem na mente, em relação às situações, às pessoas, em nosso dia a dia. E, se estivermos atentos, com vontade de melhorarmo-nos, esta percepção se torna um importante instrumento do conhecimento de nós próprios, necessário para a nossa melhoria interna, da qual dependem nossa felicidade e nossa paz, no presente e no futuro. Jesus chamou-nos, a todos, ao conhecimento pessoal, indispensável à evolução do Espírito imortal, quando disse que o desejo do mal, em pensamento, já é uma falta, que revela uma imperfeição, um mau sentimento.
“Criando o pensamento imagens fluídicas, ele reflete no invólucro perispiritual como num espelho; aí toma forma e é, de certo modo, fotografado. Se um homem, por exemplo, tem ideia de matar outro, mesmo que o seu corpo material permaneça impassível, o seu corpo fluídico é posto em ação pelo pensamento do qual produz todas as nuanças. Executa, fluidicamente, o gesto, o ato que deseja realizar. O pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira se desenha, como um quadro, tal como está em seu espírito.” Se a vítima estiver com sentimentos e pensamentos negativos, pode sofrer o impacto do ataque, as vibrações agressivas, que se manifestará por sensações desagradáveis, sentindo medo ou revolta, sem saber porquê. Se estiver bem, em atividades nobres, ou em equilíbrio, nada sofrerá. Se um homem pensa em caluniar um outro, mas não o faz, por medo de ser descoberto e apontado como um caluniador, pelo outro e/ou por seus amigos, ou pela sociedade, é sinal de que tem, em si, essa imperfeição, com a qual já prejudicou muitas pessoas, em um passado distante ou próximo. Constatando esse fato, pode trabalhar dentro de si, para eliminar essa tendência de caluniar, de querer prejudicar os seus desafetos, não executando esse mau pensamento, não pelo medo de ser descoberto, mas por querer libertar-se dessa imperfeição moral. Ao mesmo tempo pode e deve ir procurando desculpar sempre, tentando compreender as dificuldades dos outros, vendo-os como pessoas que também lutam com suas imperfeições. Um dia, nesta ou em outra existência ou no plano espiritual, alguém lhe apontará sua capacidade de compreender, de desculpar o outro, e ele vai sentir um prazer imenso de sentir-se incapaz de ferir alguém, seja por que meio for. Assim, há os que nem percebem o quanto de pensamentos negativos lhe veem à mente e, se os percebe, busca realizá-los ou tenta justificá-los e justificar-se. Ainda não iniciaram sua transformação moral. Há os que, em os percebendo, lutam por afastá-los, conseguindo às vezes, executando-os em outras, sofrendo as consequências dos atos, recomeçando o esforço de modificar-se, e, assim, de luta em luta, através de experiências boas ou desagradáveis, vai combatendo o “bom combate”, até à vitória, que é transformar-se, moralmente, agora e sempre. Há ainda, os que estão atentos a eles, compreendendo-os como efeitos de maus sentimentos e buscam afastá-los no desenvolvimento dos sentimentos nobres dentro de si. Assim, na medida do aperfeiçoamento de cada um, que se faz à custa de muita luta interior, através do bom uso do livre-arbítrio, o homem vai se reformando devagar, mas, continuamente, tornando-se melhor pessoa.
Respondendo à pergunta por ele elaborada: Sofrem-se as consequências de um mau pensamento que não se efetivou? Kardec termina: “Em resumo: a pessoa que nem sequer concebe o mau pensamento, já realizou o progresso. Aquela que ainda tem esse pensamento, mas o repele, está em vias de realizá-lo; e, por fim, aquela que tem esse pensamento e se compraz, ainda está sob toda força do mal. Numa, o trabalho está feito; nas outras, está por fazer. Deus, que é justo, leva em conta todas essas diferenças, na responsabilidade dos atos e dos pensamentos do homem.” Desse modo, repetimos, sempre que o homem está se esforçando para corrigir-se, transformar-se, no desenvolvimento das suas qualificações nobres, que traz em si, está no caminho da sua redenção.  Se a má ação não se concretizou por falta de oportunidade, ou por medo ou pressão externa, será como se a tivesse praticado. Mas, se não foi realizada pela consciência de que estaria infringindo a lei do Bem, demonstrando uma intenção de vivenciar essa lei maior, as consequências serão o prazer de haver vencido a tentação do momento e o fortalecimento da vontade em viver de acordo com as leis divinas.
Questões para reflexão:
1 – Qual o sentido dado por Jesus à palavra adultério?
Jesus costumava empregá-la para designar não só toda ação má, mas todo e qualquer pensamento mau. “Aquele que houver olhado uma mulher, com mau desejo para com ela, já em seu coração cometeu adultério com ela”. Para Jesus, cometer adultério não é só quem trai o cônjuge, mas todos os que infringem a lei divina.
2 – Constitui infração à lei de Deus desejar mal a outrem, mesmo que não se chegue a praticá-lo?
Certamente que sim, pois houve propósito de praticar o mal. Aquele que pensa em cometer um mau ato, e só não o consuma por falta de ocasião, é tão culpado como se o cometesse.
3 – Que efeito exerce sobre nós, praticar ou desejar o mal de outrem?
Tudo que fazemos ou desejamos aos outros, seja de bom, seja de mau, provoca reação sobre nós, em bênçãos ou sofrimentos. Os maus pensamentos provocam intranquilidade e amargura. Os bons pensamentos, ao contrário, nos enchem o coração de paz e contentamento.
Conclusão do estudo:
Jesus não só se referia ao adultério, na acepção que se costuma dar a esta palavra, mas para todo mal que possamos fazer. Quando nos afastamos das leis de Deus, quando agimos no mal, estamos como que tentando adulterar as leis divinas, fugir à sua ação. Tudo aquilo que pensamos, plasmamos para nossa realidade, ou seja, as ondas vibracionais dos nossos pensamentos interferem diretamente na nossa realidade e agem no ambiente à nossa volta, muito mais do que podemos supor. Então, não basta ao homem somente abster-se de praticar o mal; é necessário destruir em si tudo o que o leve a praticá-lo, seja por atos, palavras ou pensamentos. “Eu não posso impedir que os pássaros voem por sobre mim, mas eu tenho como evitar que eles façam ninho em minha cabeça”. É exatamente esse o esforço que o cristão deve fazer nessa sua luta contra as suas más tendências.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VIII – BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM PURO O CORAÇÃO

Itens de 1 a 4

Simplicidade e pureza de coração
1. Bem-aventurados os que têm puro o coração, porquanto verão a Deus. (Mateus, cap. V, v.  8)
O início do messianismo de Jesus foi marcado pelo Sermão da Montanha, que é considerado uma das declarações mais bonitas de todo o Seu ensino. Nessa pregação Ele estabeleceu qual é a relação de causa e efeito na vida espiritual. Basicamente, estabeleceu que há uma íntima relação entre limpeza de coração e percepção de Deus.
No Sermão da Montanha, o Mestre anuncia o caráter e a qualidade espiritual do reino que Ele estabeleceria aqui na Terra. Nele, Jesus enunciou uma série de Bem-aventuranças, e uma delas, a sexta, se refere aos limpos de coração. A pureza de coração requerida pelo Cristo se evidencia no nosso relacionamento de amor com Deus e com o nosso próximo. Ela é incompatível com a pureza meramente externa. Nessa passagem, o Rabi da Galileia está falando de uma limpeza interior, de uma consciência pura, que só os pobres de espírito têm o privilégio de conseguir ter.
2. Apresentaram-lhe então algumas crianças, a fim de que ele as tocasse, e, como seus discípulos afastassem com palavras ásperas os que lhas apresentavam, Jesus, vendo isso, zangou-se e lhes disse: “Deixai que venham a mim as criancinhas e não as impeçais, porquanto o reino dos céus é para os que se lhes assemelham. Digo-vos, em verdade, que aquele que não receber o reino de Deus como uma criança, nele não entrará”. E, depois de as abraçar, abençoou-as, impondo-lhes as mãos. (Marcos, cap. X, vv. 13 a 16).
A belíssima mensagem é relatada por Marcos. O primeiro impulso é, simplesmente, copiá-la, para manter a sua beleza e a sua sublimidade. Mas, se estamos estudando este livro, precisamos tecer comentários sobre ela. Vamos , então, fazê-lo.
Inicia ele, pelo título da mensagem, que é o apelo de Jesus aos seus discípulos, que queriam afastar as crianças, por pensarem que elas incomodariam o Mestre, que tinha o que dizer a adultos, não a crianças, que não poderiam compreendê-lo. Explica, então, que esse apelo de Jesus não era dirigido somente às crianças, embora ele “lhe conquistaria o coração das mulheres, que são todas mães.” Dirigia-se também “às almas que gravitam nos círculos inferiores, onde a desgraça desconhece a esperança. Jesus chamava a si a infância intelectual da criatura formada: os fracos, os escravos, os viciosos”.
Neste apelo, queria Jesus que os homens aceitassem seus ensinos, se entregassem a ele, com a confiança das crianças, e essa ideia transparece em muitas de suas frases, registradas nos Evangelhos.
Assim, na sua maneira de ensinar, aproveitando as situações naturais, falando pouco, com muito significado, Jesus submetia às almas a sua terna e misteriosa autoridade, que vinha da sua pureza de espírito, conquistada através dos tempos em outro mundos materiais, visto que ele já era puro, quando a Terra ainda não existia.
Jesus não disse categoricamente que basta ser criança para ter lugar no Reino de Deus, mas sim os que possuem a pureza de coração e a humildade, que caracterizam todas as crianças.
Por isso Jesus pega a criança como exemplo, pois a infância é um estado de humildade, pois todo recomeço requer essa virtude, o espírito nesta fase está na posse do melhor de si mesmo, de sua capacidade de amar, de seu desejo de aprender, essa fase faz parte da função educativa da reencarnação como nova oportunidade de reconstruir sua personalidade, daí a importância da educação que devemos dispensar as crianças.
3. A pureza do coração é inseparável da simplicidade e da humildade. Exclui toda ideia de egoísmo e de orgulho. Por isso é que Jesus toma a infância como emblema dessa pureza, do mesmo modo que a tomou como o da humildade. Poderia parecer menos justa essa comparação, considerando-se que o Espírito da criança pode ser muito antigo e que traz, renascendo para a vida corporal, as imperfeições de que se não tenha despojado em suas precedentes existências. Só um Espírito que houvesse chegado à perfeição nos poderia oferecer o tipo da verdadeira pureza. É exata a comparação, porém, do ponto de vista da vida presente, porquanto a criancinha, não havendo podido ainda manifestar nenhuma tendência perversa, nos apresenta a imagem da inocência e da candura. Daí o não dizer Jesus, de modo absoluto, que o reino dos céus é para elas, mas para os que se lhes assemelhem.
4. Pois que o Espírito da criança já viveu, por que não se mostra, desde o nascimento, tal qual é? Tudo é sábio nas obras de Deus. A criança necessita de cuidados especiais, que somente a ternura materna lhe pode dispensar, ternura que se acresce da fraqueza e da ingenuidade da criança. Para uma mãe, seu filho é sempre um anjo e assim era preciso que fosse, para lhe cativar a solicitude. Ela não houvera podido ter-lhe o mesmo devotamento, se, em vez da graça ingênua, deparasse nele, sob os traços infantis, um caráter viril e as ideias de um adulto e, ainda menos, se lhe viesse a conhecer o passado.
Aliás, faz-se necessário que a atividade do princípio inteligente seja proporcionada à fraqueza do corpo, que não poderia resistir a uma atividade muito grande do Espírito, como se verifica nos indivíduos grandemente precoces. Essa a razão por que, ao aproximar-se-lhes a encarnação, o Espírito entra em perturbação e perde pouco a pouco a consciência de si mesmo, ficando, por certo tempo, numa espécie de sono, durante o qual todas as suas faculdades permanecem em estado latente. É necessário esse estado de transição para que o Espírito tenha um novo ponto de partida e para que esqueça, em sua nova existência, tudo aquilo que a possa entravar. Sobre ele, no entanto, reage o passado. Renasce para a vida maior, mais forte, moral e intelectualmente, sustentado e secundado pela intuição que conserva da experiência adquirida.
A partir do nascimento, suas ideias tomam gradualmente impulso, à medida que os órgãos se desenvolvem, pelo que se pode dizer que, no curso dos primeiros anos, o Espírito é verdadeiramente criança, por se acharem ainda adormecidas as ideias que lhe formam o fundo do caráter. Durante o tempo em que seus instintos se conservam amodorrados, ele é mais maleável e, por isso mesmo, mais acessível às impressões capazes de lhe modificarem a natureza e de fazê-lo progredir, o que torna mais fácil a tarefa que incumbe aos pais.
O Espírito, pois, enverga temporariamente a túnica da inocência e, assim, Jesus está com a verdade, quando, sem embargo da anterioridade da alma, toma a criança por símbolo da pureza e da simplicidade.
Toda vez que lemos O Evangelho Segundo o Espiritismo verificamos que Jesus sempre ressaltou a importância e o valor da pureza de coração, da humildade e da simplicidade, dizendo: “todo aquele que se fizer pequeno como uma criança será o maior no Reino de Deus” e “deixai vir a mim os pequeninos, e não os embaraceis, porque o Reino de Deus é daqueles que se lhes assemelham”.
Há corações limpos e há corações sujos. Para aqueles reservou o Senhor a visão de Deus. E assim como há necessidade da higiene do corpo, para que o corpo funcione regularmente, com mais forte razão faz-se preciso higiene do coração, para que o Espírito ande bem. É preciso limpar o coração para se ver a Deus. Ninguém há de coração sujo que tenha olhos abertos para o Supremo Artífice de Todas as Coisas.
Há um ditado que diz: “Quem vê cara não vê coração!” Isto nos parece uma realidade, pois, nos templos bíblicos, os judeus eram tão meticulosos quanto à limpeza cerimonial, e suas regras eram extremamente rígidas. Tinham o espírito preocupado com as restrições e com o temor da contaminação exterior, porém, não percebiam a mancha do egoísmo e da malícia que tomava conta deles.
Ao longo de Seu ensino, Jesus se opôs diretamente ao estilo de vida desse grupo religioso de Sua época: os fariseus. Os fariseus procuravam ter um grande zelo pelas leis de Deus. O problema é que eles entendiam e aplicavam estas leis de forma equivocada na vida deles e na vida do povo. Usavam as leis como forma de exaltação pessoal. Subjugavam os mais humildes e menos favorecidos na sociedade. Tinham muito orgulho de si mesmos e se viam como superiores aos outros. Com relação à pureza de coração, eles supervalorizavam seu aspecto externo, atentando para os ritos e cerimônias de purificação. Mas a pureza para eles era algo meramente externo. O que importava para eles era a aparência de santidade, e não a santidade íntima, interior, que flui de um coração puro, limpo.
No coração deles havia orgulho, maldade e hipocrisia. Na Sua fala, Jesus não mencionou a pureza cerimonial como uma das condições de se entrar em Seu reino, indicou apenas a pureza de coração. Ao repreender os fariseus, o Cristo chama nossa atenção para que não enveredemos pelo caminho errado deles.
Assim como há a necessidade da higiene do corpo, para que funcione de maneira satisfatória, com mais forte razão faz-se preciso a higiene do coração, para que o Espírito progrida. Ser limpo de coração não é outra coisa senão ser íntegro, livre da tirania do “Eu” possessivo, e não ficar tentando servir a Deus e ao mundo ao mesmo tempo. É renunciar ao orgulho e ao egoísmo, com toda a sua prole malfazeja. Os limpos de coração não estão manchados pela nódoa da mágoa, do ódio, do rancor, do ressentimento, da vingança, ou qualquer outro sentimento negativo. Os limpos de coração não tocam trombeta quando fazem caridade, nem oram em pé nas praças para serem vistos. Para ser puro de coração, o ser tem que se despojar de sua personalidade equivocada que construiu ao longo dos milênios, formando uma imagem supervalorizada para esconder a sua própria realidade espiritual.
Na verdade, a pureza de coração não indica, no pensamento de Jesus, uma virtude particular, mas uma qualidade que deve acompanhar todas as virtudes, a fim de que elas sejam de verdade. É preciso limpar o coração para nos tornarmos capazes de ver a Deus.
Muita paz!
Questões para estudo:
1 - Por que Jesus tomou a criança como símbolo de pureza?
Porque a criança, com seus gestos inocentes, desprovidos de maldade e egoísmo, é a verdadeira imagem da simplicidade e pureza.
Mesmo em uma criança de maus pendores, suas más ações são dissimuladas pela candura dos seus traços infantis.
2 - Jesus disse que o reino dos céus é das crianças?
Não. Jesus deixou bem claro que o reino dos céus é para os que a elas se assemelham.
O aspecto da inocência e candura que vemos nas crianças não constitui superioridade real do espírito, mas a imagem do que deveria ser.
3 - Qual a importância do estado da infância?
Proporcionar ao espírito um recomeço, com novas informações educativas para o seu progresso moral e intelectual.
"Nessa fase é que se lhe pode transformar os caracteres e reprimir os maus pendores. Tal o dever que Deus impôs aos pais, missão sagrada de que terão de dar contar". (LE, questão 385).
Conclusão do Estudo:
O reino dos céus só é para os que têm puro o coração. Jesus tomou a criança como o símbolo dessa pureza, em razão da simplicidade e humildade que a caracteriza e nos ensinou que, para conquistar a felicidade, devemos nos assemelhar a ela.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VII – BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
Missão do homem inteligente na Terra

13. Não vos ensoberbais do que sabeis, porquanto esse saber tem limites muito estreitos no mundo em que habitais. Suponhamos sejais sumidades em inteligência neste planeta; nenhum direito tendes de envaidecer-vos. Se Deus, em seus desígnios, vos fez nascer num meio onde pudestes desenvolver a vossa inteligência, é que quer a utilizeis para o bem de todos; é uma missão que vos dá, pondo-vos nas mãos o instrumento com que podeis desenvolver, por vossa vez, as inteligências retardatárias e conduzi-las a ele. A natureza do instrumento não está a indicar a que utilização deve prestar-se? A enxada que o jardineiro entrega a seu ajudante não mostra a este último que lhe cumpre cavar a terra? Que direis, se esse ajudante, em vez de trabalhar, erguesse a enxada para ferir o seu patrão? Direis que é horrível e que ele merece expulso. Pois bem: não se dá o mesmo com aquele que se serve da sua inteligência para destruir a ideia de Deus e da Providência entre seus irmãos? Não levanta ele contra o seu senhor a enxada que lhe foi confiada para arrotear o terreno? Tem ele direito ao salário prometido? Não merece, ao contrário, ser expulso do jardim? Sê-lo-á, não duvideis, e atravessará existência miseráveis e cheias de humilhações, até que se curve diante Daquele a quem tudo deve.
A inteligência é rica de méritos para o futuro, mas, sob a condição de ser bem empregada. Se todos os homens que a possuem dela se servissem de conformidade com a vontade de Deus, fácil seria, para os Espíritos, a tarefa de fazer que a Humanidade avance. Infelizmente, muitos a tornam instrumento de orgulho e de perdição contra si mesmo. O homem abusa da inteligência como de todas as suas outras faculdades e, no entanto, não lhe faltam ensinamentos que o advirtam de que uma poderosa mão pode retirar o que lhe concedeu. – Ferdinando, Espírito protetor.
De início, vamos definir o que é um homem inteligente. Na nossa visão, o homem inteligente não é apenas o que sabe muito e tem rapidez de raciocínio. É o que tem todo um conjunto de atributos emoldurados pelo mais sublime sentimento que o homem deve possuir, a humildade. O homem inteligente é o que conhece a si mesmo, é o que se submete aos desígnios de Deus com boa vontade, trabalhando sempre seus valores morais, utilizando a sua própria inteligência para trabalhar o próprio burilamento.
O Espírito comunicante deixou-nos a mensagem em pauta com aconselhamentos interessantes. Inicia conclamando-nos a não nos orgulharmos do que sabemos, considerando que o desenvolvimento da inteligência nos dá um imenso conhecimento sobre as leis que regem tanto o mundo físico como o mundo espiritual, conhecimento limitado pela nossa própria condição de imperfeição e do mundo em que vivemos.
Isto quer dizer que, mesmo que nos julguemos uma sumidade no globo terrestre, não temos razão para nos envaidecermos. E que devemos agradecer a Deus por nos situar num lugar e condição em que podemos desenvolver mais conhecimentos para depois fazer uso desses dotes para favorecer o maior número de pessoas que pudermos.
O princípio espiritual, imortal, criado simples e ignorante, com um imenso potencial de qualificações, tem de fazer sua evolução intelectual e moral, em mundos materiais, em um longo período, nos reinos chamados inferiores, guiados pelo determinismo divino de desenvolver-se sempre. Assim, sua inteligência vai de desenvolvendo, gradativamente, através das experiências do viver. Evidentemente, que esse desenvolvimento se faz para que o homem evolua, aperfeiçoando-se e sendo feliz. Todavia, como tal não aconteceu para a Humanidade como um todo, até hoje, o sofrimento faz parte da vida das pessoas, que não conseguiram encontrar a felicidade. Esta mensagem é muito atual.
A inteligência é um dom de Deus, inerente ao Espírito, desde sua criação, o fato de ser desenvolvido por ele, na sua trajetória evolutiva, não é motivo de orgulho, visto que todos os homens a estão desenvolvendo, e todos eles têm a possibilidade de continuar desenvolvendo-a, através das reencarnações. E é essa própria inteligência que lhe mostra o quanto ainda não sabe em relação a ele próprio, à Terra e ao Universo.
A inteligência que temos nunca deverá ser usada para humilhar ou diminuir o semelhante e sim para tentar tirá-lo da inferioridade e da ignorância por estar ainda entre as inteligências retardatárias.
A natureza de cada ferramenta insinua para que ela serve. O martelo para pregar, o serrote para cortar e a inteligência para ensinar. Percebe-se naturalmente sem precisar ser gênio. Mas o serrote não corta sem o serrador e o martelo não prega sem o trabalhador. Assim, a inteligência morta, armazenada na mente de quem a possui, sem espalhar-se a benefício dos outros, é ferramenta que enferruja e para nada se aproveita. Da mesma forma ela será nociva se servir apenas para espalhar desordem, discórdia, maldade. O operário não usa o serrote para agredir o patrão nem o empregado o martelo para ofender quem lhe paga. Assim como a ferramenta deve ser usada cuidadosamente e com habilidade, para que produza o que dela se espera, a inteligência pode construir ou destruir segundo o uso pelo seu possuidor. Sintetizando esta nossa análise, o Espírito Ferdinando, autor da mensagem, diz que basta uma poderosa mão para retirar-lhe o que ela mesma lhe deu. Dependendo de como a inteligência seja usada, será mesmo um ato de misericórdia do plano divino, privar o homem da sua lucidez, impedindo-o de criar mais e mais faltas que lhe custarão remorsos e dolorosos flagelos, quer na erraticidade, pela cobrança da consciência, quer numa nova encarnação quando terá de consertar os erros cometidos e, geralmente, em condições mais difíceis do que quando tinha à sua disposição recursos intelectuais que o faziam um ser privilegiado. A inteligência, quando é atributo de um espírito adiantado, é a grande ponte para um futuro espiritual feliz, já que produz o bem onde estiver, beneficiando todos os que dele se aproximam. Ajuda para que o Plano Divino tenha menos trabalho na produção do progresso da humanidade.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1 - Por que não deve o homem se envaidecer do seu cabedal de conhecimento?
Porque esses conhecimentos têm limites muito estreitos no mundo que habitamos. Assim sendo, ele deve ter a humildade para reconhecer que não sabe tudo e que lhe resta muito a aprimorar e a desenvolver. Para isso ele se encontra na Terra.
Ao invés de se envaidecer, o homem deve utilizar o saber que já possui para ajudar aqueles menos aquinhoados em termos de inteligência.
2 - Uma inteligência desenvolvida é sinônimo de progresso?
Não necessariamente. O que caracteriza um espírito evoluído é o seu progresso intelectual e moral. Mas pode ocorrer que uma inteligência humana bem desenvolvida intelectualmente não esteja acompanhada do desenvolvimento espiritual (moral).
3 - É a inteligência um instrumento de progresso?
Sim. Um poderoso instrumento, quando utilizado com bons sentimentos, e voltada à causa do bem. Quando, porém, mal empregada, acarreta sofrimento aos atingidos, assumindo graves débitos aos seus causadores.
Grandes assassinos e criminosos são, muitas vezes, dotados de muita inteligência.
4 - Devemos nos envaidecer do que sabemos?
Não. As oportunidades para desenvolvermos a inteligência, numa dada direção, são oferecidas pelos benfeitores espirituais. Os professores, colocados em nosso caminho, ensinam-nos a: elaborar conexões, relacionar causa e efeito, resolver problemas de matemática e construir máquinas. Exercitando a inteligência, ela vai se ampliando: do simples chegamos ao complexo; do conhecido ao desconhecido. Porém, surgem, também, os desmandos intelectuais, quando nos colocamos acima do Criador.
5 - A inteligência é um instrumento para uma missão?
Sim. Todo o homem possui uma missão, grande ou pequena, no planeta Terra. A diversidade de aptidões direciona-nos ao campo de atividade que se coaduna com nossa vocação. A escolha de uma profissão, quando bem refletida, revela os anseios divinos com relação ao nosso desenvolvimento intelectual e moral. Embora não exista a fatalidade, há um determinismo que guia os nossos passos, fruto de nossa escolha, quando desencarnados.
6 - Qual a missão do homem inteligente?
Se Deus, na sua infinita bondade, concedeu-nos a oportunidade de renascermos num meio em que possamos desenvolver a nossa inteligência, é para que a utilizemos em nosso benefício e dos nossos semelhantes. A inteligência desenvolvida é um talento com finalidade útil nas mãos das criaturas, para que estas ajudem àqueles que têm uma inteligência menos desenvolvida, objetivando fazer com que se aproximem, cada vez mais, do Criador.
CONCLUSÃO DO ESTUDO:
A inteligência é um poderoso instrumento de progresso que Deus confiou ao homem para que a desenvolva em benefício de todos, fazendo progredir as inteligências retardatárias e a si próprio. Abusar dessa faculdade é assumir graves responsabilidades de débitos, cujo resgate é muito doloroso. Valorizemos a nossa existência. Apliquemos todos os nossos recursos pessoais no engrandecimento de nossa inteligência, a fim de melhor servir àqueles que nos rodeiam.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VII – BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
O orgulho e a humildade
12.
Texto de Apoio:
Homens, por que vos queixais das calamidades que vós mesmos amontoastes sobre as vossas cabeças? Desprezastes a santa e divina moral do Cristo; não vos espanteis, pois, de que a taça da iniquidade haja transbordado de todos os lados. Generaliza-se o mal-estar. A quem inculpar, senão a vós que incessantemente procurais esmagar-vos uns aos outros? Não podeis ser felizes, sem mútua benevolência; mas, como pode a benevolência coexistir com o orgulho? O orgulho, eis a fonte de todos os vossos males. Aplicai-vos, portanto, em destruí-lo, se não lhe quiserdes perpetuar as funestas consequências. Um único meio se vos oferece para isso, mas infalível: tomardes para regra invariável do vosso proceder a lei do Cristo, lei que tendes repelido ou falseado em sua interpretação.
Por que haveis de ter em maior estima o que brilha e encanta os olhos, do que o que toca o coração? Por que fazeis do vício na opulência objeto das vossas adulações, ao passo que desdenhais do verdadeiro mérito na obscuridade? Apresente-se em qualquer parte um rico debochado, perdido de corpo e alma, e todas as portas se lhe abrem, todas as atenções são para ele, enquanto ao homem de bem, que vive do seu trabalho, mal se dignam todos de saudá-lo com ar de proteção. Quando a consideração dispensada aos outros se mede pelo ouro que possuem  ou pelo nome de que usam, que interesse podem eles ter em se corrigirem de seus defeitos? Dar-se-ia o inverso, se a opinião geral fustigasse o vicio dourado, tanto quanto o vicio em andrajos; mas, o orgulho se mostra indulgente para com tudo o que o lisonjeia. Século de cupidez e de dinheiro, dizeis. Sem dúvida; mas por que deixastes que as necessidades materiais sobrepujassem o bom senso e a razão? Por que há de cada um querer elevar-se acima de seu irmão? Desse fato sofre hoje a sociedade as consequências.
Não esqueçais que tal estado de coisas é sempre sinal certo de decadência moral. Quando o orgulho chega ao extremo, tem-se um indicio de queda próxima, porquanto Deus nunca deixa de castigar os soberbos. Se por vezes consente que eles subam, é para lhes dar tempo a reflexão e a que se emendem, sob os golpes que de quando em quando lhes desfere no orgulho para os advertir. Mas, em lugar de se humilharem, eles se revoltam. Então, cheia a medida, Deus os abate completamente e tanto mais horrível lhes é a queda, quanto mais alto hajam subido.
Pobre raça humana, cujo egoísmo corrompeu todas as sendas, toma novamente coragem, apesar de tudo. Em sua misericórdia infinita, Deus te envia poderoso remédio para os teus males, um inesperado socorro à tua miséria. Abre os olhos à luz: aqui estão as almas dos que já não vivem na Terra e que te vêm chamar ao cumprimento dos deveres reais. Eles te dirão, com a autoridade da experiência, quanto as vaidades e as grandezas da vossa passageira existência são mesquinhas a par da eternidade. Dir-te-ão que, lá, o maior é aquele que haja sido o mais humilde entre os pequenos deste mundo; que aquele que mais amou os seus irmãos será também o mais amado no céu; que os poderosos da Terra, se abusaram da sua autoridade, ver-se-ão reduzidos a obedecer aos seus servos; que, finalmente, a humildade e a caridade, irmãs que andam sempre de mãos dadas, são os meios mais eficazes de se obter graça diante do Eterno. - Adolfo, bispo de Argel. (Marmande, 1862.)
O Espírito comunicante inicia o texto afirmando que as calamidades, os sofrimentos dos habitantes do planeta Terra, são consequências do orgulho, que os levam a desprezar os ensinamentos de Jesus.
O mal-estar se torna geral. A quem se deve, senão a vós mesmos que, incessantemente, procurais aniquilar-vos uns aos outros? Não podeis ser felizes, sem mútua benevolência, e como poderá esta existir juntamente com o orgulho? O orgulho, eis a fonte de todos os vossos males.
Considerando que a benevolência leva o homem a ter boa vontade para com os outros, a ser complacente, e que o orgulho o leva a ter um conceito elevado de si mesmo, o que o coloca, a seus olhos, acima dos demais, percebemos que ambos os sentimentos são antagônicos.
O orgulho leva o homem a ser rigoroso, exigente com os demais, porque não são como ele, não possuem a sua inteligência, suas habilidades, sua riqueza, seu poder, sendo indulgente somente para tudo que o agrade.
A benevolência, ao contrário, leva o homem a colocar-se no lugar do outro, compreendendo-o nas suas dificuldades, tendo boa vontade para com suas falhas, sua maneira de viver. O orgulho e a benevolência são, de fato, sentimentos incompatíveis.
Enquanto o homem agir em função do orgulho, a dor e o sofrimento continuarão a existir, como efeito da lei de causa e efeito, até que ele, cansado de sofrer, busque eliminar seu orgulho, olhando seus irmãos como iguais a ele, com os quais pode aprender também.
Assim, o bispo de Argel conclama a todos os homens a eliminarem o orgulho que têm em si, seguindo a orientação de Jesus, se almejam ser felizes, e tornarem a Terra um mundo melhor. Fala ainda da consideração que se dá aos ricos e poderosos, abrindo-lhes todas as portas, e do desprezo, do desdém, e da falta de consideração aos menos deserdados dos diferentes valores materiais, mas que podem ser ricos em valores espirituais, que eles, os orgulhosos, nem percebem.
Sua mensagem é de 1862. Com certeza, houve melhorias substanciais no relacionamento entre os homens, entre as diferentes classes sociais. Todavia, continua existindo a supervalorização dos valores materiais e das suas necessidades, sobrepondo-se ao bom senso e a razão.
De lá até os dias de hoje, quanto sofrimento, quanta dor; duas guerras mundiais, que trouxeram grandes transformações sociais, muitos ensinamentos, mas, a Humanidade continua forjando guerras regionais, como meio para se chegar à paz, quando deveria existir condições de resolução de problemas entre nações através do diálogo, da solidariedade, da boa vontade entre os povos. O Espírito comunicante cita também o egoísmo que corrompe o homem, impedindo-o de perceber as necessidades do próximo. Lembra a todos que, assim como Deus abate os soberbos, através das suas leis, Sua misericórdia, se fazendo presente sempre, nos dá hoje um poderoso remédio, um socorro às aflições humanas.
Questões para estudo:
1 - Como combater o orgulho?
Estudando com humildade o Evangelho de Jesus e procurando vivenciar os ensinamentos nele contidos.
A humildade é o antídoto do orgulho.
2 - Quais os vícios causados pelo orgulho?
Paixão pelos bens materiais, inveja, ciúme, egoísmo, etc.
Quando os vícios do orgulho se instalam no coração do homem, a vida torna-se um constante tormento.
3 - O que acontece quando o orgulho chega ao extremo?
Tem-se o indício de uma queda próxima.
Quanto maior é a subida de um orgulhoso mais terrível é a sua queda.
Conclusão do Estudo:
A ninguém é impedido corrigir-se dos vícios oriundos do orgulho. O Evangelho é o roteiro de luz em forma de bênçãos a todas as criaturas de boa vontade. Aos recalcitrantes, o tempo e a dor servirão de remédio.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VII – BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
O orgulho e a humildade
11. Que a paz do Senhor seja convosco, meus queridos amigos! Aqui venho para encorajar-vos a seguir o bom caminho.
Aos pobres Espíritos que habitaram outrora a Terra, conferiu Deus a missão de vos esclarecer. Bendito seja Ele, pela graça que nos concede; a de podermos auxiliar o vosso aperfeiçoamento. Que o Espírito Santo me ilumine e ajude a tornar compreensível a minha palavra, outorgando-me o favor de pô-la ao alcance de todos! Oh! Vós, encarnados, que vos achais em prova e buscais a luz, que a vontade de Deus venha em meu auxílio para fazê-la brilhar aos vossos olhos!
Nesta mensagem, Lacordaire, humildemente, pede o amparo espiritual para que sua palavra seja compreensível a todos. Aqui, ele se dispõe a colaborar com as criaturas ainda presas aos valores da vida material, mas que já conhecem e aceitam as verdades reveladas pelos Espíritos superiores.
A humildade é virtude muito esquecida entre vós. Bem pouco seguidos são os exemplos que dela se vos têm dado. Entretanto, sem humildade, podeis ser caridosos com o vosso próximo? Oh! Não, pois que este sentimento nivela os homens, dizendo-lhes que todos são irmãos, que se devem auxiliar mutuamente, e os induz ao bem. Sem a humildade, apenas vos adornais de virtudes que não possuís, como se trouxésseis um vestuário para ocultar as deformidades do vosso corpo. Lembrai-vos daquele que nos salvou; lembrai-vos da sua humildade, que tão grande o fez, colocando-o acima de todos os profetas.
O Espírito comunicante diz que a humildade é uma virtude muito esquecida entre os homens. Assim o é, por ser um sentimento, que, juntamente, com o amor, é o resumo de todas as virtudes, isto é, sem o desenvolvimento das demais, ela não cresce, nem se desenvolve. Afirma, também, que sem humildade não se pode ser caridoso para o próximo, pois esse sentimento é que nivela todos os homens, fazendo-os sentirem-se iguais, levando-os a se ajudarem mutuamente, encaminhando-se todos para o bem. O orgulhoso coloca-se sempre acima dos demais.
O orgulho é o terrível adversário da humildade. Se o Cristo prometia o reino dos céus aos mais pobres, é porque os grandes da Terra imaginam que os títulos e as riquezas são recompensas deferidas aos seus méritos e se consideram de essência mais pura do que a do pobre. Julgam que os títulos e as riquezas lhes são devidos, pelo que, quando Deus lhos retira, o acusam de injustiça. Oh! Irrizão e cegueira! Pois, então, Deus vos distingue pelos corpos? O envoltório do pobre não é o mesmo que o do rico? Terá o Criador feito duas espécies de homens? Tudo o que Deus faz é grande e sábio; não lhe atribuais nunca as ideias que os vossos cérebros orgulhosos engendram.
Ó rico! Enquanto dormes sob dourados tetos, ao abrigo do frio, ignoras que jazem sobre a palha milhares de irmãos teus, que valem tanto quanto tu? Não é teu igual o infeliz que passa fome? Ao ouvires isso, bem o sei, revolta-se o teu orgulho. Concordarás em dar-lhes uma esmola, mas em lhe apertar fraternalmente a mão, nunca. “Pois quê; dirás, eu, de sangue nobre, grande da Terra, igual a este miserável coberto de andrajos! Vã utopia de pseudofilósofos! Se fôssemos iguais, por que o teria Deus colocado tão baixo e a mim tão alto”? É exato que as vossas vestes não se assemelham; mas, despi-vos ambos; que diferença haverá entre vós? A nobreza do sangue, dirás; a química, porém, ainda nenhuma diferença descobriu entre o sangue de um grão-senhor e o de um plebeu; entre o do senhor e o do escravo. Quem te garante que também tu não tenhas sido miserável e desgraçado como ele? Que também não hajas pedido esmola? Que não a pedirás um dia a esse mesmo a quem hoje desprezas? São eternas as riquezas? Não desaparecem quando se extingue o corpo, envoltório perecível do teu Espírito? Ah! Lança sobre ti um pouco de humildade! Põe os olhos, afinal, na realidade das coisas deste mundo, sobre o que dá lugar ao engrandecimento e ao rebaixamento no outro; lembra-te de que a morte não te poupará, como a nenhum homem; que os teus títulos não te preservarão do seu golpe; que ela te poderá feria amanhã, hoje, a qualquer hora. Se te enterras no teu orgulho, oh! Quanto então te lamento, pois bem digno de compaixão serás.
Orgulhosos! Que éreis antes de serdes nobres e poderosos? Talvez estivésseis abaixo do último dos vossos criados. Curvai, portanto, as vossas frontes altaneiras, que Deus pode fazer se abaixem, justo no momento em que mais as elevardes. Na balança divina, são iguais todos os homens; só as virtudes os distinguem aos olhos de Deus. São da mesma essência todos os Espíritos e formados de igual massa todos os corpos. Em nada os modificam os vossos títulos e os vossos nomes. Eles permanecerão no túmulo e de modo nenhum contribuirão para que gozeis da ventura dos eleitos. Estes, na caridade e na humildade é que têm seus títulos de nobreza.
Pobre criatura! És mãe, teus filhos sofrem; sentem frio; têm fome, e tu vais, curvada ao peso da tua cruz, humilhar-te, para lhes conseguires um pedaço de pão! Oh! Inclino-me diante de ti. Quão nobremente santa és e quão grande aos meus olhos! Espera e ora; a felicidade ainda não é deste mundo. Aos pobres oprimidos que nele confiam, concede Deus o reino dos céus.
E tu, donzela, pobre criança lançada ao trabalho, às privações, por que esses tristes pensamentos? Por que choras? Dirige a Deus, piedoso e sereno, o teu olhar; ele dá alimento aos passarinhos; tem-lhe confiança; ele não te abandonará. O ruído das festas, dos prazeres do mundo, faz bater-te o coração; também desejaras adornar de flores os teus cabelos e misturar-te com os venturosos da Terra. Dizes de ti para contigo que, como essas mulheres que vês passar, despreocupadas e risonhas, também poderias ser rica. Oh! Cala-te, criança! Se soubesses quantas lágrimas e dores inomináveis se ocultam sob esses vestidos recamados, quantos soluços são abafados pelos sons dessa orquestra rumorosa, preferirias o teu humilde retiro e a tua pobreza. Conserva-te pura aos olhos de Deus, se não queres que o teu anjo guardião para o seu seio volte, cobrindo o semblante com as suas brancas asas e deixando-te com os teus remorsos, sem guia, sem amparo, neste mundo, onde ficarias perdida, a aguardar a punição no outro.
Todos vós que dos homens sofreis injustiças, sede indulgentes para as faltas dos vossos irmãos, ponderando que também vós não vos achais isentos de culpas; é isso caridade, mas é igualmente humildade. Se sofreis pelas calúnias, abaixai a cabeça sob essa prova. Que vos importam as calúnias do mundo? Se é puro o vosso proceder, não pode Deus vo-las compensar? Suportar com coragem as humilhações dos homens é ser humilde e reconhecer que somente Deus é grande e poderoso.
Oh! Meu Deus, será preciso que o Cristo volte segunda vez à Terra para ensinar aos homens as tuas leis, que eles olvidam? Terá que de novo expulsar do templo os vendedores que conspurcam a tua casa, casa que é unicamente de oração? E, quem sabe? Ó homens! Se o não renegaríeis como outrora, caso Deus vos concedesse essa graça! Chamar-lhe-íeis blasfemador, porque abateria o orgulho dos modernos fariseus. É bem possível que o fizésseis perlustrar novamente o caminho do Gólgota.
Quando Moisés subiu ao monte Sinai para receber os mandamentos de Deus, o povo de Israel, entregue a si mesmo, abandonou o Deus verdadeiro. Homens e mulheres deram o ouro e as joias que possuíam, para que se construísse um ídolo que entraram a adorar. Vós outros, homens civilizados, os imitais. O Cristo vos legou a sua doutrina; deu-vos o exemplo de todas as virtudes e tudo abandonastes, exemplos e preceitos. Concorrendo para isso com as vossas paixões, fizestes um Deus a vosso jeito; segundo uns, terrível e sanguinário; segundo outros, alheado dos interesses do mundo. O Deus que fabricastes é ainda o bezerro de ouro que cada um adapta aos seus gostos e às suas ideias.
Despertai, meus irmãos, meus amigos. Que a voz dos Espíritos ecoe nos vossos corações. Sede generosos e caridosos, sem ostentação, isto é, fazei o bem com humildade. Que cada um proceda pouco a pouco à demolição dos altares que todos ergueram ao orgulho. Numa palavra: sede verdadeiros cristãos e tereis o reino da verdade. Não continueis a duvidar da bondade de Deus, quando dela vos dá ele tantas provas. Vimos preparar os caminhos para que as profecias se cumpram. Quando o Senhor vos der uma manifestação mais retumbante da sua clemência, que o enviado celeste já vos encontre formando uma grande família; que vossos corações, mansos e humildes, sejam dignos de ouvir a palavra divina que ele vos vem trazer; que ao eleito somente se deparem em seu caminho as palmas que aí tenhais deposto, volvendo ao bem, à caridade, à fraternidade. Então, o vosso mundo se tornará o paraíso terrestre. Mas, se permanecerdes insensíveis à voz dos Espíritos enviados para depurar e renovar a vossa sociedade civilizada, rica de ciências, mas, no entanto, tão pobre de bons sentimentos, ah! Então não nos restará senão chorar e gemer pela vossa sorte. Mas, não, assim não será. Voltai para Deus, vosso pai, e todos nós que houvermos contribuído para o cumprimento da sua vontade entoaremos o cântico de ação de graças, agradecendo-lhe a inesgotável bondade e glorificando-o por todos os séculos dos séculos. Assim seja.
Lacordaire dirige-se aos ricos e aos orgulhosos a verem os pobres como filhos de Deus iguais a ele, a quem lhes cabe auxiliar e amparar, ressaltando a transitoriedade dos bens e valores materiais, que ficarão na Terra, com a morte do corpo. "Quem te diz que também não foste miserável como ele? Que não pediste esmola? Que não a pedirás um dia a esses mesmos que hoje desprezas?" "Oh! debruça-te, humildemente, sobre ti mesmo! Lança enfim, os olhos sobre a realidade das coisas desse mundo, sobre o que constitui a grandeza e a humildade no outro". O entendimento da lei das vidas sucessivas e sua aceitação é, talvez, a maior demonstração da inutilidade do orgulho, uma vez que, através delas, pode-se passar, tantas vezes quantas forem necessárias ao aprendizado e aperfeiçoamento, pelas experiências da pobreza, da riqueza, vivendo-se nos meios mais variados. Orgulho de quê, se cada existência é tão transitória? Ressalta o autor que todos os homens são iguais perante Deus, sendo distinguidos apenas, pelas qualificações nobres que consegue desenvolver em si mesmo, e que a caridade e a humildade são os seus títulos de nobreza, sendo o orgulho o terrível inimigo da humildade. Dirige-se também aos pobres e humildes que lutam para sobreviver em um mundo que os exclui. Conclama-os a confiarem em Deus, argumentando que quase sempre a felicidade dos ricos é apenas ilusão e aparência.
Pede aos que sofrem injustiças dos homens que não alimentem ódio no coração, que sejam indulgentes com as faltas alheias, porque esse ato é caridade e reconhecer que só Deus é grande e só Ele tudo pode, é ser humilde. Conclama a todos a serem caridosos e generosos, com humildade, demolindo os motivos ilusórios do orgulho, que, em realidade, são vencidos pela morte do corpo. Fala das transformações que tornará nosso mundo um paraíso terreno, quando o homem se entregar ao bem, à fraternidade, quando, então, todos se considerarem iguais e viverem auxiliando-se, mutuamente, nas diferenças individuais, com fraternidade, com humildade.
Questões para reflexão:
1 - Como podemos definir a humildade?
É a virtude que nivela os homens, eliminando a falsa ideia de superioridade de uns frente aos outros, propiciando o progresso espiritual que os aproxima de Deus.
2 - Quais as consequências do orgulho?
Transtornos na vida social, rivalidade das classes e dos povos, intrigas, ódios, guerras, etc. É imperfeição que bloqueia o progresso do espírito e o leva a assumir débitos, cujo resgate é doloroso e transcende a encarnação presente.
O orgulho tem coberto de sangue e ruínas este mundo, e é ainda ele que origina os nossos padecimentos de além-túmulo.
3 - Por que existe o orgulho?
Ele existe em decorrência da ignorância dos reais valores da vida, que leva o homem a pensar egoisticamente na sua realização pessoal e a tratar com desprezo os seus semelhantes.
De todos os males, o orgulho é o mais terrível, pois deixa em sua passagem o germe de quase todos os vícios.
Conclusão do estudo:
O orgulho é a ignorância dos reais valores da vida, constituindo-se em veneno que anula as ações nobres dos que buscam o progresso espiritual. A humildade é uma virtude que nivela os homens e os eleva, moralmente, aos olhos de Deus.
A inteligência, desprovida de suporte moral do Evangelho, gera sentimento presunçoso de superioridade, levando, consequentemente, à insubmissão a Deus.
Para o espiritismo, o orgulho é o pai de todos os males, é ele que desencadeia todos os outros defeitos. Não é difícil constatar essa verdade. É por orgulho que discutimos, é por orgulho que brigamos, é por orgulho ferido que nos magoamos, é o orgulho que dificulta o perdão.
Todos somos filhos de Deus, criados à sua imagem e semelhança; portanto, perfectíveis. Reforma íntima é um hábito. É a escolha de uma vida. Eu fiz a minha escolha. E você?

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ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VII – BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO

Mistérios ocultos aos doutos e aos prudentes

7. Disse, então, Jesus estas palavras: “Graças te rendo, meu Pai, Senhor do céu e da Terra, por haveres ocultado estas coisas aos doutos e aos prudentes e por as teres revelado aos simples e aos pequenos”. (Mateus, cap. XI, v. 25).
Nesta passagem, Jesus coloca que existem dois tipos de pessoas aos olhos do mundo; aqueles a quem chamou de doutos, de prudentes, de pretensos detentores do conhecimento e os simples, que não têm a pretensão de dominar as teorias.
Para compreendermos esta passagem do Evangelho, precisamos primeiro entender quem são os sábios e prudentes e quem são os simples e os pequenos. Estes, são os humildes de coração, que mesmo ignorantes estão sedentos do amor do Pai e prontos para receberem as revelações do céu. Aqueles, são os orgulhosos e prepotentes, que se dizem sábios e doutores da lei, incapazes ainda de ver senão aquilo que lhes convém.
8. Pode parecer singular que Jesus renda graças a Deus, por haver revelado estas coisas aos simples e aos pequenos, que são os pobres de espírito, e por as ter ocultado aos doutos e aos prudentes, mais aptos, na aparência, a compreendê-las. É que cumpre se entenda que os primeiros são humildes, são os que se humilham diante de Deus e não se consideram superiores a toda a gente. Os segundos são os orgulhosos, envaidecidos do seu saber mundano, os quais se julgam prudentes porque negam e tratam Deus de igual para igual, quando não se recusam a admiti-lo, porquanto, na antiguidade, douto era sinônimo de sábio. Por isso é que Deus lhes deixa a pesquisa dos segredos da Terra e revela os do céu aos simples e aos humildes que diante dele se prostram.
Como diz a lição, pode parecer uma contradição o fato de Deus interessar-se em revelar suas preciosidades aos mais simples, aos humildes e pobres. Aparentemente, esses teriam mais dificuldades em entendê-las. Os outros, seriam mais estudados, teriam mais entendimento. Mas na realidade o que acontece é bem diferente. Quanto mais instruído nas coisas do mundo, maior dificuldade tem a criatura humana em entender a mensagem divina. O Mestre, fazendo esse agradecimento ao Pai, reconhecia a sabedoria Divina que o mandara àqueles que tinham as condições necessárias ao aprendizado. Os simples são os que se reconhecem ignorantes, porque sabem que têm muito ainda que aprender; estando, portanto, sempre abertos a novos aprendizados, sabendo ouvir com atenção as ideias daqueles que podem ensinar-lhes algo que desconhecem. A doutrina da Verdade é a antítese da doutrina do mundo. Ela combate o personalismo, a ideia da individualidade, muito ensinada pelo sistema humano que tudo faz nesse sentido, para poder explorar o homem. Allan Kardec em O Livro dos Médiuns nos informa que os maus Espíritos, quando querem explorar uma pessoa, procura fazê-la sentir-se importante, isso é, faz com que se ressalte seu amor próprio. É isso o que o mundo faz com os homens.
9. O mesmo se dá hoje com as grandes verdades que o Espiritismo revelou. Alguns incrédulos se admiram de que os Espíritos tão poucos esforços façam para os convencer. A razão está em que estes últimos cuidam preferentemente dos que procuram, de boa fé e com humildade, a luz, do que daqueles que se supõem na posse de toda a luz e imaginam, talvez, que Deus deveria dar-se por muito feliz em atrai-los a si, provando-lhes a sua existência.
O poder de Deus se manifesta nas mais pequeninas coisas, como nas maiores. Ele não põe a luz debaixo do alqueire, por isso que a derrama em ondas por toda a parte, de tal sorte que só cegos não a veem. A esses não quer Deus abrir à força os olhos, dado que lhes apraz tê-los fechados. A vez deles chegará, mas é preciso que, antes, sintam as angústias das trevas e reconheçam que é a Divindade e não o acaso quem lhes fere o orgulho. Para vencer a incredulidade, Deus emprega os meios mais convenientes, conforme os indivíduos. Não é a incredulidade que compete prescrever-lhes o que deva fazer, nem lhe cabe dizer: “Se me queres convencer, tens de proceder dessa ou daquela maneira, em tal ocasião e não em tal outra, porque essa ocasião é a que mais me convém”.
São palavras duras, escritas por Kardec, mas que refletem a verdade do processo evolutivo do Espírito imortal. Tendo de fazer seu desenvolvimento espiritual, segundo sua vontade, sujeito a leis sábias e justas, o Espírito será perfeito e feliz, quando e como quiser, semeando e colhendo, exatamente, segundo o uso que fizer do seu livre-arbítrio.
Não se espantem, pois, os incrédulos de que nem Deus, nem os Espíritos, que são os executores da sua vontade, se lhes submetam às exigências, inquiram de si mesmos o que diriam, se o último de seus servidores se lembrasse de lhes prescrever fosse o fosse. Deus impõe condições e não aceita as que lhe queiram impor. Escuta, bondoso, os que a Ele se dirigem humildemente e não os que se julgam mais do que Ele.
10. Perguntar-se-á: não poderia Deus tocá-los pessoalmente, por meio de manifestações retumbantes, diante das quais se inclinassem os mais obstinados incrédulos? É fora de toda dúvida que o poderia; mas, então, que mérito teriam eles e, ao demais, de que serviria? Não se veem todos os dias criaturas que não cedem nem à evidência, chegando até a dizer: “Ainda que eu visse, não acreditaria, porque sei que é impossível?”. Esses, se se negam assim a reconhecer a verdade, é que ainda não trazem maduro o espírito para compreendê-la, nem o coração para senti-la. O orgulho é a catarata que lhes tolda a visão. De que vale apresentar luz a um cego? Necessário é que, antes, se lhe destrua a causa do mal. Daí vem que, médico hábil, Deus primeiramente corrige o orgulho. Ele não deixa ao abandono aqueles de seus filhos que se acham perdidos, porquanto sabe que cedo ou tarde os olhos se lhes abrirão. Quer, porém, que isso se dê de moto-próprio, quando vencidos pelos tormentos da incredulidade, eles venham de si mesmo lançar-se-lhe nos braços e pedir-lhe perdão, quais filhos pródigos.
Deus jamais oculta a luz da verdade a nenhuma criatura, ao contrário, a espalha prodigamente por toda a face da Terra. A inteligência no mundo, quase sempre, está associada ao orgulho e à vaidade que, normalmente, levam o homem a supor-se autossuficiente, satisfeito em buscar os segredos da Terra, que para ele bastam, pondo assim, uma venda nos próprios olhos. Enquanto os vícios morais impedem o orgulhoso de "ver", o simples e humilde pode, com as virtudes conquistadas, desvendar os segredos do Céu. Portanto, são dois sentimentos antagônicos — orgulho e humildade — que situam os seres em níveis diferentes de compreensão, e que os colocam mais ou menos próximos do ideal de verdade, proposto por Jesus e ratificado pelo Espiritismo.
Uma pessoa, que não chega a ser ateia, mas reluta sistematicamente em concordar com os argumentos espíritas, pode entender Deus como uma grande incógnita, um profundo mistério, acima das nossas pobres cogitações humanas, por isso não cuida Dele.
Com esse viés de incredulidade, ela se recusa a aceitar explicações que não sejam obtidas pela metodologia da ciência acadêmica que, como não é difícil compreender, é inadequada para aferir resultados de causa espiritual. Em casos como este é inútil se pensar no argumento de Tomé: "É preciso ver para crer", pois "ver", para a maioria dos incrédulos, não muda suas concepções. Também não é possível se dizer o que Deus deve fazer para superar a sua incredulidade, pois Deus não se submete a quaisquer exigências ou imposições. Apenas "ouve com bondade os que o procuram humildemente, e não os que se julgam mais do que Ele".
A compreensão das questões transcendentais que envolvem o problema de Deus, do ser e das leis divinas, parece não depender só da inteligência, pois muitas pessoas preparadas intelectualmente costumam rejeitar as respostas obtidas com a ajuda do conhecimento espiritual.

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Aquele que se eleva será rebaixado
3. Por essa ocasião, os discípulos se aproximaram de Jesus e lhe perguntaram: “Quem é o maior no reino dos céus?” – Jesus, chamando a si um menino, o colocou no meio deles e respondeu: “Digo-vos, em verdade, que, se não vos converterdes e tornardes quais crianças, não entrareis no reino dos céus. Aquele, portanto, que se humilhar e se tornar pequeno como esta criança será o maior no reino dos céus; e aquele que recebe em meu nome a uma criança, tal como acabo de dizer, é a mim mesmo que recebe”. (Mateus, cap. XVIII, vv. 1 a 5).
COMENTÁRIO:
Como sabemos, Jesus nada escreveu, e seu método de ensino era informal, aproveitando as situações, as conversas, as perguntas do momento para explicar as leis divinas. Suas parábolas são histórias simples, tiradas do cotidiano, dos usos e costumes da época, porque sabia Jesus, o Mestre Maior, que seus ensinos deveriam ser guardados na memória de seus discípulos, para permanecerem e serem divulgados, quando ele já não estivesse aqui.
Ao colocar um menino como modelo a ser seguido, Jesus exaltou a simplicidade e a humildade das crianças em geral, na facilidade com que elas brigam e se reconciliam, não guardando rancor, na confiança e na fé que demonstram aos outros, principalmente, aos adultos, no seu anseio e entusiasmo de aprender.
A criança não conhece o sentimento do ódio e, se diz: "Eu odeio você" é porque ouviu-a de adultos. Entende ela que assim falando, expressa sua raiva do momento, pois, pode, logo em seguida, abraçar e beijar a pessoa a quem disse tais palavras.
4. Então, a mãe dos filhos de Zebedeu se aproximou dele com seus dois filhos e o adorou, dando a entender que lhe queria pedir alguma coisa. – Disse-lhe ele: “Que queres?” “Manda, disse ela, que estes meus dois filhos tenham assento no teu reino, um à tua direita e o outro à tua esquerda”. Mas, Jesus lhe respondeu: “Não sabes o que pedes; podeis vós ambos beber o cálice que eu vou beber?” Eles responderam: “Podemos”. Jesus lhes replicou: “É certo que bebereis o cálice que eu beber; mas, pelo que respeita a vos sentardes à minha direita ou à minha esquerda, não me cabe a mim vo-lo conceder; isso será para aqueles a quem meu Pai o tem preparado”. Ouvindo isso, os dez outros apóstolos se encheram de indignação contra os dois irmãos. Jesus, chamando-os para perto de si, lhes disse: “Sabeis que os príncipes das nações as dominam e que os grandes as tratam com império. Assim não deve ser entre vós; ao contrário, aquele que quiser ser o primeiro entre vós seja vosso escravo; do mesmo modo que o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida pela redenção de muitos”. (Mateus, cap. XX, vv. 20 a 28).
COMENTÁRIO:
A mãe de dois de Seus apóstolos pede a Jesus que seus dois filhos se assentem um à Sua direita, outro à Sua esquerda no Reino, ou seja, ela pediu ao Cristo que desse poder aos seus filhos. O Mestre, por amor à Humanidade, havia assumido entre nós, uma missão de grande sacrifício, que o levaria ao martírio da crucificação. E aquela mãe amorosa não sabia o que estava pedindo para seus filhos.
Desta passagem do Evangelho, podemos extrair, ainda, uma outra lição: quantas vezes almejamos situações de superioridade, julgando-as como um grande bem e nos aborrecemos por não conquistarmos aquilo que desejávamos? Mas, será que estávamos preparados para assumir uma posição superior? Quantas vezes, em prece, pedimos a Deus a realização de algo que queremos muito e, como não vemos o nosso desejo se realizar, imaginamos que sequer fomos escutados, quando, na verdade, o não atendimento à nossa solicitação é justamente o socorro da Providência Divina em nosso benefício, evitando consequências que não poderíamos suportar.
Quando os discípulos pedem esclarecimentos ao Mestre Jesus acerca de suas dúvidas, Ele explica que aquele que vem para servir, que é humilde e simples de coração, que reconhece a Sabedoria do Pai Criador, que não se vangloria e nem exige homenagens na Terra, mas que trabalha no silêncio de sua consciência em benefício do próximo, que aguarda a recompensa do céu e não a dos homens, este será grande no céu, porque se fez pequeno na Terra.
5. Jesus entrou em dia de sábado na casa de um dos principais fariseus para aí fazer a sua refeição. Os que lá estavam o observaram. Então, notando que os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola, dizendo: “Quando fordes convidados para bodas, não tomeis o primeiro lugar, para que não suceda que, havendo entre os convidados uma pessoa mais considerada do que vós, aquele que vos haja convidado venha a dizer-vos: daí o vosso lugar a este, e vos vejais constrangidos a ocupar, cheio de vergonha, o último lugar. Quando fordes convidados, ide colocar-vos no último lugar, a fim de que, quando aquele que vos convidou chegar, vos diga: meu amigo, venha mais para cima. Isso então será para vós um motivo de glória, diante de todos os que estiverem convosco à mesa; porquanto todo aquele que se eleva será rebaixado e todo aquele que se abaixa será elevado. (Lucas, cap. XIV, vv. 1 e 7 a 11).
COMENTÁRIO:
Narra o evangelista Lucas que, em dia de sábado, entrou Jesus na casa de um fariseu, o nome dele não é mencionado, no entanto, o Mestre fora ali convidado à refeição. Quando adentrou o local, foi observado pelos que ali se encontravam. Por sua vez, observou o Cristo que os convidados escolhiam os primeiros lugares, em quase atropelo. Todos desejavam ficar o mais próximo possível do anfitrião. Recordemos que, ao tempo do Mestre, as refeições não eram realizadas em torno de uma mesa.
Nesses dois ensinos informais, Jesus exaltou a necessidade do desenvolvimento da virtude da humildade pelo homem, que é o passaporte para o ingresso no Reino dos Céus. Somente a humildade leva o homem a não se sentir, nunca, em circunstância alguma, superior a quem quer que seja, porque reconhece sua pequenez diante do Pai e sabe que muito tem ainda que aprender. Somente a humildade leva o homem a submete-se às leis divinas, mesmo quando não as compreende bem, porque reconhece nelas o Amor e a Justiça de Deus. Somente a humildade pode levar o homem a amar ao próximo como a si mesmo, de forma plena e incondicional, porque, somente com ela, ele não tem a pretensão à superioridade e à infalibilidade. Vê o outro, qualquer outro, como um irmão num processo evolutivo, igual a ele mesmo, também sujeito a erros e equívocos. Muitos dos ensinos de Jesus nem foram bem entendidos, mas puderam ser vivenciados e divulgados, pela lembrança das situações vividas e pelas parábolas simples que contava.
Neste ensinamento, que estamos estudando, percebemos que o Mestre não estava ensinando regras de etiqueta aos convidados a uma festa ou a um jantar, nem exaltando a vaidade ou a humildade fingida dos convidados. Quis ele ressaltar, uma vez mais, o valor e a necessidade da humildade para alcançar-se o reino dos Céus. O ponto principal deste ensino está na última frase: "Porque todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado". Quem se exalta, quem se põe em evidência, quem se julga melhor, ou superior a outros, quem se vangloria, será humilhado, ou seja, desacreditado, menosprezado, rebaixado. Onde e quando? No seu viver em mundos inferiores, como a Terra, sofrendo as constrições desses mundos, enquanto não desenvolver as qualificações nobres que abrirão as portas do reino dos Céus. Por quem? Pelo funcionamento das leis divinas - lei das reencarnações e lei de causa e efeito - que dão a cada um segundo suas obras - porquanto seu desenvolvimento espiritual é a finalidade maior do viver em mundo materiais. Não há tribunais, julgamentos fora da consciência de cada um, que coloca o ser no lugar exato da sua condição espiritual.
Questões para nossa reflexão:
1 - Por que é necessário tornar-se igual a uma criança para se "entrar no reino dos céus"?
Porque a criança simboliza a simplicidade e a pureza de coração, não tendo pretensões de superioridade ou infalibilidade e, nos assemelhando a ela, com essas características, alcançaremos o reinos dos céus. Não é ser criança, mas semelhantes a mesma.
2 - Por que Jesus nos aconselha a ocupar os últimos lugares?
Porque, quando pretendemos os primeiros lugares, manifestamos nossos sentimentos presunçosos de superioridade; sentimentos estes contrários à prática da humildade. A verdadeira grandeza se afirma pela humildade.
3 - Qual o sentido da expressão: "Aquele que se eleva será rebaixado"?
Os que se elevam pela fortuna, títulos e glórias, morrendo, chegam no plano espiritual desprovidos de tudo, conservando apenas o orgulho que torna sua posição ainda mais humilhante. Aquele que se humilha será exaltado e aquele que se eleva será rebaixado.
CONCLUSÃO DO ESTUDO:
A verdadeira grandeza se afirma pela humildade, condição necessária para a conquista da felicidade. O orgulho e o egoísmo são sentimentos que nos distanciam de Deus.
É importante que prestemos atenção à própria história da Humanidade e o quanto temos evoluído, desde o homem das cavernas que pouco diferia de um animal irracional, até o homem da civilização científica e tecnológica. Entretanto, se no campo intelectual o homem conquistou tão grande evolução, no campo moral não ocorreu o mesmo. Eis aqui a razão do sofrimento humano: somos todos vitimados pelo nosso próprio comportamento, distanciados que estamos das leis de Deus.
As criaturas que, envoltas no véu do orgulho, ignoram que a humildade a que Jesus se referia e para a qual nos chama à prática nada tem a ver com servilismo! Na excelência de sua pedagogia, quando o Mestre nos ensina, simplesmente, que "todo aquele que se eleva será rebaixado", reporta-se ao sentimento de orgulho, porque toda elevação pessoal que tem por base o orgulho é ilusória.
Assim, todo aquele que utiliza o mal como alavanca de elevação será rebaixado, pois só o bem que cultivamos em nós é indestrutível e nos oferece base sólida para todas as realizações. Humildade é sentimento contrário ao orgulho, é o sentimento que tem a possibilidade de fazer o homem entender sua real posição no mundo, posição essa de eterno aprendiz frente à Sabedoria de Deus, nosso Pai Criador. É o sentimento capaz de levar o homem a compreender que, mesmo conhecendo muito, não deve humilhar quem pouco sabe; de perceber que, mesmo conhecedor de muitas coisas, outros existem que sabem mais. A criatura humilde tem a capacidade de ensinar sem demonstrar sabedoria e de auxiliar sem que o outro se sinta humilhado.
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 O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VII – BEM-AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO

O que se deve entender por pobres de espírito
1 – Bem-aventurados os pobres de espírito, pois que deles é o reino dos céus. (Mateus, cap. V, v.3).
2 – A incredulidade zombou desta máxima: Bem-aventurados os pobres de espírito, como tem zombado de muitas outras coisas que não compreende. Por pobres de espírito Jesus não entende os baldos de inteligência, mas os humildes, tanto que diz ser para estes o reino dos céus e não para os orgulhosos.
Os homens de saber e de espírito, no entender do mundo, formam geralmente tão alto conceito de si próprios e da sua superioridade, que consideram as coisas divinas como indignas de lhes merecer a atenção. Concentrando sobre si mesmos os seus olhares, eles não os podem elevar até Deus. Essa tendência, de se acreditarem superiores a tudo, muito amiúde os leva a negar aquilo que, estando-lhes acima, os depreciaria, a negar até mesmo a Divindade. Ou se condescendem em admiti-la, contestam-lhe um dos mais belos atributos; a ação providencial sobre as coisas deste mundo, persuadidos de que eles são suficientes para bem governá-lo. Tomando a inteligência que possuem para medida da inteligência universal, e julgando-se aptos a tudo compreender, não podem crer na possibilidade do que não compreendem. Consideram sem apelação as sentenças que proferem.
Se se recusam a admitir o mundo invisível e uma potência extra-humana, não é que isso lhes esteja fora do alcance; é que o orgulho se lhes revolta à ideia de uma coisa acima da qual não possam colocar-se e que os faria descer do pedestal onde se contemplam. Daí o só terem sorrisos de mofa para tudo o que não pertence ao mundo visível e tangível. Eles se atribuem espírito e saber em tão grande cópia, que não podem crer em coisas, segundo pensam, boas apenas para gente simples, tendo por pobres de espírito os que as tomam a sério.
Entretanto, digam o que disserem, forçoso lhes será entrar, como os outros, nesse mundo invisível de que escarnecem. É lá que os olhos se lhes abrirão e eles reconhecerão o erro em que caíram. Deus, porém, que é justo, não pode receber da mesma forma aquele que lhe desconheceu a majestade e outro que humildemente se lhe submeteu às leis, nem os aquinhoar em partes iguais.
Dizendo que o reino dos céus é dos simples, quis Jesus significar que a ninguém é concedida entrada nesse reino, sem a simplicidade de coração e humildade de espírito; que o ignorante possuidor dessas qualidades será preferido ao sábio que mais crê em si do que em Deus. Em todas as circunstâncias, Jesus põe a humildade na categoria das virtudes que aproximam de Deus e o orgulho entre os vícios que dele afastam a criatura, e isso por uma razão muito natural; a de ser a humildade um ato de submissão a Deus, ao passo que o orgulho é a revolta contra ele. Mais vale, pois, que o homem, para felicidade do seu futuro, seja pobre de espírito, conforme o entende o mundo, e rico em qualidades morais.
COMENTÁRIO:
No Sermão da Montanha, Jesus afirmou: Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Ainda hoje muito se fala sobre tal ensinamento, eis que grande interesse desperta em todos os que tomaram conhecimento dos ensinos do Mestre. No entanto, tal ensino, como tantos outros, resta ainda incompreendido pelos homens.
O que, afinal, o Cristo pretendia proclamar? O Rabi proclama que Deus quer os homens ricos de amor e pobres de orgulho. Os homens ricos são aqueles que acumulam os tesouros que não se confundem com as riquezas da Terra. Seus bens não são jamais corroídos pelas traças, tampouco podem ser subtraídos pelos ladrões.
Os pobres de espírito são os que não têm orgulho. São os humildes, que não se envaidecem pelo que sabem, e que nunca exibem o que têm. A modéstia é o seu distintivo, porque os verdadeiros sábios são aqueles que têm ideia do quanto não sabem. Por isso, a humildade é considerada requisito indispensável para abraçar-se o reino dos céus. Sem a humildade nenhuma virtude se mantém. A humildade é o propulsor de todas as grandes ações, em todas as esferas de atuação do homem. Os humildes são simples ao falar; são sinceros e francos no agir; não fazem ostentação de saber, nem de santidade. A humildade tolerante em sua singeleza compadece-se dos que pretendem afrontá-la com o seu orgulho. Cala-se diante de palavras loucas; suporta a injustiça; vibra com a verdade. A humildade respeita o homem não pelos seus haveres, mas por suas reais virtudes.
A pobreza de paixões e de vícios é a que deve amparar o viajor que busca sinceramente a perfeição. Foi esta a pobreza que Jesus proclamou; a pobreza de sentimentos baixos, representada pelo desapego às glórias efêmeras, ao egoísmo e ao orgulho.
Há muitos pobres de bens terrenos que se julgam dignos do reino dos céus, mas que, no entanto, têm a alma endurecida e orgulhosa. Repudiam a Jesus e se fecham nos redutos de uma fé que obscurece seus entendimentos e os afasta da verdade.
Não é a ignorância nem tampouco a miséria que garantem aos seres a felicidade prometida pelo Mestre. O que nos encaminha para tal destino são os atos nobres, embasados na caridade e no amor incondicional.
Precisamos, também, adquirir conhecimentos que nos permitam alargar o plano de vida, em busca de horizontes mais vastos.
Pobres de espírito são os simples e nobres. Não os orgulhosos. Pobres de espírito são os bons, que sabem amar a Deus e ao próximo, tanto quanto amam a si próprios. São aqueles que observam e vivem as leis de Deus. Estudam com humildade. Reconhecem o quanto ainda não sabem. Imploram a Deus o amparo indispensável às suas almas.
Era a respeito desses homens que o Mestre Nazareno, em Suas Bem-aventuranças, estava se referindo.
Muitos são os que confundem humildade com servilismo. Ser humilde não significa aceitar desmandos e compactuar com equívocos. Ser humilde é reconhecer as próprias limitações, buscando vencê-las, sem alarde, nem fantasias. É buscar, incansavelmente, a verdade e o progresso pessoal, nas trilhas dos exemplos nobres e dignos.
Somos todos iguais aos olhos de Deus. Nossos Espíritos são da mesma essência; nossos corpos são da mesma massa; o que nos distingue? O que nos faz ser diferentes? As virtudes. E a maior delas é a humildade.
Comecemos hoje nossa caminhada rumo à humildade. Vamos dar o primeiro passo. O importante é começar.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VI – O CRISTO CONSOLADOR
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
Advento do Espírito de Verdade
ITEM 5 – Venho, como outrora aos transviados filhos de Israel, trazer-vos a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como o fez antigamente a minha palavra, tem de lembrar aos incrédulos que acima deles reina a imutável verdade; o Deus bom, o Deus grande, que faz germinem as plantas e se levantem as ondas. Revelei a doutrina divina. Como um ceifeiro, reuni em feixes o bem esparso no seio da Humanidade e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis”.
Mas, ingratos, os homens afastaram-se do caminho reto e largo que conduz ao reino de meu Pai e enveredaram pelas ásperas sendas da impiedade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que, ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, isto é, mortos segundo a carne, porquanto não existe a morte, vos socorrais mutuamente, e que se faça ouvir não mais a voz dos profetas e dos apóstolos, mas a dos que já não vivem na Terra, a clamar; Orai e crede! Pois que a morte é a ressurreição, sendo a vida a prova buscada e durante a qual as virtudes que houverdes cultivado crescerão e se desenvolverão como o cedro.
Homens fracos, que compreendeis as trevas das vossas inteligências, não afasteis o facho que a clemência divina vos coloca nas mãos para vos clarear o caminho e reconduzir-vos, filhos perdidos, ao regaço de vosso Pai.
Sinto-me por demais tomado de compaixão pelas vossas misérias, pela vossa fraqueza imensa, para deixar de estender mão socorredora aos infelizes transviados que vendo o céu, caem nos abismos do erro. Crede, amai, meditai sobre as coisa que vos são reveladas; não mistureis o joio com a boa semente, as utopias com as verdades.
Espíritas! Amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo. No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Eis que do além-túmulo, que julgáveis o nada, vozes vos clamam: Irmãos! Nada perece. Jesus Cristo é o vencedor do mal, sede os vencedores da impiedade. (O Espírito de Verdade)
O Espírito de Verdade é um dos assuntos mais discutidos e que provoca bastante polêmica entre os espíritas, por se tratar de alguém tão importante para nós espíritas e que é o grande responsável pela doutrina que professamos. Assim sendo, dou a minha contribuição, na condição de ser apenas um estudioso.
Muitos sustentam a opinião de que se trata de uma falange de Espíritos que reunidos firmaram os conceitos da Codificação, no que discordo, pois, temos a certeza pelo que encontramos noticiado nas obras kardequianas, que é o próprio Jesus quem usa de tal denominação para se exprimir em diversas mensagens contidas nas obras básicas do Espiritismo.
Podemos verificar que o Espírito de Verdade se manifesta isoladamente em várias comunicações contidas nesse Evangelho. Observando atentamente o contido em O Livro dos Espíritos, exatamente no último parágrafo dos Prolegômenos, não temos qualquer dúvida quanto ao que afirmamos, pois entre as diversas personalidades do mundo maior, citadas como participantes ativos da obra, está alguém que se denomina simplesmente como o Espírito de Verdade, conforme segue:
“Lembra-te de que os Bons Espíritos só dispensam assistência aos que servem a Deus com humildade e desinteresse e que repudiam a todo aquele que busca na senda do Céu um degrau para conquistar as coisas da Terra; que se afastam do orgulhoso e do ambicioso. O orgulho e a ambição serão sempre uma barreira erguida entre o homem e Deus. São um véu lançado sobre as claridades celestes, e Deus não pode servir-se do cego para fazer perceptível a luz.”
São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, etc., etc.
Analisando o que acima está exposto, perguntamos: quem seria capaz de se proclamar O Espírito de Verdade, senão ele que nos asseverou em (João 14/6), “eu sou o caminho a verdade e a vida, ninguém vai ao pai senão por mim”?
Passamos agora ao contido na Revista espírita, que aqui seleciono:
Revista Espírita 1866, pág. 222, sob o título; Qualificação de Santo aplicada a certos espíritos, ensina:
“O Espírito que ditou a comunicação acima é, pois, muito absoluto no que concerne a qualificação de santo, e não está na verdade dizendo que os Espíritos superiores se dizem simplesmente Espíritos de Verdade, qualificação que não seria senão um orgulho mascarado sob outro nome, e que poderia induzir em erro se tomado ao pé da letra, porque ninguém pode se gabar de possuir a verdade absoluta, não mais do que a santidade absoluta. A qualificação de Espírito de verdade, não pertence senão a um e pode ser considerada como nome próprio; ela é especificada no evangelho. De resto, esse Espírito se comunica raramente, e somente em circunstâncias especiais; deve-se manter em guarda contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título: são fáceis de se reconhecer, pela prolixidade e pela vulgaridade de sua linguagem”.
Não restando, portanto, a nós mais dúvida quanto a não ser uma coletividade, uma vez que as explicações dadas acima, pelo Codificador, nos apontam para identificá-lo como sendo mesmo uma individualidade. Inclusive, da judiciosa recomendação de que “deve-se manter em guarda contra aqueles que se apoderam indevidamente desse título”, podemos perceber que se trata de um Espírito de elevada hierarquia que, embora não se manifestasse de forma rotineira, dele já se tinha uma ideia do estilo de linguagem, que estava bem longe da prolixidade e da vulgaridade.
Assim, o Espírito de Verdade se apresentou a Kardec e, por motivo de discrição, não disse absolutamente nada sobre si mesmo. Aliás, “muita discrição” foi a atitude que Ele recomendou ao Codificador (Obras Póstumas, 2006, p. 313).
Diante disso, para nós, fica bem claro que Kardec ficou sabendo quem realmente era o Espírito de Verdade, visto ele confessar que estava longe de supor a sua superioridade, o que nos leva a concluir que deveria ser alguém de extraordinário valor, pois, se não fosse um Espírito de elevada categoria, teria dito o seu nome sem maiores reservas. Por outro lado, foi um Espírito que esteve encarnado entre nós, ou seja, que foi reconhecido; caso contrário não se poderia supor a sua elevada evolução. Além disso, o coloca à frente, na linha de comando, dos bons Espíritos, envolvidos nessa nova proposta de renovação da humanidade, ao afirmar que eles agiam sob suas ordens.
Não vemos nenhuma impossibilidade de Jesus ter assistido a Kardec, pois algo parecido, como sabemos, aconteceu a Paulo, conforme relatado no Novo Testamento, no qual Jesus aparece ao apóstolo dos gentios, quando ele se dirigia a Damasco (At 9,3-5) e até mesmo o instrui a não ir a Bitínia (At 16,6-7). Aliás, é algo que todos nos aceitamos sem questionar, então, por que o fazemos em relação à Kardec?
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VI – O CRISTO CONSOLADOR

Consolador prometido
O Evangelho de João registra da seguinte forma a promessa de Jesus relativa ao Consolador:
ITEM 3 – Se me amais, guardai os meus mandamentos; e eu rogarei a meu Pai e ele vos enviará outro Consolador, a fim de que fique eternamente convosco: O Espírito de Verdade, que o mundo não pode receber, porque o não vê e absolutamente o não conhece. Mas, quanto a vós, conhecê-lo-eis, porque ficará convosco e estará em vós. Porém, o Consolador, que é o Santo Espírito, que meu Pai enviará em meu nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará recordar tudo o que vos tenho dito.
ITEM 4 – Jesus promete outro consolador: o Espírito de Verdade, que o mundo ainda não conhece, por não estar maduro para o compreender, consolador que o Pai enviará para ensinar todas as coisas e para relembrar o que o Cristo há dito. Se, portanto, o Espírito de Verdade tinha de vir mais tarde ensinar todas as coisas, é que o Cristo não disse tudo; se ele vem relembrar o que o Cristo disse, é que o que este disse foi esquecido ou mal compreendido.
O Espiritismo vem, na época predita, cumprir a promessa do Cristo; preside ao seu advento o Espírito de Verdade. Ele  chama os homens à observância da lei; ensina todas as coisas fazendo compreender o que Jesus só disse por parábolas. Advertiu o Cristo: “Ouçam os que têm ouvidos para ouvir”. O Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos, porquanto fala sem figuras, nem alegorias; levanta o véu intencionalmente lançado sobre certos mistérios. Vem, finalmente, trazer a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem, atribuindo causa justa e fim útil a todas as dores.
Disse o Cristo: “Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados”. Mas, como há de alguém sentir-se ditoso por sofrer, se não sabe por que sofre? O Espiritismo mostra a causa dos sofrimentos nas existências anteriores e na destinação da Terra, onde o homem expia o seu passado. Mostra o objetivo dos sofrimentos, apontando-os como crises salutares que produzem a cura e como meio de depuração que garante a felicidade nas existências futuras. O homem compreende que mereceu sofrer e acha justo o sofrimento. Sabe que este lhe auxilia o adiantamento e o aceita sem murmurar, como o obreiro aceita o trabalho que lhe assegura o salário. O Espiritismo lhe dá fé inabalável no futuro e a dúvida pungente não mais se lhe apossa da alma. Dando-lhe a ver do alto as coisas, a importância das vicissitudes terrenas some-se no vasto e esplêndido horizonte que ele o faz descortinar, e a perspectiva da felicidade que o espera lhe dá a paciência, a resignação e a coragem de ir até ao termo do caminho.
Assim, o Espiritismo realiza o que Jesus disse do Consolador prometido: conhecimento das coisas, fazendo que o homem saiba donde vem, para onde vai e por que está na Terra; atrai para os verdadeiros princípios da lei de Deus e consola pela fé e pela esperança.
Verifica-se por essas palavras que o Consolador prometido por Jesus, também chamado de Santo Espírito e de Espírito de Verdade, seria enviado à Terra com a missão de consolar, lembrar o que ele dissera e ensinar todas as coisas.
Se o Cristo não disse tudo que teria podido dizer, é que acreditava dever deixar certas verdades na sombra até que os homens estivessem prontos para compreender. Conforme sua declaração, seus ensinamentos estavam incompletos, já que anunciava a vinda daquele que os deveria completar; previa então que se enganariam sobre suas palavras, que se desviariam de seus ensinamentos; em uma palavra, que desfariam aquilo que tinha feito, já que todas as coisas deveriam ser restabelecidas; ora só se restabelece aquilo que foi desfeito.
Se o Cristo não pode desenvolver seu ensinamento de uma maneira completa, é que faltava aos homens conhecimentos que não poderiam adquirir senão com o tempo, e sem os quais não o poderiam compreender; coisas que poderiam parecer um contrassenso no estado de conhecimento de então. Completar seu ensinamento devia então ser entendido no sentido de explicar e desenvolver, bem mais do que de acrescentar verdades novas, porque tudo se encontrava em germe; somente faltava a chave para apreender o sentido de suas palavras.
O Consolador, como Espírito de Verdade, teria, pois, de dar ao homem o conhecimento de sua origem, da necessidade de sua estada na Terra e do seu destino, espalhando por todo o lado a consolação que advém da fé e da esperança. Seu compromisso com a verdade (o ensino de todas as coisas) o eleva à condição de uma nova Revelação (a terceira) da lei de Deus aos homens. Ora, o Espiritismo, procedendo de Espíritos sábios e bondosos, num verdadeiro derramamento da mediunidade na carne, preenche integralmente essas condições, visto que: procura lembrar-nos o que Jesus ensinou; ensina-nos muitas coisas que o Evangelho não pôde explicar adequadamente;  consola e conforta os que sofrem ao mostrar-lhes a causa e a finalidade dos sofrimentos humanos.
A revelação cristã sucedeu à revelação mosaica; a revelação dos Espíritos veio completá-la. O Espiritismo é, pois, segundo os próprios Espíritos superiores, o Consolador prometido pelo Cristo. Várias foram as razões que justificaram a promessa do Cristo, relativamente ao advento do Espírito de Verdade. Uma delas seria a inoportunidade de uma revelação total e completa pelo Cristo, numa época em que o homem não estaria amadurecido para compreendê-la. Outra razão seria o esquecimento e a falta de vivência das verdades apregoadas no Evangelho. E mais do que isto, destacam-se como forte razão as distorções premeditadas que a mensagem evangélica sofreu ao longo dos tempos. Kardec afirma, em "A Gênese", terem sido dois mil anos de fermentação e de criminosas deformações da mensagem cristã. A relação entre o Espiritismo e o Consolador prometido está no fato de a Doutrina Espírita preencher todas as condições inerentes ao Paráclito anunciado por Jesus. Como assinala Kardec, o Espiritismo vem abrir os olhos e os ouvidos de toda gente, pois fala sem figuras, nem alegorias, e levanta o véu intencionalmente lançado sobre certos mistérios, trazendo a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem. Se, de um lado, o Espírito de Verdade se apresentava aos homens, à frente de elevadas Entidades espirituais, que voltaram à Terra para completar a obra do Cristo, de outro Kardec se punha a postos, à frente de criaturas espiritualizadas, dispostas a colaborar na imensa tarefa. Cumpria-se, assim, uma promessa do Cristo, por meio de todo um imenso processo de amadurecimento espiritual do homem. Kardec foi, portanto, o instrumento de que se serviu o Alto para completar a mensagem do Cristo, como ele mesmo havia prometido, por intermédio de uma Doutrina altamente consoladora e intimamente ligada ao ensino moral contido no Evangelho de Jesus, que permanecerá para sempre conosco.
Questões para reflexão:
O Consolador prometido por Jesus deveria apresentar algumas características especiais. Quais são elas?
R.: Além, evidentemente, da tarefa de consolar, ele deveria lembrar o que Jesus havia ensinado e, ultrapassando o próprio ensino do Cristo, ensinar ao homem todas as coisas.
Por que motivo o Espiritismo se apresenta como o Consolador prometido por Jesus?
R.: A revelação cristã sucedeu à revelação mosaica, e a revelação dos Espíritos veio completá-la. O Espiritismo é, segundo afirmam os próprios Espíritos superiores, o Consolador prometido pelo Cristo. E ele, de fato, preenche integralmente as condições mencionadas na promessa do Cristo, visto que:
1o - procura lembrar-nos o que Jesus ensinou;
2o - ensina-nos muitas coisas que o Evangelho não pôde explicar adequadamente;
3o - consola e conforta os que sofrem ao mostrar-lhes a causa e a finalidade dos sofrimentos humanos.
Que razões justificariam a promessa do Cristo, relativamente ao advento do Espírito de Verdade?
R.: Várias foram as razões que justificaram a promessa do Cristo, relativamente ao advento do Espírito de Verdade. Uma delas seria a inoportunidade de uma revelação total e completa pelo Cristo, numa época em que o homem não estaria amadurecido para compreendê-la. Outra razão seria o esquecimento e a falta de vivência das verdades apregoadas no Evangelho. E mais do que isto, destacam-se como forte razão as distorções premeditadas que a mensagem evangélica sofreu ao longo dos tempos.
O Espiritismo preenche todas as condições inerentes ao Consolador prometido por Jesus?
R.: Sim. Inexiste dúvida quanto a isso. Como assinala Kardec, o Espiritismo veio abrir os olhos e os ouvidos de toda gente, pois fala sem figuras, nem alegorias, e levanta o véu intencionalmente lançado sobre certos mistérios, trazendo a consolação suprema aos deserdados da Terra e a todos os que sofrem e cumprindo, desse modo, todas as condições citadas por Jesus em sua promessa.
O ESPIRITISMO. Em sua passagem pela Terra, Jesus deixou uma noção muito vaga sobre a vida após a morte. O Espiritismo desenvolve e aprofunda essa questão, tentando mostrar-nos como seria a vida futura, o mundo espiritual, explicando os mistérios do nascimento e da morte, afastando as ideias dogmáticas de céu e inferno ou de anjos e demônios. Busca demonstrar a existência do espírito, seus diversos graus de adiantamento e os laços que o unem ao corpo, a possibilidade da comunicação entre os mortos e os vivos e a necessidade das vidas sucessivas para se atingir progresso.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO VI – O CRISTO CONSOLADOR

O Jugo leve

ITEM 1 - "Vinde a mim, todos os que andais em sofrimentos e vos achais carregados, eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." ( Mateus XI: 28 a 30)
ITEM 2 - Todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de seres amados, encontram consolação em a fé no futuro, em a confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens. Sobre aquele que, ao contrário, nada espera após esta vida, ou que simplesmente duvida, as aflições caem com todo o seu peso e nenhuma esperança lhe mitiga o amargor. Foi isso que levou Jesus a dizer: “Vinde a mim todos vós que estais fatigados, que eu vos aliviarei”.
Entretanto, faz depender de uma condição a sua assistência e a felicidade que promete aos aflitos. Essa condição está na lei por ele ensinada. Seu jugo é a observância dessa lei; mas, esse jugo é leve e a lei é suave, pois que apenas impõe, como dever, o amor e a caridade.
Nessa passagem do Evangelho, Kardec nos fala que são muitos os sofrimentos que nós experimentamos aqui na Terra. Mas, para todos eles existe uma consolação, existe um alívio. Se nós prestarmos atenção, em todos esses momentos difíceis nós encontramos um alívio.
Vinde a mim, todos vós que estais em sofrimentos e vos achais carregados, e eu vos aliviarei. Nós temos confundido muito os ensinamentos de Jesus, como nessa passagem. Nós vemos que o Mestre nos promete alívio e não cura, nem nos prometeu afastar de nossas vidas os sofrimentos dos quais precisamos, e esse alívio deve ser entendido por força, por coragem, para que possamos continuar o nosso caminho. Quando Jesus fez esse convite, Ele não se dirigiu somente às pessoas que estavam ali, à sua volta. O Mestre o fez para toda a Humanidade, presente e futura, porque sabia perfeitamente que o sofrimento e a dor faziam parte, como continuam a fazer parte do grau de evolução que ainda nos encontramos.
Mas, o que significa isso? Raciocinando sobre esta frase, podemos fazer algumas indagações, tais como: Por que Jesus se dirige aos que estão em sofrimento? De que forma Ele os aliviará? O que significa tomar o Seu jugo? Como esse jugo pode ser suave e o fardo leve? Como um fardo como o de Jesus pode ser leve? Como compreender Suas palavras, se nós vemos e experimentamos tantos sofrimentos neste mundo?
Dirigindo-se aos que estão em sofrimento, o Cristo está se dirigindo a toda a Humanidade, pois todos passam por momentos de dor e vicissitudes. Jesus sabia (e sabe) que nos momentos difíceis é que Suas palavras podem ser melhor compreendidas e aceitas, visto que, nos momentos agradáveis e fáceis, o ser humano, ainda muito vinculado aos valores terrenos, não sente a necessidade de ser confortado, ou mesmo esclarecido sobre as leis espirituais; dirigindo-Se, pois, aos que andam em sofrimento, Jesus está apenas escolhendo a melhor ocasião de ser entendido e atendido. O alívio que o Mestre pode dar é o que vem da compreensão, da aceitação e do esforço da prática das leis de Deus. O convite é tentador, pois o meigo Rabi da Galiléia promete alívio para as dores humanas.
O que podemos entender sobre esse capítulo do Evangelho? Será que podemos afirmar que o tema tem por objetivo esclarecer sobre o papel da doutrina Cristã em relação à consolação dos nossos sofrimentos? Seria um alerta sobre a necessidade da dor e da procura da solução para erradicá-la da nossa existência? Jesus nos convida para irmos até Ele, pois seremos aliviados, não é? Então, o que seria ir até Jesus? Basta ir fisicamente ao Centro Espírita ou a um templo religioso? O que mais seria preciso? A presença é importante porque faz parte do processo de ensino e de nossa saúde espiritual, mas é preciso estar lá também em espírito, em sentimento, em pensamento, em vontade, porque é isso que nos auxiliará a obtermos não só os esclarecimentos que aumentam nossa capacidade de compreensão e conscientização, mas também os remédios para as nossas dores, aflições, sofrimentos, para receber o alívio que Jesus prometeu.
Hoje, graças à Doutrina Espírita, nós sabemos que o sofrimento é uma necessidade nossa, e através dele ganhamos experiência, aprendemos, ressarcimos dívidas do passado. Daí, a importância de nos momentos difíceis nós estarmos unidos a Deus, porque sofrer com Deus e sofrer sem Deus tem uma diferença muito grande.
Questões para estudo:
Por que Jesus promete o alívio e não a cura de nossos males?
Porque, sendo os nossos males consequências de maus procedimentos no passado, a cura compete, exclusivamente, a nós. Porém, através do Seu Evangelho, Jesus nos oferece os meios necessários para superar esses sofrimentos.
Quando buscamos em Jesus e no seu evangelho, alívio para os nossos sofrimentos, ele nos conforta.
Como podemos conseguir a libertação dos nossos sofrimentos?
Através da reforma íntima, modificando nossas atitudes e pensamentos, vivenciando as diretrizes do evangelho. O que disso não for possível fazer nesta vida, Deus nos propicia a reencarnação como recurso para continuar buscando.
Compete a cada um de nós, por intermédio do livre arbítrio, direcionar nossas ações para o bem, edificando, assim, a nossa libertação.
Que quis Jesus dizer com a expressão: Meu jugo é suave e leve é o meu fardo?
O jugo de Jesus é a observância do seu evangelho. Seu fardo é leve, pois consiste em praticar o amor e a caridade.
Esse jugo é leve e a lei é suave, pois que apenas impõe, como dever o amor e a caridade.
Conclusão do Estudo:
Jesus promete alívio aos aflitos, desde que se submetam ao seu jugo. Esse jugo é a observância da lei por Ele ensinada, que, se bem cumprida, propicia alívio dos sofrimentos, através da fé no futuro e da confiança na justiça de Deus.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Sacrifício da própria vida

Kardec pergunta ao Espírito São Luís:
ITEM 29 – Aquele que se acha desgostoso da vida, mas que não quer extingui-la por suas próprias mãos, será culpado se procurar a morte num campo de batalha, com o propósito de tornar útil sua morte?
E São Luís responde:
Que o homem se mate ele próprio, ou faça que outrem o mate, seu propósito é sempre cortar o fio da existência; há, por conseguinte, suicídio intencional, se não de fato. É ilusória a ideia de que sua morte servirá para alguma coisa; isso não passa de pretexto para colorir o ato e escusá-lo aos seus próprios olhos. Se ele desejasse seriamente servir ao seu país, cuidaria de viver para defendê-lo; não procuraria morrer, pois que, morto, de nada mais lhe serviria. O devotamento consiste em não temer a morte, quando se trate de ser útil, em afrontar o perigo, em fazer, de antemão e sem pesar, o sacrifício da vida, se for necessário. Mas, mas buscar a morte com premeditada intenção, expondo-se a um perigo, ainda que para prestar serviço, anula o mérito da ação.
ITEM 30 – Se um homem se expõe a um perigo iminente para salvar a vida a um de seus semelhantes, sabendo de antemão que sucumbirá, pode o seu ato ser considerado suicídio?
O Espírito comunicante responde:
Desde que no ato não entre a intenção de buscar a morte, não há suicídio e, sim, apenas, devotamento e abnegação, embora também haja a certeza de que morrerá. Mas, quem pode ter essa certeza? Quem poderá dizer que a Providência não reserva um inesperado meio de salvação para o momento mais crítico? Não poderia ela salvar mesmo aquele que se achasse diante da boca de um canhão? Pode muitas vezes dar-se que ela queira levar ao extremo limite a prova da resignação e, nesse caso, uma circunstância inopinada desvia o golpe fatal.
Proveito dos sofrimentos para outrem
ITEM 31 – Os que aceitam resignados os sofrimentos, por submissão à vontade de Deus e tendo em vista a felicidade futura, não trabalham somente em seu próprio benefício? Poderão tornar seus sofrimentos privilégios a outrem?
São Luís responde:
Podem esses sofrimentos ser de proveito para outrem, material e moralmente; materialmente se, pelo trabalho, pelas privações e pelos sacrifícios que tais criaturas se imponham, contribuem para o bem-estar material de seus semelhantes; moralmente, pelo exemplo que elas oferecem de sua submissão à vontade de Deus. Esse exemplo do poder da fé espírita pode induzir os desgraçados à resignação e salvá-los do desespero e de suas consequências funestas para o futuro.
Sendo o homem um Espírito encarnado, fazendo sua evolução, através das experiências vividas na Terra, é a intenção dos seus atos que demonstra o que ele realmente é, o que sente, o que pensa, o que quer e o que faz. No funcionamento das leis divinas, em relação ao espírito imortal, a intenção é o que realmente conta. Quer o homem se mate ou se faça matar, o objetivo é sempre o de abreviar a vida e, por conseguinte, há suicídio de intenção, embora, não haja de fato.
O que caracteriza o ato de suicídio é a intenção premeditada de abreviar a própria existência, seja ela qual for. O suicídio é um ato extremo do individuo, que atenta contra todos os princípios éticos, morais e religiosos. Todas as religiões, sem exceção, são contrárias ao suicídio e valorizam o dom divino da vida. Abreviar a própria vida denota verdadeira pobreza espiritual, medo de enfrentar as agruras que a vida nos impõe, como forma de crescermos como pessoa e espiritualmente.
A própria justiça humana, tão imperfeita, porque é feita por homens imperfeitos, traz, nos seus códigos, a diferenciação entre o crime culposo, sem medir as consequências, sem a intenção de fazê-lo e o crime doloso, quando está presente no ato a intenção de realizá-lo.
O que caracteriza o ato de suicídio é a intenção premeditada de abreviar a própria existência, seja ela qual for. O suicídio é um ato extremo do individuo, que atenta contra todos os princípios éticos, morais e religiosos. Todas as religiões, sem exceção, são contrárias ao suicídio e valorizam o dom divino da vida.
Quando os enganos acontecem e, ao invés de ajudar, determinada ação prejudica, o homem tem responsabilidade relativa nas suas consequências. Sentirá, dentro de si, a necessidade de reparar os efeitos, mas não será considerado culpado pela lei ou por ele, visto que a intenção sua era auxiliar.
CONCLUSÃO
A vida é obra eterna de nosso Pai, que nos compete respeitar e preservar, agindo segundo suas leis, sabiamente insculpidas por Ele em nossa consciência. O sacrifício da própria vida pode ser válido, para Deus, quando praticado exclusivamente em benefício do próximo. Nossos sofrimentos podem ser proveitosos para outrem, material ou moralmente, desde que suportados por nós com resignação e submissão à vontade de Deus.
Existem diversas formas para abreviarmos nossa própria existência, como o suicídio direto e o indireto, por assim dizer.
No conhecer-se a si próprio, através do voltar-se para dentro de si, analisando o que sente em relação à vida, a si próprio, aos outros, libertando-se do verniz da educação social, das astúcias do orgulho e do egoísmo, que disfarçam as más intenções, vai o homem percebendo suas reais intenções em tudo que faz.
PERGUNTAS PARA REFLEXÃO
1 - Existe, perante Deus, alguma diferença entre o homem se matar e fazer com que outrem o mate?
Não há diferença alguma, porquanto, perante Deus, o que vale é a intenção. E, uma vez que, em qualquer dos casos citados, o propósito da criatura é o mesmo - suicidar-se -, ambos têm a mesma reprovação de Deus.
A vida nos foi concedida por Deus, a quem, unicamente, compete tirá-la.
2 - Haverá caso em que o homem tenha mérito, expondo-se a perigo de morte?
Sem desconsiderar a prudência e o dever que cada ser humano tem de preservar a vida, poderá haver casos em que alguém tenha mérito por haver se exposto à morte; quando esta lhe advenha de atitude voltada unicamente em benefício da vida do próximo, sem nenhuma intenção premeditada de morrer, mínima que seja.
O verdadeiro devotamento consiste em não temer a morte, quando se trate de ser útil, em afrontar o perigo, em fazer, de antemão e sem pesar, o sacrifício da vida, se for necessário.
3 - De que forma podem nossos sofrimentos ser proveitosos para outrem?
Podem esses sofrimentos ser de proveito para outrem, material e moralmente: materialmente se, pelo trabalho, pelas privações e pelos sacrifícios que tais criaturas se imponham, contribuem para o bem-estar material de seus semelhantes; moralmente, pelo exemplo que elas oferecem de sua submissão à vontade de Deus.
Muitas pessoas se preocupam moral e materialmente, apenas se valendo do exemplo de outras que, em circunstâncias parecidas, se reergueram e venceram os obstáculos.
Na questão 951, de O Livro dos Espíritos, Allan Kardec perguntou: “Não é, às vezes, meritório o sacrifício da vida, quando aquele que o faz visa salvar a de outrem, ou ser útil aos seus semelhantes?” A resposta foi: “Isso é sublime, conforme a intenção, e, em tal caso, o sacrifício da vida não constitui suicídio. Mas, Deus se opõe a todo sacrifício inútil e não o pode ver de bom grado, se tem o orgulho a manchá-lo. Só o desinteresse torna meritório o sacrifício e, não raro, quem o faz guarda oculto um pensamento, que lhe diminui o valor aos olhos de Deus.” De seguida, Allan Kardec complementou a resposta com um comentário seu: “Todo o sacrifício que o homem faça à custa da sua própria felicidade é um ato soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque resulta da prática da lei de caridade. Ora, sendo a vida o bem terreno a que maior apreço dá o homem, não comete atentado o que a ela renuncia pelo bem de seus semelhantes: cumpre um sacrifício. Mas, antes de o cumprir, deve refletir sobre se sua vida não será mais útil do que sua morte.”
4 - Por que é censurável o homem buscar a morte num campo de batalha, quando o faz imbuído da vontade de servir ao seu país?
Conforme já se viu na questão anterior, a Deus vale a intenção. Aqui também, o que prevalece é o propósito de se extinguir a própria vida. Se a vontade maior da criatura é de servir a seu país, há outras tantas formas de fazê-lo sem ter que expor a vida.
5 - Haverá caso em que o homem tenha mérito, mesmo expondo-se a perigo de morte?
Sem considerar a prudência e o dever que cada ser humano tem de preservar a vida, poderá haver casos em que alguém tenha mérito por haver se exposto à morte; quando esta lhe advém da atitude voltada unicamente em benefício da vida do próximo, sem nenhuma intenção premeditada de morrer, mínima que seja.
6 - Por que, muitas vezes, somos colocados em situações que nos forçam a agir, inclusive, com a possibilidade de por em risco a nossa própria vida?
Essas situações são colocadas à frente pela providência divina, a fim de por em prova o nosso devotamento e abnegação em relação ao próximo.
7 - Sob qual razão pode ser válido o homem buscar salvar a vida do semelhante, mesmo sabendo que pode sucumbir?
Uma vez que desconhecemos os desígnios de Deus, nunca podemos afirmar que um acontecimento qualquer possa ser fatal para alguém. Portanto, em toda e qualquer circunstância, a nossa boa vontade de servir ao próximo deve estar à frente, visto ser isso o que importa ao Pai.
“Jesus, ao escrever a Lei de Amor, não acrescentou condição alguma para sua prática.”
8 - Todo sofrimento se reverte em benefício de outrem?
Não. O sofrimento, para ser proveitoso tanto para aquele que lhe padece os efeitos como para os outros, tem que ser resignado e submisso às leis divinas, além de ser apoiado na confiança em Deus e na vida futura.
9 - De que forma podem nossos sofrimentos serem proveitosos para outrem?
“Podem esses sofrimentos ser de proveito para outrem, material e moralmente: materialmente se, pelo trabalho, pelas privações e pelos sacrifícios que tais criaturas se imponham, contribuem para o bem-estar material de seus semelhantes; moralmente, pelo exemplo que elas oferecem de submissão à vontade de Deus.”
“Muitas pessoas se recuperam moral e materialmente apenas valendo-se do exemplo de outras que, em circunstâncias parecidas, se reergueram e venceram os obstáculos.”
(Do livro “Roteiro Sistematizado Para o Estudo do Livro O Evangelho Segundo O Espiritismo” - Fundação Allan Kardec)
ROTEIRO
a) O desgosto pela vida que atinge alguns indivíduos sem-motivos plausíveis, geralmente, é causada pelo efeito da ociosidade, da falta de fé e também pelos costumes da sociedade.
b) O homem não tem direito de dispor da sua vida, porque ela lhe foi concedida visando aos deveres que tem que cumprir na Terra como encarnado, por isso não deve abrevia-la voluntariamente sob pretexto algum. Visto possuir o livre arbítrio, poderá praticar o suicídio, mas terá sempre que arcar com as consequências penosas que esse ato geralmente acarreta, porque esse ato é considerado uma transgressão a lei natural ou de Deus.
c) Fugir das misérias e decepções do mundo significa falta de coragem. As tribulações da vida podem ser provas ou expiações ou as duas juntas. Um Espírito que sucumbiu muitas vezes à uma provação, esta será renovada a cada existência até quando for preciso. Assim, podemos dizer, que não existe proveito no sofrimento enquanto não atingirmos o objetivo ou enquanto deixarmos de atingir a finalidade da encarnação em que nos encontramos, sendo preciso recomeçá-la até que saiamos vitoriosos dessa campanha.
d) Aqueles (encarnados ou desencarnados) que induzirem alguém ao suicídio responderão por assassinato. Levar alguém a praticar o suicídio e subtrair-lhe às provações da vida.
e) Mesmo que o suicídio tenha por finalidade escapar de alguma vergonha ou de uma má ação, ainda assim, é um ato de covardia, de lutar para melhorar ou procurar reverter a situação.
f) O suicídio não consiste somente no ato voluntário que produz a morte instantânea, mas em tudo quanto se faça conscientemente para apressar a extinção das forças vitais.
g) A justiça Divina preside a distribuição as expiações da vida segundo o grau de responsabilidade e a capacidade evolutiva de cada um.
h) Comete suicídio moral o homem que perece vítima de paixões que sabia lhe haviam de apressar o fim e que já não podia resistir. É, nesse caso, duplamente culpado, pois há nele falta de coragem e bestialidade, acrescidas do esquecimento de Deus e de fazer o bem. Nesse caso, será muito mais responsabilizado do que aquele que tira a si mesmo a vida por desespero, pois este teve tempo de refletir sobre as suas ações.
i) É sempre um erro, uma falha, aquele que não aguarda o termo que Deus lhe marcou para a existência, ainda que a morte fosse inevitável e que tenha abreviado a vida apenas por alguns instantes.
j) Quando não há intenção ou a consciência perfeita da prática do mal, como no caso de uma imprudência que pode comprometer a vida, neste caso não houve a intenção de se tirar a vida, também, não pode ser considerado um suicídio.
k) Não se pode considerar suicídio a abnegação daquele que se expõe à morte para salvar o seu semelhante: primeiro, porque no caso não há intenção de se privar da vida, e, segundo, porque não há perigo do qual a Providência nos não possa subtrair, quando a hora não seja chegada. A morte em tais contingências é sacrifício meritório, como ato de abnegação em proveito de outrem. (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V, itens n os 5, 6, 18 e 19.)
l) Não há uma só falta, por mais leve que seja, uma única infração à sua lei, que não tenha consequências forçosas e inevitáveis, mais ou menos desagradáveis. Donde se segue que, nas pequenas como nas grandes coisas, o homem é sempre responsabilizado naquilo em que praticou. Os sofrimentos consequentes, salvo os das provas naturais, são então uma advertência de que não praticou o bem.
m) Os que se matam obedecendo a um costume preconceituoso de um povo é levado mais pela força da tradição, do que pela vontade própria, julgam cumprir um dever, o que descaracteriza o suicídio. Por exemplo: As mulheres que em certos países se queimam voluntariamente sobre os corpos de seus maridos obedecendo a um costume geral. Esses atos pela falta de moral e da ignorância daqueles que o praticam, não devem ser caracterizados por suicídio. A evolução das civilizações fará desaparecer naturalmente esses costumes.
n) Aqueles que se matam na esperança de ir juntar-se às pessoas que lhes eram queridas e não se conformam com a perda delas, cometendo o suicídio, ao invés de se aproximarem e reunirem-se a elas se afastarão por mais tempo. Um ato de covardia não pode agradar a Deus, por isso, as compensações e as satisfações que esperavam não aconteceu, ao contrário, surgiram-lhe à frente maiores aflições.
o) As consequências do suicídio para o espírito são diversas, não havendo penas determinadas.  Há, porém, uma a que o suicida não pode escapar: o desapontamento.  Mas as consequências depende das circunstâncias. Alguns expiam a falta de imediato; outros, em nova existência, que será mais dificultosa do que aquela cujo curso interromperam.
p) O homem não é, portanto, punido sempre, ou completamente punido, na sua existência presente, mas jamais escapa às consequências de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea, e se ele não expia hoje, expiará amanhã, pois aquele que sofre está sendo submetido à expiação do seu próprio passado. A desgraça que, à primeira vista, parece imerecida, tem, portanto, a sua razão de ser, e aquele que sofre pode sempre dizer:
Perdoai-me, Senhor, porque eu pequei".
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Será lícito abreviar a vida de um doente que sofra sem esperança de cura?

Kardec pergunta ao Espírito São Luís:
ITEM 28 – Um homem está agonizante, presa de cruéis sofrimentos. Sabe-se que seu estado é desesperador. Será lícito pouparem-se-lhe alguns instantes de angústias, apressando-se-lhe o fim?
Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? Não pode ele conduzir o homem até à borda do fosso, para daí o retirar, a fim de fazê-lo voltar a si e alimentar ideias diversas das quais tinha? Ainda que haja chegado ao último extremo um moribundo, ninguém pode afirmar com segurança que lhe haja soado a hora derradeira. A Ciência não se terá enganado nunca em suas previsões?
Sei bem haver casos que se podem, com razão, considerar desesperadores; mas, se não há nenhuma esperança fundada de um regresso definitivo à vida e à saúde, existe a possibilidade, atestada por inúmeros exemplos, de o doente, no momento mesmo de exalar o último suspiro, reanimar-se e recobrar por alguns instantes as faculdades! Pois bem: essa hora de graça, que lhe é concedida, pode ser-lhe de grande importância. Desconheceis as reflexões que seu Espírito poderá fazer nas convulsões da agonia e quantos tormentos lhe pode poupar um relâmpago de arrependimento.
O materialista, que apenas vê o corpo e em nenhuma conta tem a alma, é inapto a compreender essas coisas; o espírita, porém, que já sabe o que se passa no além-túmulo, conhece o valor de um último pensamento. Minorai os derradeiros sofrimentos, quanto o puderdes; mas, guardai-vos de abreviar a vida, ainda que de um minuto, porque esse minuto pode evitar muitas lágrimas no futuro.

A pergunta que faz então, em momentos como esses: Será permitido ao homem destruir o que não pode criar? São Luís dá uma resposta contundente:
Quem vos daria o direito de prejulgar os desígnios de Deus? A vida nos foi outorgada por Ele, a quem, exclusivamente, compete tirá-la, quando lhe aprouver. Não nos é lícito abreviar a vida de quem quer que seja, sob qualquer pretexto. Uma reflexão: na última fração de segundo de vida que resta ao moribundo, pode evitar-lhe séculos de sofrimento, após a morte. Por isto, em caso algum, o homem deve cometer a eutanásia, pois a agonia prolongada pode ter a finalidade preciosa para a alma, e a moléstia incurável pode ser um bem. É como se fosse uma única válvula de escoamento de imperfeições do Espírito a caminho de sua evolução. Não se pode decidir sobre as necessidades do Espírito. Vamos dar o direito para que cada indivíduo cumpra toda sua passagem por esta existência, conseguindo a sua evolução espiritual necessária em busca da felicidade. Vamos respeitar o próximo como a nós mesmos.
A pergunta do Espírito comunicante é atualíssima, visto que, sendo um tema de frequente discussão, por uns defendida, por outros condenada, a eutanásia, ou “sistema que procura dar morte sem sofrimento a um doente incurável”, o enganoso significado da palavra eutanásia, retorna aos debates acadêmicos, face a sua aplicação sistemática por eminentes autoridades médicas, em doentes sem esperança científica de sobrevivência. Prática nefanda que testemunha a predominância do conceito materialista sobre a vida, que apenas vê a matéria e suas implicações imediatas, em detrimento das realizações espirituais.
Para o materialista, que vê na morte do corpo físico o fim da vida do ser, a eutanásia pode até ser considerada uma ato de piedade. Mas, para o espiritualista em geral, em particular o espírita, ninguém, nem mesmo a pessoa enferma tem o direito de eliminar a vida, visto que esta é uma dádiva de Deus e só Ele pode tirá-la.
A eutanásia, ao invés de abreviar os sofrimentos do agonizante, aumenta-os, porque o corpo perispiritual, que acompanha sempre o Espírito, é expulso ainda com fluido vital, causando perturbações ao mesmo, que retorna de forma abrupta.
Mesmo quando o desenlace parece inevitável, ainda assim, quantas e quantas vezes o moribundo tem momentos de lucidez, podendo preparar-se melhor para a partida, num arrependimento de faltas, numa aceitação da vontade de Deus, numa entrega a essa vontade, facilitando, em muito, a inevitável partida, não só pela sua disposição interna como por atrair, através dos novos sentimentos e pensamentos, seus Protetores Espirituais, que então podem auxiliá-lo, com mais facilidade.
No que tange aos enfermos ditos irrecuperáveis, convém considerar que doenças, ontem detestáveis quanto incuráveis, são hoje capítulo superado pelo triunfo de homens-sacerdotes da Ciência Médica, que a enobrecem pelo contributo que suas vidas oferecem a beneficio da Humanidade. Sempre há, pois, possibilidade de amanhã conseguir-se a vitória sobre a enfermidade irreversível de hoje. Diariamente, para esse desiderato, mergulham na carne Espíritos Missionários que se aprestam a apressar e impulsionar o progresso, realizando descobrimentos e pesquisas superiores para a vida, fonte poderosa de esperança e conforto para os que sofrem, em nome do Supremo Pai.
Enquanto o homem ignorar o ser espiritual, independente da matéria e o plano espiritual, com suas leis próprias, vai agir sempre com a mentalidade estreita que a concepção da vida do nascimento à morte lhe proporciona.
O espiritismo, demonstrando que o homem é um Espírito eterno, encarnado na Terra para fazer sua evolução em direção à perfeição e à felicidade; que a morte elimina apenas a vida do corpo físico; que o Espírito continua vivo, no plano espiritual, onde estuda, trabalha, aprende com novas experiências, mantendo sua individualidade; que retorna à vida material, tantas vezes quantas forem necessárias, para que esse desenvolvimento se faça de dentro para fora, esclarece que toda experiência na Terra é necessária à alma.
QUESTÕES PARA ESTUDO
1) A eutanásia consiste em abreviar, sem dor ou sofrimento, a vida de um enfermo incurável. Não seria essa prática um bem, uma vez que a intenção é impedir que o doente sofra?
Não. Primeiro, porque não nos compete tirar a vida de quem quer que seja; segundo, porque desconhecemos e não podemos prejulgar os desígnios de Deus; terceiro, porque a morte física não determina o fim do sofrimento.
2) O sofrimento prolongado traz algum benefício para o Espírito?
Sim. Nada ocorre sem a permissão de Deus e sem que tenha uma finalidade útil. O sofrimento constitui corretivo indispensável para o Espírito que errou e se prolonga de acordo com a necessidade deste. Impedir-lhe que sofra é tirar-lhe a oportunidade de se regenerar perante o Pai.
3) É válido, portanto, sempre prolongar a vida de um doente desenganado?
Sim. É este um dever da mais legítima caridade; é permitir que a provação para o Espírito se cumpra até o momento designado por Deus.
Ninguém se deverá permitir a interferência destrutiva ou liberativa por meio da eutanásia em tais processos redentores. Pessoas que se dizem penalizadas dos sofrimentos de familiares e que desejam os tenham logo cessados, quase sempre agem por egoísmo, pressurosos de libertar-se do comprometimento e da responsabilidade de ajudá-los, sustentá-los, amá-los mais.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

Dever-se-á pôr termo às provas do próximo?
ITEM 27 – Deve alguém pôr termo às provas do seu próximo quando o possa, ou deve, para respeitar os desígnios de Deus, deixar que sigam seu curso?
Já vos temos dito e repetido muitíssimas vezes que estais nessa Terra de expiação para concluirdes as vossas provas e que tudo que vos sucede é consequência das vossas existências anteriores, são os juros da dívida que tendes de pagar. Esse pensamento, porém, provoca em certas pessoas reflexões que devem ser combatidas, devido aos funestos efeitos que poderiam determinar.
Pensam alguns que, estando-se na Terra para expiar, cumpre que as provas sigam seu curso. Outros há, mesmo, que vão até ao ponto de julgar que, não só nada devem fazer para as atenuar, mas que, ao contrário, devem contribuir para que elas sejam mais proveitosas, tornando-as mais vivas. Grande erro. É certo que as vossas provas têm de seguir o curso que lhes traçou Deus; dar-se-á, porém, conheçais esse curso? Sabeis até onde têm elas de ir e se o vosso Pai misericordioso não terá dito ao sofrimento de tal ou tal dos vossos irmãos: “Não irás mais longe?” Sabeis se a Providência não vos escolheu, não como instrumento de suplício para agravar os sofrimentos do culpado, mas como bálsamo da consolação para fazer cicatrizar as chagas que a sua justiça abrira? Não digais, pois, quando virdes atingido um dos vossos irmãos: “É a justiça de Deus, importa que siga o seu curso.” Dizei antes: “Vejamos que meios o Pai misericordioso me pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão. Vejamos se as minhas consolações morais, o meu amparo material ou meus conselhos poderão ajuda-lo a vencer essa prova com mais energia, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer que cesse esse sofrimento; se não me deu a mim, também como prova, como expiação talvez, deter o mal e substituí-lo pela paz”.
Ajudai-vos, pois, sempre, mutuamente, nas vossas respectivas provações e nunca vos considereis instrumentos de tortura. Contra essa ideia deve revoltar-se todo homem de coração, principalmente todo espírita, porquanto este, melhor do que qualquer outro, deve compreender a extensão infinita da bondade de Deus. Deve o espírita estar compenetrado de que a sua vida toda tam de ser um ato de amor e de devotamento; que, faça ele o que fizer para se opor às decisões do Senhor, estas se cumprirão. Pode, portanto, sem receio, empregar todos os esforços por atenuar o amargor da expiação, certo, porém, de que só a Deus caba detê-la ou prolonga-la, conforme julgar conveniente.
Não haveria imenso orgulho, da parte do homem, em se considerar no direito de, por assim dizer, revirar a arma dentro da ferida? De aumentar a dose do veneno nas vísceras daquele que está sofrendo, sob o pretexto de que tal é a sua expiação? Oh! Considerai-vos sempre como instrumento para fazê-la cessar. Resumindo: todos estais na Terra para expiar; mas, todos, sem exceção, deveis esforçar-vos por abrandar a expiação dos vossos semelhantes, de acordo com a lei de amor e caridade.
Kardec faz um questionamento muito interessante, e que é respondido pelo Espírito Bernardino.
Quando uma pessoa está passando por uma determinada prova, o que é que nós devemos fazer? Devemos minimizar a dor da criatura ou será que devemos nos omitir, deixando que essa dor siga o seu curso?
A afirmação de que a Terra é um mundo de expiações e de provas, para Espíritos rebeldes às leis divinas, através das experiências que ela propicia, tem levado pessoas a deduzirem outras ideias de consequências até funestas.
Uma é a de que não se deve tentar atenuar os sofrimentos alheios, visto estarem as pessoas que as sofrem expiando faltas, devendo-se, pois, respeitar seu fardo. Outras pensam que até dever-se-ia contribuir para tornar esses sofrimentos mais graves, para maior benefício de quem os sofre.
Esquecem-se os que assim pensam que todos nós estamos na Terra para evoluir, desenvolver nosso potencial espiritual. O ressarcimento de faltas cometidas contra si próprio, contra o próximo ou contra a coletividade, é um dos fatores para que esse desenvolvimento ocorra.
Como estamos todos sujeitos a esse ressarcimento, o meio mais fácil de fazer essa evolução é através da solidariedade, da caridade, que leva um a auxiliar o outro e não deixar o outro sem ajuda ou agravar seus sofrimentos.
Os habitantes da Terra são, na sua maioria, muito imperfeitos ainda, e como esse desenvolvimento se dá segundo o livre-arbítrio de cada um, há uma grande diferenciação de ideias, de costumes entre seus membros. Isso dificulta muito o relacionamento entre pessoas, entre países.
Para auxiliar seus irmãos, Jesus trouxe o AMOR a Deus e ao próximo como lei maior. E essa lei maior é que nos manda auxiliar o outro, abrandar-lhe as dores sempre que possível, a auxiliá-lo em suas dificuldades.
Só o fato de não existir alguém que não tenha um próximo junto a si, já evidencia ser o homem um ser social, necessitando um do outro.
Nessa necessidade de todos é que a sabedoria e o amor de Deus se sobressaem. Quis Ele, que seus filhos tivessem sempre a oportunidade de auxiliar alguém e a necessidade de serem auxiliados por alguém, a fim de que o amor pudesse desenvolver-se nas mentes e nos corações dos homens.
Cita o autor a nossa ignorância em relação às necessidades espirituais das pessoas. Como julgar e decidir que é da vontade de Deus que elas continuem sofrendo? Deus, o Amor Absoluto deve preferir essa atitude a de um irmão tentando abrandar a dor de outro?
Não devemos jamais esquecer que a lei divina é a do Bem. Toda ação que contrarie essa lei provoca consequências desagradáveis ou dolorosas.
As expiações e as provas são meios justos, porque são efeitos de ações negativas feitas pelos homens, mas têm por objetivo maior fazê-los desenvolver-se espiritualmente. Seu tempo de duração está relacionado com as necessidades espirituais dos mesmos.
Assim, o benfeitor pode ser o instrumento de Deus para o fim daquela prova.
Não se pode também esquecer que a justiça divina é sempre misericordiosa.
Ao depararmos com alguém sofrendo, ao invés de dizer: É a justiça de Deus presente, pensemos: "Vejamos que meios nosso Pai misericordioso nos concedeu para aliviar o sofrimento de meu irmão. Vejamos se o meu conforto moral, meu amparo material, meus conselhos, poderão ajudá-lo a transpor esta prova com mais força, paciência e resignação. Vejamos mesmo se Deus não me pôs nas mãos os meios de fazer cessar este sofrimento; se não me deu, como prova também, ou talvez como expiação, o poder de cortar o mal e substituí-lo pela benção da paz."
"Jamais vos encareis como instrumentos de tortura" continua o autor. "O espírita deve pensar que sua vida inteira tem de ser um ato de amor e abnegação, e que, por mais que faça para contrariar as decisões do Senhor, sua justiça seguirá seu curso. Ele pode, pois, sem medo, fazer todos os esforços para aliviar o amargor da provação, porque somente Deus pode cortá-la ou prolongá-la, segundo o que julgar a respeito."
Conclusão do Estudo:
A indiferença ante a dor do próximo é um mal que pode e deve ser extinto pela caridade. Procurar amenizar as dores do próximo é dever de toda criatura. Quando buscamos aliviar as provas do próximo, estamos também aliviando as nossas e trabalhando para o nosso progresso.
B - Questões para estudo:
1 - Sendo o sofrimento o corretivo de erro do passado, não estaríamos impedindo aquele que sofre de saldar seus débitos, quando nos propomos a auxiliá-lo?
Não, porquanto a nossa ajuda não impedirá que se cumpram as provas daquele que sofre. Ao contrário, além de permitir que ele as cumpra com sucesso, nós também estaremos nos elevando, pela prática do amor ao próximo.
"A dor é uma lei de equilíbrio e educação. Mas nem por isso devemos pensar que os sofredores não devem ser socorridos. A lei maior da caridade nos obriga a ajudar os que sofrem."
2 - O que faz alimentar nas pessoas o pensamento de que as provas das criaturas devem seguir seu curso e nada se pode fazer para amenizá-las?
O desconhecimento da causa e finalidade do sofrimento e a insensibilidade das pessoas perante as dores do próximo, decorrente da ausência do amor em seus corações.
Quando o nosso comportamento perante o próximo é embasado no amor, não há lugar para ponderações acerca da causa e duração do seu sofrimento e uma só ideia nos anima: a de auxiliá-lo.
3 - Qual deve ser, em resumo, o nosso comportamento perante as provas do próximo?
Devemos utilizar todos os meios ao nosso alcance para suavizar-lhe o sofrimento, conscientes de que, provavelmente, aquele sofredor é alguém que Deus confiou à nossa proteção, a fim de exercitarmos a caridade, colocando para isso, os recursos em nossas mãos.
"Socorrendo os que sofrem estamos tecendo, no tear de nosso destino, os fios da sensatez e da bondade que nos preparam uma túnica de luz para o futuro."
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

ITEM 26 – Provas voluntárias. O verdadeiro cilício
Perguntais se é lícito ao homem abrandar suas próprias provas. Essa questão equivale a esta outra: É lícito, àquele que se afoga, cuidar de salvar-se? Àquele em quem um espinho entrou, retirá-lo? Ao que está doente, chamar o médico? As provas têm por fim exercitar a inteligência, tanto quanto a paciência e a resignação. Pode dar-se que um homem nasça em posição penosa e difícil, precisamente para se ver obrigado a procurar meios de vencer as dificuldades. O mérito consiste em sofrer, sem murmurar, as consequências dos males que lhe não seja possível evitar, em perseverar na luta, em se não desesperar, se não é bem-sucedido; nunca, porém, numa negligência que seria mais preguiça do que virtude..
Essa questão dá lugar naturalmente a outra. Pois, se Jesus disse: “Bem-aventurados os aflitos”, haverá mérito em procurar, alguém, aflições que lhe agravem as provas, por meio de sofrimentos voluntários? A isso responderei muito positivamente: sim, há grande mérito quando os sofrimentos e as provações objetivam o bem do próximo, porquanto é a caridade pelo sacrifício; não, quando os sofrimentos e as privações somente objetivam o bem daquele que a si mesmo as inflige, porque aí só há egoísmo por fanatismo.
Grande distinção cumpre aqui se faça: pelo que vos respeita pessoalmente, contentai-vos com as provas que Deus vos manda e não lhes aumenteis o volume, já de si por vezes tão pesado; aceita-las sem queixumes e com fé, eis tudo o que de vós exige ele. Não enfraqueçais o vosso corpo com privações inúteis e macerações sem objetivo, pois que necessitais de todas as vossas forças para cumprirdes a vossa missão de trabalhar na Terra. Torturar e martirizar voluntariamente o vosso corpo é contravir a lei de Deus, que vos dá meios de o sustentar e fortalecer. Enfraquecê-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio. Usai, mas não abuseis, tal a lei. O abuso das melhores coisas tem a sua punição nas inevitáveis consequências que acarreta.
Muito diverso é o que ocorre, quando o homem impõe a si próprio sofrimentos para o alívio do seu próximo. Se suportardes o frio e a fome para aquecer e alimentar alguém que precise ser aquecido e alimentado e se o vosso corpo disso se ressente, fazeis um sacrifício que Deus abençoa. Vós que deixais os vossos aposentos perfumados para irdes à mansarda infecta levar a consolação; vós que sujais as mãos delicadas pensando chagas; vós que vos privais do sono para velar à cabeceira de um doente que apenas é vosso irmão em Deus; vós, enfim, que despendeis a vossa saúde na prática das boas obras, tendes em tudo isso o vosso cilício, verdadeiro e abençoado cilício, visto que os gozos do mundo não vos secaram o coração, que não adormecestes no seio das volúpias enervantes da riqueza, antes vos constituístes anjos consoladores dos pobres deserdados.
Vós, porém, que vos retirais do mundo, para lhe evitar as seduções e viver no insulamento, que utilidade tendes na Terra? Onde a vossa coragem nas provações, uma vez que fugis à luta e desertais do combate? Se quereis um cilício, aplicai-o às vossas almas e não aos vossos corpos; mortificai o vosso Espírito e não a vossa carne; fustigai o vosso orgulho, recebei sem murmurar as humilhações; flagiciai o vosso amor-próprio; enrijai-vos contra a dor da injúria e da calúnia, mais pungente do que a dor física. Aí tendes o verdadeiro cilício cujas feridas vos serão contadas, porque atestarão a vossa coragem e a vossa submissão à vontade de Deus.
Uma coisa que sempre me intrigou foi o sacrifício físico em oferta espiritual, como se isso equivalesse a um sacrifício espiritual.
O dicionário define a palavra “cilício” como sacrifício ou mortificação a que alguém se submete, voluntariamente, atendendo a um propósito qualquer. É muito antiga a crença de que impor sofrimentos ao próprio corpo, constituiria uma forma de alcançar benefícios espirituais. Amplamente difundida no passado, essa crença ainda hoje sobrevive, em casos isolados, sempre como expressão de fanatismo, ignorância e superstição. Trata-se de um cordão (tipo chicote) com pontas de metal, para ser usado contra o próprio corpo, provocando dor constante.
O ser humano ainda pouco esclarecido comete com frequência excessos e enganos na utilização do seu corpo, na falsa suposição de que o mesmo seria o causador de tais desvios de comportamento, pelo que, castigá-lo por meio de privações ou sevícias, constituiria o remédio para evitar ou corrigir tal tendência, impedindo suas manifestações. Isso é um equívoco, pois o corpo apenas atende, passivamente, às determinações de seu condutor, o Espírito.
Há um componente, não raro, no cilício, que acontecia na Idade Média, quando os cristãos, inspirados na ignorância, levaram a extremos a afirmativa de Jesus, contida no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mateus 5:4). Entendendo esse consolo como uma compensação pelos sofrimentos, o ideal seria então sofrer bastante na Terra para garantir recompensas maiores no Céu. Tal entendimento, amplamente divulgado, gerou comportamentos absurdos, com destaque para as várias Cruzadas, guerras promovidas pelos reis cristãos na Europa, sob a alegação de que estavam libertando o solo sagrado da Palestina, em poder dos árabes.  Deus quer o sofrimento! Era o grito de guerra. Em função dessa orientação, envolveram-se milhares de fiéis ingênuos, dispostos ao tormentoso cilício dessa aventura, com a fantasia de que todos os “cruzados” (os que lutavam nessas guerras) seriam levados para o paraíso. Por outro lado á ideia do cilício como autoflagelação, sugeria um comportamento alienado. Havia os que se internavam em mosteiros ou lugares ermos, totalmente isolados, com o propósito de fugir dos males e contatos com a sociedade. Muitos se propunham ao mutismo absoluto, passando anos sem pronunciar uma palavra. Outros açoitavam o próprio corpo para se livrarem dos seus pecados.
Em meados do século VI, em Antioquia, na Síria, um piedoso cristão chamado Simeão, instalou-se no alto de elevado monte. Inteiramente dedicado à devoção, era atendido em suas necessidades por amigos que mais tarde imitaram o seu exemplo. Submetido às intempéries e ao desconforto, passou os restantes trinta anos de existência sem jamais descer do monte. Algum tempo após sua morte foi canonizado, recebendo o título de São Simeão. Nos dias atuais, se alguém tentasse realizar a mesma proeza, certamente seria internado em algum manicômio; mas na Idade Média, tais aberrações eram comuns, consideradas como atos de extrema piedade e fé.
Isolar-se do mundo, para não pecar, também não é proveitoso. Pois, o isolamento nos afasta do nosso semelhante, e é através do contato com este que ajudamos e somos ajudados.
Não obstante o progresso alcançado pela humanidade subsiste até hoje, pessoas ignorantes com a ideia do cilício, da mortificação, em favor da depuração do corpo, como passaporte para o Céu. Há quem se proponha a carregar uma cruz, imitando o sacrifício de Jesus; outros subindo de joelhos as escadarias de igrejas por penitência. As próprias rezas, envolvendo intermináveis e cansativas repetições, nos rituais religiosos, representam uma forma amena de cilício a que se propõem certas pessoas, crendo com isso merecer os favores celestiais.
A Doutrina dos Espíritos sempre se posicionou contra os sofrimentos voluntários, mostrando a sua inutilidade e seu caráter nocivo. Qualquer gênero de cilício que traga sofrimento nunca é agradável a Deus, e o Espiritismo nos alerta sobre tais práticas.
Afinal, em que consiste o verdadeiro cilício?
O cilício, hoje, consiste no sacrifício que fazemos objetivando nossa melhoria espiritual; mortificando nosso espírito, e não o nosso corpo; significa sacrifícios, como, por exemplo, combater o nosso orgulho; receber injúrias sem murmurar; censurando o nosso amor próprio; perdoar setenta vezes sete vezes; fazer o bem a quem faz o mal; e outros mais. Sacrifícios que, além de beneficiar outras pessoas, elevam quem se esforça para tal, visando o seu próprio aperfeiçoamento.
O Espiritismo nos esclarece, através dos seus princípios, que o caminho da elevação é o da solidariedade, da fraternidade, que farão desabrochar em nós o amor ao próximo.
Muitos dos que têm coragem de punirem-se fisicamente, não são capazes de aguentar um único segundo de sofrimento, sacrificando suas vaidades, seu orgulho e egoísmo, santificando minutos de sofrimentos em prol do próximo e de si mesmo.

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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

ITEM 25 – A Melancolia
Sabeis por que, às vezes, uma vaga tristeza se apodera dos vossos corações e vos leva a considerar amarga a vida? É porque vosso Espírito, aspirando à felicidade e à liberdade, se esgota, jungido ao corpo que lhe serve de prisão, em vãos esforços para sair dele. Reconhecendo inúteis esses esforços, cai no desânimo e, como o corpo lhe sofre a influência, toma-vos a lassidão, o abatimento, uma espécie de apatia, e vos julgais infelizes.
Crede-me, resisti com energia a essas impressões que vos enfraquecem a vontade. São inatas no Espírito de todos os homens as aspirações por uma vida melhor; mas, não as busqueis neste mundo e, agora, quando Deus vos envia os Espíritos que lhe pertencem, para vos instruírem acerca as felicidade que Ele vos reserva, aguardai pacientemente o anjo da libertação, para vos ajudar a romper os liames que vos mantém cativo o Espírito. Lembrai-vos de que, durante o vosso degredo na Terra, tendes de desempenhar uma missão de que não suspeitais, quer dedicando-vos à vossa família, quer cumprindo as diversas obrigações que Deus vos confiou. Se, no curso desse degredo-provação, exonerando-vos dos vossos encargos, sobre vós desabarem os cuidados, as inquietações e tribulações, sede fortes e corajosos para os suportar. Afrontai-os resolutos, Duram pouco e vos conduzirão à companhia dos amigos por quem chorais e que, jubilosos por ver-vos de novo entre eles, vos estenderão os braços, a fim de guiar-vos a uma região inacessível às aflições da Terra.
Existem pessoas que, quando se deparam com o tempo nublado, frio, cinzento, sentem-se deprimidas. Às vezes, nos deparamos com situações que tocam pontos guardados nos porões da nossa alma, e sentimos uma saudade de algo que não sabemos o que é. Ou, ainda, sentimos uma vaga tristeza, uma depressão injustificável. Fatos, situações, pessoas são indutoras dessas incursões inconscientes do passado e, conforme tenha sido a experiência, será o sentimento.
O Espírito François de Genéve se dedica a caracterizar a melancolia delineando as marcas que deixa na alma, sua causa espiritual, e apresenta também estratégias de superação desse sentimento, concitando o seu portador ao uso enérgico da vontade para escapar do estado de prostração que a melancolia deixa naquele que a cultiva. Estado que, se prolongado, pode se transformar em depressão.
Em síntese, o autor espiritual caracteriza a melancolia como um sentimento de tristeza que se apodera do coração levando o indivíduo a identificar a vida com amargor. Em se demorando nessa postura sombria, a pessoa pode cair na apatia e profundo abatimento sob o domínio da alma triste. A melancolia é um fenômeno natural que atinge a quase todas as pessoas, mesmo as que vivem em extraordinário momento de alegria experimentam vazio e solidão existencial.
A tristeza não é o inverso da alegria, como muitos pensam, mas a ausência momentânea dela. A tristeza deve levar o ser a uma pausa para reflexão e não ao desinteresse pela vida.
O Espírito, autor do texto, não deixa de considerar que a aspiração por liberdade é comum no Espírito reencarnado. As condições existenciais concretas em que vivemos nos fazem desejar, inconscientemente, o gozo da liberdade espiritual – experimentada muitas vezes nas atividades de emancipação da alma, na ânsia de afastarmo-nos dos problemas que enfrentamos, nada obstante, o fato de que estes não passem de provas e expiações no roteiro do nosso progresso espiritual, como depreendemos na Filosofia Espírita.
As provas consistem nas lutas enfrentadas na vida corporal que são necessárias ao desenvolvimento do Espírito em inteligência e moralidade. Por sua vez, as expiações consistem em experiências mais exigentes nascidas em atitudes tomadas em desacordo com as Divinas Leis. Desse modo, diante da “opressão” dos desafios da vida corpórea nos sentimos abafados em nossas possibilidades e a realidade extrafísica pode parecer mais atrativa por força do que a respeito dela trazemos nos arcanos do inconsciente.
Certamente que uma demorada reflexão acerca de si mesmo permite ao indivíduo perceber que a grande gênese de seus conflitos está no seu planeta interno e ele os conduz em qualquer dimensão da vida, a morte não elimina as dores da alma. Allan Kardec, como pioneiro dos estudos psicológicos a luz da Ciência Espírita pôde registrar, conforme encontramos na obra O Céu e o Inferno, que cada qual vive o estado de felicidade íntima na vida espiritual conforme esse já se apresentava porque ninguém sofre mágica transformação com o fenômeno da desencarnação.
Quando nos percebermos mergulhados em melancolia, devemos fazer esforços para mudar o clima psíquico, através da leitura edificante, de uma prece, da companhia de alguém que nos ajude a sair dela. Jamais deveremos dar asas a esse tipo de sentimento, para que não mergulhemos nele ainda mais, a ponto de perdermos o controle da situação.
Nos momentos de depressão, quando inconscientemente mergulhamos no passado, Espíritos infelizes ou antigos comparsas podem tentar nos envolver nas mesmas teias dos equívocos por nós cometidos anteriormente, levando-nos a estados de difícil retorno. Por essa razão é que não devemos nos entregar aos braços da melancolia ou da depressão. É imperioso que façamos esforços, que busquemos com muita vontade mesmo, mudar nosso clima mental, buscando a sintonia com nossos Benfeitores Espirituais, que sempre nos amparam e auxiliam em todos os momentos da nossa existência. Agindo assim, guardemos a certeza que logo mais, num amanhã feliz, saberemos o quanto valeu a pena passarmos por essas situações com coragem e dignidade, porque, então, nos aguardarão de braços abertos, os afetos dos quais tanta saudade sentimos.
Conclusão do Estudo:
A melancolia é a ânsia do espírito por uma vida melhor, pois o mesmo não foi criado por Deus para viver preso ao corpo no solo terreno. Essa vida melhor virá a todos, depois que forem cumpridas as diversas obrigações que Deus confiou a cada um.
Não devemos deixar que a tristeza nos vença, pois a felicidade almejada virá com o nosso esforço no cumprimento da missão terrena que nos foi confiada.
Devemos resistir com energia, desempenhando a nossa missão, quer dedicando-nos à nossa família quer cumprindo as diversas obrigações que Deus nos confiou.
Devemos ser fortes e corajosos quando sobre nós desabarem as inquietações e tribulações de nossas provações.
Expulse a melancolia da sua alma fazendo luz íntima. Acenda a lâmpada do Evangelho na sua mente.
  
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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS

ITEM 24 – A DESGRAÇA REAL
Toda a gente fala da desgraça, toda a gente já a sentiu e julga conhecer-lhe o caráter múltiplo. Venho eu dizer-vos que quase toda a gente se engana e que a desgraça real não é, absolutamente, o que os homens, isto é, os desgraçados, o supõem. Eles a veem na misária, no fogão sem lume, no credor que ameaça, no berço de que o anjo sorridente desapareceu, nas lágrimas, no féretro que se acompanha de cabeça descoberta e com o coração despedaçado, na angústia da traição, na desnudação do orgulho que desejara envolver-se em púrpura e mal oculta a sua nudez sob andrajos da vaidade. A tudo isso e a muitas coisas mais se dá o nome de desgraça, na linguagem humana. Sim, é desgraça para os que só veem o presente; a verdadeira desgraça, porém, está nas consequências de um ato, mais do que no próprio fato. Dizei-me se um acontecimento, considerado ditoso na ocasião, mas que acarreta consequências funestas, não é, realmente, mais desgraçado do que outro que a princípio causa viva contrariedade e acaba produzindo o bem. Dizei-me se a tempestade que vos arranca as árvores, mas que saneia o ar, dissipando os miasmas insalubres que causariam a morte, não é antes uma felicidade do que uma infelicidade.
Para julgarmos de qualquer coisa, precisamos ver-lhe as consequências. Assim, para bem apreciarmos o que, em realidade, é ditoso ou inditoso para o homem, precisamos transportar-nos para além desta vida, porque é lá que as consequências se fazem sentir. Ora, tudo o que se chama infelicidade, segundo as acanhadas vistas humanas, cessa com a vida corporal e encontra a sua compensação na vida futura.
Vou revelar-vos a infelicidade sob uma nova forma, sob a forma bela e florida que acolheis e desejais com todas as veras de vossas almas iludidas. A infelicidade é a alegria, é o prazer, é o tumulto, é a vã agitação, é a satisfação louca da vaidade, que fazem calar a consciência, que comprimem a ação do pensamento, que atordoam o homem com relação ao seu futuro. A infelicidade é o ópio do esquecimento que ardentemente procurais conseguir.
Esperai, vós que chorais! Tremei, vós que rides, pois que o vosso corpo está satisfeito! A Deus não se engana; não se foge do destino; e as provações, credoras mais impiedosas do que a matilha que a miséria desencadeia, vos espreitam o repouso ilusório para vos imergir de súbito na agonia da verdadeira infelicidade, daquela que surpreende a alma amolentada pela indiferença e pelo egoísmo.
Que, pois, o Espiritismo vos esclareça e recoloque, para vós, sob verdadeiros prismas, a verdade e o erro, tão singularmente deformados pela vossa cegueira! Agireis então como bravos soldados que, longe de fugirem ao perigo, preferem as lutas dos combates arriscados à paz que não lhes pode dar glória, nem promoção! Que importa ao soldado perder na refrega armas, bagagens e uniforme, desde que saia vencedor e com glória? Que importa ao que tem fé no futuro deixar no campo de batalha da vida a riqueza e o manto de carne, contanto que sua alma entre gloriosa no reino celeste?
O que se entende por desgraça? A miséria é uma desgraça? Qual a verdadeira desgraça? Para sabermos as respostas, vamos desenvolver o tema tratando da caracterização da desgraça e a desgraça sob a visão espírita.
Se existe a verdadeira desgraça haverá também, lógico, a falsa. Sobre esse assunto, o Espírito Delphine Girardin tece alguns comentários. Acha ele que os homens de uma maneira geral enganam-se acerca da infelicidade, pois, a veem no fogão sem fogo, no credor ameaçador, nas lágrimas, na angústia da traição, na privação do orgulhoso que desejava vestir-se de púrpura e esconde sua nudez nos farrapos da vaidade. Tudo isso, e muitas outras coisas, chamam de desgraça. Sim, realmente é a desgraça, para aqueles que nada veem além da vida presente. A verdadeira desgraça, porém, está na consequência de um fato, mais do que no próprio fato. Vamos raciocinar. Se um acontecimento, considerado ditoso na ocasião, mas que acarreta consequências funestas, não é, realmente, mais desgraçado do que outro que, a princípio, causa viva contrariedade e acaba produzindo o bem. A tempestade, que despedaça árvores, é vista como desgraça. No entanto, ela purifica a atmosfera, dissipando os miasmas insalubres que poderiam causar a morte. Para julgar uma coisa, é necessário, portanto, ver-lhe as consequências. É assim que, para julgar o que é realmente felicidade ou desgraça para o homem, é necessário transportar-se para além desta vida, porque é lá que as consequências se manifestam.
Eles se esquecem de que toda a ação humana deve ser vista pela sua consequência e não por ela em si mesma.
Os Espíritos superiores orientam-nos para que não olhemos os fatos em si mesmos, mas pelas suas consequências. Se a consequência for boa é porque o ato também o foi, embora no princípio não o pareça. Observe as tempestades que assolam as cidades e os campos. Enquanto elas estão se processando, estamos reclamando e nos rebelando contra a vontade divina. Depois que ela passa, verificamos que estamos respirando melhor, que houve um saneamento no planeta. Somente aí é que começamos ver o lado bom daquela destruição transitória.
O Espiritismo vem nos esclarecer que a vida corpórea é uma breve passagem por este mundo de provas e expiações, cujo objetivo é o aperfeiçoamento da alma. Assim sendo, em qualquer de nossas ações nunca deveríamos perder de vista a vida futura, ou seja, o que nos aguarda no outro lado da vida. Pergunta-se: Estamos providenciando para o futuro ou apenas para as necessidades diárias?
Os Espíritos superiores afirmam que a verdadeira desgraça é a alegria, a fama, o prazer e a vã agitação. Como entender? É que essas ações fazem calar a consciência, rouba-nos o tempo que poderia estar sendo mais bem aproveitado no incremento de nossa evolução espiritual. A infelicidade é o ópio do esquecimento que reclamamos diariamente. É preciso, pois, olhar tudo de uma forma invertida, a fim de que possamos captar a verdade por detrás dos fatos.
Saibamos agradecer as injunções de nosso caminho. Se julgarmos que a nossa desgraça é maior que a dos nossos vizinhos, façamos uma visita a um hospital, a uma prisão e veremos que a nossa dor não é tão grande quanto parece.
Superando com coragem os obstáculos do caminho, estaremos agindo como bravos soldados que, longe de fugirem ao perigo, preferem as lutas dos combates arriscados à paz que não lhes pode dar glória, nem promoção.
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ITEM 23 – OS TORMENTOS VOLUNTÁRIOS

Vive o homem incessante em busca da felicidade, que também incessantemente lhe foge, porque felicidade sem mescla não se encontra na Terra. Entretanto, mau grado às vicissitudes que formam o cortejo inevitável da vida terrena, poderia ele, pelo menos, gozar de relativa felicidade, se não a procurasse nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, isto é, nos gozos materiais em vez de a procurar nos gozos da alma, que são um prelibar dos gozos celestes, imperecíveis; em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo, ele se mostra ávido de tudo o que o agitará e turbará, e, coisa singular! O homem, como que de intento, cria para si tormentos que está nas suas mãos evitar.
Haverá maiores do que os que derivam da inveja e do ciúme? Para o invejoso e o ciumento, não há repouso; estão perpetuamente febricitantes. O que não têm e os outros possuem lhes causa insônias. Dão-lhes vertigem os êxitos de seus rivais; toda a emulação, para eles, se resume em eclipsar os que lhes estão próximos, toda a alegria em excitar, nos que se lhes assemelham pela insensatez, a raiva do ciúme que os devora. Pobres insensatos, com efeito, que não imaginam sequer que, amanhã talvez, terão de largar todas essas frioleiras cuja cobiça lhes envenena a vida! Não é a eles, decerto, que se aplicam estas palavras: “Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados”, visto que as suas preocupações não são aquelas que têm no céu as compensações merecidas.
Que de tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é. Esse é sempre rico, porquanto, se olha para baixo de si e não para cima, vê sempre criaturas que têm menos do que ele. É calmo, porque não cria para si necessidades quiméricas. E não será uma felicidade a calma, em meio das tempestades da vida?
Nesta mensagem, Fénelon refere-se aos tormentos, ou seja, aos sofrimentos, às privações, aflições, inquietações, que sofre o homem, como consequências das ações negativas, na busca da sua felicidade.
Ao nos depararmos com este texto, a primeira sensação é a de estranheza: como assim, tormentos voluntários? Quem, em boa consciência, criaria tormentos para si mesmo? Que motivos teria alguém para procurar deliberadamente situações para sentir-se miserável? Infelizmente, todos nós temos sofrimentos que são, em algum grau, voluntários. Não porque conscientemente escolhamos sofrer, mas porque tomamos decisões e perpetuamos hábitos que sabemos muito bem, não nos trarão nada de bom.
Uma das maiores dádivas do Criador à criatura é o livre-arbítrio. Na escala evolutiva, Ele deu ao homem a possibilidade de decidir, sozinho, o que quer, como quer, para quê quer, e o que fazer com o que adquiriu. Mas, muitas vezes, o ser transforma essa dádiva em uma arma atroz, trazendo-lhe sofrimento, transformando o processo de crescimento em tormento.
A verdadeira felicidade é impossível no estado em que nos encontramos atualmente, pois ainda somos Espíritos inferiores. Mas, cultivando os pensamentos apropriados, podemos fazer com que a vida na Terra transcorra de maneira muito mais suave, sem conflitos desnecessários.
O Espírito mensageiro exemplifica bem os tormentos voluntários, falando-nos sobre a inveja e o ciúme. Ambos os sentimentos são parecidos. Geralmente, nos comparamos com os outros e querendo estar por cima, cada coisa boa que lhes acontece nos parece um insulto pessoal, principalmente quando a pessoa recebe uma atenção que desejamos para nós. Esses sentimentos criam conflitos internos; entramos em estados difíceis de angústia e inquietude. Não podemos estar em paz, nessas condições. Então, porque não trabalharmos para nossa cura, compreendendo que a inveja e o ciúme não têm sentido? Muitos outros tormentos são criados por nós mesmos, em diversas situações. Muito sofrimento pode ser evitado, quando decidimos pela resignação, pela fé e pela humildade. Então, ao invés de criar tormentos para nós mesmos e para os outros, elevemos nosso pensamento ao que é realmente importante e façamos o possível para mudar nossos padrões de comportamento. Busquemos, acima de tudo, a paz de nossos corações.
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ITEM 22 – SE FOSSE UM HOMEM DE BEM, TERIA MORRIDO
Falando de um homem mau, que escapa de um perigo, costumais dizer: “Se fosse um homem bom, teria morrido”. Pois bem, assim falando, dizeis uma verdade, pois, com efeito, muito amiúde sucede dar Deus a um Espírito de progresso ainda incipiente prova mais longa, do que a um bom que, por prêmio do seu mérito, receberá a graça de ter tão curta quanto possível a sua provação. Por conseguinte, quando vos utilizais daquele axioma, não suspeitais de que proferis uma blasfêmia.
Se morre um homem de bem, cujo vizinho é mau homem, logo observais: “Antes fosse este”. Enunciais uma enormidade, porquanto aquele que parte concluiu a sua tarefa e o que fica talvez não haja principiado a sua. Por que, então, haveríeis de querer que ao mau faltasse tempo para terminá-la e que o outro permanecesse preso à gleba terrestre? Que diríeis se um prisioneiro, que cumpriu a sentença contra ele pronunciada, fosse conservado no cárcere, ao mesmo tempo que restituíssem à liberdade um que a esta não tivesse direito? Ficai sabendo que a verdadeira liberdade, para o Espírito, consiste no rompimento dos laços que o prendem ao corpo e que, enquanto vos achardes na Terra, estareis em cativeiro.
Habituai-vos a não censurar o que não podeis compreender e crede que Deus é justo em todas as coisas. Muitas vezes, o que vos parece um mal é um bem. Tão limitadas, no entanto, são as vossas faculdades, que o conjunto do grande todo não o apreende os vossos sentidos obtusos. Esforçai-vos por sair, pelo pensamento, da vossa acanhada esfera e, à medida que vos elevardes, diminuirá para vós a importância da vida material que, nesse caso, se vos apresentará como simples incidente, no curso infinito da vossa existência espiritual, única existência verdadeira.
Fénelon, um dos colaboradores de Kardec na codificação da Doutrina Espírita, assina esta mensagem que constitui equivocado ditado popular. Ele nos adverte que seria uma blasfêmia assim considerar.
Quando morre alguém, cuja reputação é de bondade e desprendimento, ouve-se muitos lamentos, frases como essas: “Os bons vão primeiro”; “Os bons Deus deseja para si”; “Os maus ficam por aqui mesmo” Quando uma pessoa que costuma praticar atos contrários ao bem proceder escapa de um acidente, como por exemplo: alta velocidade. O carro derrapou na pista molhada e capotou. Porém, milagrosamente o motorista escapou, ileso. Frequentemente dizemos: “Se fosse um homem de bem teria morrido”. Pois bem, ao dizermos isto, visualizando o lado espiritual, estamos dizendo a verdade, porque, efetivamente Deus concede muitas vezes, a um Espírito perverso, uma prova mais longa; e poderá conceder a um Espírito bom, em recompensa por mérito, uma prova mais curta. Mas, há gente boa que vive bastante e há gente má que tem existência breve. Basta lembrar os jovens que se envolvem com a criminalidade. A expectativa de vida para eles é curta, não por prêmio à bondade, mas por lamentável comprometimento com a maldade. Ademais, todos os dias morrem pessoas jovens, que se permitiram abraçar pelas drogas ou se acumpliciaram com a imprudência, desaparecendo em acidentes diversos. Em verdade, salvo os casos de suicídio direto ou indireto, ninguém morre antes do tempo programado. Aquele que parte concluiu a sua tarefa, enquanto o que permanece, por vezes, mal a iniciou. A justiça de Deus jamais falha, e tudo está correto. Precisamos compreender que o bem está muitas vezes onde pensamos ver o mal. Por que medir a justiça divina pela nossa medida? Habituemo-nos a não censurar o que não podemos compreender. Muitas vezes, o que nos parece um mal é um bem, que as nossas faculdades limitadas não nos permitem perceber.
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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITEM 21 – PERDA DE PESSOAS AMADAS. MORTES PREMATURAS
Quando a morte ceifa nas vossas famílias, arrebatando, sem restrições, os mais moços antes dos velhos, costumais dizer: Deus não é justo, pois sacrifica um que está forte e tem grande futuro e conserva os que já viveram longos anos cheios de decepções; pois leva os que são úteis e deixa os que para nada mais servem; pois despedaça o coração de uma mãe, privando-a da inocente criatura que era toda a sua alegria.
Humanos, é nesse ponto que precisais elevar-vos acima do terra-a-terra, para compreenderdes que o bem, muitas vezes, está onde julgais ver o mal, a sábia previdência onde pensais divisar a cega fatalidade do destino. Por que haveis de avaliar a justiça divina pela vossa? Podeis supor que o Senhor dos mundos se aplique, por mero capricho, a vos infligir penas cruéis? Nada se faz sem um fim inteligente e, seja o que for que aconteça, tudo tem a sua razão de ser. Se perscrutásseis melhor todas as dores que vos advêm, nelas encontraríeis sempre a razão divina, razão regeneradora, e os vossos miseráveis interesses se tornariam de tão secundária consideração, que os atiraríeis para o último plano.
Crede-me, a morte é preferível, numa encarnação de vinte anos, a esses vergonhosos desregramentos que pungem famílias respeitáveis, dilaceram corações de mães e fazem que antes do tempo embranqueçam os cabelos dos pais. Frequentemente, a morte prematura é um grande benefício que Deus concede àquele que se vai e que assim se preserva das misérias da vida, ou das seduções que talvez lhe acarretassem a perda. Não é vítima da fatalidade aquele que morre na flor dos anos; é que Deus julga não convir que ele permaneça por mais tempo na Terra.
É uma horrenda desgraça, dizeis, ver cortado o fio de uma vida tão prenhe de esperanças! De que esperanças falais? Das da Terra, onde o liberto houvera podido brilhar, abrir caminho e enriquecer? Sempre essa visão estreita, incapaz de elevar-se acima da matéria. Sabeis qual teria sido a sorte dessa vida, ao vosso parecer tão cheia de esperanças? Quem vos diz que ela não seria saturada de amarguras? Desdenhais então das esperanças da vida futura, ao ponto de lhe preferirdes as da vida efêmera que arrastais na Terra? Supondes então que mais vale uma posição elevada entre os homens, do que entre os Espíritos bem-aventurados?
Em vez de vos queixardes, regozijai-vos quando praz a Deus retirar deste vale de misérias um de seus filhos. Não será egoístico desejardes que ele ai continuasse para sofrer convosco? Ah! Essa dor se concebe naquele que carece de fé e que vê na morte uma separação etrena. Vós, espíritas, porém, sabeis que a alma vive melhor quando desembaraçada do seu invólucro corpóreo. Mães, sabei que vossos filhos bem-amados estão perto de vós;, sim, estão muito perto; seus corpos fluídicos vos envolvem, seus pensamentos vos protegem, a lembrança que deles guardais os transporta de alegria, mas também as vossas dores desarrazoadas os afligem, porque denotam falta de fé e exprimem uma revolta contra a vontade de Deus.
Vós, que compreendeis a vida espiritual, escutai as pulsações do vosso coração a chamar esses entes bem-amados e, se pedirdes a Deus que os abençoe, em vós sentireis fortes consolações, dessas que secam as lágrimas; sentireis aspirações grandiosa que vos mostrarão o porvir que o soberano Senhor prometeu.
Quando o assunto é a morte de crianças, adolescentes e adultos jovens antes dos pais, nem sempre a racionalidade que o Espiritismo traz pode ser suficiente para acalentar as almas dos que ficam. Ouve-se muito dizer, por ocasião de um acontecimento desse tipo, que a dor é mais profunda porque a morte prematura foge da “ordem natural” das coisas. Ao se dizer isso, é como se esperássemos que existisse uma regra onde a doença e o desencarne só chegassem após termos vivido tudo o que tínhamos de viver, após termos aproveitado a vida. Nós esquecemos, porém, que as regras não são nossas, e que é bastante possível que aquele que desencarnou jovem já tenha aproveitado sua vida da melhor maneira possível. Como aceitar a morte prematura? No sofrimento causado por esse tipo de morte de uma pessoa amada, o ser acaba se revoltando contra os desígnios de Deus. Ele não aceita essa ausência, acha injusto, cruel.
Cada um de nós viverá aquilo que necessita para acelerar seu processo de evolução e de regeneração. Temos o hábito de acreditar que uma vida só se completa na idade avançada. Porém, não existe um padrão a ser seguido. Muitas existências, ainda que breves, são proveitosas. O termo “morte prematura”, talvez não seja adequado, pois não podemos pensar em uma espiritualidade superior onde as coisas são feitas de improviso. Evidentemente nos referimos aqui à prematuridade do ponto de vista físico, ou seja, desencarnar jovem e não desencarnar antes do tempo programado. Para os pais que enxergam na morte do filho o fim de tudo, o sofrimento parece mesmo não ter fim, porém, um outro caminho, de mais amor e paz interior pode existir. Entender esse mecanismo é fundamental para se libertar da tristeza imensa que invade a vida dos familiares. Enquanto houver a crença de que Deus levou; que Deus quis, como se houvesse um senhor de barbas brancas sentado em uma nuvem escolhendo quem vai e quem fica, distribuindo benesses e concessões, castigo e punições, não haverá progresso espiritual.
Como explicar que uma criança de um ano de idade, que nem teve tempo de fazer coisas boas ou ruins tenha uma doença grave e desencarne após seis meses de sofrimento? Punição para os pais? Acreditar nessa hipótese é diminuir Deus a um tirano despótico sem sentimento, que castiga um inocente para punir os pais. Que tipo de amor é esse? Pois João evangelista nos define Deus da única forma que podemos compreender. Deus é amor. Então, a resposta é uma só. Cada um responde por atos praticados em outras vidas, resgatando pelo amor, as dívidas do passado e caminhando em direção ao Pai. Dessa forma, não há punição, mas oportunidade. Não há fim, mas continuidade da vida.
Não nos cabe tentar adivinhar qual razão se aplica a tal Espírito. Existem diversos motivos para esse tipo de desencarne. Seja qual for o motivo, o importante é nos lembrarmos e nos conscientizarmos que esses desencarnes não são nem castigo e nem anomalias. Eles são apenas experiências pelas quais tem de passar o Espírito em evolução. Por isso, devemos entender que aquela criança ou aquele jovem que desencarnou nessa situação continua vivo. Foi apenas uma cobrança automática imposta por compromissos do passado. Portanto, não houve castigo, houve libertação.
No processo de aceitação e entendimento que ocorre após esse tipo de morte, o primeiro item é não se desesperar, não agir como a vida tivesse acabado. Confie e se entregue nas mãos do Pai amoro, que acolhe e alivia. Converta esse sentimento de dor em algo sublime como a ajuda aos necessitados, em prol daquele que desencarnou. Dia virá que, você que chora, será capaz de olhar para trás e entender tudo que a vida queria lhe ensinar com esse acontecimento.
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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITEM 20 – A FELICIDADE NÃO É DESTE MUNDO
Não sou feliz! A felicidade não foi feita para mim! Exclama geralmente o homem em todas as posições sociais. Isso, meus caros filhos, prova, melhor do que todos os raciocínios possíveis, a verdade desta máxima do Eclesiastes: “A felicidade não é deste mundo”. Com efeito, nem a riqueza, nem o poder, nem mesmo a florida juventude são condições essenciais à felicidade. Digo mais: nem mesmo reunidas essas três condições tão desejadas, porquanto incessantemente se ouvem, no seio das classes mais privilegiadas, pessoas de todas as idades se queixarem amargamente da situação em que se encontram.
Diante de tal fato, é inconcebível que as classes laboriosas e militantes invejem com tanta ânsia a posição das que parecem favorecidas da fortuna. Neste mundo, por mais que faça, cada um tem a sua parte de labor e de miséria, sua cota de sofrimento e de decepções, donde facilmente se chega à conclusão de que a Terra é lugar de provas e de expiações.
Assim, pois, os que pregam que ela é a única morada do homem e que somente nela e numa só existência é que lhe cumpre alcançar o mais alto grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem-se e enganam os que os escutam, visto que demonstrado está, por experiência arqui-selular, que só excepcionalmente este globo apresenta as condições necessárias à completa felicidade do indivíduo.
Em tese geral pode afirmar-se que a felicidade é uma utopia a cuja conquista as gerações se lançam sucessivamente, sem jamais lograrem alcança-la. Se o homem ajuizado é uma raridade neste mundo, o homem absolutamente feliz jamais foi encontrado.
O em que consiste a felicidade na Terra é coisa tão efêmera para aquele que não tem a guia-lo a ponderação, que, por um ano, um mês, uma semana de satisfação completa, todo o resto da existência é uma série de amarguras e decepções. E notai, meus caros filhos, que falo dos venturosos da Terra, dos que são invejados pela multidão.
Conseguintemente, se à morada terrena são peculiares as provas e a expiação, forçoso é se admita que, algures, moradas há mais favorecidas, onde o Espírito, conquanto aprisionado ainda numa carne material, possui em toda a plenitude os gozos inerentes à vida humana. Tal a razão por que Deus semeou, no vosso turbilhão, esses belos planetas superiores para os quais os vossos esfprços e as vossas tendências vos farão gravitar um dia, quando vos achardes suficientemente purificados e aperfeiçoados.
Todavia, não deduzais das minhas palavras que a Terra esteja destinada para sempre a ser uma penitenciária. Não, certamente! Dos progressos já realizados, podeis facilmente deduzir os progressos futuros e, dos melhoramentos sociais conseguidos, novos e mais fecundos melhoramentos. Essa a tarefa imensa cuja execução cabe à nova doutrina que os Espíritos vos revelaram.
Assim, pois, meus queridos filhos, que uma santa emulação vos anime e que cada um de vós se despoje do homem velho. Deveis todos consagrar-vos à propagação desse Espiritismo que já deu começo à vossa própria regeneração. Corre-vos o dever de fazer que os vossos irmãos participem dos raios da sagrada luz. Mãos, portanto, à obra, meus muito queridos filhos! Que nesta reunião solene todos os vossos corações aspirem a esse grandioso objetivo de preparar para as gerações porvindouras um mundo onde já não seja vã a palavra felicidade.
Se questionarmos um grupo de pessoas acerca do que significa ser feliz, obteremos respostas as mais diversas. Alguns dirão que ser feliz significa ter uma vida confortável, sem preocupações financeiras. Outros dirão que a presença dos familiares e amigos já é suficiente para lhes proporcionar felicidade. Outros, ainda, poderão dizer que ser feliz é encontrar um grande amor, alguém com quem possa dividir os momentos de alegria e os de tristezas. E outros mais dirão que uma saúde perfeita é o que basta para a felicidade. Outras respostas poderíamos enumerar, sem podermos afirmar qual delas é a mais correta ou a menos errada, pois que não há uma resposta em definitivo. Todos nós desejamos encontrar a felicidade um dia, mas, para realizar essa vontade ou esse desejo, é necessário trabalhar os valores pertinentes ao Espírito.
Nesta mensagem que estamos estudando, o Cardeal Morlot, nome eclesiástico de François-Nicolas-Madeleine, autor do texto, afirma que a felicidade não é deste mundo. Alguns podem pensar que tal ensinamento é uma barreira às esperanças que todos temos de encontrar a felicidade verdadeira. Porém, não é esse o propósito da sentença. O autor quer dizer que o homem não está preparado para ser feliz porque a procura onde ela não está. Procura do lado de fora dele, quando, na realidade, ela mora no seu interior. Diz, ainda, o Espírito mensageiro, que se um sábio é coisa rara neste planeta, um homem feliz não se encontra com facilidade maior. A efemeridade dos momentos felizes, geralmente, pelas conquistas das coisas do mundo, não deixam que o homem desfrute de alegria por muito tempo. O orientador espiritual simula lamentos de alguém, hipoteticamente que diz “não sou feliz”; “a felicidade não foi feita para mim”, exclamações dos homens de todas as camadas sociais. Conclui-se, portanto, que dinheiro, beleza, inteligência ou posição social não são recursos para que alguém tenha felicidade. Pode-se ter conforto, folga financeira, prestígio na sociedade, mas não felicidade.
Na mensagem, o seu autor nos mostra que não tem cabimento os homens mais pobres terem inveja dos ricos. Todos, ricos e pobres, têm seu quinhão de riqueza e de miséria, material ou espiritual. Afinal, o planeta é de expiações e provas e, portanto, habitado por Espíritos que têm como principal característica a imperfeição. Quando não é pela maldade é pela ignorância.
Ao finalizar suas orientações, o Espírito comunicante nos diz que a Terra não está condenada a ser eternamente uma penitenciária para delinquentes conscientes ou inconscientes. Ela progredirá e será um mundo que abrigará pessoas felizes. Como Paulo, temos que matar o homem velho para fazer nascer o homem novo que vive em nós desde quando Deus nos criou simples e sem conhecimento, para podermos estar entre estas pessoas felizes.
Mas, infelizmente, há tantos que depositam suas esperanças de felicidade nas ilusões que o dinheiro e as posses materiais podem oferecer. Passam a vida trabalhando para conquistar um império financeiro e não percebem o quanto são escravos. Esquecem-se de que muitas pessoas são verdadeiramente felizes morando em casas singelas, com vidas financeiras limitadas. A felicidade, portanto, não pode estar nos bens materiais.
“A felicidade não é deste mundo”. Essa máxima do Evangelho nos ensina que a felicidade verdadeira é uma conquista do Espírito, pois, que todos nós fomos criados para a felicidade eterna. Na Terra vivemos apenas momentos felizes, mas que não são duradouros e eternos.
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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITEM 19 – O MAL E O REMÉDIO
Dando continuidade ao estudo do Capítulo quinto, vamos apreciar uma mensagem que nos traz a consolação diante da dor e do sofrimento. É bom lembrar que a dor é inevitável diante da situação em que nos encontramos, ou seja, num planeta de Expiações e provas, mas, o sofrimento é opcional.
Será a Terra um lugar de gozo, um paraíso de delícias? Já não ressoa mais aos vossos ouvidos a voz do profeta? Não proclamou ele que haveria prantos e ranger de dentes para os que nascessem nesse vale de dores? Esperai, pois, todos vós que aí viveis, causticantes lágrimas e amargo sofrer e, por mais agudas e profundas sejam as vossas dores, volvei o olhar para o Céu e bendizei do Senhor por ter querido experimentar-vos... Ó homens! Dar-se-á não reconheçais o poder do vosso Senhor, senão quando ele vos haja curado as chagas do corpo e coroado de beatitude e ventura os vosso dias? Dar-se-á não reconheçais o seu amor, senão quando vos tenha adornado o corpo de todas as glórias e lhe haja restituído o brilho e a brancura? Imitai aquele que vos foi dado para exemplo. Tendo chegado ao último grau da abjeção e da miséria, deitado sobre uma estrumeira, disse ele a Deus: “Senhor, conheci todos os deleites da opulência e me reduzistes à mais absoluta miséria; obrigado, obrigado, meu Deus, por haverdes querido experimentar o vosso servo!”, Até quando os vossos olhares se deterão nos horizontes que a morte limita? Quando, afinal, vossa alma se decidirá a lançar-se para além dos limites de um túmulo? Houvésseis de chorar e sofrer a vida inteira, que seria isso, a par da eterna glória reservada ao que tenha sofrido a prova com fé, amor e resignação? Buscai consolações para os vossos males no porvir que Deus vos prepara e procurai-lhe a causa no passado. E vós, que mais sofreis, considerai-vos os afortunados da Terra.
Como desencarnados, quando pairáveis no espaço, escolhestes as vossas provas, julgando-vos bastante fortes para as suportar. Por que agora murmurar? Vós, que pedistes a riqueza e a glória, queríeis sustentar luta com a tentação e vencê-la. Vós, que pedistes para lutar de corpo e espírito contra o mal moral e físico, sabíeis que quanto mais forte fosse a prova, tanto mais gloriosa a vitória e que, se triunfásseis, embora devesse o vosso corpo parar numa estrumeira, dele, ao morrer, se desprenderia uma alma de rutilante alvura e purificada pelo batismo da expiação e do sofrimento.
Que remédio, então, prescrever aos atacados de obsessões cruéis e de cruciantes males? Só um é infalível; a fé, o apelo ao Céu. Se, na maior acerbidade dos vossos sofrimentos, entoardes hinos ao Senhor, o anjo, à vossa cabeceira, com a mão vos apontará o sinal da salvação e o lugar que um dia ocupareis. A fé é o remédio seguro do sofrimento; mostra sempre os horizontes do infinito diante dos quais se esvaem os poucos dias brumosos do presente. Não nos pergunteis, portanto, qual o remédio para curar tal úlcera ou tal chaga, para tal tentação ou tal prova. Lembrai-vos de que aquele que crê é forte pelo remédio da fé e que aquele que duvida um instante da sua eficácia é imediatamente punido, porque logo sente as pungitivas angústias da aflição.
O Senhor apôs o seu selo em todos os que nele creem. O Cristo vos disse que com a fé se transportam montanhas e eu vos digo que aquele que sofre e tem a fé por amparo ficará sob a sua égide e não mais sofrerá. Os momentos das mais fortes dores lhe serão as primeiras notas alegres da eternidade. Sua alma se desprenderá de tal maneira do corpo, que, enquanto se estorcer em convulsões, ela planará nas regiões celestes, entoando, com os anjos, hinos de reconhecimento e de glória ao Senhor.
Ditosos os que sofrem e choram! Alegres estejam suas almas, porque Deus as cumulará de bem-aventuranças.
Comentário:
Nesta mensagem, Santo Agostinho, que viveu na Terra, envolto nos prazeres materiais, e que transformou sua vida, quando percebeu que havia prazeres e objetivos mais condizentes com a sua situação de filho de Deus, bem sabe das lutas internas de quem se dispõe a desenvolver seu potencial divino que traz em si. Por isso, conclama o ser humano a ver a realidade do Espírito, sujeito a reencarnações na Terra, mundo de expiações e de provas. Usa, ele, de frases contundentes, severas e realistas, a fim de relembrar e estimular aos homens sua condição de imperfeição e rebeldia, que os impele a viver em um mundo, onde a dor, o sofrimento, dificuldades e obstáculos são o remédio para seus males. Desse modo, não devemos querer passar uma existência na Terra em alegrias constantes, visto que, se assim fora, nós permaneceríamos estacionados nos prazeres e valores materiais, sem conhecer a felicidade que nos espera. Se nos vemos presos a um mundo inferior, sujeitos a vicissitudes e dores, e se aceitamos Deus, como fonte de amor, justiça e misericórdia, só podemos deduzir que temos o que precisamos para atingir nosso destino de perfeição e de felicidade. Precisamos, pois, entender as leis naturais, que nos levam a compreender e a aceitar as vicissitudes terrenas como necessárias a Espíritos rebeldes à lei de amor. Em assim fazendo, seremos capazes de agradecer ao Criador todas essas tribulações, que nos ferem, mas que nos levam a vivências mais dignas de filhos de Deus. Conclama-nos Santo Agostinho a reconhecermos Deus, no seu amor e sabedoria, não só nos momentos de alegria, mas também, nos momentos de tristeza; a pensarmos na vida eterna, no seu significado, o que nos dá a dimensão exata dessas vicissitudes, frações diminutas de tempo, diante da eternidade e diante da felicidade plena a ser conseguida. Por isso ele escreve: “Até quando vossos olhos só alcançarão os horizontes marcados pela morte? Quando, enfim, vossa alma quererá lançar-se além dos limites do túmulo? Mas, ainda que tivésseis de sofrer uma vida inteira, que seria isso ao lado da eternidade de glória reservada àquele que houver suportado a prova com fé, amor e resignação? Procurai, pois, a consolação para os vossos males no futuro que Deus vos prepara, e vós, os que mais sofreis, julgai-vos-eis os bem-aventurados na Terra”.
O Espiritismo, proporcionando a fé raciocinada, aquela que se desenvolve pela compreensão e entendimento das leis naturais ou divinas, facilita, e muito, o desenvolvimento dessa fé, não só aceita pelo sentimento e pelo amor, mas, também, pela razão. Essa fé é inquebrantável, mesmo frente aos maiores sofrimentos, aos piores revezes.
Conclusão:
No desenrolar da leitura nós vamos começando a estruturar algumas conclusões sobre o estudo. E interpretamos que o sofrimento, ao invés de ser uma desgraça, constitui a oportunidade dada por Deus para corrigir nossos erros. Na fé encontramos o remédio seguro do sofrimento. Ela nos permite ver que as maiores dores de hoje são o prenúncio da felicidade que nos aguarda amanhã. E quando sentimos dores, procuramos remédios para os males que nos afligem. E qual seria esse remédio? E a resposta vem nas linhas seguintes. Afirmando que a fé é o remédio seguro para o nosso sofrimento, mostra sempre os horizontes do infinito, diante dos quais pouco representa os maus dias do presente. Já que todo aquele que crê é forte pelo remédio da fé e aquele que duvida é punido pelas angústias das aflições.
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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITEM 18 – BEM E MAL SOFRER
 A partir desse estudo, vamos comentar as Instruções dos Espíritos que Kardec selecionou para incluir no capítulo em apreciação, e que são em número de quatorze. Nelas, vários dos assuntos estudados são focalizados, cada um por sua vez, através de Espíritos superiores, cuja identificação está registrada por Kardec, bem como a cidade e o ano em que elas foram ditadas.
A primeira delas, objeto do nosso estudo, intitula-se “Bem e Mal sofrer”, e foi ditada pelo Espírito Lacordaire. O título da mensagem, a princípio, parece descabível. O sofrimento, qualquer que ele seja, nunca é bem aceito, isto é, não há bem sofrer. Mas isto não é bem assim conforme nós estamos colocando e, sim, como Lacordaire colocou. E ele começa dizendo:
Quando o Cristo disse: “Bem-aventurados os aflitos, o reino dos céus lhes pertence”, não se referia de modo geral aos que sofrem, visto que sofrem todos os que se encontram na Terra, quer ocupem tronos, quer jazam sobre palha. Mas, ah! Poucos sofrem bem; poucos compreendem que somente as provas bem suportadas podem conduzi-los ao reino de Deus. O desânimo é uma falta. Deus vos recusa consolações, desde que vos falte coragem. A prece é um apoio para a alma; contudo, não basta; é preciso tenha por base uma fé viva na bondade de Deus. Ele já muitas vezes vos disse que não coloca fardos pesados em ombros fracos. O fardo é proporcionado às forças, como a recompensa o será a resignação e à coragem. Mais opulenta será a recompensa, do que penosa a aflição. Cumpre, porém, merecê-la, e é para isso que a vida se apresenta cheia de tribulações.
O militar que não é mandado para as linhas de fogo fica descontente, porque o repouso no campo nenhuma ascensão de posto lhe faculta. Sede, pois, como o militar e não desejeis um repouso em que o vosso corpo se enervaria e se entorpeceria a vossa alma. Alegrai-vos, quando Deus vos enviar para a luta. Não consiste esta no fogo da batalha, mas nos amargores da vida, onde, às vezes, de mais coragem se há mister do que num combate sangrento, porquanto não é raro que aquele que se mantém firme em presença do inimigo fraqueje nas tenazes de uma pena moral. Nenhuma recompensa obtém o homem por essa espécie de coragem; mas, Deus lhe reserva palmas de vitória e uma situação gloriosa. Quando vos advenha uma causa de sofrimento ou de contrariedade, sobreponde-vos a ela, e, quando houverdes conseguido dominar os ímpetos da impaciência, da cólera, ou do desespero, dizei, de vós para convosco, cheio de justa satisfação: “Fui o mais forte”.
Bem-aventurados os aflitos pode então traduzir-se assim: Bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso.
Antes de tudo, a mensagem nos lembra de que todos que estão neste mundo sofrem, quer estejam na opulência ou na miséria extrema. No capítulo terceiro, em que estudamos as muitas moradas na casa de meu Pai, ficamos sabendo das diversas categorias de mundos, que resultam do grande adiantamento ou da inferioridade de seus habitantes. Assim, a Espiritualidade superior, considerando o estado e o destino dos mundos, com base em seus aspectos mais destacados, classificou a Terra na categoria dos mundos de expiações e provas, ou seja, naquele em que o mal predomina sobre o bem. E, é, por isso, que nela, o homem está sujeito a tanto sofrimento. Por isso, o Espírito comunicante disse em sua instrução que todos que estão neste mundo sofrem.  Perceberam o que o Espírito mensageiro quis significar com essas palavras? Nós podemos sintetizar o que ele nos transmitiu com uma pequena frase: Não é bastante sofrer. É preciso saber sofrer. Porém, ainda não conseguimos encarar a dor como um recurso terapêutico, um remédio, dolorido no primeiro instante, mas que trará a saúde de volta. A nossa visão limitada nos faz enxergar apenas o momento da dor, que eternizamos em forma de lamento, na maioria das vezes exagerado. Ainda não sabemos entender o “bem sofrer” a que o Evangelho faz alusão. Nós ainda temos a tendência de supervalorizar o sofrimento. Nossas dores são sempre as maiores; nossos fardos são os mais pesados.
A universalidade da dor chama a atenção dos homens para o fato de que são essencialmente iguais. Todos sofrem, mas poucos sofrem bem. Tão raro é o bem sofrer que, geralmente, não é sequer compreendido.
No Sermão da Montanha, Jesus afirmou a Bem-aventurança para os que choram, para os injuriados. Mas, certamente, não estava referindo-se aos que sofrem em meio à revoltas e desatinos. O sofrimento tem a dimensão que nós lhe damos. A dor é inevitável; o sofrimento é opcional. Por tudo isso, devemos cessar com reclamações.
Quando a Doutrina Espírita se refere à dor, em hipótese alguma faz a apologia do sofrimento na ascensão humana. Porém, reconhecendo a inércia e a iniquidade em que ainda nos encontramos, imersos em sombras, afirma e esclarece que a dor ainda é o meio seguro de impulsionar o avanço do Espírito imperfeito.
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CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITENS de 14 a 17 – O SUICÍDIO E A LOUCURA
Kardec colocou juntos, a loucura e o suicídio, porque ambos acontecem pela suposta impossibilidade que o homem vê em aceitar e enfrentar seus problemas, julgando-os muito piores do que são, insolúveis, o que não existe.
Aqueles que estão enfrentando uma difícil fase de sua existência; com escassez de recursos financeiros, enfermidades ou complexos desafios pessoais, na vida familiar ou não, e está se sentindo muito abatido, deveriam  fazer uma profunda reflexão sobre este tema, que requer muito cuidado ao ser estudado.
Textos de apoio:
14. A calma e a resignação hauridas da maneira de considerar a vida terrestre e da confiança no futuro dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo contra a loucura e o suicídio. Com efeito, é certo que a maioria dos casos de loucura se deve à comoção produzida pelas vicissitudes que o homem não tem a coragem de suportar. Ora, se encarando as coisas deste mundo da maneira por que o Espiritismo faz que ele as considere, o homem recebe com indiferença, mesmo com alegria, os reveses e as decepções que o houveram desesperado noutras circunstâncias, evidente se torna que essa força, que o coloca acima dos acontecimentos, lhe preserva de abalos a razão, os quais, se não fora isso, a conturbariam.
A serenidade e a resignação adquiridas no modo de considerar a vida e a fé no que o futuro nos reserva, dão ao Espírito uma paz que é a melhor defesa contra a loucura e o suicídio. De fato, a maioria dos casos de loucura tem como causa a comoção determinada pelas agruras da vida que o ser humano não tem forças para enfrentar. Com o concurso do Espiritismo que o pode reparar para enfrentar as dores deste mundo, ele recebe com mansidão, até com satisfação, os reveses e as dificuldades que o intimidariam ou revoltariam em circunstâncias diferentes.
O homem enlouquece quando abdica de sua razão, desequilibrando seu campo mental, entregando-se, passivamente, às influências externas que se casam com seus sentimentos desequilibrados. Sairá desse estado, tanto mais facilmente, quanto menor for a sua gravidade.
15. O mesmo ocorre com o suicídio. Postos de lado os que se dão em estado de embriaguez e de loucura, aos quais se pode chamar de inconscientes, é incontestável que tem ele sempre por causa um descontentamento, quaisquer que sejam os motivos particulares que se lhe apontem. Ora, aquele que está certo de que só é desventurado por um dia e que melhores serão os dias que hão de vir, enche-se facilmente de paciência. Só se desespera quando nenhum termo divisa para os seus sofrimentos. E que é a vida humana, com relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas, para o que não crê na eternidade e julga que com a vida tudo se acaba, se os infortúnios e as aflições o acabrunham, unicamente na morte vê uma solução para as suas amarguras. Nada esperando. Acha muito natural, muito lógico mesmo, abreviar pelo suicídio as suas misérias.
O mesmo ocorre com o suicídio. Tirante aqueles que acontecem em estado de embriaguez ou de loucura, e, por isso, são chamados inconscientes. O suicídio tem sempre como causa um arraigado descontentamento. Ora, aquele que acredita na eternidade do Espírito tem paciência, pois vê termo para o sofrimento. Mas para aquele que pensa que tudo acaba com a vida, que está subjugado pelo peso da dor até findar-se, não tem nada a esperar e passa a achar natural abreviar sua vida pela porta do suicídio.
Diante de possíveis angústias e estados depressivos, não há outro remédio senão a calma, a paciência e a confiança na vida, que sempre nos reserva o melhor ou o que temos necessidade de enfrentar para aprender. Ações precipitadas, suicídio e atos insanos são praticados devido ao desespero que atinge muitas pessoas que não conseguem enxergar os benefícios que as cercam de todos os lados.
É bom lembrar que na evolução do entendimento dos ensinos espíritas, sabemos hoje que no suicídio indireto, inconsciente, quando o homem age com desprezo aos cuidados com seu corpo, dando vazão aos vícios materiais, aos vícios espirituais, tais como estar sempre colérico, impaciente, irritado, também concorrendo para o desequilíbrio do organismo, podem ocasionar o desencarne prematuro.
16. A incredulidade, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, numa palavra, são os maiores incitantes ao suicídio; ocasionam a covardia moral. Quando homens de ciência, apoiados na autoridade do seu saber, se esforçam por provar aos que os ouvem ou leem que estes nada têm a esperar depois da morte, não estão de fato levando-os a deduzir que, se são desgraçados, coisa melhor não lhes resta senão se matarem? Que lhes poderiam dizer para desviá-los dessa consequência? Que compensação lhes podem oferecer? Que esperança lhes podem dar? Nenhuma, a não ser o nada. Daí se deve concluir que, se o nada é o único remédio heroico, a única perspectiva, mais vale buscá-lo imediatamente e não mais tarde, para sofrer por menos tempo.
A propagação das doutrinas materialistas é, pois, o veneno que inocula a ideia de suicídio na maioria dos que se suicidam, e os que se constituem apóstolos de semelhantes doutrinas assumem tremenda responsabilidade. Com o Espiritismo, tornada impossível a dúvida, muda o aspecto da vida. O crente sabe que a existência se prolonga indefinidamente para lá do túmulo, mas em condições muito diversas; donde a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio; donde, em suma, a coragem moral.
A falta de crença, a simples dúvida sobre o futuro, as ideias materialistas, são os mais ferrenhos elementos que excitam a covardia moral, o apelo ao suicídio.
Assim, vemos que a propagação de ideias materialistas é o veneno que provoca em um grande número de criaturas a ideia do suicídio, e aqueles que se fazem apóstolos dessas ideias não imaginam o tamanho da responsabilidade que lhes sobrecarregam os ombros.
O suicídio, para o materialista, é visto como uma porta de saída para os seus problemas. Mas, para o espiritualista, ou seja, para aquele que acredita que a vida continua após a morte do corpo físico, o suicídio é a porta de entrada para mais problemas, dores e aflições.
17. O Espiritismo ainda produz, sob esse aspecto, outro resultado igualmente positivo e talvez mais decisivo. Apresenta-nos os próprios suicidas a informar-nos da situação desgraçada em que se encontram e a provar que ninguém viola impunimente a lei de Deus, que proíbe ao homem encurtar a sua vida. Entre os suicidas, alguns há cujos sofrimentos, nem por serem temporários e não eternos, não são menos terríveis e de natureza a fazer refletir os que porventura pensam em daqui sair, antes que Deus o haja ordenado. O espírita tem, assim, vários motivos a contrapor à ideia do suicídio; a certeza de uma vida futura, em que, sabe-o ele, será tanto mais ditoso, quanto mais inditoso e resignado haja sido na Terra; a certeza de que, abreviando seus dias, chega, precisamente, a resultado oposto ao que esperava; que se liberta de um mal, para incorrer num mal pior, mais longo e mais terrível; que se engana, imaginando que, com o matar-se, vai mais depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo a que no outro mundo ele se reúna aos que foram objeto de suas afeições e aos quais esperava encontrar; donde a consequência de que o suicídio, só lhe trazendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso mesmo, considerável já é o número dos que têm sido, pelo Espiritismo, obstados de suicidar-se, podendo daí concluir-se que, quando todos os homens forem espíritas, deixará de haver suicídios conscientes. Comparando-se, então, os resultados que as doutrinas materialistas produzem com os que decorrem da Doutrina Espírita, somente do ponto de vista do suicídio, forçoso será reconhecer que, enquanto a lógica das primeiras a ele conduz, a da outra o evita, fato que a experiência confirma.
O Espiritismo muda essa visão. Com ele, não sendo mais admitida a dúvida, o aspecto da vida muda. Sob esse aspecto, com outro resultado positivo, tem o Espiritismo, talvez mais útil e importante. Ele nos mostra os próprios suicidas vindo revelar sua incômoda situação, infeliz e desgastante, o que prova que ninguém viola impunemente a Lei de Deus que proíbe ao homem abreviar sua vida. Há, entre os suicidas, aqueles cujo sofrimento (embora não eterno, apenas temporário) não é menos terrível de modo tal a dar o que pensar a qualquer um que seja tentado a se livrar da própria vida, antes de ser chamado por Deus. O espírita tem, assim, contra a ideia de suicídio, a certeza de uma vida futura; a certeza de que abreviar a vida leva a um resultado exatamente contrário ao que se espera; e que o suicídio é um obstáculo para que ele se reúna, no outro mundo, aos objetos de suas afeições. Daí depreender-se que o suicídio é absolutamente condenável de qualquer ponto de vista.
Conclusão:
É pura ilusão pensar que o suicídio resolve os efeitos dos infortúnios e das decepções. Ao contrário; abreviando-se os dias de vida, liberta-se de um mal e contrai-se outro mais longo e terrível. Pois que o suicídio causa feridas no perispírito e que ficam por muito tempo, e até podem permanecer por diversas existências.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITENS  12 E 13 –  MOTIVOS DE RESIGNAÇÃO
Este trecho expõe perfeitamente o motivo dos sofrimentos que passamos e devemos bendizer, porque é a maneira de corrigirmos nossos erros e seguirmos no caminho evolutivo. Somos devedores. Aqui estamos para saldar nossas dívidas. Se não as pagarmos, elas se estenderão por outras encarnações e os juros são o retardamento de nossa evolução.
Quando adentramos à Doutrina Espírita, muitas questões perpassam por nossas mentes. Logo nos deparamos com alguém nos orientando para sermos resignados. O que seria, então, resignação? Como compreender os dramas que a vida nos propõe, frutos ou não de nossas escolhas? Como proceder para ser considerado um indivíduo resignado?
Muitas vezes, entendemos resignação como aceitação dos problemas e das dores, sem buscarmos alívio, respostas ou o entendimento para o que ocorre conosco. E também, principalmente, por que devemos ser resignados, questionando aonde isso vai nos levar.
Se muitos dos nossos problemas não podem ser solucionados nesta existência, podemos, entretanto, pela sua compreensão, mudar a forma de enfrenta-los.
Texto de Apoio:
Kardec pondera:
12. Por estas palavras: Bem-aventurado os aflitos, pois que serão consolados, Jesus aponta a compensação que hão de ter os que sofrem e a resignação que leva o padecente a bendizer do sofrimento, como prelúdio de cura.
Não se trata, como o espírita estudioso sabe, apenas da cura das enfermidades orgânicas, mas, também, de cura das enfermidades da alma.
Prossegue Kardec:
Também podem essas palavras ser traduzidas assim: Deveis considerar-vos felizes por sofrerdes, visto que as dores deste mundo são o pagamento da dívida que as vossas passadas faltas vos fizeram contrair; suportadas pacientemente na Terra, essas dores vos poupam séculos de sofrimento na vida futura. Deveis, pois, sentir-vos felizes por reduzir Deus a vossa dívida, permitindo que a saldeis agora, o que vos garantirá a tranquilidade no porvir.
Muitas pessoas murmuram diante das dificuldades da vida, o que representa, de maneira consciente ou inconsciente, revolta contra Deus. É como se dissessem: não mereço as provas que estou vivenciando; que Deus está sendo injusto comigo.
O espírita, com sua fé raciocinada, pode, pois, entendendo o mecanismo das provas e expiações no contexto do progresso do Espírito, suportar um “mal” com resignação, conformar-se, sem murmurar, diante de certos desafios, sejam eles de ordem material ou moral, não significando isso que irá cruzar os braços, mas que terá como tema: buscarei modificar para melhor tudo que estiver ao meu alcance, mas me resignarei diante daquilo que não conseguir mudar!
Lembremo-nos da oração da serenidade em que pedimos a Deus serenidade para aceitarmos as coisas que não podemos modificar, coragem para modificarmos aquelas que podemos e sabedoria para distinguir uma da outra.
O homem que sofre assemelha-se a um devedor de avultada soma, a quem o credor diz: Se me pagares hoje mesmo a centésima parte do teu débito, quitar-te-ei do restante e ficarás livre; se o não fizeres, atormentar-te-ei, até que pagues a última parcela. Não se sentiria feliz o devedor por suportar toda espécie de privações para se libertar, pagando apenas a centésima parte do que deve? Em vez de se queixar do seu credor, não lhe ficará agradecido?
Tal o sentido das palavras: Bem-aventurados os aflitos, pois que serão consolados. São ditosos, porque se quitam e porque, depois de haverem quitado, estarão livres. Se, porém, o homem, ao quitar-se de um lado, endivida-se de outro, jamais poderá alcançar a sua libertação. Ora, cada nova falta aumenta a dívida, porquanto nenhuma há, qualquer que ela seja, que não acarrete forçosa e inevitavelmente uma punição. Se não for hoje, será amanhã; se não for na vida atual, será noutra. Entre essas faltas, cumpre se coloque na primeira fiada a carência de submissão à vontade de Deus. Logo, se murmuramos nas aflições, se não as aceitarmos com resignação e como algo que devemos ter merecido, se acusarmos a Deus de ser injusto, nova dívida contraímos, que nos faz perder o fruto que deveríamos colher do sofrimento. É por isso que teremos de recomeçar, absolutamente como se, a um credor que nos atormente, pagássemos uma cota e a tomássemos de novo por empréstimo.
Ao entrar no mundo dos Espíritos, o homem ainda está como o operário que comparece no dia do pagamento. A uns dirá o Senhor: Aqui tens a paga dos teus dias de trabalho; a outros, aos venturosos da Terra, aos que hajam vivido na ociosidade, que tiverem feito consistir a sua felicidade nas satisfações do amor-próprio e nos gozos mundanos: Nada vos toca, pois que recebestes na Terra o vosso salário. Ide e recomeçai a tarefa.
13. O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena. Tanto mais sofre ele, quanto mais longa se lhe afigura a duração do sofrimento. Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a curteza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar. Contrariamente, para aquele que apenas vê a vida corpórea, interminável lhe parece esta, e a dor o oprime com todo o seu peso. Daquela maneira de considerar a vida, resulta ser diminuída a importância das coisas deste mundo, e sentir-se compelido o homem a modelar seus desejos, a contentar-se com a sua posição, sem invejar a dos outros, a receber atenuada a impressão dos reveses e das decepções que experimente. Daí tira ele uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo quanto à da alma, ao passo que, com a inveja, o ciúme e a ambição, voluntariamente se condena à tortura e aumenta as misérias e as angústias da sua curta existência.
Resignáveis, portanto, são todas as provas, expiações, perdas, sofrimentos que o Espírito encarnado não conseguir reverter, lembrando-se que Deus nunca coloca nos ombros de Seus filhos fardos superiores às suas forças.
Questões para estudo:
1 – De que forma o sofrimento pode ser traduzido por felicidade?
R – Sendo as dores de hoje o resgate de nossas dívidas passadas, o sofrimento constitui forma e oportunidade abençoada de quitação daquelas dívidas. Portanto, é feliz aquele que salda débitos com a Justiça divina. Maldizer o sofrimento é abdicar o homem do único remédio que lhe permite a reconquista da felicidade.
2 – O que ocorre com aquele que não sofre resignadamente?
R – Mostrar-se irresignado com o sofrimento é tornar-se insubmisso à vontade de Deus. Aquele que assim age, ao invés de saldar seus débitos, nova dívida contrai, edificando um futuro tormentoso.
3 – Na prática, como podemos suavizar nossas provações?
R – Moderando nossos desejos evitando a inveja, o ciúme, a ambição, dando à vida material o valor relativo que lhe é peculiar, acima de tudo aceitando-a com resignação, e praticando o bem ao próximo.
Conclusão do estudo:
A resignação anda sempre de mãos dadas com a fé. Ela é, em verdade, uma das formas de aplicar a fé em nosso cotidiano. O que caracteriza a resignação é a aceitação completa, não apenas o sofrimento em si, mas de todas as circunstâncias que se encontram fora de nosso controle. É através dela que aprendemos que debater-se não nos leva a nada.
A resignação só é possível com uma fé sólida, raciocinada. Quanto mais robusta for a fé, maior o sentimento da resignação.
Podemos afirmar, portanto, sem sombra de dúvida, que a resignação tem o poder de anular o impacto do sofrimento, fazendo com que o indivíduo, ante a imortalidade da alma, compreenda o processo. Não pela subserviência, submissão ou inércia diante dos fatos, mas por uma oportunidade de crescimento que nos impulsiona à busca do melhor para nós.
Devemos aproveitar o ensejo para exemplificar nossa condição de cristão. Nossa serenidade perante o sofrimento fará com que outros repensem a forma de como vivem.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITEM 11 – ESQUECIMENTO DO PASSADO
Texto de Apoio:
11. Em vão se objeta que o esquecimento constitui obstáculo a que se possa aproveitar da experiência de vidas anteriores. Havendo Deus entendido de lançar um véu sobre o passado, é que há nisso vantagem. Com efeito, a lembrança traria gravíssimos inconvenientes. Poderia, em certos casos, humilhar-nos singularmente, ou, então, exaltar-nos o orgulho e, assim, entravar o nosso livre-arbítrio. Em todas as circunstancias, acarretaria inevitável perturbação nas relações sociais.
Frequentemente, o Espirito renasce no mesmo meio em que já viveu, estabelecendo de novo relações com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes haja feito. Se reconhecesse nelas as a quem odiara, quiçá o ódio se lhe despertaria outra vez no intimo. De todo modo, ele se sentiria humilhado em presença daquelas a quem houvesse ofendido.
Para nos melhorarmos, outorgou-nos Deus, precisamente, o de que necessitamos e nos basta: a voz da consciência e as tendências instintivas. Priva-nos do que nos seria prejudicial. 
Ao nascer, traz o homem consigo o que adquiriu, nasce qual se fez; em cada existência, tem um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi antes: se se vê punido, é que praticou o mal. Suas atuais tendências más indicam o que lhe resta a corrigir em si próprio e é nisso que deve concentrar-se toda a sua atenção, porquanto, daquilo de que se haja corrigido completamente, nenhum traço mais conservara. As boas resoluções que tomou são a voz da consciência, advertindo-o do que é bem e do que é mal e dando-lhe forcas para resistir às tentações.
Aliás, o esquecimento ocorre apenas durante a vida corpórea. Volvendo à vida espiritual, readquire o Espirito a lembrança do passado; nada mais ha, portanto, do que uma interrupção temporária, semelhante à que se dá na vida terrestre durante o sono, a qual não obsta a que, no dia seguinte, nos recordemos do que tenhamos feito na véspera e nos dias precedentes.
E não é somente apos a morte que o Espirito recobra a lembrança do passado. Pode dizer-se que jamais a perde, pois que, como a experiência o demonstra, mesmo encarnado, adormecido o corpo, ocasião em que goza de certa liberdade, o Espirito tem consciência de seus atos anteriores; sabe por que sofre e que sofre com justiça. A lembrança unicamente se apaga no curso da vida exterior, da vida de relação. Mas, na falta de uma recordação exata, que lhe poderia ser penosa e prejudica-lo nas suas relações sociais, forças novas haure ele nesses instantes de emancipação da alma, se os sabe aproveitar.
Algumas pessoas dizem que não acreditam em reencarnação porque não têm lembrança de existências passadas, não sabendo o que foram, o que fizeram, no que acertaram, no que erraram, se eram homens ou mulheres, se eram ricas, pobres ou remediadas.
Incontáveis criaturas não se lembram da roupa que vestiram um mês atrás e uma multidão não sabe ou não se lembra o que almoçou na quinta-feira da semana passada. Diga-se, desde logo, que a memória não é condição necessária à existência.
Quando nós falamos em esquecimento do passado, muitos questionam por que temos que, em uma vida, corrigir erros de vidas passadas, das quais não temos a mais remota lembrança. Muitos perguntam onde está a Justiça Divina, se temos que pagar por erros que nem sequer lembramos? Como o homem pode ser responsável por atos dos quais não se recorda? Como deve, nesta existência, pagar por faltas de outras existências, das quais não tem nenhuma lembrança? A lembrança do passado não nos traria uma melhor compreensão das provas que atravessamos?
Pois é exatamente nisso que consiste a Justiça de Deus. O esquecimento do passado é a Misericórdia Divina nos dando oportunidades de recomeço, a cada nova encarnação.
O espírito reencarna para aprender e progredir. O esquecimento do passado é a oportunidade que temos, a cada nova encarnação, de começar do zero. É um passaporte em branco, um recomeço. Assim, podemos fazer uso de nosso livre-arbítrio para construir novos aprendizados em cada existência, e a quitação dos nossos débitos se encaixa justamente dentro de nossa parcela de aprendizado.
O espírito reencarnado não tem, realmente, a lembrança dos seus atos em vidas pregressas. Como toda regra tem exceção, há casos de nitidez de lembranças do passado, mas são poucos os casos conhecidos. A maioria dos reencarnados tem esquecimento do passado. Essa é a regra geral. Essa lembrança seria um obstáculo, e não uma facilidade. Na Revista Espírita de 1863, lemos: A lembrança do passado traria inconvenientes extremamente graves, porque isso nos perturbaria, nos humilharia, aos nossos próprios olhos e aos do próximo, traria até mesmo perturbações nas relações sociais e travaria o nosso livre-arbítrio. Suponhamos que um Espírito arrependido viesse encarnar em nosso meio, no cadinho de nosso lar, a fim de reparar suas faltas para conosco, por devotamento e afeição; não seria embaraçoso se ambos se lembrassem das inimizades passadas?
Senão, vejamos: todos nós somos hoje melhores do que fomos no passado. Isto porque todos os aprendizados de ordem moral e intelectual são aquisições do Espírito, ou seja, nosso Espírito conserva tudo o que aprendemos e progredimos em termos morais e intelectuais, em cada existência.
Ao renascermos trazemos nossa bagagem moral, e fazemos uso do nosso livre-arbítrio para construir novos aprendizados, e continuar a nossa evolução moral e intelectual. Se, por um lado, o esquecimento do passado nos beneficia enquanto encarnados, em Espírito conservamos a lembrança de nossas vidas anteriores. Não existe o acaso na casa do Pai – nada acontece sem planejamento, e o Espírito, antes de reencarnar, participa desse planejamento. Vejamos como isso se dá:
Na erraticidade (tempo entre uma encarnação e outra), o Espírito tem consciência de suas vidas pregressas, de seus avanços e de seus erros. Despojado dos interesses da vida material, o Espírito tem uma visão mais abrangente dos progressos que já fez, e do quanto ainda precisa fazer para continuar a sua evolução moral, intelectual e espiritual.  Sabe onde tem que melhorar, e ele mesmo pede uma encarnação na qual possa sanar suas faltas, pois tem consciência que todas as suas quedas morais constituem entraves para a sua evolução. (ver Livro dos Espíritos, cap. 6, VIDA ESPÍRITA, item V, Escolha das Provas) É assim que Deus permite que ele reencarne junto das pessoas que amou, assim como daquelas a quem prejudicou, e lhe dá o benefício do esquecimento temporário, para que nem ele, nem as pessoas com as quais convive, possam se apegar ao que ele FOI ou FEZ em outras existências. Se tivéssemos consciência de todo o mal que nos fizeram, cada nova encarnação reacenderia ódios, mágoas e rancores. Que benefício isso traria?
Todos os caminhos de Deus conduzem ao AMOR. É pelo amor que aplacamos ódios, é através do amor que aprendemos a perdoar, é por amor que conhecemos o que é doação, dedicação e desinteresse. É assim que Deus faz com que, inimigos de outrora, renasçam em uma mesma família, com total esquecimento das ofensas, para construírem uma história de amor, amizade e parceria, onde antes houve maldade, ódio e rivalidade. 
É assim que observamos, em uma mesma família, espíritos que tem uma perfeita afinidade, enquanto outros parecem destoar daquele meio. São diferentes, são “difíceis”. São, muito provavelmente, Espíritos que nos reclamam o reacerto, embora não de maneira explícita, visto que estamos temporariamente envoltos pelo véu do esquecimento. Nesses casos, não há que se procurar os motivos da rejeição natural que algumas pessoas nutrem por nós. Há, sim, que se compreender que é através do amor e do perdão que as relações de ódio se transformam em respeito e simpatia, que nada mais são do que o início do amor.
Conclusão do Estudo:
O esquecimento do passado, ao invés de castigo, é dadiva celeste, pois, através dele, ocultamos aos outros e a nos mesmos os erros cometidos. Porem, a voz da consciência não deixa de nos apontar as más tendências, advertindo-nos de que é preciso corrigi-las.
Questões para estudo:
1 - Por que o homem se esquece de suas vidas anteriores?
Porque se o homem recordasse dos seus erros, ódios, rancores e remorsos, essas lembranças serviriam de obstáculo para o seu progresso.
2 - Poderiam as lembranças das existências anteriores dificultar o nosso relacionamento social?
Sim. Ficaríamos perturbados diante das pessoas a quem ofendemos ou por quem fomos ofendidos em existências passadas.
Reconhecer em um ente muito amado aquele a quem prejudicamos ou por quem fomos prejudicados seria fator de desequilíbrio em nossa vida.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITENS DE 6 A 10 – CAUSAS ANTERIORES DAS AFLIÇÕES
“Bem-Aventurados os aflitos pode traduzir-se assim: bem-aventurados os que têm ocasião de provar sua fé, sua firmeza, sua perseverança e sua submissão à vontade de Deus, porque terão centuplicada a alegria  que lhes falta na Terra, porque depois do labor virá o repouso”.
Textos de apoio:
6. Mas, se há males nesta vida cuja causa primária é o homem, outros há também aos quais, pelo menos na aparência, ele é completamente estranho e que parecem atingi-lo como por fatalidade. Tal, por exemplo, a perda de entes queridos e a dos que são o amparo da família. Tais, ainda, os acidentes que nenhuma previsão poderia impedir; os reveses da fortuna, que frustram todas as precauções aconselhadas pela prudência; os flagelos naturais, as enfermidades de nascença, sobretudo as que tiram a tantos infelizes os meios de ganhar a vida pelo trabalho: as deformidades, a idiotia, o cretinismo, etc.
Os que nascem nessas condições, certamente nada hão feito na existência atual para merecer, sem compensação, tão triste sorte, que não podiam evitar, que são impotentes para mudar por si mesmos e que os põe à mercê da comiseração pública. Por que, pois, seres tão desgraçados, enquanto, ao lado deles, sob o mesmo teto, na mesma família, outros são favorecidos de todos os modos?
Que dizer, enfim, dessas crianças que morrem em tenra idade e da vida só conheceram sofrimentos? Problemas são esses que ainda nenhuma filosofia pôde resolver, anomalias que nenhuma religião pôde justificar e que seriam a negação da bondade, da justiça e da providência de Deus, se se verificasse a hipótese de ser criada a alma ao mesmo tempo que o corpo e de estar a sua sorte irrevogavelmente determinada após a permanência de alguns instantes na Terra. Que fizeram essas almas, que acabam de sair das mãos do Criador, para se verem, neste mundo, a braços com tantas misérias e para merecerem no futuro uma recompensa ou uma punição qualquer, visto que não hão podido praticar nem o bem, nem o mal?
Todavia, por virtude do axioma segundo o qual todo efeito tem uma causa, tais misérias são efeitos que hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Ora, ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa vida, isto é, há de estar numa existência precedente. Por outro lado, não podendo Deus punir alguém pelo bem que fez, nem pelo mal que não fez, se somos punidos, é que fizemos o mal; se esses mal não o fizemos na presente vida, tê-lo-emos feito noutra. É uma alternativa a que ninguém pode fugir e em que a lógica decide de que parte se acha a justiça de Deus.
O homem, pois, nem sempre é punido, ou punido completamente, na sua existência atual; mas não escapa nunca às consequências de suas faltas. A prosperidade do mau é apenas momentânea; se ele não expiar hoje, expiará amanhã, ao passo que aquele que sofre está expiando o seu passado. O infortúnio que, à primeira vista, parece imerecido tem sua razão de ser, e aquele que se encontra em sofrimento pode sempre dizer: “Perdoa-me, Senhor, porque pequei”.
7. Os sofrimentos devidos a causas anteriores à existência presente, como os que se originam de culpas atuais, são muitas vezes a consequência da falta cometida, isto é, o homem, pela ação de uma rigorosa justiça distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros. Se foi duro e desumano, poderá ser a seu turno tratado duramente e com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer em humilhante condição; se foi avaro, egoísta, ou se fez mau uso de suas riquezas, poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho, poderá sofrer pelo procedimento de seus filhos, etc.
Assim se explicam pela pluralidade das existências e pela destinação da Terra, como mundo expiatório, as anomalias que apresenta a distribuição da ventura e da desventura entre os bons e os maus neste planeta. Semelhante anomalia, contudo, só existe na aparência, porque considerada tão-só do ponto de vista da vida presente. Aquele que se elevar, pelo pensamento, de maneira a aprender toda uma série de existências, verá que a cada um é atribuída a parte que lhe compete, sem prejuízo da que lhe tocará no mundo dos Espíritos, e verá que a justiça de Deus nunca se interrompe.
Jamais deve o homem olvidar que se acha num mundo inferior, ao qual somente as suas imperfeições o conservam preso. A cada vicissitude, cumpre-lhe lembrar-se de que, se pertencesse a um mundo mais adiantado, isso não se daria e que só de si depende não voltar a este, trabalhando por se melhorar.
Quando paramos para analisar a nossa vida e a vida daqueles à nossa volta, uma dos primeiros questionamentos que nos ocorre é tentar entender a grande diversidade de sofrimentos e aflições que nos cercam: Por que uns têm saúde e outros doença? Por que uns têm deficiências físicas e outros corpos perfeitos? Essas perguntas quando ficam sem respostas sensatas para serem aceitas, nos levam a um Deus parcial e injusto, que escolhe uns para sofrer e outros para gozar uma vida sem problemas e sem dificuldades.
Se muitos dos sofrimentos na Terra são consequências de infrações às Leis de Deus, cometidas nesta existência, outros parecem imerecidos e injustificáveis, quando quem os sofre nada fez para merecê-los.
Porém, se Deus é perfeito, Deus é justo. E Jesus nos apresentou um Deus justo, perfeito, que ama a todos os seus filhos da mesma forma. Pois, todos eles foram criados iguais e terão as mesmas oportunidades de crescimento espiritual. Onde está, portanto, essa justiça? O que nos falta para termos esse questionamento respondido? Para completar esse quebra-cabeça, nos falta entender a reencarnação, as múltiplas reencarnações que todos nós já tivemos e ainda teremos.
Através da reencarnação, conseguiremos enxergar as causas de todos os nossos males e as respostas para todas as nossas dores e sofrimentos. Se todo efeito tem uma causa, e Deus é justo, essa causa tem que ser justa. Dessa forma, a causa de toda aflição é justa, e tem apenas um responsável, nós mesmos. Jesus deixou bem claro para nós que colhemos apenas o que semeamos. Ninguém passa pelo que não deve passar; ninguém sofre pelo erro do próximo e, sim, pelo seu próprio erro, pela sua própria imperfeição, pela sua ação fora da lei divina do amor. Sendo assim, podemos verificar que toda aflição em nossa vida, vem de duas origens diferentes: a primeira, nesta própria vida atual; e a outra, fora dela. A primeira fonte, nesta vida atual, é fácil de ser verificada, basta analisarmos nosso passado, passo a passo, que iremos encontrar a origem de vários males que nos assola. Uma doença hoje, causada por uma imprudência de alimentação, fumo, bebida; um desentendimento hoje, causado por uma palavra dita na hora errada, e assim vai. Podemos até refletir: Ah! Se eu tivesse feito isso, ou deixado de fazer aquilo, talvez não estivesse passando por essa situação. Portanto, vemos em nós a responsabilidade pela maioria de nossas aflições. Quanto mais evoluirmos moralmente, mais evitaremos essas faltas, diminuindo assim o nosso sofrimento.
A lei humana pode não perceber alguns atos e erros. Porém, da lei divina, nenhum fato escapará. Qualquer fuga da lei divina exige uma reparação. Em grande parte do tempo, essa reparação vem pela dor e pela aflição. Devemos também lembrar, que aquele que mais cobra essa reparação do erro é a nossa própria consciência que, em determinado instante percebe a nossa falta, e não se calará até a nossa reparação. Agora, aquela aflição que nós não conseguimos reconhecer a sua origem nesta nossa vida como, por exemplo, uma criança que já nasceu doente e com certa deficiência física, nós não enxergamos nesta vida a origem dessa dor, desse mal. Neste caso, está a segunda origem das nossas aflições. Para justificar essas causas anteriores, imaginemos que no fim de sua existência, um indivíduo reconheceu vários erros, e a sua consciência exige que ele os repare, mas, não há mais tempo, sua vida está no fim. Ele irá lamentar com toda certeza: Ah! Se eu pudesse recomeçar! Ah! Se eu pudesse fazer tudo novamente! Aí, entra a lei das vidas sucessivas, oferecendo oportunidades infinitas de evolução contínua ao Espírito imortal. Somente ela mostra a Justiça de Deus na lei de causa e efeito, dando a todos os Seus filhos oportunidades de errando e acertando, corrigindo e aprendendo, no desenvolvimento do seu potencial espiritual.
Graças à misericórdia divina, esse Espírito vai ter a bênção de nova oportunidade carnal. Vai ter a reencarnação lhe oferecendo esse recomeço. Desta forma, o Espírito tem a chance de reparar os erros que não foram possíveis de ser reparados na outra existência. Sendo assim, existem aflições em nossa vida que são consequência de faltas em outra encarnação. Faltas não reparadas que, conscientemente ou não, pedimos agora para reparar. Dessa forma, devemos enxergar as nossas dores e aflições como escolha própria, e enxergarmos nela um trampolim para a nossa evolução, uma oportunidade para reparar erros passados.
É importante notar que nem toda aflição é uma expiação em nossa vida. Isto quer dizer que nem toda dor que passamos é um contexto de erros anteriores. Existem também aqueles que são próprios, são testes que pedimos para passar, para verificar se já aprendemos uma determinada lição, para que possamos subir um degrau na escada da nossa evolução espiritual.
Para sermos os aflitos bem-aventurados da parábola, devemos ter a força de suportar essas dores, essas aflições, com fé, com resignação, com coragem, deixando de lado nossos queixumes, as nossas reclamações, para termos o consolo prometido por Jesus, devemos ter em mente que as nossas dificuldades, as nossas aflições são, na verdade, oportunidades para aprendermos a não mais errar; de aprendermos a acertar, conforme a lei divina.
Conclusão do Estudo:
Todo sofrimento é obra de quem o sofre; fruto de erros praticados nesta ou em outra vida. A certeza da Justiça de Deus nos dá a paciência e a resignação para o aceitarmos e fazer dele ocasião de progresso espiritual.
Para nossa reflexão:
P - Como podemos explicar a felicidades de uns e o padecimento de outros, sem negar a justiça e a bondade de Deus?
R - Procurando as causas anteriores que lhes deram origem e que, se não podem ser encontradas na presente existência, devem ser buscadas em existências passadas.
P – As tribulações são impostas aos Espíritos ou por eles buscadas?
R – Ocorrem as duas situações: aos Espíritos endurecidos e ignorantes são impostas tribulações para que se esclareçam e busquem, na prática do bem, a libertação do sofrimento; os Espíritos penitentes, detentores de maior esclarecimento, buscam espontaneamente as tribulações, desejosos de reparar o mal que hajam feito.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITENS 4 e 5 – CAUSAS ATUAIS DAS AFLIÇÕES
O estudo desses itens vai nos mostrar a importância de fazermos uma reflexão, de ouvirmos a voz da nossa consciência, que vai nos dizer que muitas das nossas dificuldades; muitas das nossas aflições que vivemos, não foram geradas em encarnações passadas, como gostamos de dizer. Muitos, até, utilizam um termo oriental, que é o termo Carma, para delegar a responsabilidade de todas as nossas dificuldades. Mas, na verdade, essas pessoas estão tentando fugir da responsabilidade de seus atos.
O objetivo maior de estudarmos esses itens é, justamente, de entendermos que essas causas se encontram nos nossos próprios defeitos morais, criados pelo nosso livre-arbítrio conduzido de forma inadequada, e dessa foram criamos dificuldades que nem deveriam existir.
Sem a autorreforma moral, nós estaremos sempre reincidindo nas mesmas faltas e sofrendo os prejuízos que delas decorrem.
Aqui, nós vamos estudar as causas das vicissitudes na vida presente.
Kardec nos diz no primeiro parágrafo:
4. De duas espécies são as vicissitudes da vida, ou, se o preferirem, promanam de duas fontes bem diferentes, que importa distinguir. Umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.
Remontando-se à origem dos males terrestres, reconhecer-se-á que muitos são consequência natural do caráter e do proceder dos que os suportam.
Quantos homens caem por sua própria culpa! Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição!
Quantos se arruínam por falta de ordem, de perseverança, pelo mau proceder, ou por não terem sabido limitar seus desejos!
Quantas uniões desgraçadas, porque resultaram de um cálculo de interesse ou de vaidade e nas quais o coração não tomou parte alguma!
Quantas dissensões e funestas disputas se teriam evitado com um pouco de moderação e menos suscetibilidade!
Quantas doenças e enfermidades decorrem da intemperança e dos excessos de todo gênero!
Quantos pais são infelizes com seus filhos, porque não lhes combateram desde o princípio as más tendências!
Por fraqueza, ou indiferença, deixaram que neles se desenvolvessem os germens do orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que produzem a secura do coração; depois, mais tarde, quando colhem o que semearam, admiram-se e se afligem da falta de deferência com que são tratados e da ingratidão deles.
Interroguem friamente suas consciências todos os que são feridos no coração pelas vicissitudes e decepções da visa; remontem passo a passo à origem dos males que os torturam e verifiquem se, as mais das vezes, não poderão dizer: Se eu houvesse feito, ou deixado de fazer tal coisa, não estaria em semelhante condição.
A quem, então, há de o homem responsabilizar por todas essas aflições, senão a si mesmo? O homem, pois, em grande número de casos, é o causador de seus próprios infortúnios; mas, em vez de reconhecê-lo, acha mais simples, menos humilhante para a sua vaidade acusar a sorte, a Providência, a má fortuna, a má estrela, ao passo que a má estrela é apenas a sua incúria.
Os males dessa natureza fornecem, indubitavelmente, um notável contingente ao cômputo das vicissitudes da vida. O homem as evitará quando trabalhar por se melhorar moralmente, tanto quanto intelectualmente.
A imprevidência (Não calcular bem os prós e os contras de cada opção feita) é a causa de muitos insucessos e infortúnios. Kardec disse: “É preferível ser um bom sapateiro a um mau poeta”, como forma de alertar a quem pretenda se arrogar uma superioridade impossível para a atual encarnação. Saber reconhecer as próprias limitações representa humildade e previdência, evitando-se projetos inviáveis, que desembocam na decepção, quando não em complicações graves e até insanáveis.
O orgulho nos faz pensar que somos superiores às demais pessoas e nos leva a desprezá-las. A pessoa orgulhosa cria dificuldades para si e para as demais pessoas. Devido ao orgulho infeliz, quanta gente se perde!
Kardec relacionou a ambição desmedida como outra causa atual das aflições humanas, uma vez que, pretendendo conquistar benesses superiores às suficientes para uma vida voltada para a própria evolução intelecto-moral, muitos passam a perseguir sonhos de grandeza que nos desviam do caminho do Bem. A ambição faz a pessoa pretender o supérfluo, o injusto, em suma, aquilo que supera o necessário, a justa medida para o cumprimento de sua tarefa no mundo terreno. A virtude contrária à ambição desmedida é a moderação, sendo que quem a adota sabe escolher o que lhe convém como forma de conduta.
Muitos chegam ao fracasso de várias ordens por falta de organização na sua vida pessoal, afetiva, profissional, etc., pois vivem em função do momento presente, sem planejar o futuro, ou sonham alto demais e se esquecem das próprias limitações, pretendendo o que realmente não merecem ou não lhes terá utilidade real.
A preguiça representa um defeito moral, revelando irresponsabilidade. Se Kardec foi escolhido para a missão de Codificador, um dos itens que deve ter sido levado em conta foi sua aplicação ao trabalho, sua determinação em persistir no cumprimento dos seus deveres, tanto que, em pouquíssimo tempo, deu conta de escrever e publicar tantas obras. A perseverança é uma virtude.
Quem vive equivocadamente não pode pretender bons resultados na sua vida nem acusar Deus ou a sorte pelas suas infelicidades atuais, as quais representam meras consequências das suas próprias atitudes malsãs.
Há quem aparente bondade, mas cujos pensamentos e sentimentos sintonizam no Mal e atraem desgraças para sua própria vida; assim, quando Kardec fala em conduta, na certa, não se referiu apenas às atitudes externas, mas englobou também o que se passa portas a dentro da intimidade mental de cada um.
Os maus desejos representam pretensões antiéticas, prejudiciais aos outros e a nós mesmos, sendo que os Espíritos primitivos se caracterizam pela predominância dos maus desejos, que procuram satisfazer a qualquer preço, inclusive com prejuízos alheios.
Na área profissional, por exemplo, muitos há que procuram açambarcar o máximo de benefícios, desrespeitando a ética profissional e as Leis divinas; na área afetiva, há quem explore os sentimentos e a confiança alheios; dentro das quatro paredes do lar, existe quem abuse do aparente poder que detêm na qualidade de pai ou mãe; e assim por diante.
Os vícios, a agressividade e todas as formas inadequadas de pensar, sentir e agir tendem a levar-nos a maus resultados, sendo que, por adotarmos determinadas atitudes internas ou externas, contraímos doenças físicas ou psíquicas, muitas delas irreversíveis.
Quando os filhos assimilam os defeitos morais dos pais tendem a repassá-los aos filhos que tiverem, perdurando assim o rosário de problemas morais, que assolam a sociedade. Os pais assumem perante Deus o compromisso sério e intransferível de exemplificar o Bem ais seus filhos. Somente assim cumpriremos fielmente nossos deveres para com aqueles por cuja educação nos responsabilizamos antes da encarnação.
Na época de Kardec, o duelo era um dos grandes problemas, tanto que foi abordado extensamente na Codificação. As disputas com armas agora se transformaram em lutas judiciais, em que, por qualquer motivo, as pessoas processam umas às outras, perdendo a própria tranquilidade e gerando mais problemas que soluções. A conciliação é a única solução, quando a pessoa que tem alguma queixa contra outra se reúne com ela, formal ou informalmente, e ambas dialogam, procurando apaziguarem-se os ânimos.
No mundo de regeneração, o papel da justiça terrena deverá restringir-se a alguns poucos casos de extrema complexidade, em que os próprios interessados não têm condições de solucionar as situações de dúvida existentes. Até lá devemos exercitar o perdão em favor daqueles que eventualmente tenham nos prejudicado.
As “dissenções e querelas funestas”, a que Kardec se refere, devem ser contornadas com amor e caridade, sendo que o próprio Codificador, na sua superioridade moral, na ocasião em que podia ter acionado a justiça para questionar o prejuízo material sofrido com o injusto “Auto de fé de Barcelona, não o fez.

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO V – BEM-AVENTURADOS OS AFLITOS
ITENS DE 1 A 3 – JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES
Esse capítulo, além de ser o mais longo do Evangelho é também um dos mais importantes, pois através dele é que tomamos conhecimento, como foi dito pela Espiritualidade superior, logo ao seu início, da utilidade de sofrer para ser feliz. Ora, sem o conhecimento da Doutrina Espírita ninguém aceita essa colocação: “Sofrer para ser feliz”, e mesmo com o conhecimento de seus fundamentos expostos no decorrer do capítulo, dificilmente se compreende o que nos parece ser um paradoxo. Isso porque, de um modo geral, a Humanidade terrestre acha que a felicidade está neste mundo, e por isso não quer aceitar o sofrimento de forma alguma, buscando incessantemente encontra-la nesta encarnação, em que a maioria dela ainda acha que é a única porque passa na Terra.
Neste capítulo, estão as Bem-aventuranças, ou seja, Jesus nos dizendo as circunstâncias em que nós poderemos ser bem-aventurados. E nessas bem-aventuranças, nós encontramos os contrastes como bem-aventurados os aflitos. Como bem-aventurado se estou numa aflição terrível? Como bem-aventurado se estou chorando? Então, é muito importante que nós estudemos com muito carinho e com muita atenção essa parte do Evangelho, porque, muitas vezes, nós nos equivocamos e interpretamos errado, e precisamos de uma interpretação correta para que nós não caiamos nos mesmos comentários que muitas vezes ouvimos dos nossos amigos, que não entendem por que bem-aventurados os aflitos se eles sofrem.
Jesus estende essas Bem-aventuranças além dos Bem-aventurados os aflitos. O Cristo estende essa lição a muitos outros itens. Muitas vezes, os ensinamentos do Mestre se faz difícil para nós, para o nosso entendimento, porque realmente nós ainda não estamos à altura de uma compreensão mais profunda. Mas isso não significa que esses ensinamentos, por mais difíceis que sejam, se tornem impossíveis de se compreender.
Textos de apoio:
 1 – Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. (Mateus, V: 5, 6 e 10).
 2 – Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. Bem-aventurados os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque rireis. (Lucas, VI: 20 e 21)
 Mas ai de vós, ricos, porque tendes no fundo a vossa consolação. Ai de vós, os que estais fartos, porque tereis fome. Ai de vós, os que agora rides, porque gemereis e chorareis. (Lucas, VI: 24 e 25). 
 Esse estudo fala sobre os aflitos. E quem de nós, nos dias de hoje, não tem aflição? E a aflição pode ser proveniente do momento atual da vida que nós temos agora, como também pode ter uma causa em vidas anteriores, aquilo que nós chamamos de expiação. A nossa responsabilidade é extremamente grande, porque nós somos os artífices da nossa felicidade ou da nossa infelicidade. Jesus nos diz que as Bem-aventuranças virão em vidas futuras, mas para isso nós temos que nos modificar.
Nós encontramos nessa passagem do Evangelho um desses momentos, em que Jesus nos diz Bem-aventurados os que sofrem. Nas ocasiões em que estamos sofrendo injustiça, fome, perseguição, dentro daquela certeza de que estamos buscando a verdade, não devemos esquecer da justiça divina, e considerarmos que somos bem-aventurados, sim. Mas para isso é preciso que nós consideremos a perfeição da sabedoria divina. Considerando Deus como a máxima sabedoria e, principalmente, justiça, como é que poderíamos admitir que o nosso sofrimento fosse injusto. Nós sabemos que somos submetidos às leis de Deus e fomos criados por elas, e estamos evoluindo dentro dessas leis. Então, se nós agredirmos essas leis, realizarmos ações que não são pautadas por essas leis durante o caminhar para a nossa evolução, é evidente que colheremos o que plantamos. Se hoje deparamos com uma série de problemas, é porque, no passado, nós semeamos esses problemas. E Deus, na sua misericórdia infinita pelas criaturas, através das sucessivas reencarnações, permite que nós resgatemos esses erros cometidos no pretérito. Agora, no momento em que, dentro das nossas aflições, dentro do nosso sofrimento, dentro das nossas dores físicas ou morais, nós nos convencermos de que apenas a justiça das leis estão sendo cumpridas, por mais aflitos que estejamos, nós seremos merecedores da palavra bem-aventurado, porque estamos sofrendo sabendo que aquilo é justo; estamos aflitos, mas convencidos de que, simplesmente, as leis estão se cumprindo, além de nos dar muita força, muita coragem, para prosseguir, enfrentando as coisas que possam advir. A certeza de que estamos dentro da justiça divina faz com que nós avancemos na nossa evolução. Estaremos trabalhando dentro da dor; estaremos progredindo dentro do sofrimento.
Quando Jesus diz que nós seremos consolados, isto não quer dizer que alguém venha de fora nos consolar, nem devemos esperar isso. Nós, é que temos que buscar esse consolo. Quando nós nos recolhemos, e fazemos uma prece, pedindo ajuda aos nossos amigos espirituais, não é que a aflição vá desaparecer, num passe de mágica. Mas nós vamos ser consolados. É como se alguém passasse um creme suavizante em cima daquela pancada. A pancada continua ali. Nós temos que continuar tratando do hematoma, pois, o creme não cura, mas alivia, e nos permite seguir adiante, não nos deixar parar, por causa da aflição. O nosso maior erro na hora da aflição é parar o nosso progresso.
Justiça das aflições
3 – As compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra só podem realizar-se na vida futura. Sem a certeza do porvir, essas máximas seriam um contrassenso, ou mais ainda, seriam um engodo. Mesmo com essa certeza, compreende-se dificilmente a utilidade de sofrer para ser feliz. Diz-se que é para haver mais mérito. Mas então se pergunta por que uns sofrem mais do que outros; por que uns nascem na miséria e outros na opulência, sem nada terem feito para justificar essa posição; por que para uns nada dá certo, enquanto para outros tudo parece sorrir? Mas o que ainda menos se compreende é ver os bens e os males tão desigualmente distribuídos entre o vício e a virtude; ver homens virtuosos sofrer ao lado de malvados que prosperam. A fé no futuro pode consolar e proporcionar paciência, mas não explica essas anomalias, que parecem desmentir a justiça de Deus.
Entretanto, desde que se admite a existência de Deus, não é possível concebê-lo sem suas perfeições. Ele deve ser todo poderoso, todo justiça, todo bondade, pois sem isso não seria Deus. E se Deus é soberanamente justo e bom, não pode agir por capricho ou com parcialidade. As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa, e como Deus é justo, essa causa deve ser justa. Eis do que todos devem compenetrar-se. Deus encaminhou os homens na compreensão dessa causa pelos ensinos de Jesus, e hoje, considerando-os suficientemente maduros para compreendê-la, revela-a por completo através do Espiritismo, ou seja, pela voz dos Espíritos.
Aqui, nós vemos a justiça das aflições no comentário de Kardec, que nos dá um esclarecimento maior a respeito das palavras de Mateus e de Lucas.
Conclusão do estudo
Estando nós no planeta Terra, de provas e expiações, todos choramos por nossas dores e aflições. Em circunstâncias diversas, enfrentamos dificuldades, adversidades, sofrimento de todos os tipos. Contudo, o nosso pranto é um pranto de redenção. Como espíritas somos sabedores de que ele (pranto) é um elemento que nos irá redimir de nossas faltas passadas, porque só aprendemos e evoluímos através da dor, do sofrimento. E, portanto, aqueles que muito sofrem são os que mais culpas têm a expiar, e devem alegrar-se com a ideia de que suas lágrimas do sofrimento, suportado com paciência e resignação, purificam o Espírito e faz com que as mais suaves consolações sejam obtidas em vidas futuras. Ninguém padece sem justa razão.
Muita Paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IV – NINGUÉM PODERÁ VER O REINO DE DEUS SE NÃO NASCER DE NOVO
ITENS DE 24 A 26 – LIMITES DA ENCARNAÇÃO E NECESSIDADE DA ENCARNAÇÃO
Com esse estudo estaremos completando a apreciação do Capítulo IV deste Evangelho. Onde foram estudados os seguimentos relativos à Ressurreição e Reencarnação, e um outro em que ficou esclarecido que os laços de família são fortalecidos pela reencarnação e rompidos pela unicidade da existência.
Agora, no seguimento Instruções dos Espíritos, vamos comentar duas instruções do Espírito São Luís. A primeira, ditada em Paris, em 1859, versando sobre os limites da encarnação. E a segunda, também ditada em Paris e em 1859, sobre a necessidade da encarnação.
Antes de tecermos comentário sobre a primeira resposta de São Luís, convém relembrarmos o que nos diz O Livro dos Espíritos sobre o assunto; em que se constitui a chamada encarnação, e quais os objetivos da mesma, para que, com essas explicações, possamos compreender melhor o que nos informa o Espírito mensageiro.
Ensina-nos O Livro dos Espíritos, na sua introdução, que quem crê haver em si outra coisa além da matéria é espiritualista; obviamente, quem não crê é materialista. Esse algo além da matéria é o que chamamos de alma, e ela constitui o princípio da vida material orgânica, ou seja, o ser imaterial e individual que reside em nós e sobrevive ao corpo. A alma durante a vida material tem duplo invólucro. Um, pesado, grosseiro, destrutível, o corpo. Outro, fluídico, leve, indestrutível, chamado Perispírito. Quando a alma não está unida ao corpo, é chamada de Espírito. Para essa união se verifique é preciso que o Espírito esteja revestido pelo Perispírito. O homem é formado, portanto, por três elementos essenciais: O Espírito, princípio inteligente, em que residem o pensamento, a vontade e o senso moral; o Perispírito, invólucro fluídico, leve e imponderável, que serve de primeiro envoltório ao Espírito, e une a alma ao corpo; e o corpo, invólucro material, que põe o Espírito em relação com o mundo exterior. A encarnação do Espírito é, portanto, a reunião desses três elementos, que irão constituir o que chamamos de homem.
Ainda em O Livro dos Espíritos, vamos encontrar na questão 132, a seguinte pergunta: Qual é o objetivo da encarnação dos Espíritos? Resposta (Parte): Deus lhes impõe a encarnação com o objetivo de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Todavia, para alcançarem essa perfeição, têm que suportar todas as vicissitudes da existência corporal; nisso é que está a expiação. A encarnação tem, também, outro objetivo; o de colocar o Espírito em condições de cumprir sua parte na obra da Criação. Para realiza-la é que, em cada mundo, o Espírito toma um instrumento em harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.
Agora, para a alma que não conseguiu depurar-se em uma encarnação, como ela faz para alcançar a perfeição? Kardec faz esta pergunta na questão 166 em O Livro dos Espíritos. E a resposta da espiritualidade é esta: Suportando a prova de uma nova existência. Quer dizer então que a alma passa por várias experiências, donde se extrai o princípio da pluralidade das existências. De tudo o que ficou exposto, conclui-se que, há necessidade para o Espírito, objetivando o seu aperfeiçoamento, de que ele repita a experiência da encarnação, já que nem mesmo os que, desde o princípio, seguiram o caminho do bem estão dispensados dessa obrigação, por um dever de justiça divina, posto que, Deus não iria fazer alguns felizes, desde a sua criação, sem que para isso tivessem de demonstrar mérito como os demais. Essa mecânica é que explica o dogma da reencarnação, que tem suas bases nos princípios já apresentados: o da pré-existência da alma e o da pluralidade das existências. São eles que constituem a chave que torna aceitável, compreensível e, mais do que isso, fácil de ser compreendido.
Depois dessas informações, vamos passar ao exame da matéria, objeto do nosso estudo:
No item 24, está formulada por Kardec, a seguinte pergunta: Quais os limites da encarnação? O Espírito São Luís responde: A encarnação não tem, propriamente falando, limites precisamente traçados, se tivermos em vista apenas o envoltório que constitui o corpo do Espírito, pois que a materialidade desse envoltório diminui à proporção que o Espírito se purifica. Em certos mundos mais adiantados do que a Terra, ele já se apresenta menos compacto, menos pesado e menos grosseiro; e, por conseguinte, menos sujeito à vicissitudes. Num grau mais elevado, é transparente e quase fluídico. Vai desmaterializando-se de grau em grau, e acaba por se confundir com o Perispírito. De acordo com o mundo em que o Espírito é levado a viver, ele se reveste do invólucro apropriado à natureza desse mundo. Em outras palavras, isso quer dizer o seguinte: o envoltório que constitui o corpo do Espírito à proporção em que ele vai vivendo em mundos mais avançados que a Terra, vai se desmaterializando, tornando-se cada vez menos pesado e menos grosseiro, à medida que o Espírito se purifica. E, ao fim de algumas encarnações, acaba por se confundir com o perispírito, tal a sua fluidez. O próprio perispírito passa por transformações sucessivas; torna-se cada vez mais etéreo, até a depuração completa, que é a condição dos Espíritos puros. Se mundos especiais são destinados a Espíritos de grande adiantamento, esses não ficam presos a eles, como nos mundos inferiores. O estado de libertação em que se encontram permite-lhes ir a toda parte, onde quer que sejam chamados, pelas missões que lhes estejam confiadas. Se considerarmos a encarnação do ponto de vista material, tal como se verifica na Terra, podemos dizer que ela se limita aos mundos inferiores. Depende do Espírito, portanto, libertar-se dela mais ou menos rapidamente, trabalhando pela sua purificação.
Pela mensagem do Espírito São Luís, nós poderíamos ficar pensando e imaginando o que seria viver em mundos onde a condição da encarnação seja mais facilitada, em que os corpos sejam mais leves, mais belos. Mas isso vai depender, unicamente, do nosso crescimento espiritual, de todo um processo de educação do Espírito; pois, é através do processo de evangelização que cada um de nós vai vivenciando, que vamos então ganhando condições de viver num mundo melhor. Agora, se nós estivermos naquela condição de a minha casa, o meu carro, tudo é meu, sem compreendermos que tudo é empréstimo de Deus, para a evolução do nosso espírito, quando desencarnarmos, vamos ficar presos a tudo isso, e não será, portanto, o nosso momento ainda da construção do Reino dos Céus dentro de nós.
O Espírito São Luís arremata essa sua resposta informando que a situação do Espírito no estado de erraticidade, ou seja, no intervalo das existências corporais, está em relação com a natureza do mundo ao que o liga o seu grau de adiantamento. Assim, conclui o Espírito mensageiro: na erraticidade, ele é mais ou menos feliz; livre e esclarecido, conforme for mais ou menos desmaterializado. A mensagem do Espírito São Luís assim responde a questão formulada por Kardec: Quais os limites da encarnação?
Se quisermos estendermo-nos mais um pouco sobre esse enfoque, poderemos evocar a questão 168, também de O Livro dos Espíritos, na qual Kardec pergunta: É limitado o número das existências corporais, ou o Espírito reencarna permanentemente? A resposta da Espiritualidade é a seguinte: A cada nova existência, o Espírito dá um passo no caminho do progresso. Desde que se ache limpo de todas as impurezas, não tem mais necessidade das provas da vida corporal. Kardec acrescenta a seguinte, de número 169: O número das encarnações é o mesmo para todos os Espíritos? A resposta da Espiritualidade superior é taxativa: Não; aquele que caminha depressa se poupa de muitas provas. Todavia, as encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito.
Por tudo isso que foi exposto, é que o Espírito São Luís conclui a sua resposta fazendo a seguinte consideração: No estado de erraticidade, a situação do Espírito está em relação com a natureza do mundo a que o liga o seu grau de adiantamento. Do exposto, se deduz que o limite das encarnações está na razão direta do maior grau de adiantamento que o Espírito houver adquirido nas diferentes existências corporais que tiver vivenciado aqui na Terra. E que equivalem a um maior grau de desmaterialização e, consequentemente, de pureza, até o ponto em que ele, tornando-se Espírito puro, nã mais necessita encarnar. Esse, então, será o limite de encarnação daquele Espírito que tiver alcançado essa meta suprema. Os outros, que ainda não conseguiram essa situação, continuam com a sua limitação em aberto.
No item de número 25, respondendo a uma nova pergunta de Kardec, Se a encarnação é um castigo, e somente os Espíritos culpados estão sujeito a sofrê-la? O Espírito São Luís assim se expressa: A passagem dos Espíritos pela vida corporal é necessária para que eles possam cumprir, por meio de uma ação material, os propósitos cuja execução Deus lhes confia. Isto aqui significa dizer que os Espíritos necessitam do instante como encarnados a bem deles, visto que a atividade que então se veem obrigados a desempenhar ajuda-os a desenvolver a inteligência.
Deus, sendo, soberanamente justo, deve distribuir tudo igualmente por todos os seus filhos; assim, é que estabeleceu para todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir, e a mesma liberdade de proceder. Qualquer privilégio seria uma preferência, uma injustiça. Foi por isso que o Espírito São Luís disse que Deus concede a todos o mesmo ponto de partida.
Prossegue o Espírito mensageiro: A encarnação para todos os Espíritos é apenas um estado transitório. É uma tarefa que Deus lhes impõe quando iniciam a vida, como primeira experiência do uso que farão do livre-arbítrio. Os que desempenham com zelo essa tarefa transpõem rapidamente, e de maneira menos penosa, os primeiros graus da iniciação, e mais cedo gozam do resultado de seus trabalhos. Os que, ao contrário, fazem mau uso da liberdade que Deus lhes concede, retardam o seu progresso. E, é assim, por sua obstinação demonstrada, podem prolongar indefinidamente a necessidade de reencarnarem.
O item 26 é uma nota de Kardec, sobre as respostas do Espírito São Luís. Diz Kardec:
Uma comparação vulgar fará se compreenda melhor essa diferença. O escolar não chega aos estudos superiores da ciência, senão depois de haver percorrido a série das classes que até lá o conduzirão. Essas classes, qualquer que seja o trabalho que exijam, são um meio de o estudante alcançar o fim e não um castigo que se lhe inflige. Se ele é esforçado, abrevia o caminho no qual, então, menos espinhos encontra. Outro tanto não sucede àquele a quem a negligência e a preguiça obrigam a passar duplamente por certas classes. Não é o trabalho da classe que constitui a punição; esta se acha na obrigação de recomeçar o mesmo trabalho.
Assim acontece com o homem na Terra. Para o Espírito do selvagem, que está apenas no início da vida espiritual, a encarnação é um meio de ele desenvolver a sua inteligência; contudo, para o homem esclarecido, em quem o senso moral se acha largamente desenvolvido e que é obrigado a percorrer de novo as etapas de uma vida corpórea cheia de angústias, quando já poderia ter chegado ao fim, é um castigo, pela necessidade em que se vê de prolongar sua permanência em mundos inferiores e desgraçados 
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CAPÍTULO IV – NINGUÉM PODERÁ VER O REINO DE DEUS SE NÃO NASCER DE NOVO
ITENS DE 18 A 23 – A REENCARNAÇÃO FORTALECE OS LAÇOS DE FAMÍLIA
Nós vamos aprender, através desse estudo, o quanto a reencarnação fortalece os laços de família, através do exercício contínuo. Com a repetição desse exercício, nós vamos adquirindo um certo sentimento pelos espíritos. Vamos desenvolvendo a nossa capacidade de amar os nossos semelhantes. Pois, é nas sucessivas encarnações que temos a única forma de nos darmos conta dos atributos de Deus, tais como: justiça, bondade e amor.
O estudo parte da premissa evolutiva de nós retornarmos muitas vezes à vida física. E vamos analisar, à luz da Doutrina Espírita, a presença e a ausência de afinidades entre as pessoas que integram uma mesma família. E também estabelecer uma relação entre a progressão gradativa dos espíritos e o incessante estreitamento dos laços de afeição entre eles.
18. Texto de apoio:
Os laços de família não sofrem destruição alguma com a reencarnação, como pensam certas pessoas. Ao contrário, tornam-se mais fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.
No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos se buscam uns aos outros. A reencarnação apenas momentaneamente os separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade, novamente se reúnem como amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a outros na reencarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm avençado um passo na senda do aperfeiçoamento, cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes torna a afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o egoísmo, nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado número de existências corpóreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga.
Está bem visto que aqui se trata de afeição real, de alma para alma, única que sobrevive à destruição do corpo, porquanto os seres que neste mundo se unem apenas pelos sentidos nenhum motivo têm para se preocuparem no mundo dos Espíritos. Duráveis somente o são as afeições espirituais; as de natureza carnal se extinguem com a causa que lhes deu origem. Ora, semelhante causa não subsiste no mundo dos Espíritos, enquanto a alma existe sempre. No que concerne às pessoas que se unem exclusivamente por motivo de interesse, essas nada realmente são umas para as outras; a morte as separa na Terra e no céu.
Esse estudo nos mostra que, na espiritualidade, os Espíritos se reúnem simulariedade de nível evolutivo; em grupos, conforme a sua simpatia e os seus objetivos comuns. Portanto, o Espírito não fica próximo daqueles que não sintonizarem com a sua faixa vibratória, sejam parentes ou não. Da mesma forma como acontece aqui na Terra com o nosso círculo de amizade. Nós nos reunimos aqui com pessoas que pensam como nós, e que têm afeições como nós. Na erraticidade, o rótulo do parentesco nada significa quando não há semelhança energética.
Kardec nos chama a atenção para o fato de que algumas pessoas argumentam que a teoria da reencarnação destrói os laços de família. Ora, aqueles que temem a reencarnação por este motivo estão pensando equivocadamente. Pois, ela vai justamente reforçando, estreitando, apertando os vínculos do amor, tornando-os laços eternos, ou seja, aqueles que se amam, aqueles que trabalham juntos, aqueles que se esforçam juntos, aqueles que se sacrificam juntos, enfim, aqueles que vão crescendo para que o amor cresça também.
A encarnação de um Espírito só o separa de seu grupo momentaneamente. Pois, por ocasião do seu desligamento do mundo físico, pela desencarnação, faz que se recomponham, no além-túmulo, as famílias irmanadas pelo ideal da solidariedade. Como Kardec diz, é como se fossem amigos que retornam de uma viagem. Muitas vezes, uns seguem a outros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, afim de trabalharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. A Lei da Reencarnação que, associada à Lei da Evolução, mostra que a família é o cadinho purificador onde almas eternas se reúnem periodicamente para, beneficiados pela Lei do Esquecimento, retornarem direcionamentos, corrigirem equívocos, ou formarem grupos afins para juntos apoiarem-se para a realização dos projetos de crescimento naturais do processo evolutivo em que se encontram. Quando a força do amor vigilante detecta as necessidades dos corações que mergulham na carne, pedem aos programadores espirituais das vidas, que lhes permitam acompanhar aqueles afetos que os anteciparam, auxiliando-os, e reaparecem na parentela corporal, ou naquela outra, a da fraternidade real que os une e faculta os exemplos de abnegação, renúncia e devotamento. Os que estão adiantados se esforçam para que os retardatários evoluam.
19. Texto de apoio:
A união e a afeição que existem entre pessoas parentes são um índice da simpatia anterior que as aproximou. Daí vem que, falando-se de alguém cujo caráter, gostos e pendores nenhuma semelhança apresentam com os dos seus parentes mais próximos, se costuma dizer que esse alguém não é da família. Dizendo-se isso, enuncia-se uma verdade mais profunda do que se supõe. Deus permite que, nas famílias, ocorram essas encarnações de Espíritos antipáticos ou estranhos, com o duplo objetivo de servir de prova para uns e, para outros, de meio de progresso. Assim, os maus se melhoram pouco a pouco, ao contato dos bons e por efeito dos cuidados que se lhes dispensam. O caráter deles se abranda, seus costumes se apuram, as antipatias se esvaem. É desse modo que se opera a fusão das diferentes categorias de Espíritos, como se dá na Terra com as raças e os povos.
Aqui, Kardec nos mostra que em nossa família temos afeições do passado e também desafetos, que a misericórdia divina nos permite conviver, para tentarmos trocar nossos laços de ódio pelos laços de amor. Graças ao esquecimento do passado, Deus nos dá mais uma oportunidade para nos entendermos, e juntos subirmos os degraus da evolução espiritual, consertando erros do pretérito.
Pode acontecer também um Espírito encarnar na nossa família sem que tenhamos alguma ligação de amor ou de ódio, são os Espíritos estranhos. Às vezes, é para que a nossa família possa ajuda-lo, ou de forma contrária, esse Espírito vem ajudar a nossa família. Por isto, e no caso dos Espíritos desafetos, é que encontramos pessoas diferentes na nossa família, nem parecem que são irmãos. Por vezes, temos amigos que parecem ser da nossa família, bem como, estranhos que cruzam o nosso caminho, e que nós sentimos uma grande simpatia, parece até que conhecemos aquela peaaoa. Com certeza, esses Espíritos fizeram parte de nossa família em uma outra vida carnal. É uma amigo que oferece seu braço forte; é aquele companheiro a quem devotamos dedicação; é um discreto benfeitor de nossa vida; é aquele vigilante auxiliar que se apaga, para que possamos aparecer. Todos são nossos familiares em espírito, que no passado envergaram as roupagens de um pai abnegado ou de uma mãe sacrificada. Por outro lado, os adversários gratuitos que encontramos são também familiares e amigos a quem ludibriamos e traímos, e que retornam necessitados da nossa reabilitação moral.
Nesse ponto, percebemos a beleza e a grandeza da reencarnação, essa Lei de igualdade. Deus dando sempre a oportunidade de recomeço para todos.
20. Texto de apoio:
O temor de que a parentela aumente indefinidamente, em consequência da reencarnação, é de fundo egoístico: prova, naquele que o sente, falta de amor bastante amplo para abranger grande número de pessoas. Um pai, que tem muitos filhos, ama-os menos do que amaria a um deles, se fosse único? Mas tranquilizem-se os egoístas: não há fundamento para semelhante temor. Do fato de um homem ter tido dez encarnações, não se segue que vá encontrar no mundo dos Espíritos dez pais, dez mães, dez mulheres e um número proporcional de filhos e de parentes novos. Lá encontrará sempre os que foram objeto da sua afeição, os quais se lhe terão ligado na Terra, a títulos diversos, e, talvez, sob o mesmo título.
Aqui, Kardec chama a atenção para o pensamento egoístico de certas pessoas. O argumento de que, com a reencarnação, a família irá sempre aumentar, ou seja, ficar maior, reflete esse sentimento. Por que esse temor? Afinal, todos nós não somos irmãos? Não fazemos parte da mesma família universal? Então, nossa família crescerá, sim. Crescerá na medida em que vamos aprendendo a amar a todos, independentemente se este faz ou não parte do nosso grupo familiar.
Outra coisa que Kardec destaca é que o Espírito não obedece obrigatoriamente a um título nas suas encarnações. Eles trocam de lugar no grupo durante as etapas. A Doutrina Espírita nos mostra que genitores e nubentes, irmãos e primos, avós e netos de uma etapa, trocarão de lugar no grupo de companheiros que se harmonizam, permanecendo os motivos da amizade, continuando assim envolvidos por um laço forte de simpatia, por um laço real de amor, com todos os Espíritos que foram, que são, e que serão de nossa família. Esses Espíritos buscam sempre uns aos outros. Em qualquer época, e em qualquer lugar.
21. Texto de apoio:
Vejamos agora as consequências da doutrina anti-reencarnacionista. Ela, necessariamente, anula a preexistência da alma. Sendo estas criadas ao mesmo tempo que os corpos, nenhum laço anterior há entre elas, que, nesse caso, serão completamente estranhas umas às outras. O pai é estranho a seu filho. A filiação das famílias fica assim reduzida à só filiação corporal, sem qualquer laço espiritual. Não há então motivo algum para quem quer que seja glorificar-se de haver tido por antepassados tais ou tais personagens ilustres. Com a reencarnação, ascendentes e descendentes podem já se terem conhecido, vivido juntos, amado, e podem reunir-se mais tarde, a fim de apertarem entre si os laços de simpatia.
Nesse item, Kardec destaca que, sem a reencarnação os laços de família ficam mais fracos, sem sentido. Vejamos: um aspecto que devemos destacar para refletirmos é, que, se o Espírito fosse criado junto com o corpo, como acreditam aqueles que não são reencarnacionistas, a ligação entre os familiares fica apenas restrita aos laços carnais, pois, os pais são estranhos ao filho. Estes, só serão apresentados no instante do nascimento da criança. Portanto, não existirá ligação afetiva alguma, anterior; não existirá nenhum laço espiritual. As almas dos pais e do filho não têm ligação alguma até àquele momento. De forma contrária, a reencarnação vem mostrar que os laços de família ficam muito mais forte que apenas os laços materiais.
22. Texto de apoio:
Isso quanto ao passado. Quanto ao futuro, segundo um dos dogmas fundamentais que decorrem da não-reencarnação, a sorte das almas se acha irrevogavelmente determinada, após uma só existência. A fixação definitiva da sorte implica a cessação de todo progresso, pois desde que haja qualquer progresso já não há sorte definitiva. Conforme tenham vivido bem ou mal, elas vão imediatamente para a mansão dos bem-aventurados, ou para o inferno eterno. Ficam assim, imediatamente e para sempre, separadas e sem esperança de tornarem a juntar-se, de forma que pais, mães e filhos, mandos e mulheres, irmãos, irmãs e amigos jamais podem estar certos de se verem novamente; é a ruptura absoluta dos laços de família.
Com a reencarnação e progresso a que dá lugar, todos os que se amaram tornam a encontrar-se na Terra e no espaço e juntos gravitam para Deus. Se alguns fraquejam no caminho, esses retardam o seu adiantamento e a sua felicidade, mas não há para eles perda de toda esperança. Ajudados, encorajados e amparados pelos que os amam, um dia sairão do lodaçal em que se enterraram. Com a reencarnação, finalmente, há perpétua solidariedade entre os encarnados e os desencarnados, e, daí, estreitamento dos laços de afeição.
23. Texto de apoio:
Em resumo, quatro alternativas se apresentam ao homem, para o seu futuro de além-túmulo: 1ª, o nada, de acordo com a doutrina materialista; 2ª, a absorção no todo universal, de acordo com a doutrina panteísta;
Aqui, vamos fazer uma digressão para explicar a doutrina panteísta: o princípio inteligente ou alma, independe da matéria, e é extraído ao nascer do todo universal; individualiza-se em cada ser durante a vida, e volta, por efeito da morte, à massa comum, como as gotas de chuva ao oceano. No livro “Obras Póstumas”, Kardec explica as consequências: sem individualidade e sem consciência de si mesmo, o ser é como se não existisse. As consequências morais desta doutrina são, exatamente, as mesmas que as da doutrina materialista. Então, podemos entender que, se ao morrer a pessoa retorna ao conjunto, assim como a gota d’água ao juntar-se ao oceano, não se poderia compreender a diversidade de aptidões e inteligências, visto que, pela imersão no todo e dele saindo, para uma nova vida, todos deveriam ser exatamente iguais, quanto às suas virtudes, o que não se constata pelo simples exame das pessoas.
3ª, a individualidade, com fixação definitiva da sorte, segundo a doutrina da Igreja; 4ª, a individualidade, com progressão indefinita, conforme a Doutrina Espírita. Segundo as duas primeiras, os laços de família se rompem por ocasião da morte e nenhuma esperança resta às almas de se encontrarem futuramente. Com a terceira, há para elas a possibilidade de se tornarem a ver, desde que sigam para a mesma região, que tanto pode ser o inferno como o paraíso. Com a pluralidade das existências, inseparável da progressão gradativa, há a certeza na continuidade das relações entre os que se amaram, e é isso o que constitui a verdadeira família.
Conforme as duas primeiras, os laços de família se rompem depois da morte e nenhuma esperança resta de se encontrarem novamente. Com a terceira, podem reencontrar-se, desde que estejam no mesmo meio o qual tanto pode ser o inferno, quanto o paraíso. Com a quarta, a da pluralidade das existências, que é inseparável do progresso gradativo, há certeza na continuidade das relações entre os que se amaram. E é isso o que constitui a verdadeira família.
O que esse estudo nos mostra é que o Espiritismo indica que teremos várias oportunidades de evolução. Algum Espírito mais atrasado poderá até permanecer afastado dos mais evoluídos após a morte do seu corpo físico. Mas esse afastamento é temporário, até que ele alcance seu nível de evolução. Mas, até nesse momento, os mais evoluídos estarão sempre juntos, mesmo que este não perceba, velando e ajudando no seu crescimento. Vemos, portanto, que a reencarnação explica o passado e o futuro de nossos laços familiares. Laços de alma para alma; laços de amor que não são destruídos com a morte do corpo físico.
Somente através da reencarnação podemos voltar ao cenário terrestre, ao lado de companheiros de outras jornadas, para terminar progressos individuais ou coletivos, que iniciamos em vidas passadas.
Muita Paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO IV – NINGUÉM PODERÁ VER O REINO DE DEUS SE NÃO NASCER DE NOVO
ITENS DE 10 A 17 – RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO
10. Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o Elias que há de vir. Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir. Mateus, cap. XI vv. 12 a 15).
11. Se o princípio da reencarnação, conforme se acha expresso em João, podia, a rigor, ser interpretado em sentido puramente místico, o mesmo já não acontece com esta passagem de  Mateus, que não permite equívoco: ELE MESMO é o Elias que há de virNão há aí figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva. -"Desde o tempo de João Batista até o presente o reino dos céus é tomado pela violência." Que significam essas palavras, uma vez que João Batista ainda vivia naquele momento? Jesus as explica, dizendo: "Se quiserdes compreender o que digo, ele mesmo é o Elias que há de vir." Ora, sendo João o próprio Elias, Jesus alude à época em que João vivia com o nome de Elias. "Até ao presente o reino dos céus é tomado pela violência": outra alusão à violência da lei mosaica, que ordenava o extermínio dos infiéis, para que os demais ganhassem a Terra Prometida, Paraíso dos hebreus, ao passo que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela brandura.
E acrescentou: Ouça aquele que tiver ouvidos de ouvirEssas palavras, que Jesus tanto repetiu, claramente dizem que nem todos estavam em condições de compreender certas verdades.
Com estas palavras, Jesus admitiu, portanto, que o Batista era o próprio Elias reencarnado com o objetivo de preparar o Seu caminho junto ao povo judeu, de acordo com o que foi anteriormente anunciado, por mais de uma dezena de profetas no Velho Testamento. Aliás, quem não admitir o fato de ter sido João Batista o profeta Elias, automaticamente estará negando que o Cristo foi o Messias, pois na Bíblia não encontramos qualquer criatura com o nome de Elias que tenha exercido a missão de preparar o povo judeu para o início da pregação do Mestre, a não ser, como se sabe, o próprio João.
Alguns esclarecimentos sobre o profeta Elias:
Os profetas eram varões que por vocação divina falavam em nome do Senhor, comunicando aos homens tudo o que Ele lhes ordenava revelar. Assim viveu Elias, no século IX a.C.  ao tempo do rei Acab e da rainha Jezabel, com quem esteve em constante oposição, por causa do culto que era promovido ao deus pagão Baal. Elias foi um profeta muito importante para o povo de Israel, um grande patriarca daquele povo, uma referência espiritual de imensa credibilidade e respeito.
 A predição de sua volta, anunciada por outros profetas no Velho Testamento, era muito viva entre os judeus. Via-se na figura de Elias, um missionário na tarefa de servo de Deus e precursor, o anunciador do Messias. Por isso, a sua vinda era um sinal, um código, para o povo de Israel. Os hebreus sabiam que quando Elias voltasse, era chegado o tempo profetizado, e o Messias estaria ali, vivo e atuante entre o povo. E essa predição confirmou-se em sua reencarnação como João Batista.
Quando Jesus disse que Elias já teria vindo e que ninguém o reconheceu, muitos interpretam que João era inspirado por Elias e não que era o próprio profeta. Mas essa identificação dos dois personagens sendo a mesma pessoa mostra também um outro aspecto, a Lei de Causa e Efeito, ou, a cada um segundo suas obras. Na figura de Elias, mesmo falando em nome de Deus, ele cometeu alguns excessos e violências em sua época. Posteriormente, o seu Espírito veio na figura de João Batista para preparar o povo para receber as palavras do Messias. Entretanto, pelo fato de ter cometido os excessos em sua vida anterior, veio resgatar parte de seus débitos, sofrendo a decapitação, por ordem de Herodes, a pedido de Salomé, que o agradou numa apresentação de dança, manobrada ardilosamente pela sua mãe Herodíades.
Note-se a analogia das circunstâncias: na ocasião em que era conhecido como Elias, enfrentou a rainha Jezabel, tendo-a vencido pelos poderes, matando (mandou degolar) os sacerdotes e suprimindo o culto ao deus Baal. Na segunda ocasião, já como João Batista, ele é morto por maquinação também de uma rainha.
12. Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo; aqueles que estavam mortos em meio a mim ressuscitarão. Despertai do vosso sono e entoai louvores a Deus, vós que habitais no pó; porque o orvalho que cai sobre vós é um orvalho de luz e porque arruinareis a Terra e o reino dos gigantes. (ISAÍAS, cap. XXVI, v. 19.)
13. E também muito explícita esta passagem de lsaías: "Aqueles do vosso povo a quem a morte foi dada viverão de novo." Se o profeta houvera querido falar da vida espiritual, se houvera pretendido dizer que aqueles que tinham sido executados não estavam mortos em Espírito, teria dito: ainda viveme não: viverão de novoNo sentido espiritual, essas palavras seriam um contrassenso, pois que implicariam uma interrupção na vida da alma. No sentido de regeneração moral, seriam a negação das penas eternas, pois que estabelecem, em princípio, que todos os que estão mortos reviverão.
14. Mas, quando o homem há morrido uma vez, quando seu corpo, separado de seu espírito, foi consumido, que é feito dele? -Tendo morrido uma vez, poderia o homem reviver de novo? Nesta guerra em que me acho todos os dias da minha vida, espero que chegue a minha mutação. (JOB, cap. XIV, v. 10,14. Tradução de Le Maistre de Sacy.)
Quando o homem morre, perde toda a sua força. expira. Depois, onde está ele? -Se o homem morre, viverá de novo? Esperarei todos os dias de meu combate, até que venha alguma mutação? (ID. Tradução protestante de Osterwald.)
Quando o homem está morto, vive sempre; acabando os dias da minha existência terrestre, esperarei, porquanto a ela voltarei de novo. (ID. Versão da Igreja grega.)
15. Nessas três versões, o princípio da pluralidade das existências se acha claramente expresso. Ninguém poderá supor que Job haja querido falar da regeneração pela água do batismo, que ele de certo não conhecia. "Tendo o homem morrido uma vez, poderia reviver de novo?" A ideia de morrer uma vez, e de reviver implica a de morrer e reviver muitas vezes. A versão da Igreja grega ainda é mais explícita, se é que isso é possível: "Acabando os dias da minha existência terrena, esperarei, porquanto a ela voltarei", ou, voltarei à existência terrestre. Isso é tão claro, como se alguém dissesse: "Saio de minha casa, mas a ela tornarei.".
"Nesta guerra em que me encontro todos os dias de minha vida, espero que se dê a minha mutação." Job, evidentemente, pretendeu referir-se à luta que sustentava contra as misérias da vida. Espera a sua mutação, isto é, resigna-se. Na versão grega, esperarei parece aplicar-se, preferentemente, a uma nova existência: "Quando a minha existência estiver acabada, esperarei, porquanto a ela voltarei." Job como que se coloca, após a morte, no intervalo que separa uma existência de outra e diz que lá aguardará o momento de voltar.
16. Não há, pois, duvidar de que, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação era ponto de uma das crenças fundamentais dos judeus, ponto que Jesus e os profetas confirmaram de modo formal; donde se segue que negar a reencarnação é negar as palavras do Cristo. Um dia, porém, suas palavras, quando forem meditadas sem ideias preconcebidas, reconhecer-se-ão autorizadas quanto a esse ponto, bem como em relação a muitos outros.
17. A essa autoridade, do ponto de vista religioso, se adita, do ponto de vista filosófico, a das provas que resultam da observação dos fatos. Quando se trata de remontar dos efeitos às causas, a reencarnação surge como de necessidade absoluta, como condição inerente à Humanidade; numa palavra: como lei da Natureza. Pelos seus resultados, ela se evidencia, de modo, por assim dizer, material, da mesma forma que o motor oculto se revela pelo movimento. Só ela pode dizer ao homem donde ele vem, para onde vai, por que está na Terra, e justificar todas as anomalias e todas as aparentes injustiças que a vida apresenta. (1)
(1) Veja-se, para os desenvolvimentos do dogma da reencarnação, O Livro dos Espíritos, caps. IV e V; O que é o Espiritismo, cap. II, por Allan Kardec; Pluralidade das Existências, por PEZZANI.
Sem o princípio da preexistência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as máximas do Evangelho, razão por que hão dado lugar a tão contraditórias interpretações. Está nesse princípio a chave que lhes restituirá o sentido verdadeiro.
Muita Paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO 
CAPÍTULO IV – NINGUÉM PODERÁ VER O REINO DE DEUS SE NÃO NASCER DE NOVO
ITENS DE 5 A 9 – RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO
Dando sequência ao estudo sobre ressurreição e reencarnação, nós vamos começar citando a visita que Nicodemos fez a Jesus. Nesta passagem, de grande significação, porque consiste na consagração do princípio da preexistência da alma, o evangelista João inicia a sua narração com as seguintes palavras:
 Ora, entre os fariseus, havia um homem chamado Nicodemos, senador dos judeus, que veio à noite ter com Jesus e lhe disse: “Mestre, sabemos que vieste da parte de Deus para nos instruir como um doutor, porquanto ninguém poderia fazer os milagres que fazes, se Deus não estivesse com ele”.
A fala de Nicodemos revela que sua compreensão da espiritualidade de Jesus, vinha acompanhada de pensamentos relativos a “causa e efeito”, ou seja, o volume de milagres que o Cristo realizava, só podia ter como causa primária, uma ação divina.
Os fariseus eram extremamente rigorosos em relação ao cumprimento das leis de Moisés e de tanto outros costumes e rituais judaicos. Por isso, foram críticos declarados de Jesus, constantemente o provocando e desafiando, com o intuito de deixa-lo em situação difícil perante as pessoas que o seguiam. Porém, tinha um que se mostrava tolerante com as palavras do Cristo, Nicodemos. Ele era um dos mais importantes fariseus da época, e que tendo conhecimento das pregações e das curas que o nazareno fazia, desejava encontrar-se com ele. Como era senador entre os judeus, mestre da religião farisaica, teve medo de que um encontro com Jesus o colocasse em risco, diante de seus nobres colegas fariseus. Movido de prudência ele espera o cair da noite e vai ao encontro do Rabi. E pela saudação feita, chamando-o de “Mestre”, nós podemos entender perfeitamente que Nicodemos reconhece a autoridade moral e espiritual de Jesus, talvez até carregando um conflito interior, pois estava em desacordo com o pensamento dos demais sacerdotes. E o Cristo, captando o seu estado íntimo, que favorecia a pregação das coisas divinas, fala-lhe, de pronto, de reencarnação, e lhe responde: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”. Começa aqui um diálogo notório, onde Jesus mostra a necessidade da interiorização do Evangelho.
Vamos refletir: a que propósito, logo no início da conversa, Jesus teria falado sobre o renascimento, e que relação tinha com as palavras daquele que o visitava? As palavras do Cristo ditas de supetão, a um sacerdote de uma religião que se dizia verdadeira, têm um significado muito profundo. Fosse quem fosse, não alcançaria a graça do Reino de Deus se continuasse preso ao reino do mundo, no qual prevalecem as doutrinas e religiões de invenção humana. O ponto principal das sentenças do Mestre era a vida eterna, e o Rabi da Galileia, na sua condição de embaixador divino, tinha que legar aos homens alguns exemplos ou ensinamentos sobre a reencarnação, por isso, sendo visitado por um mestre de Israel e homem de posição social destacada, que de alguma forma acreditava nas suas pregações, achou oportuno abordar esse tema de relevante importância, para que ficasse explicado o mecanismo desses renascimentos sucessivos a uma pessoa esclarecida. Vale lembrar que Nicodemos já era um cidadão de idade avançada e o Cristo lhe fala do nascer de novo como uma esperança e reconforto para ele, mostrando-lhe que a vida não termina com a morte, nem os velhos devem temer a morte, pois podem renascer e começar tudo novamente, o que provocou o interesse do senador judeu. Nicodemos, tomando a resposta de Jesus em seu sentido material, indagou:
Disse-lhe Nicodemos: “Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer uma segunda vez”?
Por esta pergunta já podemos concluir que o estágio evolutivo dele não lhe permitia compreender esse nascer, viver, morrer e renascer.
Retorquiu-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade, digo-te:  Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do Espírito é Espírito. Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito”.
As palavras de Jesus foram de modo a embaraçar Nicodemos, e ele, não conseguindo entender ou fingindo não entender, pergunta-lhe:
 “Como pode isso fazer-se”? Jesus lhe observou: “Pois quê! És mestre em Israel e ignoras estas coisas? Digo-te em verdade, em verdade, que não dizemos senão o que sabemos e que não damos testemunho, senão do que temos visto. Entretanto, não aceitas o nosso testemunho. Mas, senão credes, quando vos falo das coisas da Terra, como me crereis, quando vos falo das coisas do céu”? (João, cap. III, vv. 1 a 12).
Esta última observação de Jesus mostra bem que ele se surpreendeu, porque não conhecesse um mestre em Israel a reencarnação. A propósito, o encontro com Nicodemos é uma das raras passagens do Evangelho que apresenta alguém que vai procurar o Cristo para informar-se de sua mensagem, e não por estar sofrendo com enfermidades, como ocorreu com a grande maioria. A ideia da reencarnação nós encontramos em muitas passagens dos Evangelhos. Se essa crença não fosse verdadeira, o Mestre não teria deixado de combatê-la, como combateu tantas outras. Porém, ele, com toda autoridade a sanciona e a coloca por princípio e como uma condição necessária, ao dizer: Aquele que não nascer de novo, não poderá ver o Reino de Deus.
Ao dizer, quem não nascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus, Jesus deixa bem claras as condições de salvação. Vamos entender melhor o que o Mestre quis dizer com essas palavras: primeiro, vamos nos reportar à significação da palavra água. Ela simbolizava a natureza material, a vida. Essa era a crença geral naquela época. Acreditava-se que tudo surgia da água, conforme encontramos no livro Gênesis: O Espírito de Deus era levado sobre as águas; que o firmamento seja feito no meio das águas; que as águas produzam animais viventes, e por aí vai. Inicialmente, o renascer da água foi interpretado no sentido da regeneração pela água do batismo. Mas, é lógico que Jesus não falava de batismo, como muitos querem justificar, e sim de retorno através da água, do corpo denso, dado que o nascimento físico é feito através da bolsa d’água do líquido amniótico. Quase cem por cento da constituição das células reprodutoras é água. É o nascer da carne, isto é, com corpo físico, com toda hereditariedade física herdada do corpo dos pais; e o que nasce do espírito é espírito, ou seja, o espírito que reencarna provém do espírito da última encarnação, com toda a hereditariedade pessoal que traz do passado. Aqui está ressaltada a diferença entre matéria e espírito. Ficando provada a total independência entre os dois. Só o corpo procede do corpo. O Espírito independe deste. O corpo, a parte material, acaba um dia. É apenas uma veste utilizada pelo espírito. Mas o espírito é eterno, e necessita de várias experiências para alcançar a sua depuração, a sua plenitude moral. E, aí, sim, poderá entrar no Reino de Deus. Era esse o sentido que o Cristo estava tentando explicar ao senador dos judeus do processo do renascer de novo.
E mais: o espírito sopra, isto é, age, reencarna, se manifesta onde quer, e não sabes de onde veio, ou seja, sua última encarnação, nem para onde vai, qual será a próxima encarnação. Isto quer dizer que ninguém sabe o que foi nem o que será. Se o espírito fosse criado ao mesmo tempo em que o corpo, saber-se-ia donde ele veio, pois que se lhe conheceria o começo. Essa passagem consagra o princípio da preexistência da alma e, por conseguinte, o da pluralidade das existências.
Conclusão do estudo:
Cada nova encarnação constitui oportunidade de progresso que Deus, em Sua infinita misericórdia, concede aos espíritos a fim de que se aperfeiçoem e logrem alcançar o Seu Reino. Ainda poderemos colocar que, para algumas situações que passamos nessa vida, somente se acreditarmos na reencarnação é que encontraremos explicação satisfatória. Muitas das nossas e sofrimentos são provenientes de erros pretéritos, fato não ignorado na época de Jesus, já que supunham que uma pessoa poderia vir com certa deformidade em virtude do passado delituoso. Essa crença é perfeitamente percebida quando, ao verem um cego de nascença, os discípulos perguntaram ao Cristo: Quem foi que pecou, foi ele ou seus pais? Podemos ainda acrescentar que é pela reencarnação que todos nós, um dia, estaremos no reino dos Céus, uma vez que esse é o destino fatal de todos nós.
(Estudo dos itens de 10 a 17 na próxima postagem)

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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO 

CAPÍTULO IV – NINGUÉM PODERÁ VER O REINO DE DEUS SE NÃO NASCER DE NOVO
ITENS DE 1 A 4 – RESSURREIÇÃO E REENCARNAÇÃO

O título é uma frase dita por Jesus, constante de seu famoso diálogo com Nicodemos. E o objetivo deste estudo, cujo tema principal fala da reencarnação, pomo de discórdia de outras religiões em relação ao Espiritismo, é mostrar em que se baseia o seu princípio, sua presença na Bíblia, sua explicação pela Doutrina Espírita, e estabelecer sua diferença com a ressurreição.
Se nós pesquisarmos o histórico das civilizações, nós vamos encontrar a questão da crença na pluralidade das existências admitida na Antiguidade sob diferentes formas. A princípio, essas formas se mostraram um tanto obscuras, mas, com o passar do tempo, se mostraram de maneira compreensível, de conformidade com o entendimento de determinados grupos humanos.
O retorno sucessivo de um mesmo espírito à vida, em diferentes corpos e épocas, é uma das idéias mais antigas do planeta. Como por exemplo, temos o Código dos Vedas, o mais antigo código religioso que se tem notícia, onde se encontra o registro da existência dos Espíritos e de um ciclo de nascimentos e mortes, até que fosse atingida a sabedoria, ou seja, a total consciência da verdadeira essência divina.
Povos da Ásia, como os hindus; da África, como os egípcios; da Europa, como os gregos, todos acreditavam que o espírito do homem poderia voltar a viver na Terra em uma nova existência. Um papiro egípcio de 5.000 anos dá ideia disso: “Antes de nascer, a criança já viveu e a morte não é o fim. A vida é um evento que passa como o dia solar que renasce”. Outro papiro mais recente, denominado “Papiro Anana”, de 1.320 a.C., diz: “O homem retorna à vida várias vezes, mas não se recorda de suas pretéritas existências, exceto algumas vezes em sonho. No fim, todas essas vidas ser-lhe-ão reveladas”. 
Os celtas, povo pré-histórico que se espalhou por grande parte da Europa, possuíam grupos fechados de sacerdotes, especializados em comunicações com o Além, pregavam a transmigração das almas, a perfeição indefinida das almas humanas, numa série de existências sucessivas de um corpo para outro corpo, seja este do mesmo tipo de ser vivo ou não. Isto quer dizer que, a alma humana pode renascer em corpos animais ou espécies vegetais. Desse modo, um Espírito que hoje anima um corpo humano poderia retornar ao mundo sob forma de vegetal ou animal. Na Grécia antiga, Pitágoras, filósofo e matemático, fervoroso defensor da teoria das vidas sucessivas, também defendia esse pensamento. Por falsa interpretação, a transmigração das almas, tornou-se erroneamente a teoria da Metempsicose, que deve ser entendida como uma variante imprecisa e equivocada da reencarnação.
Na condição de princípio espiritual, o ser humano já estagiou nos reinos primários da Natureza, sempre em escala ascendente, até chegar à qualificação de Espírito em estado “hominal”, de onde não volta para habitar formas primitivas de vida. Se assim não fosse, verificar-se-ia um retrocesso evolutivo, impossibilidade estabelecida pelas leis naturais, de acordo com a Questão 612 de O Livro dos Espíritos.
Na Bíblia, a crença no renascimento da alma encontra-se indicada de maneira velada. Porém, ela está muito mais explicitada nos Evangelhos, como é fácil verificar nos ensinamentos de Jesus, embora de maneira não tão clara como a entendemos na atualidade. Então, diante do que foi exposto, já sabemos que a reencarnação não foi inventada pelo Espiritismo. Ao Espiritismo coube apenas estudá-la, sistematizá-la, para convertê-la num dos principais fundamentos de sua estrutura doutrinária.
A partir de agora, desenvolveremos o assunto de modo a associar o que foi ensinado pelo Cristo com a proposta da Doutrina Espírita. E nesses ensinamentos, nós vamos identificar, em cada um deles, a mensagem que o Mestre queria transmitir. Como as pessoas o viam, o que pensavam dele, inclusive a opinião dos próprios apóstolos, e observar todo o processo de desenvolvimento do princípio da reencarnação, e porque o Espiritismo não aceita a ressurreição.
Vamos começar explicando o que é ressurreição. Esta palavra significa aparecer novamente, passando a ideia de que um corpo que já está morto possa voltar a viver novamente. Esse princípio fazia parte dos dogmas judaicos. Mesmo assim, os judeus só tinham noções obscuras e incompletas a cerca da alma e da sua ligação com o corpo, mas sem saber explicar como isso acontecia. Apenas os Saduceus, seita judia, não acreditavam na ressurreição. Eles tinham a crença de que tudo acabava com a morte.
Nos dias atuais, nós já sabemos que a ressurreição é uma tese superada, e não encontra respaldo nos princípios da lógica mais elementar. A Ciência demonstra ser impossível voltar a viver um corpo que perdeu toda a vitalidade de seus órgãos. Então, como conceber que um corpo, já transformado pela decomposição, possa retornar à sua forma antiga, e de novo servir de instrumento ao Espírito?
No nosso estudo nós vamos encontrar a volta do Espírito à vida corpórea, em várias passagens dos Evangelhos, sob o nome de ressurreição, o princípio da reencarnação. Processo em que o Espírito retorna à matéria em outro corpo, formado para ele, e que não tem nada em comum com o antigo. E na esteira dessas passagens nós vamos observar que a ideia da reencarnação se repete de forma variada.
Comecemos citando o Evangelho de Mateus, capítulo XVI: 13 a 20, que nos traz a passagem em que Jesus certa feita, tendo vindo às cercanias de Cesaréia de Filipe, perguntou aos seus discípulos sobre o pensamento dos homens a seu respeito. “Quem dizem que eu sou?”. E eles responderam que, para uns, era ele João Batista, outros supunham-no Elias, outros, que Jeremias ou algum dos profetas. E Jesus indaga-lhes, ainda: “E para vós, quem sou?”. Pedro, tomando a palavra, como que tomado de uma força superior, fala: “Tu és o Cristo, o filho de Deus vivo”. E o Mestre exclama, então: “Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne nem o sangue que isso te revelaram, mas meu Pai, que está nos céus”. E eu te digo que és Pedro e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja.
Nesta passagem, as perguntas formuladas por Jesus sobre o que as pessoas pensavam dele nos permitem fazer importantes reflexões. O fato da maioria dos judeus atribuir-lhe uma origem espiritual anterior àquela sua vida na Terra, como podendo ser ele Elias, João, ou outro antigo profeta, demonstra a simpatia deles pela teoria da palingenesia (renascimento). E o Cristo não contestando esse pensamento dos hebreus confirmou a hipótese do renascimento. Ora, se essa teoria, sob o nome de ressurreição, que nos dias atuais chamamos de reencarnação, estivesse errada certamente ele (Jesus) a teria combatido, como fez em relação a várias outras.
Ao inquirir os discípulos para saber realmente como era visto por eles, Simão Pedro, de uma forma taxativa, dá uma resposta significativa: “És o Cristo, filho de Deus vivo”. Retrucando, Jesus lhe fez ver que o conhecimento dessa verdade lhe fora dado por uma revelação vinda do Pai que está nos céus. Daí nós podemos entender que a palavra do homem é resultado da carne e do sangue, mas a confissão de Pedro não saiu da carne ou sangue. De fato, como podia Pedro saber, para  afirmar com tanta segurança e firmeza, que Jesus era o enviado de Deus, se tal coisa não lhe havia sido revelada? E de que modo pudera ter tido essa revelação, a não ser por uma inspiração mediúnica? Logo, podemos concluir não só que Pedro era médium, como também que já ocorriam essas revelações mediúnicas.
Efetivamente, podemos concluir: Pedro era, dentre os apóstolos, o que possuía em maior extensão os dons da mediunidade. Era, pois, o que mais se prestava a servir de pedra fundamental para a construção da Igreja do Cristo: “E eu te digo que és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”.
Convém esclarecer que a palavra pedra na expressão do Mestre, não se refere ao homem Pedro, mas, sim, sobre a mediunidade de Simão Pedro. Daí, o discípulo ter entendido perfeitamente que Jesus era aquele que fora consagrado; aquele que fora escolhido para a missão de levar ao povo israelita a palavra de Deus. O representante legítimo de Deus na Terra. Este ato consolidou a Revelação Cristã. Depois, Simão Pedro continuou a jornada do Mestre, dando verdadeiro testemunho de seus ensinamentos, e continuando o seu messianismo.
“Nesse ínterim, Herodes, o Tetrarca, ouvira falar de tudo o que fazia Jesus e seu espírito se achava em suspenso – porque uns diziam que João Batista ressuscitara dentre os mortos; outros que aparecera Elias; e outros que um dos antigos profetas ressuscitara”. – Disse então Herodes: “Mandei cortar a cabeça de João Batista; quem é então esse de quem ouço dizer tão grandes coisas?”. E ardia por vê-lo. (Marcos, VI: 14 a 16; Lucas, IX: 7 a 9).
Nesta passagem, repete-se o mesmo caso citado na passagem anterior. Herodes, um romano, que comandava a região onde vivia Jesus, ficou perplexo, confuso diante do que ouvira falar sobre o Mestre nazareno: É Elias que voltou; é João Batista, que ressuscitou dentre os mortos; é um dos antigos profetas, que ressurgiu. Esse rumor público, com tantas informações diferentes, fez com que Herodes tivesse interesse em saber quem era aquele de quem ouvia tais coisas. A João Batista, mandei cortar-lhe a cabeça. Quem é este então?
Efetivamente, os hebreus não poderiam ter a ideia de que Jesus seria Elias, ou João Batista, ou algum dos antigos profetas, que voltara a viver na Terra, senão admitindo que alguma alma reencarnara naquele corpo. 
O processo das sucessivas existências se repete no fenômeno que se produziu no monte Tabor, na presença de Pedro, Tiago e João, que assistiram uma admirável manifestação espiritual. A presença, visível para os discípulos, de Moisés e Elias foi um meio de que se serviu Jesus para lhes aguçar a imaginação e de confirmar diante dos mesmos discípulos a sua elevação espiritual, de que Ele era o Cristo, o messias prometido. Moisés e Elias já haviam anunciado anteriormente a vinda de um messias, e a presença ali dos dois era, por assim dizer, anunciar, na presença dos apóstolos, a missão que ele, Jesus, desempenhava.
Pedro, Tiago e João foram escolhidos por serem os que apresentavam condições mais favoráveis a torná-los aptos, mediunicamente, à produção da manifestação espiritual que se ia dar. Caíram num estado de torpor, em que ficam os médiuns, quando se dá uma forte manifestação mediúnica.
A recomendação que Jesus fez aos discípulos para que a ninguém eles falassem do que tinham visto, até que Ele houvesse retornado ao plano espiritual. Foi em virtude de que, se os discípulos divulgassem imediatamente os fatos que presenciaram, com certeza apressaria a Sua perseguição e prejudicaria o seu messianismo, que ainda não havia chegado ao fim. E ainda havia muita coisa para ser feita.
 (Após a transfiguração) Seus discípulos então o interrogaram desta forma: “Por que dizem os escribas ser preciso que antes volte Elias?” – Jesus lhes respondeu: “É verdade que Elias há de vir e restabelecer todas as coisas: - mas, eu vos declaro que Elias já veio e eles não o reconheceram e o trataram como lhes aprouve. É assim que farão sofrer o filho do Homem”. – Então, seus discípulos compreenderam que fora de João Batista que Ele falara. (Mateus, XVII: 10 a 13; Marcos, IX: 11 a 13).
Chamando a atenção dos discípulos para o fato de haver Elias voltado à Terra na pessoa de João Batista, Jesus assentava as bases da Revelação Espírita, que Ele, mais tarde, no seu diálogo com Nicodemos, deixaria veladamente entrever e que, depois, os Espíritos superiores trariam aos homens, nos tempos marcados, explicando-lhes, em espírito e verdade, a lei natural e imutável da reencarnação, seu princípio fundamental, suas regras, fins e conseqüências.
Jesus ressuscitando Elias na pessoa de João Batista, não fez mais do que mostrar a lei natural e imutável do renascimento. 
Falando de João, disse Jesus a seus discípulos que os escribas e fariseus não haviam compreendido que aquele que pregava o arrependimento e o advento do Redentor era o Elias, cuja volta o Antigo Testamento prometera, e os discípulos logo compreenderam que o Mestre se referia a João Batista. E essa ideia tornou-se tão firme que eles não admitiam, absolutamente, mais nenhuma dúvida a respeito.
Essa passagem tem um fato contundente que não foi relatado porque não consta dos Evangelhos, mas que vale ser lembrado. No Velho Testamento, em I Reis, XVIII: 40, diz que Elias, que viveu cerca de 900 anos antes de Cristo, havia mandado, em sua época, decapitar os seguidores de falsos deuses. O interessante é que João, sua reencarnação, foi decapitado também.
 “Ao passar, viu Jesus um homem que era cego desde que nascera; e seus discípulos lhe fizeram esta pergunta: Mestre, foi pecado deste homem, ou dos que o puseram no mundo, que deu causa a que ele nascesse cego? Jesus lhes respondeu: Não é por pecado dele, nem dos que o puseram no mundo; mas para que nele se manifestem as obras do poder de Deus”. (João, IX: 1).
Nesta passagem os discípulos demonstram já ter pleno conhecimento sobre a reencarnação, pois, somente a crença nas múltiplas existências poderia justificar semelhante pergunta. Tudo indica que Jesus conversava sobre o assunto, na intimidade com eles, após as longas caminhadas, embora junto à multidão, incapaz de entender a tese do renascimento, fizesse silêncio, pois senão não haveria sentido para a pergunta que os discípulos fizeram: quem pecou, ele ou os pais? Jesus então explica que o Espírito que animava aquele corpo, este sim, havia pecado antes do nascimento. Quer dizer, tratava-se de uma provação para aquele ser, que foi cessada com a intervenção do Mestre.
Pelo que foi explicado, podemos afirmar que a lógica e o bom senso depõem inapelavelmente contra a idéia de que a vida começa no berço e termina no túmulo. Isto equivaleria dizer que Deus, na criação dos espíritos, estaria subordinado à vontade humana, pois os espíritos só poderiam ser criados quando um casal humano, numa relação sexual, iniciasse a formação embrionária de um novo ser.
A unicidade das existências é injusta e ilógica, pois não atende as sábias leis do progresso espiritual. É injusta porque grande parte dos erros humanos é resultante da ignorância, do desconhecimento das leis divinas, e numa só vida não é possível o resgate dos erros, principalmente quando o arrependimento sobrevém quase ao findar da existência. É preciso que se dê oportunidade ao arrependido, para que ele comprove sua sinceridade através das necessárias reparações. É ilógica porque não pode explicar as gritantes diferenças de aptidões das criaturas desde sua infância; as idéias inatas, independentemente da educação recebida, que existe nuns e não aparece em outros; os instintos precoces, bons ou maus, não obstante a natureza do meio onde nasceram.
O Ponto de partida para se entender a reencarnação é conhecer e entender a existência do espírito, que, quando encarnado é chamado de alma. O princípio espiritual, centelha divina, evolui desde o momento obscuro de sua criação, sem deter-se um só instante, conquistando com suas experiências os valores divinos do amor em todas as suas manifestações. Mas para isto precisa do mergulho na carne, onde vivencia experiências, aprende e interioriza estes valores, purificando-se para candidatar-se aos planos sublimes da existência.
A reencarnação é uma das leis da natureza. Só ela pode dar certeza ao homem de onde ele vem, para onde vai e porque está na Terra. Justificando todas as anomalias e injustiças aparentes da vida. E através dessa crença, a Justiça Divina começa a fazer sentido para nós, sem aquele ponto de vista de céu e inferno, que algumas religiões se baseiam.
A impossibilidade de mudar os nossos destinos, sujeitando-nos à situações extremas de sofrimento e de dor, são na realidade não um castigo de Deus, mas a demonstração de sua misericórdia, permitindo-nos, depois da experiência na carne, o desabrochar na luz do mundo maior. Pessoas existem que na Terra sofrem desde que nasceram, sem o direito à mudança de cenário. Vistos aos olhos de uma única existência poderiam ser considerados como frutos da injustiça de Deus, que como pai, não deu a eles as mesmas oportunidades e condições de sobrevivência que deu a outros. Entretanto, vistos com os olhos do espírito desvendamos as causas que os levam aos sofrimentos na matéria.
Na lei de justiça, os erros cometidos e os males infligidos ao próximo devem ser reparados durante novas existências, a fim de que, experimentando os mesmos sofrimentos, o Espírito possa resgatar seus débitos, passando a conquistar o direito de ser feliz.
A reencarnação é, pois, a grande ferramenta que o Criador utiliza para ensinar seus filhos o verdadeiro sentido do que seja amor ao próximo. A reencarnação é a volta do Espírito à vida corpórea, mas em outro corpo, especialmente formado para ele, e que nada tem de comum com o antigo.
Aceitando e concordando que somos em espírito criados à semelhança de Deus, e que em espírito estamos destinados à perfeição pela evolução gradativa, a doutrina da reencarnação é consoladora, pois faz com que o homem veja seu Criador, não como um Deus vingativo e parcial, mas como um pai amigo e justo.
Haveria grande injustiça, daquele que é o nosso Pai e Criador, se não nos desse chance de reparar as faltas cometidas, muitas vezes em momentos impensados, frutos da nossa cegueira e imperfeição espiritual. Não atuaria Deus com equidade nem de acordo com sua bondade, se condenasse para sempre uma criatura por seus erros, que a ignorância a fez cometer. Ao contrário, a reencarnação abre-nos uma porta para o arrependimento.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1 – Por que devemos rejeitar a ideia da unicidade das existências (uma só vida)?
R – Porque esta ideia é injusta, e vai contra a justiça, bondade e sabedoria de Deus.
2 – O que a reencarnação proporciona ao Espírito, a caminho da perfeição?
R – Faculta-lhe os meios de alcançá-la, concedendo-lhe em nova existência a oportunidade de realizar o que não pode fazer ou concluir numa primeira vez.
3 – Que ensinamento prático nos dá esse nosso estudo, para o nosso dia-a-dia?
R – Que a reencarnação é um ato da misericórdia divina em nosso benefício, pois nos possibilita reparar antigas faltas e avançar espiritualmente; portanto, cada dia, cada instante da nossa vida, deve ser ocasião de se fazer o bem, praticando a caridade e auxiliando o próximo, para que não percamos oportunidades de progredir.
CONCLUSÃO:
Então, com essas informações e esses esclarecimentos podemos entender que a reencarnação é uma lei natural, portanto divina, e sua finalidade é o melhoramento progressivo da Humanidade. Se nós precisamos atingir a perfeição, como Jesus nos orientou, e, ao desencarnarmos não tivermos produzido todos os efeitos de melhoria que deveríamos produzir, evidentemente que precisamos de mais tempo para produzi-los.
Sem a reencarnação nós não vamos compreender a nossa dor; nós não vamos entender as diferenças sociais; nós não vamos entender por que uma criança fica doente e por que uns são maus e outros bons. Dentro dessas questões de desigualdades, a justiça divina fica traduzida claramente através das vidas sucessivas. 
Com a ideia de que a vida começa no berço e termina no túmulo, ou seja, uma única existência, a justiça divina se mostra injusta, porque o criminoso não teria oportunidade de uma nova vida, para se corrigir.
Que possamos meditar a cerca do que estamos fazendo na nossa atual existência, e aproveitarmos a oportunidade reencarnatória, para encontrarmos a paz que tanto procuramos.
Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
 CAPÍTULO III – HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

ITENS de 13 a 19 – Mundos de expiações e de provas; Mundos regeneradores; Progressão dos mundos.

Como já estudamos, inicialmente, Jesus nos diz nessa passagem (Há muitas moradas na casa de meu Pai) para não nos preocuparmos, porque existem muitas moradas na casa do Pai, isto é, há lugar para todos nós, e não apenas para alguns eleitos ou escolhidos. Como também já estudamos, nós podemos analisar essa frase do Mestre em dois sentidos. No sentido espiritual e no sentido material. No sentido espiritual, o Cristo nos dá a ideia de várias moradas na erraticidade; cada uma apropriada ao grau de adiantamento do Espírito. Convém lembrar que todos nós fomos criados iguais, simples e ignorantes, e que alcançaremos o nosso objetivo final, a purificação de nossas almas. Em outras palavras, tomaremos o nosso lugar na morada do Pai. Temos o mesmo início e o mesmo fim; temos, também, as mesmas oportunidades de crescimento. Agora, a velocidade que iremos percorrer essa jornada depende de cada um. É através do nosso livre-arbítrio que escolhemos o caminho e a velocidade. Já no sentido material, que é o objeto do estudo, a Doutrina Espírita nos diz que existem muitos orbes povoados no universo, dentre eles a Terra, um mundo de expiações e de provas, onde habitamos. Kardec inicia o seu comentário dizendo: “Que vos direi dos mundos de expiações que já não saibais, pois, basta observeis o em que habitais”. É uma verdade! Deste nosso mundo conhecemos bastante, e, se aprofundarmos a nossa observação, vamos conhecer muito mais, bastando para isso olharmos à nossa volta. Nós vamos observar o grau de adiantamento do povo que aqui habita; vamos verificar que pela inteligência e conhecimento, o Espírito que vive neste planeta, já tem um certo grau de evolução, o que indica que a Terra não é um mundo primitivo que, como sabemos, é destinado à encarnação de Espíritos que acabaram de sair das mãos do Criador. Portanto, mais atrasado do que o nosso. As qualidades inatas que os Espíritos que vivem na Terra trazem consigo constituem a prova de que já viveram e realizaram certo progresso. Mas, também, os numerosos defeitos e vícios a que estão propensos constituem um índice de grande imperfeição moral, necessitando ainda de evolução, porque são Espíritos muito presos à matéria, e com baixo grau de evolução moral. Por isto, Deus os colocou num mundo ingrato, para expiarem aí as suas faltas, mediante penoso trabalho e misérias da vida, até que hajam merecido ascender a um planeta mais ditoso. Entretanto, convém esclarecer, nem todos os Espíritos que encarnam na Terra estão em situação de expiação. Santo Agostinho diz que as raças que nós chamamos de selvagens são formadas de Espíritos que apenas saíram da infância, e que na Terra se acham, por assim dizer, em curso de educação, para se desenvolverem pelo contato com Espíritos mais adiantados. Vêm depois as raças semicivilizadas, constituídas desses mesmos Espíritos, em escalada de progresso. São elas, de certo modo, raças indígenas da Terra, que se elevam pouco a pouco em longos períodos seculares, algumas das quais puderam chegar ao aperfeiçoamento intelectual dos povos mais esclarecido. Então, segundo Santo Agostinho, os que aqui expiam, na realidade, são alienígenas, isto é, não são naturais deste mundo, e, sim, estrangeiros, pois, já viveram noutros mundos, donde foram excluídos em consequência da sua obstinação no mal, e por se terem constituído em tais mundos, causa de perturbação para os bons. Tiveram de ser degredados, por algum tempo, para o meio de Espíritos mais atrasados, com a missão de fazer com que estes últimos avançassem, pois que levam consigo inteligências desenvolvidas, e o gérmen dos conhecimentos que adquiriram. Daí, essa disparidade de condições intelectuais, apesar de tratar-se de um mundo inferior, embora saibamos que em todos os planetas ocorram migrações de Espíritos, assim como nem todos são naturais das cidades onde vivem. Daí, concluirmos que, pelo simples fato de alguém ser intelectualmente evoluído, não significa que esteja imune ao sofrimento, porque não se desenvolveu também a moral. Vemos, portanto, que, excluindo os casos dos missionários que já estejam quites com a Terra, poderemos considerar os demais vanguardeiros da civilização como necessitados de eliminar as manchas morais que ainda os ligam à Terra.
Somente a Doutrina Espírita nos explica os sofrimentos em todas as faixas evolutivas, intelectualmente falando, no mundo em que vivemos. Há homens de cultura invejável e pobres selvagens, que nada sabem. Mas todos estão igualados no capítulo dos sofrimentos, em virtude de a Terra ser um planeta de expiações e de provas, cuja finalidade é servir de lugar de exílio para Espíritos rebeldes à lei de Deus. Esses Espíritos têm aqui que lutar, ao mesmo tempo, com a perversidade dos homens e com a inclemência da Natureza. Duplo e árduo trabalho que, simultaneamente, desenvolve as qualidades do coração e as da inteligência. É assim que Deus, em Sua bondade, faz que o próprio “castigo” redunde em proveito do progresso do Espírito.
Para concluir, fica então explicado porque a maioria dos habitantes da Terra é exótica: é porque ainda está em débito com a contabilidade divina.
Os mundos regeneradores servem de transição entre os mundos de expiação e de provas e os mundos felizes. Nos mundos regeneradores, já se pratica mais o bem do que na Terra. A alma penitente encontra neles a calma e o repouso, e acaba por depurar-se. Sem dúvida, em tais mundos, o homem ainda se acha sujeito às leis que regem a matéria; a Humanidade desses mundos também experimenta as sensações e desejos da Terra, mas liberta das paixões desordenadas, das quais somos escravos; isenta do orgulho, da inveja e do ódio. Nesses mundos, todavia, ainda não existe a felicidade perfeita, mas o princípio dessa felicidade. O homem é ainda de carne e, por isso, sujeito às vicissitudes de que libertos só se acham os seres completamente desmaterializados. Ainda tem que suportar provas. Porém, sem as angústias da expiação. Mas nesses mundos, embora o homem seja dotado de faculdades para praticar o bem, ele ainda falha, sucumbe.
A Terra, um dia, passará a mundo de regeneração. Esse processo não é rápido, nem instantâneo. Esse processo é lento e gradativo. Se nós prestarmos bem a atenção, ele já está em andamento. Devemos, pois, ficarmos em alerta para não perdermos a chance de continuar no nosso planeta. Para isto, devemos alcançar, pelo menos, aquele grau mínimo necessário.
Quanto a progressão dos mundos, o processo é da lei da Natureza, e a esta lei todos os seres da Criação, animados e inanimados, estão submetidos pela bondade de Deus. A própria destruição que aos homens parece o termo final de todas as coisas, é apenas um meio de se chegar, pela transformação, a um estado mais perfeito, visto que tudo morre para renascer, e nada sofre o aniquilamento.
Ao mesmo tempo que todos os seres vivos progridem moralmente, progridem materialmente os mundos em que eles habitam. Um mundo, em suas diferentes fases, oferece aos seus habitantes uma morada, cada vez mais agradável, à medida que eles próprios avancem na senda do progresso. Nada na Natureza permanece estacionário. Segundo a lei de progresso, este nosso mundo esteve materialmente e moralmente num estágio inferior ao que se encontra hoje, e alcançará um grau mais elevado, onde os homens serão ditosos, porque nele imperará a lei de Deus.
Muita Paz!
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 CAPÍTULO III – HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

ITENS 8 a 12 – Mundos inferiores e Mundos superiores

O tópico do nosso estudo de hoje consiste, segundo Kardec, no resumo do ensinamento de todos os Espíritos superiores. A qualificação de mundos inferiores e mundos superiores nada tem de absoluta. É, antes, muito relativa. Tal mundo é inferior ou superior com referência aos que lhe estão acima ou abaixo, na escala progressiva.
O espaço infinito oferece moradas a Espíritos encarnados e desencarnados, e essas muitas moradas são diferentes; elas são proporcionais ao adiantamento de seus habitantes. De acordo com a nossa participação, nós vamos determinando a nossa condição nessa morada, conforme se ache mais ou menos depurado o nosso Espírito, em seu estágio evolutivo. Quanto mais primitivo o princípio espiritual, mais grosseiro é o mundo que devemos habitar, a fim de experimentar o desabrochar de conteúdos que nele existem, e que vão se desenvolvendo conforme fatores e circunstâncias.
A Terra pertence à categoria dos mundos de expiações e provas, e é tida como exemplo do estado de mundo inferior, tendo em vista as condições de habitabilidade, e para onde são recambiados os espíritos renitentes. Aí, esses espíritos vão se depurando dos instintos grosseiros, aos poucos, atendendo à outras estâncias purgatoriais menos severas, compatível com o programa de desenvolvimento espiritual; e, algum dia, eles alcançarão aqueles que são felizes, onde não mais existem dores. Inferior a esses mundos e, consequentemente à Terra, só existem os chamados mundos primitivos, onde ocorrem as primeiras encarnações da alma humana. Nos mundos inferiores, a existência é quase que totalmente material. Reinam as paixões, que anulam a nossa vida moral. E, à medida que esta se desenvolve, vão diminuindo as influências materiais. Entre nós, se encontram os povos selvagens, como remanescentes dos mundos primitivos, revestidos da forma humana. São, de certo modo, rudimentares, sem nenhuma beleza; seus instintos não são moderados; neles, não há qualquer sentimento de delicadeza ou de benevolência, nem noção de justiça; a força bruta é sua lei única. Apesar do aspecto rudimentar de que se revestem, Deus não os abandona. No fundo tenebroso dessas inteligências, encontra-se latente a vaga intuição de um ser supremo mais ou menos desenvolvida. Esse instinto é suficiente para que uns se tornem superiores aos outros, preparando-se para a eclosão de uma vida plena, porque eles não são criaturas degradadas, mas crianças que crescem.
Entre os degraus inferiores e os mais elevados, há inúmeros degraus. E entre os Espíritos puros, desmaterializados e resplandecentes de glória, é difícil reconhecer os que animaram os seres primitivos.
Nos mundos venturosos, os que atingiram a um grau superior de evolução, as condições da vida moral e material são muito diferentes das que encontramos na Terra. A forma corpórea é sempre, como por toda parte, a humana, mas embelezada, aperfeiçoada e, sobretudo, purificada. O corpo nada tem da materialidade terrestre e não está, por isso mesmo, sujeito às necessidades, nem às doenças ou deteriorações decorrentes do predomínio da matéria. Os sentidos mais sutis tem percepções que a grosseria dos nossos órgãos sufoca. A leveza específica do corpo permite locomoção rápida e fácil; em vez de arrastar-se penosamente pelo solo, desliza pela superfície, ou plana na atmosfera, sem qualquer outro esforço, além do da vontade. Os homens conservam os traços de suas existências passadas, e aparecem aos amigos em suas formas conhecidas, porém, irradiando uma luz divina. Em vez de rostos pálidos, arruinados pelo sofrimento e paixões, a inteligência e a vida cintilam com o brilho que os pintores figuraram a auréola dos santos.
Nesses mundos evoluídos, a pouca resistência que a matéria oferece aos Espíritos já bastante adiantados, facilita o desenvolvimento dos corpos e abrevia, ou quase anula, o período de infância. Isenta de cuidados e angústias, a vida é proporcionalmente muito mais longa que a da Terra. Em princípio, a longevidade é proporcional ao grau de adiantamento dos mundos.
A respeito da morte, os Espíritos superiores informam que ela não tem nenhum dos horrores da decomposição; e longe de causar pavor, é considerada uma transformação feliz, pois, não existe dúvida quanto ao futuro. Durante a vida, não estando a alma encerrada numa matéria completa, irradia e goza de uma lucidez que a deixa num estado quase permanente de emancipação, permitindo a livre transmissão do pensamento.
Nesses mundos venturosos, as relações de povo para povo são sempre amistosas; jamais são perturbadas pela ambição, da parte de qualquer deles, de escravizar o seu vizinho. Não há senhores nem escravos; nem privilegiados pelo nascimento; só a superioridade moral e intelectual determina diferenças entre as condições e dá a supremacia. A autoridade merece o respeito de todos, porque decorre unicamente do mérito, e se exerce sempre com justiça. Nesse ponto, Kardec ressalta um ensinamento: “O homem não procura elevar-se sobre o seu semelhante, mas acima de si mesmo, aperfeiçoando-se”. Esse ensinamento vale não apenas para aqueles habitantes dos mundos felizes, mas para nós próprios, os dos demais mundos, particularmente os mais atrasados, como o nosso. Seu objetivo é atingir a classe dos Espíritos puros, e esse desejo incessante não constitui um tormento, mas uma nobre ambição, que o faz estudar com ardor para os igualar. Lá, todos os sentimentos ternos e elevados da natureza humana, apresentam-se engrandecidos e purificados; os ódios, as mesquinharias do ciúme, as baixas cobiças da inveja são ali desconhecidos; um sentimento de amor e de fraternidade une todos os homens; os mais fortes ajudam os mais fracos. Suas posses são correspondentes as possibilidades de aquisição de suas inteligências; mas ninguém sofre a falta do necessário, uma vez que ninguém se acha em expiação. Numa palavra: o mal, nesses mundos, não existe.
No nosso mundo, precisamos do mal para valorizarmos o bem; da noite, para valorizarmos o dia, para apreciarmos a luz; da doença, para valorizarmos a saúde. Nos outros mundos não há necessidade desses contrastes em que se debatem o espírito humano. A eterna luz, a eterna beleza e a eterna serenidade da alma proporcionam uma alegria eterna, livre de ser perturbada pelas angústias da vida material, ou pelo contato dos maus, que lá não têm acesso.
Esses mundos afortunados, entretanto, não são mundos privilegiados, porque Deus não usa de parcialidade para nenhum de seus filhos; a todos concede os mesmos direitos e as mesmas facilidades, para chegarem a tais mundos. Fez com que todos partissem do mesmo ponto, e não dota a uns mais que a outros; os primeiros lugares são acessíveis a todos, cabendo conquista-los pelo trabalho, e atingi-los o mais cedo possível, ou abandonar-se durante séculos e séculos no meio do lodaçal da Humanidade.
A Doutrina Espírita nos apresenta conceitos de reencarnação, de progresso e de pluralidade dos mundos habitados, esclarecendo ainda que cada planeta tem a sua respectiva humanidade, e em determinado grau evolutivo; leis naturais que o Espiritismo explica sem dificuldade, e nos dá alternativas para a felicidade.
Muita Paz!
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ITENS 6 E 7 – DESTINAÇÃO DA TERRA E CAUSA DAS MISÉRIAS HUMANAS

Numa apreciação mais detalhada dos itens que vamos estudar, entenderemos realmente qual é o papel do nosso planeta no Universo, ou seja, qual a sua destinação. Vamos conhecer também as causas primárias das misérias humanas e por que existe a diversificação dos Espíritos no nosso orbe, isto é, Espíritos bons convivendo com Espíritos rebeldes, difíceis, que ainda estão endurecidos, cometendo atrocidades.
Texto de Apoio:
6 – Muitos se admiram de que na Terra haja tanta maldade e tantas paixões grosseiras, tantas misérias e enfermidades de toda natureza, e daí concluem que a espécie humana bem triste coisa é. Provém esse juízo do acanhado ponto de vista em que se colocam os que o emitem e que lhes dá uma falsa ideia do conjunto. Deve-se considerar que na Terra não está a Humanidade toda, mas apenas uma pequena fração da Humanidade.
A Terra, nossa arena de experiências e lutas, já foi mundo transitório, aquele que serve de habitação temporária para os Espíritos errantes (Questões 234, 235 e 236 do Livro dos Espíritos), durante a sua formação. Hoje, ela é classificada como um mundo atrasado, que se destina a expiações e provas, prestando-se a encarnações e reencarnações de Espíritos imperfeitos ainda pouco amadurecidos e necessitados de ajuste, donde o egoísmo e a ignorância, o vício e a violência, tão presentes em nós, representa para bilhões de Espíritos que nela gravitam a oportunidade de regeneração e crescimento no caminho da luz.
As pessoas que não conhecem a Doutrina Espírita encaram tudo isso sob um ponto de vista material, do “aqui e agora”, ou seja, de uma única existência, e se chocam diante da exposição de tantas misérias. Daí Kardec iniciar o primeiro parágrafo de seu comentário dizendo que muitos se admiram de haver na Terra tanta maldade e tantas paixões inferiores. Claro que esse julgamento feito por essas pessoas decorre de uma visão estreita, acanhada, que elas têm, e que dá uma falsa ideia do conjunto. Temos que considerar que toda a Humanidade não se encontra na Terra, mas apenas uma pequena fração dela, conforme a comparação que Kardec faz: a população da Terra diante da população total do Universo seria bem menos que a de um lugarejo em relação a de um grande império.
Então, pelo comentário de Kardec, nós temos a certeza de que essas pessoas que se admiram haver sobre a Terra tantas paixões, que arrastam as criaturas; que ficam alarmadas por haver tantas dificuldades, e de todos os gêneros; tantas adversidades, duvidando até que a Terra seja um mundo cristão, onde não se possa ser feliz, estão totalmente equivocadas.
As expiações e provas expõem o homem a tantos sofrimentos, e destinam-se a dar oportunidades de fazer e refazer experiências, através de outras lições aprendidas. O homem foi criado, em espírito, à semelhança de Deus e, em espírito, está destinado à perfeição relativa, pela evolução gradativa do entendimento e da vivência do amor. Aqui na Terra, o Espírito encarnado evolui, conquistando com suas experiências valores divinos em todas as suas manifestações. Interioriza esses valores purificando-se, para candidatar-se aos planos sublimes da existência. Portanto, essas situações extremas de sofrimento e de dor são na realidade não um castigo, mas a demonstração da misericórdia divina, permitindo ao homem desabrochar na luz do mundo maior, depois da experiência na matéria. Esta é a destinação da Terra. Portanto, a condição material e moral da Humanidade terrena nada tem de estranha, se levarmos em conta a destinação da Terra e a natureza de sua população.
 Texto de apoio:
7 – Faria dos habitantes de uma grande cidade falsíssima ideia quem os julgasse pela população dos seus quarteirões mais ínfimos e sórdidos. Num hospital, ninguém vê senão doentes e estropiados; numa penitenciária, veem-se reunidas todas as torpezas, todos os vícios; nas regiões insalubres, os habitantes, em sua maioria,, são pálidos, franzinos e enfermiços. Pois bem: figure-se a Terra como um subúrbio, um hospital, uma penitenciária, um sítio malsão, e ela é simultaneamente tudo isso, e compreender-se-á por que as aflições sobrelevam aos gozos, porquanto não se mandam para o hospital os que se acham com saúde, nem para as casas de correção os que nenhum mal praticaram; nem os hospitais e as casas de correção se podem ter por lugares de deleite.
Ora, assim como, numa cidade, a população não se encontra toda nos hospitais ou nas prisões, também na Terra não está a Humanidade inteira. E, do mesmo modo que dos hospitais saem os que se curaram e da prisão os que cumpriram suas penas, o homem deixa a Terra, quando está curado de suas enfermidades morais.
Aqui, encontramos Kardec dando uma explicação clara que nos ajuda a entender os momento que nós estamos passando certas adversidades, que estão em nosso caminho. Aqui, a Terra é representada alegoricamente por um hospital, uma penitenciária, um sítio insalubre e doentio. Ela é simultaneamente tudo isso. Daí, nós compreendermos por que as aflições sobressaem sobre os gozos. Então, identificamos, em realidade, que somos esses espíritos rebeldes; somos esses espíritos doentes. Pois, ainda não conseguimos viver o bem. Então, fica uma indagação: como sair dessa situação? Que caminhos nós devemos percorrer, para melhorar o nosso comportamento? As expiações e provas expõem o homem a tantos sofrimentos, e destinam-se a dar oportunidades de fazer e refazer experiências, através de outras lições aprendidas, Existem os que aqui na Terra sofrem desde que nasceram, sem o direito à mudança de cenários. Estes casos vistos aos olhos de uma pessoa materialista poderiam ser considerados como frutos da injustiça de Deus que, como pai, não deu a essas criaturas as mesmas oportunidades e condições de sobrevivência que deu a outras, mas, na realidade, é a atuação de Deus, dando novas oportunidades à criatura de aquisição de luz. Será que o Criador nos colocou aqui neste mundo apenas para o sofrimento? Claro que não! O Pai nos criou para a felicidade, para o progresso, para as boas realizações. O sofrimento é algo que é temporário, e decorre exclusivamente da nossa resistência à prática do bem. Enquanto nós nos mantivermos renitentes, recalcitrantes, a iniciarmos a prática do bem, achando que é muito melhor nós nos isolarmos no nosso orgulho e na nossa vaidade; enquanto nós nos colocarmos nessa postura, resistentes à prática da lei de amor, será o tempo de duração do nosso sofrimento. É preciso refletir a respeito disso. A proposta é praticar o bem; é praticar o amor; é olhar o nosso próximo como irmão.
Entendendo que todos nós erramos; entendendo que estamos numa escola, e que temos exercícios para serem feitos, mas nem sempre fazemos esses exercícios de maneira correta, o importante é estarmos sempre perseverando em corrigi-los, para aprendermos.
Questões para nossa reflexão:
1 – Por que são marcantes, ainda, as misérias humanas?
R – É porque nós não aprendemos ainda que somos todos irmãos pela lei de Deus, tão suavemente expressa no Evangelho de Jesus; e, que, ainda existe em nós muito egoísmo, orgulho e desamor. A situação material e moral da Humanidade terrestre é devido, principalmente, à natureza daqueles que a habitam.
2 – Como fazer para apressar a cura de nossas enfermidades morais?
R – Combatendo nossos defeitos, incentivando as virtudes e buscando nossa reforma íntima à luz do Evangelho do Cristo.
Conclusão do estudo:
A Terra é uma escola de fraternidade e de reparação. Nela habitam Espíritos ainda endividados com a Providência Divina e que aqui encontram meios para se corrigir, através do sofrimento regenerador e do esforço em dominar suas más tendências, causas das misérias humanas.
Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO III – HÁ MUITAS MORADAS NA CASA DE MEU PAI

ITENS DE 1 A 5 – DIFERENTES ESTADOS DA ALMA NA ERRATICIDADE
E DIFERENTES CATEGORIAS DE MUNDOS HABITADOS

Estudar o capítulo “Há muitas moradas na casa de meu Pai” é de grande importância para nós. E a importância desse tema está no sentido de ampliarmos os nossos conceitos a cerca dessas moradas na casa do Pai. E com a ampliação desses conceitos, nós vamos conseguir uma visão menos estreita de todo o processo de crescimento dos Espíritos e da diversidade deles, bem como de várias situações que serão abordadas no desdobramento do capítulo.
TEXTO DE APOIO: item 1 – Não se turbe o vosso coração. – Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar. – Depois que me tenha ido e que vos houver preparado o lugar, voltarei e vos retirarei para mim, a fim de que onde eu estiver, também vós aí estejais. (S.João, XIV: 1 a 3).
A partir desta informação do Evangelho de João, nós podemos começar a entender o amor de Jesus por nós. A orientação do Mestre, quando solicita para que não turbemos o nosso coração, é para que não nos preocupemos, pois existe lugar para todos na casa do Pai. O reino de Deus é de todos, e não de apenas alguns eleitos.
Aparentemente, esta afirmativa do Cristo pode dar a entender que, para estar junto Dele na casa do Pai, bastará aguardar o chamado, sem que para isto faça alguma coisa, sem que para isto exista o mérito adequado. Entretanto, não é assim que o mecanismo da justiça divina funciona. Esse privilégio de estar junto de Jesus será conseguido a partir do momento em que, por mérito da ação, proporcionarmos as condições para que ele ocorra, ou seja, começarmos a caminhar na direção da porta estreita, em busca da evolução espiritual. E o caminho para essa evolução passa forçosamente pelo fazer e refazer bem experiências, entre mergulhos na carne e saídas no plano espiritual. Mas o que é a evolução espiritual? É o adiantamento do nosso grau de consciência, que ocorre pela limpeza dos nossos sentimentos e pensamentos, que faz com que possamos gradativamente nos libertar de nós mesmos, do homem velho que ainda abrigamos dentro de nós, e dirigirmos nossa atenção para os nossos semelhantes. Só após essa evolução, todos terão direito de permanecer ao lodo do Mestre. Pois, todos nós chegaremos à categoria de Espíritos puros.  Portanto, todos nós somos candidatos à espiritualidade superior. Agora, o tempo de duração dessa caminhada depende de cada um.
Durante o percurso iremos nos deparar com obstáculos, que nos permitirão conhecer o lado bom e o lado ruim das coisas e, que, obrigatoriamente, deverão ser transpostos. Devido a isto, alguns chegarão mais rápidos e outros farão a jornada lentamente. Cabe, portanto, unicamente a nós, a escolha do caminho e a velocidade para percorrê-lo.
TEXTO DE APOIO: item 2 – A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito e oferecem, aos Espíritos que neles encarnam, moradas correspondentes ao adiantamento dos mesmos Espíritos.
“Há muitas moradas na casa do Pai”. Podemos entender que Jesus ao proferir esta frase se referia aos vários estágios sucessivos das encarnações, que conhecia de sua própria experiência evolutiva, até atingir o estágio a que chegou por ocasião da sua vinda à Terra, para anunciar a Boa Nova.
Quando, à noite, nós olhamos para o céu e vislumbramos uma quantidade de estrelas, temos que considerar, em princípio, que seria muito estranho houvesse Deus criado mundos sem finalidade, apenas para nosso deslumbramento. Com certeza, Deus não faria nada de inútil.
No século dezenove, quando foi codificada a Doutrina Espírita, não se admitia a possibilidade de vida extraterrestre. Situava-se a Terra como o centro do Universo; astros e estrelas serviam como enfeites num lampadário celeste.
Quando a doutrina fala da existência de vida em todos os mundos que giram no espaço, não se reporta à vida biológica apenas, mas, também, à vida espiritual.
Uma observação importante envolve um mistério que intriga os cientistas há décadas. A soma das estrelas e galáxias detectáveis por telescópio corresponde somente a cinco por cento de toda massa que deveria haver para explicar alguns efeitos gravitacionais observados, como, por exemplo, o ritmo de rotação de galáxias. À massa faltante os cientistas deram o nome de matéria escura, invisível, e ninguém até hoje sabe o que ela é de fato. Então, cabe uma pergunta: não estaria nessa massa desconhecida a dimensão espiritual?
Partindo dessa premissa, nós podemos imaginar que existe uma gama imensa dessas “Moradas”, que é o Universo, e concluir que são locais apropriados para cada grau de evolução.
Para efeito de nosso estudo, vamos conceituar de duas maneiras essas “Moradas”: uma, os mundos que formam o Universo, onde outras humanidades realizam a caminhada evolutiva; a outra, as diversas zonas espirituais superiores ou inferiores, além das fronteiras do mundo físico.
O ciclo natural do corpo humano, com o tempo, determina a morte biológica. Na verdade, a morte é apenas do corpo. O Espírito não morre. Continua a viver normalmente, com suas conquistas morais e intelectuais, bem como com seus erros e acertos, com suas carências, angústias e sentimentos. Já que o Espírito não morre, apenas abandona o corpo físico, para que lugar vai, e com quem fica? Pelo fato de que ele não está mais ligado ao corpo, vai para a erraticidade aguardar nova encarnação terrena, mesmo que já esteja bastante elevado. Só os Espíritos puros não precisam mais reencarnar. Por isso, não ficam juntos aos grupos de Espíritos que estão se aperfeiçoando. Eles já caminharam o suficiente para fazer o aprendizado necessário; já praticam verdadeiramente os ensinamentos de Jesus; já conquistaram toda sabedoria. Só em casos excepcionais reencarnam, para trazer ao homem algum ensinamento necessário.
Todos os Espíritos que ainda não se fixaram em plano superior são chamados de errantes, por estarem na erraticidade e não por terem errado em seu trânsito pela Terra.
Diferentes estágios são encontrados na erraticidade, como informam os mentores espirituais. São ambientes carregados dos mais diversos sentimentos: ódio, vingança, orgulho, vaidade, encontrados em Espíritos rebeldes às leis divinas; e amor, bondade, caridade, naqueles Espíritos dedicados às coisas do bem. E o Espírito recém-chegado é atraído para junto daqueles que estão vibrando na sua frequência de sentimentos, interesses e desejos. É tudo uma questão de sintonia. Nada mais que simples reflexo das próprias obras realizadas na vida terrena.
Portanto, cada morada na erraticidade tem condições de aprendizado próprias; oportunidades apropriadas ao grau de evolução do grupo de Espíritos. Sabe-se ainda pelos ensinos dos Espíritos, que a evolução dos Espíritos não está subordinada exclusivamente à vida material. Ela ocorre nos dois planos: físico e espiritual.
Os Espíritos ainda muito vinculados às sensações e problemas da vida física, não se afastam da esfera onde viveram. Em faixas vibratórias mais ligadas à Terra, estacionam temporariamente, uma vez que o peso perispiritual apresenta certa densidade, não lhes permitindo grandes ascensões. Outros, de acordo com seu desprendimento das coisas terrenas, habitam zonas mais elevadas da espiritualidade. Quanto maior for o desapego às coisas materiais, mais se elevam.
A título de curiosidade, o livro “O céu e o Inferno”, que faz parte do Pentateuco kardequiano, registra várias mensagens, revelando situações de Espíritos em diferentes condições e detalhes extremamente interessantes, para nós que ainda permanecemos no plano material.
TEXTO DE APOIO: item 3 – Do ensino dado pelos Espíritos resulta que muito diferentes umas das outras são as condições dos mundos, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade dos seus habitantes. Entre eles há os em que estes últimos são ainda inferiores aos da Terra, física e moralmente; outros, da mesma categoria que o nosso; e outros que lhe são mais ou menos superiores a todos os respeitos.
Então, quanto ao grau de adiantamento ou de inferioridade de seus habitantes, existem diferentes categorias de mundos habitados. No que diz respeito à forma física e à moral, há no Universo mundos inferiores à Terra. São os mundos primitivos, onde as criaturas estão fazendo a sua primeira existência, após estagiarem nos reinos inferiores da Natureza. Estão ainda muito na base do instinto, e esse instinto não as faz possuir qualquer sentimento de delicadeza, de benevolência, e nem as noções do certo e do errado. São revestidas de uma forma humana, mas não têm qualquer tipo de beleza. Nesses mundos impera a força bruta entre os seus habitantes. É a única lei existente. Porém, essas criaturas não estão condenadas a viver assim eternamente, porque a Doutrina Espírita nos dá notícia da lei de progresso. O ensino dado pelos Espíritos nos explica tudo isso.
Hoje, nós já conhecemos o tipo de planeta que habitamos. Sabemos que é um mundo ainda inferior, mas não é mais um mundo primitivo. A superioridade da inteligência em muitos de seus habitantes nos afirma isso. As qualidades inatas que temos são a prova de que já realizamos um determinado progresso. Ainda conservamos vícios, o que evidencia a nossa limitação de praticar a lei divina.
Devemos entender que não estamos aqui na Terra por acaso ou por castigo de Deus, não. Nós estamos aqui aprendendo, melhorando a nossa parte moral. Estamos também expiando as nossas faltas, porque temos débitos do passado. Daí, os Espíritos denominarem o nosso planeta de “expiação e provas”.
Só depois, quando tivermos agregado valores suficientes; quando tivermos quitado os nossos débitos; quando tivermos reparado os nossos erros; enfim, quando tivermos a condição do merecimento, nós iremos habitar planetas mais ditosos.
Nos mundos de expiação e provas o mal predomina. Os Espíritos reencarnam nele para serem testados. Convém lembrar, que nem todos os que reencarnam na Terra estão em expiação, conforme eu disse no início do nosso estudo. Muitos vêm para a missão de ensinar. Podemos destacar Madre Tereza de Calcutá, Francisco de Assis, Ghandi, Chico Xavier, dentre outros nomes que serviram de exemplo.
TEXTO DE APOIO:
4 – Nos mundos intermédios, misturam-se o bem e o mal, predominando um ou outro, segundo o grau de adiantamento da maioria dos que os habitam. Embora se não possa fazer, dos diversos mundos, uma classificação absoluta, pode-se contudo, em virtude do estado em que se acham e da destinação que trazem, tomando por base os matizes mais salientes, dividi-los, de modo geral, como segue: mundos primitivos, destinados às primeiras encarnações da alma humana; mundos de expiação e provas, onde domina o mal; mundos de regeneração, nos quais as almas que ainda têm o que expiar haurem novas forças, repousando das fadigas da luta; mundos ditosos, onde o bem sobrepuja o mal; mundos celestes ou divinos, habitações de Espíritos depurados, onde exclusivamente reina o bem.   
Nós já falamos dos mundos primitivos, que são destinados aos Espíritos que acabaram de sair da fase inicial, e estão ingressando na fase humana. Falamos dos mundos de expiação e provas, que são habitados por Espíritos rebeldes à lei de Deus. Agora vamos falar dos mundos regeneradores, que servem de transição entre os mundos de expiação e provas e os mundos felizes, ou ditosos.
Nesses mundos, o bem começa a superar o mal. Seus habitantes ainda estão sujeitos às leis que regem a matéria, ou seja, ainda existem sensações e desejos. Porém, estão libertos das paixões desordenadas. Não há mais orgulho nem inveja. O amor entre os seres predomina, e a igualdade preside a relação entre eles. Nesses mundos a igualdade, a liberdade e a fraternidade, já são norma de vida. A justiça deles é pautada na justiça de Deus e não na justiça dos homens. A lei mosaica aplicava o “olho por olho, dente por dente”. Mas Jesus nos ensinou diferente. Que devemos fazer ao próximo o que desejamos que o próximo nos faça. E nos mundos de regeneração as criaturas agem dessa forma: se eu quero que me tratem bem, eu vou tratar bem o meu próximo; se eu preciso de ajuda na hora em que estou passando por uma situação difícil, eu também vou ajudar a aquele que está vivendo um momento difícil. Mas, ainda não existe nele a felicidade plena. O ser ainda de carne continua sujeito à vicissitudes. Suportam provas sem as angústias pungentes da expiação. Mas já vislumbra a aurora da felicidade. Libertos totalmente só se acham os seres completamente desmaterializados.
Comparados à Terra, esses mundos são bastante felizes. Representam a calma após a tempestade. E os Espíritos que saem desses mundos regeneradores pairam acima de todos os horizontes, porque acabaram de se depurar. Não carregam mais os sentidos materiais e grosseiros. Somente os sentidos de um perispírito puro, limpo, a aspirar emanações divinas, nos aromas de amor e caridade. Nesses mundos celestes ou divinos reina exclusivamente o bem.
Da mesma forma que a humanidade evolui, os mundos também evoluem. Eles passam pelos mesmos estágios de evolução. A Terra também um dia evoluirá para um mundo de regeneração. É um processo lento e gradativo, quase não sendo notado. E, nós, que estamos nesse mundo de expiação e provas? Para que possamos acompanhar a evolução do planeta temos que criar um mundo regenerador dentro de nós. Temos que fazer uma reflexão para sabermos como está a nossa conduta individual, perante a lei divina; como está a nossa morada da consciência construída dentro de nós. Está bem cuidada? Ou está abandonada? Permitindo que seja coberta e sufocada por heras entrelaçadas, que representam os hábitos viciosos do passado, fazendo com que caminhe para a ruína.
Temos que decidir o que queremos realmente. Se a nossa vontade for modificar a nossa conduta, devemos retirar de nossos pensamentos qualquer ideia das sombras que, sendo traiçoeira, proporciona desequilíbrios diversos nos nossos atos. E fazer a reconstrução, a remodelação da nossa morada interior, estudando a Doutrina Espírita e, acima de tudo, com trabalho no bem. Todos os ensinamentos que estamos estudando nesse Evangelho são materiais de construção para a morada da regeneração. Não devemos deixar de aproveitar os momentos destinados ao trabalho de progresso.
Jamais devemos perder a esperança, porque a evolução do homem tem rumo certo, mesmo que ele possa demorar-se mais em alguns degraus de sua ascensão espiritual. Teremos sempre novas oportunidades de aprender.
Aquele que já é capaz de dedicar a sua atenção ao próximo habilita-se a caminhar mais rapidamente, na direção da pureza espiritual.
TEXTO DE APOIO:
5 – Os Espíritos que encarnam em um mundo não se acham a ele presos indefinidamente, nem nele atravessam todas as fases do progresso que lhes cumpre realizar, para atingir a perfeição.
O que Kardec está dizendo aqui é que um Espírito quando atinge um grau de adiantamento tal, ele pode reencarnar num outro mundo mais evoluído. Da mesma forma, se o mundo evoluir e esse Espírito não atingir o grau mínimo dessa evolução, ele irá reencarnar em um outro mundo que esteja de acordo com o seu grau evolutivo. Esse banimento é uma forma de fazer com que esse Espírito reflita e comece o processo de evolução novamente. A lei da Natureza é de progresso. Todos nós. Todos os seres da criação de Deus, animados e inanimados, estão sujeitos a essa lei: o reino mineral, o reino vegetal, o reino animal, o reino hominal e, por fim, o reino angelical. Tudo isso obedece a um processo de evolução. Progridem os seres humanos moralmente, e progridem materialmente os mundos em que os seres habitam.
CONCLUSÃO:
Finalizando o nosso estudo, é oportuno lembrar que a casa do Pai é o Universo. E as diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito, oferecendo aos Espíritos desencarnados estações apropriadas ao seu adiantamento.
Jesus nos prepara o lugar, mas só teremos acesso a ele quando libertados de nossas imperfeições e, purificados pelo amor, nos reconhecermos com direito à morada celeste.
Muita paz!
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 O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO II – MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO

ITENS DE 5 A 8 – O PONTO DE VISTA E UMA REALEZA TERRESTRE

TEXTO DE APOIO:
            A ideia clara e precisa que se faça da vida futura proporciona inabalável fé no porvir, fé que acarreta enormes consequências sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista sob o qual encaram eles a vida terrena. Para quem se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é indefinida, a vida corpórea se torna simples passagem, breve estada num país ingrato. As vicissitudes e tribulações (aflições; amarguras) dessa vida não passam de incidentes que ele suporta com paciência, por sabê-las de curta duração, devendo seguir-se-lhes um estado mais ditoso. Por isso, a morte nada tem de aterrador; deixa de ser a porta que se abre para o nada e torna-se a porta que dá para a libertação, pela qual entra o exilado (expatriado) numa mansão de Bem-aventurança e de paz.. Sabendo que é temporária e não definitiva a sua estada no lugar onde se encontra, menos atenção presta às preocupações da vida, resultando-lhe daí uma calma de espírito que tira muito do seu amargor. (item 5).
            Se toda a gente pensasse dessa maneira, dir-se-ia, tudo na Terra periclitaria, porquanto ninguém mais se iria ocupar com as coisas terrenas.
            ...Deus, conseguintemente, não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma. Contra tais abusos é que se premunem os que a si próprios aplicam estas palavras de Jesus: Meu reino não é deste mundo.(item 6).
            O Espiritismo dilata o pensamento e lhe rasga horizontes novos. Em vez dessa visão, acanhada e mesquinha, que o concentra na vida atual, que faz do instante que vivemos na Terra único e frágil eixo do porvir eterno, ele, o Espiritismo, mostra que essa vida não passa de um elo no harmonioso e magnífico conjunto da obra do Criador. (item 7).
            Quem melhor do que eu pode compreender a verdade destas palavras de Nosso Senhor: “O meu reino não é deste mundo”? O orgulho me perdeu na Terra. Quem, pois, compreenderia o nenhum valor dos reinos da Terra, se eu o não compreendia? Que trouxe eu comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada. (item 8, Instrução do Espírito que se identificou como Uma Rainha de França. Havre, 1863).
            A ideia clara e precisa que se faça da vida futura muda completamente o ponto de vista do homem sobre a vida terrena, é porque a maioria das pessoas só acredita naquilo que os seus cinco sentidos materiais conseguem perceber. É a conhecida regra de São Tomé: ver para crer. Para essas pessoas, torna-se difícil acreditar numa vida após a morte, porque baseiam seus valores de vida nos conceitos da matéria. Acreditam que alma é o centro da inteligência e o princípio da vida material orgânica, que se aniquila com a morte. Estes que assim pensam acham que depois da morte nada resta, tudo se acaba no túmulo, porque, segundo eles, a alma é criada junto com o corpo, numa visão criacionista. E, por não terem nenhuma certeza quanto ao porvir, dão tudo ao presente. Não divisando nenhum bem mais precioso do que os da Terra.
 As religiões espiritualistas acreditam que a alma é a causa da inteligência e que é independente do corpo, ou seja, da matéria. Creem que a alma sobrevive após a morte. A Doutrina Espírita é espiritualista, mas diferencia-se de outras religiões cristãs espiritualistas por crer que a alma não apenas sobrevive após a morte, mas também é pré-existente à vida, ou seja, é reencarnacionista.
            Para o homem, de modo geral, por ter o seu ponto de vista exclusivamente na matéria, fica difícil entender que haja um mundo espiritual em atividade, que é real, primitivo, eterno, preexistente, e que sobrevive a tudo. Sendo o mundo material secundário, e poderia deixar de existir ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a essência do mundo espiritual. Esta é a ideia clara que os espíritas fazem da vida futura. E nela está a base de sua fé e o apoio dos valores que norteiam suas ações.
            É de nosso entendimento que o homem moderno, o homem dos dias de hoje, não pode dizer com absoluta certeza que crê apenas naquilo que vê. A Ciência evoluiu tanto, e já deu demonstrações factíveis que muita coisa existe além daquilo que o homem é capaz de perceber através dos seus sentidos materiais, como, por exemplo: as ondas eletromagnéticas responsáveis pelas transmissões de rádio, de televisão, de telefonia celular. Ninguém vê a onda de rádio ou de televisão, mas as vozes, as imagens, chegam e se reproduzem em nossos aparelhos, portanto, são reais. São exemplos e a confirmação daquilo que se está falando. Então, não é porque nem todos nós conseguimos ver ou perceber a presença do mundo espiritual que ele não exista. Nós sabemos que os nossos sentidos são todos materiais. Aqueles que conseguem perceber além da matéria são considerados como possuidores de um sexto sentido. Portanto, não se trata de ver para crer, mas, ao contrário, de crer para ver. E a visão neste caso tem o sentido de perceber a natureza do mundo espiritual à nossa volta.
            Aquele que não crê na vida espiritual tem mais dificuldade para justificar as necessidades de harmonia com os valores morais.
            O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo como este partiu das de Moisés, é consequência direta da sua doutrina. Acrescenta à ideia vaga da vida futura, a revelação da existência do mundo invisível que nos cerca e povoa o espaço e, com isto, fixa a crença, dá-lhe um corpo, uma consciência, uma realidade a essa ideia. Efetivamente, a Doutrina Espírita nos mostra de forma indiscutível e irrecusável a imortalidade do Espírito. Mas não apenas isto. Estabelece também a reencarnação como processo de evolução, o intercâmbio mediúnico, ou seja, o intercâmbio entre os dois planos da vida, o material e o invisível, de modo que possamos receber dos Espíritos Superiores os ensinamentos de que necessitamos, definindo os laços que unem o Espírito ao corpo e levantando o véu que ocultava aos homens os mistérios do nascimento e da morte.
            No item seis, o Codificador lembra que, se toda a gente pensasse só na vida futura ninguém mais iria se ocupar com as coisas terrenas. Porém, o desejo do bem-estar força o homem a tudo melhorar, impelido que é pelo instinto do progresso e da conservação, que está nas leis da Natureza. Então, ele trabalha por necessidade, por gosto e por dever, obedecendo, desse modo, aos desígnios da Providência que, para tal fim, o pôs na Terra. Portanto, a evolução do homem é um impulso natural para o autoaprimoramento e para a melhoria do mundo em que vive. Difícil para ele é compreender que colocar o ponto de vista na vida futura está no serviço bem prestado, no desprendimento de si próprio, na compreensão do semelhante, na aquisição de valores espirituais, no desapego das coisas materiais.
            Ainda neste item, o mestre lionês diz que Deus não condena os gozos terrenos; condena, sim, o abuso desses gozos em detrimento das coisas da alma. Portanto, é natural que o homem busque viver com conforto, mas não é natural que peque pelo excesso ou pelo exagero. Muitas vezes, as criaturas veem necessidades onde elas realmente não existem. Buscam mais o lazer do que o trabalho; mais o luxo do que a adequação das coisas; mais a posse do que a real utilidade. Assim, a simplicidade é um requisito essencial na vida do homem.
            A falta de percepção da simplicidade, que a Natureza nos aponta, é a causa da supervalorização do supérfluo, do luxo, da posse, do preenchimento das horas vazias com ações vazias, de um desvio de conduta. Privar-se do supérfluo, do desnecessário, das coisas que não agregam valor, torna o homem credenciado a se identificar com a vida futura. E, à medida que ele for estudando a Doutrina Espírita, vai adquirindo maturidade espiritual progressiva, colocando o seu ponto de vista em horizontes novos, em vez da visão acanhada e mesquinha de outrora sobre a vida terrena.
            É importante salientar que simplicidade não significa pobreza, nem pobreza é prova de simplicidade. Simplicidade é o bom uso dos recursos que foram destinados ao homem pelo Criador.
No item sete, Kardec faz uma síntese do Espiritismo, essa doutrina maravilhosa que descortina horizontes, e que é também o cristianismo redivivo, abre as mentes para a nossa essência e destinação; consola nossas aflições; forja nosso temperamento ainda imperfeito. É a grande oportunidade que o Pai amoroso nos oferece para que possamos iniciar o caminho da iluminação.
            Pelo Espiritismo o homem sabe de que lugar vem, para que lugar vai, porque está na Terra, porque sofre temporariamente, e vê por toda parte a justiça de Deus. Sabe que o Espírito progride incessantemente através de uma série de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição que o aproxima de Deus. Sabe que todos os Espíritos, tendo um mesmo ponto de origem, são criados iguais, com idêntica aptidão para progredir, de acordo com o seu livre-arbítrio. Está aí, portanto, a justiça divina funcionando categoricamente. Sabe também que todos os Espíritos são da mesma essência, e que não há entre eles diferença, senão quanto ao processo realizado, quer dizer, Deus não cria seres privilegiados. Todos nós devemos caminhar por nossos próprios pés. A evolução será mérito de cada um de nós. Sabe que todos os Espíritos têm o mesmo destino, e alcançarão a mesma meta, mais ou menos rapidamente, pelo trabalho e boa vontade.
            Todos nós, criaturas de Deus, um dia atingiremos a perfeição relativa; um dia alcançaremos a verdadeira felicidade, definitiva, a que todos nós chegaremos, não importando a conduta que hoje tenhamos. Levaremos milênios para alcançá-la? O tempo não importa. Nós temos toda a eternidade, embora a Doutrina Espírita nos diga que aceleremos o passo em direção ao futuro, para caminhar em direção à Luz.
            Pelas relações que hoje pode estabelecer com aqueles que deixaram a Terra, possui o homem não só a prova material da existência e da individualidade do Espírito, como também compreende a solidariedade que liga os Espíritos encarnados aos Espíritos desencarnados. Conhece a situação deles no mundo espiritual, acompanha-os em suas migrações, e tem conhecimento de suas alegrias e de suas penas. Sabe a razão por que são felizes ou infelizes, e a sorte que lhes está reservada, conforme o bem ou o mal que fizerem. Isto é uma coisa que a Doutrina Espírita nos assegura: que nós sofremos apenas, e tão somente, as consequências da nossa conduta. Se nós nos comportarmos de forma adequada, de conformidade com a lei de Deus, só temos a haurir o benefício do bem, um futuro promissor. Agora, se praticarmos o mal, se provocarmos o desequilíbrio, evidentemente, teremos que reparar esse mal. Estas relações iniciam o homem na vida futura. Esse ponto de vista já não é uma vaga esperança. É um fato positivo, uma certeza matemática. Desde então, a morte nada mais tem de apavorante para ele, por lhe ser a libertação, a porta da verdadeira vida.
            No item oito, finalizando este capítulo, temos uma mensagem de um Espírito que se intitulou uma Rainha de França, e tem como título Uma Realeza Terrestre. E, através dessa mensagem, ela faz uma comparação entre o plano material e o plano espiritual. Aqui podemos constatar mais uma prova de que a vida continua além túmulo, assim como Jesus também nos mostrou naquele momento em que apareceu para Madalena, mostrando que estava vivo.
            O Espírito comunicante dá notícia da mudança do seu ponto de vista, dizendo: Quem melhor do que eu pode compreender a verdade destas palavras de Nosso Senhor: “O meu reino não é deste mundo”? O orgulho me perdeu na Terra. O que eu trouxe comigo da minha realeza terrena? Nada, absolutamente nada.
            A hierarquia terrestre é baseada no poder, na influência e na autoridade, que vêm de convencionalismos de títulos e de posses de valores materiais, muitas vezes, obtida pela força e pelo desrespeito ao semelhante.
            Nessa hierarquia, os homens assumem postos e cargos em função de sua capacidade de atender aos interesses materiais, estabelecidos e priorizados sem levar em conta as condições do mérito real, que cada um possa ter. As instituições humanas são construídas e fundamentadas nessa hierarquia, definindo as relações de poder e de obediência, que devem nortear suas atividades de conveniência terrestre. “Manda que pode, obedece quem tem juízo”, é um ditado popular, muito comum de ser aplicado na prática. Essa realeza terrestre acaba com a morte do corpo físico. Porém, a realeza moral mantém o seu poder onde quer que vamos.
            A hierarquia espiritual, entretanto, não se baseia em convencionalismos como na Terra. Ela é baseada em valores morais adquiridos, e incorporados em cada ser. O poder terrestre, portanto, não tem significado no mundo espiritual, onde não existem títulos ou honrarias, apenas graus de evolução diferenciados.
            No plano espiritual, humildade é luz, é amor, é autoridade, é energia criadora e, por isto, Jesus, nosso Mestre maior, nos disse: “Se quisermos ser o maior entre todos, que sejamos aquele que mais serve”.
            O orgulho e a ilusão do poder cegam os homens para a sua verdadeira posição, levando-os a sofrimentos imensos no plano espiritual, onde se defrontam com a realidade, e percebem-se diante da hierarquia do amor.
            QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
            1 – O que a crença na vida futura nos proporciona?
            R – Nos dá o consolo necessário diante das tribulações e vicissitudes da vida terrena, e a certeza de que essas dificuldades não passam de incidentes passageiros, comparados à grandeza e eternidade da vida espiritual;
            2 – À medida que a compreensão sobre a vida futura aumenta, de que modo as pessoas passam a encarar os bens terrenos?
            R – Como elementos que servem para contribuir ou facilitar o seu progresso moral, embora não de modo essencial; passam a compreender que podem usufruí-los, sem, no entanto, deter sua posse e, por isso mesmo, não lhes dão tanta importância, procurando não se apegar a eles.
            CONCLUSÃO:
            Então, por tudo isso que acabamos de estudar, nós precisamos ter um ponto de vista sobre o nosso momento aqui na Terra, no sentido de aproveitarmos a oportunidade para crescermos espiritualmente, não dando guarida às ilusões. Nós não estamos aqui para disputar honrarias, para disputar qualquer tipo de poder, estamos aqui para aprender. Então, vamos trabalhar a humildade dentro de nós, para não termos vergonha de reconhecer os nossos erros, de pedir para que alguém nos ensine a fazer o certo, de nos desculparmos pelas nossas falhas. A isto chamamos evangelizar o nosso Espírito; educar a nós mesmos.
            Para atingirmos a verdadeira hierarquia do plano espiritual, devemos ter uma postura de humildade, uma postura de aprendiz que irá nos fazer perceber o que Platão dizia: “Só sei que nada sei; só sei que nada sou”, para podermos aprender em cada instante da vida. Nas adversidades, nos instantes de alegria relativa, nas ações mais simples e nas situações complexas. Aprender a observar as criaturas como companheiras do caminho, também em processo de aprendizado. Reconhecer também a nossa pequenez diante do Criador. Para isto, temos que desenvolver em nós o exercício da paciência e da serenidade, perseverar no serviço do bem para vencer esse homem velho que está dentro de nós.
            Por não sermos seres angelicais ainda, estamos muito ligados à ambição, ao orgulho, e a necessidade de dominar, o que torna fácil a desistência da construção do reino de Deus dentro de nós. Por isto, devemos mudar o nosso ponto de vista sobre a forma como nós encaramos a vida terrena. Aqui é escola! É aprendizado de fraternidade e de caridade. É a nossa arena de experiências e de lutas a caminho da luz. Então, vamos pedir ao Mestre Jesus forças para que possamos aprender a cada dia renunciar à nossa realeza terrestre, a fim de que o reino dos céus esteja aberto para nós.
Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO II – MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO

ITENS DE 1 A 4 – A VIDA FUTURA E A REALEZA DE JESUS

TEXTO DE APOIO:
            Pilatos tendo entrado de novo no palácio e feito vir Jesus à sua presença, perguntou-lhe: És o rei dos judeus? Respondeu-lhe Jesus: Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui.
            Disse-lhe então Pilatos: És, pois, rei? Jesus lhe respondeu: Tu o dizes; sou rei; não nasci e não vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade. Aquele que pertence à verdade escuta a minha voz. (João, cap. XVIII, 33-36 e 37).
            Antes de estudarmos o que Jesus queria nos dizer a cerca de que o seu reino não era deste mundo, nós vamos entender qual a finalidade da vinda do Cristo a este mundo.
            Nesse importante trabalho do Mestre na Terra encontramos precursores, desde os profetas até João Batista. Ao longo dos séculos, esses grandes Espíritos estiveram entre nós, assistidos pelo Plano Superior, trazendo mensagens religiosas, e de ética. Era necessário preparar os corações e as mentes dos homens. Cada um trazia um conceito. Embora as mensagens viessem de uma forma um pouco nublada, pouco a pouco elas iam chegando, gradativamente, através da esteira do tempo. E nesse processo de amadurecimento, os conceitos sobre a vida espiritual iam se cristalizando nos homens, preparando-os para receberem Jesus e, então Dele, absorverem toda a Sua mensagem. E, mais, o próprio Cristo dando o testemunho maior.
            Então, após a Humanidade ter recebido toda uma gama de informações necessárias, Jesus veio até nós, trazendo a essência das Leis de Deus. Ele veio nos instruir sobre a lei de amor, que resume todas as Leis e os profetas, tão necessária ao nosso progresso espiritual. É claro que esses ensinamentos vieram de forma sintetizada, que depois, foram desdobrados pelo Espiritismo, através das leis morais. Uma vez entendido o porquê da finalidade de Jesus ter encarnado aqui entre nós, vamos destacar os objetivos dos itens que vamos estudar.
            Na citação evangélica “Meu reino não é deste mundo” podemos entender que o Cristo respondeu em sentido figurado. Queria dizer que não reina senão sobre os corações puros e desinteressados. Portanto, o Mestre faz alusão a um outro mundo, que nós sabemos hoje se tratar do mundo espiritual. E, acima de tudo, se referir à vida futura e ao destino da Humanidade.
            Para muitas pessoas, não há a tal respeito mais do que uma crença. Normalmente o cristão acredita na vida futura. Porém, a ideia que muitos fazem dela é ainda muito vaga, incompleta. E por isso mesmo é falsa em diversos pontos. A ótica humana se divide em duas posições de observação: a visão interior, portanto espiritualista; e a visão exterior, portanto materialista. Ainda confundimos a Vida, que é única e eterna, com a existência, que são múltiplas e efêmeras.
Sabemos que esses obstáculos de compreensão são impostos pelas limitações dos nossos sentidos e da nossa atual inteligência, ainda muito precários e restritos ao plano intelectual. Sabemos também que esses bloqueios serão gradualmente removidos com a cristalização dos conceitos a cerca da vida espiritual, no ir e vir das reencarnações.
Jesus veio nos alertar para um ponto de equilíbrio entre aquilo que é interior ou exterior, espiritual ou material, em nossa experiência existencial. Nos acenou com uma pátria espiritual; com uma pátria de paz e de felicidade, sem o sofrimento da Terra. Jesus nos ensinou de forma velada que somos espíritos imortais, criados para a felicidade, que só o Seu reino pode oferecer, diferentemente das alegrias temporárias e passageiras que a vida física nos oferece. E Ele também nos ensinou o caminho que conduz a esse reino.
            Nós já entendemos que Jesus habitava um outro mundo antes de vir ao nosso orbe; que veio com uma missão determinada, trazendo uma proposta de amor, e de um outro mundo muito melhor, onde esse amor tem parâmetro preponderante. Por isto, se faz necessário que aprendamos a priorizar.
            Geralmente o homem acha, muitas vezes, que nada mais existe além da vida corporal. Por esse motivo, ele coloca os seus sentimentos somente na vida material, nos seus apegos aos bens materiais, e fica aprisionado a ela. E por medo de perder tudo o que acumulou tende a aumentar os seus recursos, mais e mais. E, aí, quando pensa que terá que deixar tudo quando morrer, se desespera.
O nosso mundo é materialista, onde o orgulho, a vaidade e o egoísmo preponderam. Na realidade, nessa nossa vida física, o que nós temos são alegrias muito fugazes, alegrias passageiras, que muitas vezes nos escapam por entre os dedos, como se fosse água. O homem ainda não entende plenamente o que seja a solidariedade, a compaixão, a caridade, e tantas outras coisas que só aprendeu a teorizar, mas que não faz parte da sua experiência. Abandona o espírito do serviço, que dignifica e favorece o seu progresso, agregando valores. Por isso, só pensa em aproveitar a vida terrena. Entende que não existe mais nada após a morte do corpo físico e, então, vive tudo em excesso, aproveitando tudo que tem direito, no seu entender. Ora, se ele tivesse conhecimento da vida futura, da vida após a morte, logicamente o seu comportamento seria outro.
O grande mérito depende de como o ser se comporta diante da carência e do excesso do bem material. Deste comportamento depende a sua moralização para a felicidade. E a verdadeira felicidade, que muitas vezes é confundida com a alegria mundana, só é possível de ser conseguida através de uma visão espiritual. A importância que o homem dá aos bens materiais está sempre em razão inversa à fé e à confiança na vida futura. A sua passagem pela Terra, Universidade sublime, como Espírito encarnado, é rápida. É para aprendizado e aperfeiçoamento. Então, fica claro que o Reino de Jesus não poderia ser desse mundo terreno, transitório. Jesus veio apenas estabelecer as bases da fraternidade e do amor para unir todos os indivíduos como irmãos, primeira conquista para o homem atravessar a ponte física que é o mundo terrestre, para aquele que é o mundo de Jesus, que nos aguarda a todos. Jesus ao dizer a Pilatos que o seu Reino não era deste Mundo, colocou-o ao alcance de todos aqueles que desejam alcançar um Reino de paz.
O homem não pode fugir aos seus deveres como Espírito encarnado no mundo. Forma uma família e precisa dar todo apoio, toda atenção, o melhor de si para essa família, que voluntariamente escolheu. Mas nunca esquecendo que a verdadeira Vida é a espiritual. Isso dá a verdadeira dimensão. A Vida física é apenas um momento. A cada um segundo suas obras. Por isso, o homem terá que prestar contas do que fez com o seu tempo. Vai ter que responder pelos seus atos.
O Reino de que Jesus fala está no coração do homem, e o Cristo facilitou esse processo invocando a lei de sociedade e afinidade entre os seres. Mas o homem não se dá conta disso. É por isso que o próximo, quase sempre, está bem distante, mesmo estando tão perto. A percepção de si mesmo sempre começa pela percepção do outro. Amar o próximo é mais conveniente do que se imagina.
Quando o homem tiver a capacidade de amar de verdade o seu próximo, a conveniência será transformada no prazer de fazer caridade. Aí, sim, quando isso acontecer ele encontrará a verdadeira felicidade.
No estágio intelecto-moral, ainda acanhado em que o homem se encontra, em que a sua evolução moral não está compatível com o grau máximo que cada um pode atingir, não pode esperar que essa felicidade seja conseguida agora. Justamente por isso é que a verdadeira felicidade não é deste mundo. Ela é do Reino que Jesus nos oferece, e só poderá ocorrer num futuro, que não sabemos quando.
É preciso então que meditemos sobre a Vida futura, que é o ponto central dos ensinamentos do Cristo. Todas as Bem-aventuranças estão no futuro: bem-aventurados os que choram, pois que serão consolados; bem-aventurados os que sofrem perseguição pela justiça, pois é deles o Reino dos céus; bem-aventurados os que têm puro o coração, porquanto verão a Deus. Na verdade, é um futuro ainda muito distante. Um futuro que deverá ser construído por nós, com muito esforço e pacientemente.
O Espiritismo, com bases sérias veio esclarecer e completar nesse ponto, como em vários outros, o ensino do Mestre, tornando-os tão claros que deixam de ser hipóteses e crendices, tornando-se uma realidade material. A Vida futura, hoje é descrita pelos Espíritos que lá se encontram, através da mediunidade, que é o veículo da descoberta do Reino de Deus. Jesus nos deu exemplo disso quando, respondendo a Pilatos, disse: “Não nasci e não vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade”. Vejam bem! Ele disse: “Não nasci neste mundo”. Então, Ele já era nascido, tinha nascido em outro mundo (reencarnação).
Que não é deste Mundo o Reino de Jesus nós já compreendemos, mas também na Terra não teria Ele uma realeza? Jesus não é mais poderoso rei do que os poderosos Chefes de Estado da Terra? Os poderes temporais da matéria não ocasionaram quedas desastrosas de impérios fortíssimos tais como o de Roma? O Cristo sendo o emissário da verdade, nem por isso se valeu da violência para divulgar a sua Doutrina e converter pessoas.
Podemos contar com o Cristo em todas as horas, em todos os dias, e em todos os instantes. Jesus nunca nos abandona. Jesus é real.
CONCLUSÃO:
Então, é muito importante que tenhamos uma ideia clara, que meditemos sobre a realeza de Jesus. É preciso saber diferenciar a realeza comum e transitória da realeza espiritual. Na primeira encontramos o universo político de César, o domínio da matéria sobre o Espírito, cujos interesses materiais estão em primeiro lugar. Na segunda ela é apenas uma simbologia do poder do Espírito sobre a matéria. O extremo dessa consciência é a conversa de Jesus com Pilatos, no qual se mostra perfeitamente convicto do que está fazendo e ciente do que está acontecendo ao seu redor. Essa consciência atinge o ápice quando Jesus prefere a humilhação completa, inclusive da sua dignidade física, para exaltar o seu poder espiritual, isto é, mandar nos corações humanos. A coroa de espinhos, a tortura física e a pena de morte são detalhes que não o incomodam, senão fisicamente, pois são distorções da realidade espiritual, reflexos do poder político efêmero, que certamente serão corrigidos pelas leis da reencarnação e de causa e efeito. Para muitos de nós essa é uma experiência ainda absurda, cujo sofrimento físico do Mestre ofusca o sofrimento moral e nos dá a falsa ideia de masoquismo e anulação. Não entendemos ainda que a salvação caminha por uma outra vertente. Tanto é deformada essa visão que sentimos uma atração sádica pelas cenas da crucificação. Vamos retirar o Cristo da cruz. Vamos parar de mitificá-lo. Enquanto nós o colocarmos distante de nós, num quadro belíssimo que seja, de grande porte, mas só observando a beleza desse quadro, nós não estaremos realizando absolutamente nada do que Jesus nos propôs.
Que meditemos sobre isso. Que pensemos bastante sobre a Vida futura, que é a nossa verdadeira Vida, a espiritual. E também na realeza de Jesus. Vamos tomá-lo como guia e modelo.
Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO I – NÃO VIM DESTRUIR A LEI

ITENS DE 8 A 11 – A ALIANÇA DA CIÊNCIA E DA RELIGIÃO
A NOVA ERA

TEXTO DE APOIO:
            A Ciência e a Religião são duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se. Se fossem a negação uma da outra, uma necessariamente estaria em erro e a outra com a verdade, porquanto Deus não pode pretender a destruição de sua própria obra. A incompatibilidade que se julgou existir entre essas duas ordens de ideias provém apenas de uma observação defeituosa e de excesso de exclusivismo, de um lado e de outro. Daí um conflito que deu origem à incredulidade e à intolerância.
            São chegados os tempos em que os ensinamentos do Cristo têm de ser completados; em que o véu intencionalmente lançado sobre algumas partes desse ensino tem de ser levantado.
            Kardec faz uma explanação sobre a aliança da Ciência com a Religião, mostrando que ambas revelam as leis divinas: a Ciência revela as leis da matéria e a Religião as leis morais. São como galhos de uma mesma árvore. Portanto, não podem contradizer-se. A raiz de tudo é Deus e tudo se nutre da seiva divina.
            Kardec elaborou a Doutrina Espírita com a participação dos Espíritos, sem jamais abdicar de um controle racional e do testemunho da experimentação.
            Registra o codificador: “A Ciência e a religião não puderam entender-se até agora porque, encarando cada uma as coisas do seu ponto de vista exclusivo, repeliam-se mutuamente. Era necessário acrescentar alguma coisa para preencher o espaço que as separava, um traço de união que as ligasse. Esse traço está no conhecimento das leis que regem o mundo espiritual e suas relações com o mundo corporal, leis tão imutáveis como as que regulam o movimento dos astros e a existência dos seres”.
            A Ciência, com seu caminhar progressivo, vai aos poucos de encontro às realidades espirituais. Credenciada por Deus para descobrir e utilizar, em favor dos homens, todos os recursos da natureza, ela é um dos mais poderosos instrumentos para construção do novo mundo e para a substituição de conceitos até agora como insubstituíveis.
            Em sua marcha progressiva chegará um dia em que tocará o caminho seguido pela religião no sentido amplo da palavra; não na religião dogmática, estreita e particularista. Então, não mais desmentida pela Ciência a Religião adquirirá inabalável poder, porque estará de acordo com a razão. A partir deste momento, Ciência e Religião fundir-se-ão, não mais caminharão paralelamente. E, podemos dizer que, a Ciência descobrirá que é filha da Religião, filha do sentimento inato do homem, de busca do desconhecido. Sentimento este que existe em todos os estágios de progresso da Humanidade, desde o selvagem até o mais culto homem civilizado.
Uma vez constatadas pela experiência essas relações, uma nova luz se fará e a fé se dirigindo à razão, e esta nada encontrando de ilógico na fé, o materialismo será vencido.
            Porém, hoje, decorrido quase um século e meio da publicação do livro em estudo, notamos que o entendimento citado, em grande parte ainda não se deu. O progresso é lento. As religiões muito conservadoras, não abrem mão de seus dogmas, artigos de fé, firmados em épocas de obscurantismo. Existem pessoas que ainda ficam atrás, em vez de acompanharem uma nova era na vida da Humanidade. Isto explica a divisão desta Humanidade em não sei quantas mil religiões e seitas, tudo ocasionado pelo modo de interpretação. Há alguns anos atrás, coisa recente, O Reformador, revista espírita, noticiou que mil e duzentos líderes religiosos se reuniram na ONU para discutirem sobre a paz no mundo. Ora, pelo grande número de líderes religiosos verificado, com certeza, a grande maioria estava com uma interpretação equivocada dos ensinamentos de Jesus. Permitiram que as informações recebidas e mal interpretadas fizessem ninho em suas cabeças, originando atitudes, sentimentos e pensamentos diferentes da verdadeira lei. Daí esse grande número de religiões e seitas que vão fazendo com que os cristãos fiquem divididos, impedindo que a Humanidade avance como um todo.
            Nós precisamos entender e nos convencer de que o Cristo veio à Terra trazer uma moral totalmente diferente daquela que estabelecia o “Olho por olho, dente por dente”. Jesus nos ensinou a amar o nosso próximo; nos ensinou a tratar o nosso semelhante da mesma forma que gostaríamos que fôssemos tratados; nos ensinou até a amar os nossos inimigos e a fazer o bem àqueles que nos odeiam, e orar por aqueles que nos perseguem e caluniam; nos convidou à reflexão quando disse: “Aquele que dentre vós não tiver errado, que atire a primeira pedra”; nos alertou para não julgarmos a fim de que não sejamos julgados, e nos asseverou que ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo. Tudo isso para aproximar os homens e torná-los irmãos.
            Essa moral que o Cristianismo nos trouxe, com a finalidade de fazer brotar em todos os corações o amor e a caridade, deveria ser seguida por toda Humanidade, porque é a verdadeira lei, aquela que é indiscutível e que vai permanecer, porque faz parte da nossa evolução. É o alicerce do nosso progresso espiritual, para a transformação da Terra, estabelecendo um novo parâmetro de relação.
            Nas Instruções dos Espíritos, sobre o tema “A Nova Era”, nós vamos encontrar expressões que nos dão uma certa clareza, e que nos vão convencendo cada vez mais que Jesus não veio destruir nenhuma lei.
            No primeiro item, um Espírito comunicante que apenas se identificou como Um Espírito Israelita, na cidade Mulhouse, em 1861, fala sobre o progresso da Humanidade, mostrando que o horizonte se amplia à medida que as pessoas reúnem condições para entender as leis divinas. Diz que Deus é único e Moisés é o Espírito que Ele enviou em missão para torná-lo conhecido não só dos hebreus, mas também dos povos pagãos.
            Moisés traz na Primeira Revelação os Mandamentos de Deus, que encerra em si o germe da mais ampla moral cristã. A moral ensinada por Moisés era apropriada ao estado de adiantamento em que se encontravam os povos daquela época, chamados à regeneração, inclusive aqueles que os hebreus consideravam pagãos, porque desses ensinamentos Moisés, o que eles retiveram foi somente que eram filhos de Abrahão. Por este motivo, Jesus teve então que vir ensinar a verdade, sem destruir aquilo que Moisés disse, sem lançar nenhuma agressão às leis. O Cristo foi o iniciador da mais pura moral. A mais sublime.
            O Espírito comunicante ainda nos diz que a Terra se transformará, tornando-se morada de Espíritos superiores aos que hoje a habitam. E conclui: “São chegados os tempos em que as ideias morais devem desenvolver-se para que se realizem os progressos que estão nos desígnios de Deus. Elas devem seguir o mesmo roteiro que as idéias de liberdade seguiram, como suas precursoras. Mas não pensem que esse desenvolvimento se dará sem lutas”. Isto, então, é a lei de progresso a que a natureza está submetida, e que irá se cumprir. E o Espiritismo é a alavanca de que Deus se utiliza para fazer a Humanidade progredir.
            No livro O Espiritismo e o Tempo, Herculano Pires afirma que a falange de Espíritos encarregada de ajudar Kardec na codificação havia tomado uma série de providências no Plano espiritual, influenciando todos os ramos de conhecimento da Terra. Não apenas no que diz respeito à Religião, mas também à Ciência, às Artes e à Tecnologia. E hoje, já podemos ver as pesquisas comprovando o que os Espíritos já tinham dito. Então, para nós isso significa dizer que, quando esse amigo espiritual nos fala a respeito dessa alavanca, nós vamos entendendo e assimilando cada vez mais o Cristianismo, e construindo o reino dos céus dentro de nós. Moisés abriu o caminho; Jesus construiu a obra; o Espiritismo a concluirá. Finaliza assim a sua instrução o Espírito amigo.
Em outra instrução, o Espírito Fénelon, na cidade de Poitiers, em 1861, dá uma mensagem que nos fala que Deus, em sua inesgotável misericórdia, permitiu que o homem visse a verdade varar as trevas.  E esse dia foi o do advento do Cristo. E depois da luz viva, voltaram as trevas. Após alternativas de verdade e obscurantismo, o mundo novamente se perdia. Então, semelhantemente aos profetas do Antigo Testamento, os Espíritos se puseram a falar e a vos advertir. O mundo está abalado em seus fundamentos; reboará o trovão. Sede firmes! Isto quer dizer que temos que nos dobrar à rajada de vento que anuncia tempestade, a fim de que não sejamos derrubados, ou seja, temos que nos preparar para não sermos apanhados desprevenidos.
Fénelon nos revela ainda que a revolução que se prepara é, antes de tudo, moral do que material. E os grandes Espíritos, mensageiros divinos, sopram a fé para que todos vós obreiros esclarecidos e ardorosos, façais ouvir a vossa voz humilde, porquanto sois o grão de areia; mas, sem grãos de areia não existiriam as montanhas. Então, somos pequenos na verdade. Mas que saibamos ser pequenos com dignidade. A cada um a sua missão; a cada um o seu trabalho. Não constrói a formiga o edifício de sua república? E imperceptíveis animais microscópicos não elevam continentes? Isto significa dizer que, na realidade, todos nós, toda a Humanidade passará por uma fase de grandes mudanças.Começou a nova cruzada, diz o Espírito comunicante. Apóstolos da paz universal, olhai e marchai para a frente; a lei dos mundos é a do progresso, finaliza Fénelon.
Nós sabemos que esse avanço, sem dúvida, é lento, muito lento mesmo, e muito difícil, porém constante e ininterrupto, pois nós estamos num momento em que a humanidade passa enorme sacrifício. Ainda quando pareça estar regredindo, o que ocorre em certos períodos transitórios, esse recuo não é senão o prenúncio de nova etapa de ascensão. Toda evolução representa dificuldade e, às vezes, essa dificuldade é dolorosa, muito dolorosa. E nesse momento da nossa escalada evolutiva nós estamos sendo submetidos a um processo muito doloroso. Porém, segundo a Espiritualidade superior, é o que a nossa saúde moral exige. Essa onda de horror, de terror, de enfermidades difíceis que se abateu sobre a humanidade, por causa do nosso merecimento, é inegável. Mas só assim é que vamos reabilitar a nossa saúde moral, para seguirmos em frente, como recomendou o nosso amigo espiritual.
Na Instrução seguinte, dada pelo espírito Erasto, discípulo de Paulo de Tarso, em Paris, em 1863, o Espírito mensageiro enfatiza sobre a revolução moral que vai envolver a Terra. Diz ele: Santo Agostinho é um dos maiores vulgarizadores do Espiritismo. Manifesta-se quase por toda parte. A razão disso, encontramo-la na vida desse grande filósofo cristão. Pertence ele a vigorosa falange dos Pais da Igreja, aos quais deve a cristandade seus mais sólidos esteios. Como vários outros, foi arrancado ao paganismo, ou melhor, à impiedade mais profunda, pelo fulgor da verdade. Quando, entregue aos maiores excessos, sentiu em sua alma aquela singular vibração que o fez voltar a si e compreender que a felicidade estava alhures, que não nos prazeres enervantes e fugitivos; quando, afinal, no seu caminho de Damasco, também lhe foi dado ouvir a santa voz a clamar-lhe: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”, exclamou: “Meu Deus! Meu Deus! Perdoai-me, creio, sou cristão!”. E desde então se tornou um dos mais fortes sustentáculos do Evangelho.
Nas notáveis confissões que esse eminente espírito deixou e, ao mesmo tempo, palavras proféticas que pronunciou quando sua mãe desencarnou: “Estou certo de que minha mãe virá visitar-me e dar-me os seus conselhos, revelando-me o que nos espera na vida futura”, demonstrou Santo Agostinho ter uma enorme previsão da doutrina que haveria de vir no futuro, constituindo-se hoje seu ardoroso disseminador.
Em nota separada, Kardec faz uma observação: Santo Agostinho, agora como espírito, por ser um divulgador do Espiritismo põe abaixo tudo que edificou? Certamente que não. Como tantos outros, ele vê com os olhos do espírito o que não via enquanto homem. Sua alma livre entrevê claridades novas, compreende o que antes não compreendia. Pode, sem renegar sua fé, constituir-se num disseminador do Espiritismo, porque vê cumprir-se o que fora predito.
Com relação à revolução moral que o espírito Erasto menciona, trata-se de transformação prevista para o nosso orbe, que deverá passar de um mundo de provas e expiações para um mundo de regeneração, com a transferência para outras estâncias vibratórias daqueles que não apresentarem as características necessárias para viverem na Terra nessa nova situação.
Então, hoje, sendo chegada a hora de divulgar-se a verdade, quando uma nova luz está brilhando, temos que ter o cuidado de verificar, de compararmos as nossas atitudes, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos, que ocorrem diante de algum fato, para buscarmos sempre a humildade que Jesus nos ensinou, para que não sejamos apanhados desprevenidos. Esse é o momento de começarmos a substituir o valor que damos aos prazeres da matéria pelo valor da felicidade por vir, como fez Santo Agostinho.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1 – Por que a Ciência e a Religião, até o momento, não puderam se entender?
R – Devido à intolerância de ambas as partes. Cada uma encara as coisas sob o seu ponto de vista exclusivo.
2 – O que falta então para que haja o entendimento entre elas?
R – O conhecimento das leis que regem o universo espiritual e suas relações com o mundo corpóreo.
CONCLUSÃO:
Daí, através dessas informações que nos foram passadas neste estudo, nós concluirmos que: a Ciência e a Religião são duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio que é Deus, não podem contradizer-se. Que o Espiritismo, não se preocupando com a forma e sim com a essência, nunca temeu a Ciência; pelo contrário, sempre se antecipou a ela. Onde a Ciência estabelece limites, justamente devido aos seus métodos concretos de pesquisa de avaliação, o Espiritismo prossegue. Porém, continuando seu trabalho, como vem fazendo hoje, a Ciência atravessará o véu que separa o mundo visível do invisível, encontrando-se, fatalmente, com o Espiritismo, que aguarda do outro lado. Quando isso ocorrer, estará instalada na Terra uma era em que os homens perceberão a continuidade da vida embora a inexistência do corpo material. Isto quer dizer que o homem, espírito encarnado em trânsito pela terra, quando morrer, esse morrer é entre aspas, vai para determinada localidade no plano espiritual, para continuar sua existência.
Nessa era tudo que é transitório e perecível passará a ter o seu valor verdadeiro. No campo moral essa era trará modificações de envergadura. Por exemplo, os homens não mais se apegarão egoisticamente aos bens materiais, para efeito de enriquecimento próprio e de seus familiares, em detrimento do restante da sociedade.
Muita paz!   
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
CAPÍTULO I – NÃO VIM DESTRUIR A LEI

ITENS DE 5 A 7 – O ESPIRITISMO

Nós já estudamos as duas primeiras Revelações. Hoje vamos estudar a terceira Revelação das leis divinas, o Espiritismo.
Jesus não pôde dizer tudo em seu tempo. Sobre muitos pontos de sua doutrina, Ele pôde lançar apenas alguns germes de verdade que, segundo Ele próprio declarou, só poderiam ser compreendidos no futuro. Falou de tudo, mas em termos mais ou menos claros. Para alcançar-lhe o sentido de algumas palavras, fazia-se necessário que novas ideias e novos conhecimentos viessem trazer-lhes a chave indispensável.
O Espiritismo representa os ensinos trazidos à Humanidade por Espíritos Superiores, á frente o Espírito de Verdade, confirmando a promessa do próprio Cristo, quando se refere ao “outro consolador” nas seguintes palavras: “Se me amai, guardai os meus mandamentos e eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro consolador, para que fique eternamente convosco, o Espírito de Verdade, a quem o mundo não pode receber porque não o vê nem o conhece; mas vós o conhecereis porque ele estará convosco, e estará em vós” (João 14; 15 a 17).
Jesus disse ainda que não deixaria a Humanidade órfã, e que esse consolador viria a fim de restabelecer, no seu devido tempo, todos os seus ensinamentos, quando o homem estivesse mais preparado para recebê-lo. E disse mais: “Eu tenho ainda muitas coisas que vos dizer, mas vós não as podei suportar agora”. “Quando vier, porém aquele Espírito de Verdade, ele vos ensinará todas as verdades, porque não falará de si mesmo; mas dirá tudo o que tiver ouvido e anunciar-vos-á as coisas que estão para vir”. “Eu tenho-vos dito estas coisas debaixo de parábolas. Está chegando o tempo, em que mais abertamente vos falarei do Pai”. (João 16:12, 13, 25).
Assim como o Cristo afirmou “não vim destruir a lei, mas cumpri-la”, referindo-se às revelações anteriores, o Espiritismo, o Consolador, também não vem destruir as verdades trazidas à Humanidade, mas sim confirmá-las, desenvolvê-las e explicá-las em seus sentidos alegóricos, tantas vezes mal interpretados, revelando coisas novas que dizem respeito ao mundo espiritual e seu relacionamento com o mundo material.
Nas duas primeiras Revelações pode-se perceber que a linguagem utilizada pela Espiritualidade Superior é, muitas vezes, alegórica, justamente para facilitar o entendimento daqueles homens apegados à vida material.
A utilização das representações materiais era necessária para a compreensão de criaturas rudes, com dificuldades naturais para a percepção da significação superior, espiritual, de muitos dos ensinos.
Agora, com o Espiritismo, a linguagem dos Espíritos Reveladores é simples e direta, sem as alegorias, já que a capacidade de compreensão evoluiu muito.
TEXTO DE APOIO:
O Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo corpóreo. Ele nos é mostrado, não mais como coisa sobrenatural, porém, ao contrário, como uma das forças vivas e sem cessar atuantes da natureza, como a fonte de uma imensidade de fenômenos até hoje incompreendidos e, por isso, relegados para o domínio do fantástico e do maravilhoso. É a essas relações que o Cristo alude em muitas circunstâncias e daí vem que muito do que ele disse permaneceu ininteligível ou falsamente interpretado. O Espiritismo é a chave com o auxílio da qual tudo se explica de modo fácil. (Allan Kardec).
Iniciando o nosso estudo, vamos fazer algumas considerações preliminares, que livram a Doutrina Espírita de toda ideia de misticismo.
No livro A Gênese, de Allan Kardec, em seu primeiro capítulo, Caracteres da Revelação Espírita, o codificador começa o capítulo fazendo indagações: Pode o Espiritismo ser considerado como uma revelação? Neste caso, qual é o seu caráter? Em que se baseia a sua autenticidade?
Kardec começa definindo a palavra revelação. Revelar, do Latim Revelare, cuja raiz Velum quer dizer véu, e significa literalmente sair de sob o véu. E no sentido figurado, descobrir; dar a conhecer uma coisa secreta ou desconhecida como, por exemplo, a revelação das leis divinas e a revelação das leis naturais, sobre as quais não tínhamos ainda conhecimento, nem sabíamos como se processava. A Astronomia nos revelou o mundo sideral que não conhecíamos; a Geologia revelou a formação da Terra; a Química nos revelou a lei das afinidades. Cada uma dessas ciências nos revela leis e nos dá informações a cerca de fatos que desconhecíamos. A característica essencial de qualquer revelação tem que ser a verdade. Por exemplo: revelar um segredo é tornar conhecido um fato. Se for falso, já não é um fato e, por consequência, não existe revelação. Moisés, como profeta, revelou aos homens a existência de um Deus único, soberano, senhor e criador de todas as coisas. Promulgou a lei do Monte Sinai e lançou as bases da verdadeira fé. Moisés, como homem, foi o legislador do povo pelo qual essa primitiva fé, purificada, haveria de espalhar-se por toda a Terra. Jesus, tomando da antiga lei o que é eterno e divino, e rejeitando o que era transitório, puramente disciplinar e de concepção humana, acrescentou a revelação da vida futura, que Moisés não falara, assim como a das penas e recompensas, que aguardam o homem depois da morte do corpo físico.
 Então, será que o Espiritismo nos faz ver alguma coisa secreta ou desconhecida? O que nos traz a doutrina? O Espiritismo, partindo das próprias palavras do Cristo, como Este partiu das palavras de Moisés, é consequência direta da doutrina cristã. Mas, também, nos traz muitas outras informações a respeito de fatos, embora vivenciados, mas sobre os quais nada sabíamos, ou não tínhamos como explicar tais acontecimentos antes do Espiritismo, como, por exemplo, as aparições. Antes, nós ficávamos sem entender realmente, e levávamos à conta do sobrenatural. Como pode o espírito de alguém que “morreu” aparecer? Realmente, o fato deixava-nos perplexos e muitas vezes apavorados. Aí vem o Espiritismo e diz que isso não tem nada de sobrenatural, porque o espírito possui um corpo semifluídico, que é o perispíríto. E esse perispíríto, embora seja menos denso do que o corpo físico, não deixa de ser matéria e, em determinadas circunstâncias ou sob determinadas condições, ele pode se tornar visível e até palpável. Aí se dá a explicação para a materialização e, por conseguinte, passamos a entender. Então, isto é revelar, é tirar o véu, é explicar. É trazer aquele ensinamento que não dispúnhamos até então. Sob esse ponto de vista, todas as ciências que nos fazem conhecer os mistérios da natureza são revelações. O Espiritismo revela ainda conceitos novos e mais aprofundados a respeito de Deus, do Universo, dos Homens, dos Espíritos e das Leis que regem a Vida.
Nos séculos XVI e XVII, depois que a reforma protestante havia libertado a Humanidade dos domínios da Igreja, formou-se um clima muito propício à fermentação de ideias renovadoras. Foi nesse período que se iniciaram as primeiras manifestações de Espíritos, chamando a atenção do homem de então e preparando o terreno para o advento do “Consolador”. No século XIX nascia o Espiritismo, cumprindo-se assim uma promessa do Cristo. E com ele vieram novas lições a cerca do sentido da vida, da dor, da justiça e sobre o destino dos homens depois da morte do corpo físico.
Desde as primeiras manifestações dos Espíritos superiores em torno da codificação da doutrina, Eles deixaram claro que o Espiritismo tinha em si três linhas de ação: Ciência, Filosofia e Religião. Ciência, porque estuda, à luz da razão e de critérios científicos, os fenômenos provocados pelos espíritos, e que não passam de fatos naturais. Todos os fenômenos, mesmo os mais estranhos, têm explicação científica; Filosofia, porque dá uma interpretação da vida, respondendo questões como “De onde eu vim”, “O que faço no mundo”, “Para onde eu irei depois da morte”. Toda doutrina que dá uma interpretação da vida, uma concepção própria do mundo, é uma filosofia; Religião, porque tem por objetivo a transformação moral do homem, revivendo os ensinamentos de Jesus Cristo, na sua verdadeira expressão de simplicidade, pureza e amor.  Por isto é comum o termo Doutrina Espírita. E Emmanuel nos esclarece perfeitamente o significado tríplice: “Em Espiritismo a Ciência indaga, a Filosofia conclui e o Evangelho ilumina”.
O Espiritismo não está personificado em ninguém. Ele é produto do ensinamento dado, não por um homem, mas pelos Espíritos que são as vozes do céu em todos os pontos da Terra, e por inumerável multidão de intermediários. É, de certa maneira, um ser coletivo, formado pelo conjunto dos seres do mundo espiritual, cada qual trazendo aos homens o tributo de suas luzes, para lhes tornar conhecido esse mundo e a sorte que os espera, nos assegura Kardec.  
Com essa explicação importante do codificador, podemos compreender realmente o que representa o “Espírito de Verdade”, ou seja, o “Consolador” prometido.
            O “Espírito de Verdade”, manifestando-se mediunicamente, por ocasião de seu advento, assim se identifica em mensagem colocada como prefácio deste evangelho, que estamos estudando, com as seguintes palavras: “Os Espíritos do Senhor, que são as virtudes dos Céus, como um imenso exército que se movimenta ao receber as ordens de seu comando, espalham-se por toda a superfície da Terra e, semelhantes a estrelas cadentes, vêm iluminar os caminhos e abrir os olhos aos cegos”. Ele ainda nos adverte que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e glorificar os justos. E, é, justamente isso que veio fazer o Espiritismo, afirma a espiritualidade maior, por intermédio de Kardec, quando nos diz: o Espiritismo é a ciência nova que vem revelar aos homens, por meio de provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual e as suas relações com o mundo material. Portanto, sendo admitida a existência da alma, a sobrevivência dela e a sua individualidade, destaca-se uma questão importante: serão possíveis as comunicações entre os espíritos e os seres que vivem na Terra? Essa possibilidade que hoje sabemos ser uma realidade foi demonstrada através de experiências. Então, a resposta é sim.
            Uma vez estabelecido o fato das relações entre os mundos visível e invisível, bem como, conhecidos a natureza, o princípio e o modo dessas relações, abriu-se um novo campo à observação e, por conseqüência, encontrou-se a chave para resolver um grande número de questões, fazendo-se cessar as dúvidas sobre o futuro. Por isto, com a certeza do futuro, o homem espera e se conforma. Com a dúvida, se desespera porque nada espera do presente.
          Com essas novas verdades reconhecidas e, por isto mesmo entendidas, a maior parte dos fenômenos ocorridos, que por não serem bem compreendidos, eram taxados de sobrenaturais, passou a ser aceita como fenômenos naturais, deixando de pertencer ao mundo do fantástico e do maravilhoso.
        O Espiritismo nos dá certeza de vida além túmulo, de que há algo mais a esperar. Considera a vida espiritual como a verdadeira vida, com realizações e progresso, e não de inatividade. De posse destas certezas, o homem está habilitado a se regenerar, melhorar-se e aperfeiçoar-se, tendo sempre em mente o bem.
    O Espiritismo atua em todas as áreas inerentes ao ser humano: conhecimento, atividade e comportamento. Pode e deve ser estudado, analisado e praticado em todos os seus aspectos: científico, ético, moral, educacional e social.
        No Espiritismo, toda prática é gratuita, dentro do princípio do Evangelho: “Daí de graça o que de graça recebestes”; não é realizado nenhum culto exterior, dentro do princípio cristão que orienta, Deus deve ser adorado em espírito e verdade; não há corpo sacerdotal, não adota e nem usa em suas reuniões e em suas práticas coisas como: altares, imagens, velas, sacramentos, concessões de indulgência, paramentos, bebidas alcoólicas ou alucinógenas, incenso, fumo, talismãs, amuletos, pirâmides, cristais, búzios ou quaisquer outros objetos, rituais ou formas de culto exterior. Na Doutrina Espírita encontramos toda a coerência e toda a bondade do Cristo. 
     O Espiritismo desenvolve, completa e explica em termos claros, para toda a Humanidade, os ensinamentos de Jesus, que foi dito apenas de forma alegórica. O Espiritismo vem cumprir na época predita, o que o Cristo anunciou.
            Pelo Espiritismo o homem sabe de onde vem, para onde vai, porque está na Terra e porque sofre temporariamente. E vê por toda parte a justiça de Deus. Sabe que a alma progride sem cessar, através de existências sucessivas, até atingir o grau de perfeição, que pode aproximá-lo de Deus. Eis uma prova de que o Espiritismo é o Consolador prometido.
            CARACTERÍSTICAS DA TERCEIRA REVELAÇÃO:
1. Verdade:
- A existência de Deus, que é o criador, causa primária de todas as coisas, a Suprema inteligência. É eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, onipresente, soberanamente justo e bom;
- O Universo, que foi criado por Deus, abrange todos os seres racionais e irracionais, animados e inanimados, materiais e imateriais.
- Imortalidade do espírito. O espírito é o princípio inteligente do Universo. Criado por Deus para evoluir e realizar-se individualmente por seus próprios esforços. Como espírito, já existíamos antes do nascimento, e continuaremos a existir depois da morte do corpo;
- Individualidade do espírito. Os espíritos, podemos dizer, são seres humanos desencarnados, que continuam sendo como eram quando encarnados, com suas virtudes e imperfeições. Bons ou maus, sérios ou brincalhões, trabalhadores ou preguiçosos, cultos ou medíocres, verdadeiros ou mentirosos. Que estão em toda parte.
- Gradação evolutiva (Reencarnação). O espírito criado simples e sem nenhum conhecimento, é quem decide e cria o seu próprio destino. Para isto ele é dotado de livre-arbítrio, ou seja, capacidade de escolher entre o bem e o mal. Assim como a Natureza não dá saltos, o espírito vai se melhorando aos poucos, passando do rudimentar ao sábio. A rapidez do seu progresso, intelectual e moral, depende dos esforços que faça para chegar à perfeição relativa.
2. Origem:
- É de origem divina.
3. Impessoal:
- Não há figura central na terceira revelação. Na primeira foi Moisés; na segunda foi Jesus. Na terceira não é Kardec, ele apenas codificou o ensino dos Espíritos.
4. Iniciativa dos Espíritos:
- Os dois mundos, físico e espiritual, se interpenetram. As relações dos espíritos com os homens são constantes, e sempre existiram. E através dos médiuns, eles podem se comunicar conosco. 
5. Comunicação coletiva:
- Milhares de médiuns receberam as comunicações de vários Espíritos, em várias partes do mundo. Foi a falange do Espírito de verdade atuando. Se fosse um único Espírito a se comunicar por um único médium, seria uma opinião própria.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1 – O que é o Espiritismo ou Doutrina Espírita?
R – É o conjunto de princípios e leis, revelados pelos Espíritos superiores, contidos nas obras de Allan Kardec, que constituem a Codificação Espírita.
2 – O que revela?
R – Revela os conceitos novos e mais aprofundados a respeito de Deus, do Universo, dos Homens, dos Espíritos e das Leis que regem a vida.
3 – Qual a sua abrangência?
R – Sobre o homem e tudo o que o cerca.
4 – Cite um ensinamento que o Espiritismo dá.
R – Os espíritos são seres inteligentes da Criação. Constituem o mundo dos Espíritos, que preexiste e sobrevive a tudo.
CONCLUSÃO:
Daí, nós concluirmos que o conhecimento espírita abre-nos uma visão ampla e racional da vida, explicando-a de maneira convincente, e permitindo-nos iniciar uma transformação íntima, para melhor; que o Espiritismo entende que o significado de Jesus encontra-se em seu exemplo de vida, fazendo e demonstrando a viabilidade de um padrão de comportamento, e não na série de mitos, interpretações e dogmas que foram agregados ao entendimento de sua mensagem; que o Espiritismo não recorre à ideia de milagre, que não existe para a doutrina, para justificar algumas situações da existência do Cristo; que para entender Jesus, o Espiritismo não precisa utilizar a idéia de messias, salvador ou cordeiro de Deus. Seu significado não se encontra nas condições de sua morte. Não há necessidade de entendê-la como um sacrifício para salvar a Humanidade ou tentar transformá-la em exceção, através da ideia de ressurreição; que, apesar de sua importância, o Espiritismo não confunde Jesus com Deus. Portanto, o Cristo não foi encarnação do Pai criador; que, quando a maioria dos homens estiver convencida da ideia do Espiritismo, que segue a moral do Cristo, sendo, portanto, o roteiro para a evolução segura de todos os homens, o bem impreterivelmente triunfará sobre o mal aqui na Terra. Procurarão, então os homens não mais se molestarem uns aos outros, tendo em vista o bem comum e não o proveito de alguns. E numa só palavra, caridade, os homens compreenderão que a lei ensinada pelo Mestre Jesus é a fonte da felicidade, mesmo nesse mundo, e assim basearão as leis civis na lei da caridade e do amor. Daí termos a certeza de que o Espiritismo é obra do Cristo, que o preside. Por isto, ele não veio destruir a lei cristã, mas dar-lhe seguimento.

Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
 CAPÍTULO I – NÃO VIM DESTRUIR A LEI

ITENS DE 1 A 4 – MOISÉS E O CRISTO

            Depois de termos estudado a introdução deste evangelho, onde encontramos preciosas informações quanto aos objetivos desta obra, iniciaremos o estudo do ensino moral do Cristo, que Allan Kardec diz que não pode ser contestado de forma alguma, porque é perfeito, não tem nada errado. Em todo o seu segmento, esse ensino nos fala de amor, nos fala para tratarmos bem uns aos outros, principalmente a nós mesmos. Esse ensino é um código de regras de proceder, e abrange todas as circunstâncias da nossa vida particular e da nossa vida pública. Ele é o princípio básico de todas as relações sociais, e se solidifica na mais rigorosa justiça. E, é, acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura. O interessante, convém ressaltar, é que Kardec fala da construção de uma felicidade para o amanhã. E, não, de uma felicidade imediata. Por isto, esse ensino é o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura.
            O Evangelho é tão importante como instrumento para orientar a evolução humana, que devemos conhecê-lo de todas as maneiras possíveis. Ele não é apenas um bom livro, daqueles que lemos uma ou duas vezes e já basta. O Evangelho é um livro que deve estar impresso na mente. Relido e estudado constantemente, até que tenhamos atingido o nível evolutivo esperado neste mundo, respondendo de forma natural e automática a todos os estímulos da vida, segundo seus ensinamentos. Jesus não disse que ninguém vai ao Pai senão através Dele? Então, o estudo de Seu Evangelho é obrigatório para todos nós. E o que significa o Evangelho para os espíritas? Em primeiro lugar, devemos evidenciar que o Espiritismo é essencialmente Cristão. Para os espíritas Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por isso, o Espiritismo se propõe a reviver o cristianismo primitivo, naquele estágio inicial, em que os homens mais próximos do Cristo puderam absorver e viver seus postulados.
            A partir dessa lição, estaremos estudando um pouco mais os ensinamentos do Mestre Jesus, pela ótica do Espiritismo. E, é importante prestar muita atenção ao estudarmos esse primeiro capítulo do Evangelho, para que possamos ter uma ideia muito profunda da perspicácia de Allan Kardec, e da extrema lição que Jesus nos legou, dizendo que viera dar cumprimento à Lei e aos profetas. Então reflitamos.
            Como não poderia deixar de ser, Kardec inicia o Evangelho Segundo o Espiritismo de uma forma didática, com uma citação de Jesus, que está em Mateus, capítulo v, vv. 17 e 18. “Não penseis que eu tenha vindo destruir as leis ou os profetas; não os vim destruir, mas cumpri-los; porquanto, em verdade vos digo que o céu e a terra não passarão, sem que tudo o que se acha na lei esteja perfeitamente cumprido, enquanto reste um único iota e um único ponto.
            Sendo missão do Espiritismo restabelecer o Cristianismo, que foi adulterado ao longo dos séculos por homens interesseiros, que colocavam os poderes políticos, econômicos, e seus interesses materiais e temporais acima da orientação de Jesus, Kardec colocou esse capítulo a cerca da lei como sendo o capítulo inicial, já, que, um dos motivos de não levarem a sério a Doutrina Espírita foi, justamente, o de desconhecerem a sua ligação íntima com os ensinamentos do Cristo.
            Também, vamos poder observar a causa do grande equívoco de muitos religiosos, em basearem os seus conhecimentos espirituais no Velho Testamento. Não sabendo diferenciar as leis mosaicas nas suas duas partes: divina, que é invariável e, por isto, é sempre a mesma, e que está contida no Decálogo ou Dez Mandamentos e a civil ou disciplinar, para a qual Moisés recebeu permissão para desenvolvê-la, apropriando-a aos costumes e ao caráter do povo e, que, logicamente, com o passar do tempo, teriam que ser modificadas. Hoje em dia nós não vemos as leis dos homens se modificando, à medida que vão evoluindo, que vão se aperfeiçoando? Então, esse caráter civil das leis de Moisés foi unicamente para o momento evolutivo dos seres humanos daquela época.
            Muitos desconhecem que a Doutrina Espírita está intimamente ligada aos conceitos de Jesus, como já disse, interpretando e desenvolvendo esses conceitos sob a luz da reencarnação. Se Jesus não veio para destruir a lei, e, sim, completá-la, dar-lhe cumprimento; se o Espiritismo é o Cristianismo redivivo, ou seja, a explicação das máximas do Cristo em sua concordância, e evidenciando as diversas situações da nossa vida, então a Doutrina Espírita é coordenada e amparada por Jesus. Esta é a conclusão lógica a que podemos chegar. Aí é que repousa a autoridade da doutrina.
            Então, depois de entendermos o por quê do critério usado por Kardec para iniciar este evangelho, nós vamos iniciar o seu estudo.
       Nesse primeiro capítulo, como nos dando um roteiro de vida, o codificador cita com muita profundidade as três Revelações de Deus: Moisés, que nos traz a lembrança dos dez mandamentos e de um Deus duro, severo e punitivo, que era necessário para o grau de adiantamento dos homens da época; Jesus, que nos traz a sua sabedoria, fazendo na verdade todo um desenvolvimento e um novo direcionamento, endereçando a Humanidade ao amor fraternal; e o Espiritismo, o consolador prometido, em sua feição de cristianismo ressuscitado, que traz, por sua vez, a sublime tarefa da verdade.
             A primeira Revelação veio através de Moisés.
            E, de início, vamos saber quem era Moisés. Seu nome é de origem egípcia e quer dizer “Salvo das águas”. Ele era um judeu, criado na Corte egípcia como príncipe, pois foi encontrado recém nascido, em um cesto, às margens do rio Nilo, pela filha do Faraó.
         Seu povo eram os hebreus, que foram nesse tempo escravos dos egípcios, que os submetiam a trabalhos forçados.
          Predestinado por Deus, certo dia, movido por incrível força interior, rompe com a sua corte e se torna um líder de seu povo, empreendendo longa e árdua luta para libertá-lo do jugo egípcio, com destino à terra prometida, a Palestina. Para isso, teve que atravessar o deserto, demorando-se aí quarenta anos.
         Ocorreram nessa odisseia, rumo à terra prometida, inúmeros acontecimentos, sendo que o mais importante aconteceu junto ao Monte Sinai. Moisés ordenou para que todos se reunissem em grupos na base do monte. Subiu até o cimo e, através de sua mediunidade, recebeu de Deus o decálogo. As dez leis que constituem os dez mandamentos, e que representam um dos primeiros códigos morais da humanidade. Servindo de base e fundamento para a legislação de todos os povos, até os tempos atuais.
            Recebeu também da espiritualidade instruções para reunir setenta anciãos de Israel, dentre os que exerciam maior autoridade sobre o povo, para formar o Colégio dos Profetas.
Há dois aspectos nas leis mosaicas que nós vamos esclarecer. O que veio por inspiração divina e o que veio do legislador Moisés como lei civil ou disciplinar. A primeira delas é invariável. É a lei de Deus, que está formulada nos Dez Mandamentos, que são os seguintes:
             I – Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão. Não tereis, diante de mim, outros deuses estrangeiros. Não fareis imagem esculpida, nem figura alguma do que está em cima do céu, nem embaixo na Terra, nem do que quer que esteja nas águas sob a terra. Não os adorareis e não lhes prestareis culto soberano.
            II – Não pronunciareis em vão o nome do Senhor, vosso Deus.
            III – Lembrai-vos de santificar o dia do sábado.
           IV – Honrai a vosso pai e a vossa mãe, a fim de viverdes longo tempo na terra que o Senhor vosso Deus vos dará.
            V – Não mateis.
            VI – Não cometais adultério.
            VII – Não roubeis.
            VIII – Não presteis testemunho falso contra o vosso próximo.
            IX – Não desejeis a mulher do vosso próximo.
            X – Não cobiceis a casa do vosso próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu asno, nem qualquer das coisas que lhe pertençam.
Vamos fazer rápidas considerações a respeito desses mandamentos:
            Amar a Deus sobre todas as coisas x Materialismo: em geral, somos levados a desprezar as coisas religiosas em benefícios dos prazeres terrenos. Muitos só estão interessados em buscar o que impressiona os olhos, e não o que faz bem ao espírito. Amar a Deus não significa ficar glorificando-O o dia todo, mas sim praticar seus ensinos, fazendo ao próximo o que desejamos para nós mesmos.
            Não usar o nome de Deus em vão x Comércio Religioso: há pessoas que abusam da boa fé alheia, comercializando o céu, oferecendo o Reino de Deus. É importante analisarmos o que nos é prometido em nome de Deus, pois não há dinheiro ou promessas vãs que nos tragam a paz, mas, sim, nossa mudança sincera e a busca da caridade.
            Guardar o dia do sábado x Ociosidade: quantos de nós deixamos de frequentar a casa religiosa, seja de qual religião for, por preguiça? Temos desculpas mil. Porém, quando passamos por dificuldades, lá vamos nós correndo à casa religiosa, pedir para que resolvam nossos problemas. É necessário que tenhamos uma frequência regular à religião para que nossa vida mental esteja equilibrada, para quando vierem as dificuldades, estejamos fortalecidos para enfrentá-las, com os ânimos renovados.
            Honrar pai e mãe x Desagregação familiar: muitas vezes, acontece que os pais dão maus exemplos, sendo desatentos com a implantação no seio do lar de atos que possam unir os familiares, ocasionando aos jovens darem pouco valor à família. O diálogo é muito importante, por pior que seja o assunto. Pais e filhos precisam ter uma convivência nem muito disciplinadora, nem muito liberal. Há que haver o equilíbrio, onde deveres e direitos convivam em harmonia.
            Não matar x Vingança: matar não é só tirar a vida, mas sim ter o sentimento de vingança dentro do coração. Muitos levam uma vida triste devido à mágoa que povoa o seu coração. O perdão deve fazer parte da vida do cristão. Principalmente do espírita, que sabe que com o fim da vida material o Espírito permanece, e o ódio é levado para o além, proporcionando aos envolvidos dores e remorsos. A pena de morte é uma brutalidade. Quem a acata acaba, no mínimo, comparando-se ao infrator. A justiça humana deve ser severa e educativa, mas que não traga para si o direito de tirar a vida alheia, que só a Deus é permitido.
            Não cometer adultério x Prazer irresponsável: o interesse pelo sexo faz o ser muitas vezes perder a razão. Os mandamentos não condenam o prazer que o sexo proporciona, mas alerta para os desequilíbrios que a irresponsabilidade sexual pode nos trazer.
            Não furtar x Levar vantagem em tudo: o roubo também existe quando lesamos indiretamente o próximo, levando vantagens onde outro terá perdas.
            Não levantar falso testemunho x Língua venenosa: mentir é um hábito inerente da imperfeição humana. Existem pessoas que têm um gosto especial para aumentar o que contamos a respeito do próximo, principalmente se for algo que o denigra. É a tal da fofoca, a língua venenosa. Um grande sábio da antiguidade, o filósofo Sócrates, disse que: “Somos donos das palavras que omitimos e escravos das que proferimos”.
            Não desejar a companheira do próximo x Fornicar: novamente o sexo em questão. As paixões que vêm destruir famílias são estimuladas pelo que presenciamos em novelas e filmes, onde muitas vezes deixar a família em busca de “emoções” é visto com naturalidade. E quando vemos nossos desejos secretos, que estávamos controlando, serem apoiados, sentimo-nos incentivados e acabamos por praticá-los. O direito de buscar satisfações é legítimo, mas nossos direitos terminam quando atingimos ao próximo, ou seja, quando nossos atos trazem angústia e decepção.
            Não cobiçar as coisas alheias x Inveja e ambição desmedidas: desejar melhorias materiais, conforto, lazer, isso não é condenado. Todos podemos e devemos buscar uma situação material estável. O que se deve evitar é a inveja de quem já conquistou estas facilidades. A vida não é só constituída de prazeres terrenos. Pelo contrário, a matéria não nos traz estabilidade, pois é cercada de bons e maus momentos. O que precisamos é buscar o equilíbrio espiritual e, com isto, todo o restante nos será acrescentado, como disse Jesus.
            As outras, leis que estão no Pentateuco de Moisés, estão divididas nos seguintes livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio ou quinto livro de Moisés, e que eram apropriadas aos costumes e ao caráter do povo. Deveriam servir apenas a uma época, para comandar cerca de seiscentas mil pessoas libertadas da escravidão, e que seriam guiadas pelo deserto, à chamada “Terra Prometida”. Por isto, foi necessária a instituição de penas severas, como a “Lei de Talião”, conhecida como “olho por olho, dente por dente”, que impunha ao agressor a mesma pena que tinha feito o outro sofrer, pois o povo há cerca de três mil e setecentos anos era indisciplinado e rebelde.
            Desta forma, Moisés e suas leis impuseram e fixaram definitivamente o monoteísmo, a crença num Deus único e imaterial, noção que o povo custou a observar, mas que se manteve para sempre.
             A fim de que possamos distinguir a enorme diferença entre o aspecto divino e o aspecto humano ou civil, vamos apreciar apenas uma lei, que nos dará a dimensão exata da diferença.
           No quinto Mandamento do Decálogo, após a advertência para “Não matar” encontramos um ponto. Não mateis, e ponto final. Por este detalhe, é fácil entender que a recomendação se estende a todos os nossos irmãos, sejam eles de que nação e de que raça for. Porém, nos livros do Pentateuco Mosaico nós encontramos Moisés relatando que o espírito que ele atribui ser Deus, recomendou-lhe que matassem, enforcando a todos os que estavam se prostituindo com as filhas de Moab. Mais adiante ele diz: “Afligireis os madianitas e os ferireis. Porque eles vos afligiram a vós outros com seus enganos, com que vos enganaram no caso de Peor e no caso de Kosbi, filha do príncipe dos madianitas, que foi morta no dia da praga”. Outro: O Senhor disse a Moisés: “Exerce a vingança dos filhos de Israel sobre os madianitas”. “Deram batalha a Madian, como o Senhor tinha ordenado a Moisés, e mataram todos os varões. Mais um: Moisés convocou toda a assembleia dos filhos de Israel e disse-lhes: “O Senhor ordenou que se faça o seguinte: trabalhareis seis dias, mas o sétimo será santo para vós, dia de repouso total consagrado ao Senhor. Quem fizer qualquer trabalho nesse dia, será condenado à morte. Em nenhuma das vossas casas acendereis fogo no dia de sábado”. Ainda encontramos: Durante a sua permanência no deserto, os filhos de Israel encontraram um homem a apanhar lenha, num dia de sábado. Os que o encontraram a apanhar lenha conduziram-no à presença de Moisés e de Aarão diante de toda a congregação. Puseram-no em lugar seguro porque não fora ainda declarado o que se lhe deveria fazer. Então o senhor disse a Moisés: “Esse homem deve ser punido com a morte; toda a congregação o apedrejará fora do acampamento”. E toda a congregação o levou para fora do acampamento, apedrejando-o até morrer, como o Senhor tinha ordenado a Moisés.
        Em Levítico, 20:27 encontramos: e quanto ao homem ou a mulher em quem se mostre haver um espírito mediúnico ou um espírito de predição, sem falta devem ser mortos. Devem atirar neles pedras até morrerem. O interessante é que, mais tarde, o próprio Moisés, na condição de “morto”, aparece e conversa com Jesus, no episódio da transfiguração, sobre o Monte Tabor.
          Então, por tudo isso que foi relatado, fica evidente que aquele que incluíra entre os seus mandamentos cláusulas como: não matar; não causar dano ao vosso próximo, não poderia contradizer-se, dando ordem para matar e ordenando vingança. Por isto, a verdade está contida nos Dez Mandamentos.
Excluindo o Decálogo, todo o Velho Testamento trata das leis apropriadas para os costumes e o caráter do povo daquela época, onde a autoridade de um homem deveria apoiar-se na de Deus. Contudo, somente a ideia de um Deus terrível podia impressionar homens ignorantes, nos quais o senso moral e sentimento de uma reta justiça se encontravam pouco desenvolvidos. Racionalmente, não podemos aceitar que possamos ser regidos pelos mesmos meios que os hebreus no deserto. Quem imaginaria, por exemplo, em reviver hoje este artigo da lei mosaica: “Se um boi fere com seu chifre a um homem ou a uma mulher, e a pessoa morrer, o boi será lapidado sem remissão, e não será comida a sua carne e o dono do boi será absolvido”.
A segunda Revelação veio através de Jesus.
            Jesus nasceu no meio de um povo orgulhoso, endurecido e hipócrita, mas que já tinha inteligência e capacidade de entender as coisas. Enfrentou pesadas lutas para conseguir desempenhar a sua missão: ensinar novos conceitos ao atrasado ser humano da época, revelar-lhes o que é Deus e o que devem ser os homens uns com os outros, demonstrar os poderes do espírito, por meio da palavra.
            Com Jesus, chega ao ser humano a noção de paternidade, misericórdia e providência divina; manda o Mestre que amemos a Deus e ao próximo como meio de libertação e evolução espirituais. Jesus falou, portanto, uma linguagem radicalmente diferente daquela que Moisés empregou para os seus bárbaros patrícios.
            Ele veio ensinar aos homens que a verdadeira vida não está na Terra, mas no Mundo Maior, que Ele simbolizou como o Reino de Deus. Entretanto, não disse tudo, limitando-se a lançar o gérmen de verdades que, segundo Ele próprio o declarou, ainda não podiam ser compreendidas.
            A vinda do Cristo era aguardada com grande ansiedade pelo povo judeu, porque Moisés tinha dito que Deus enviaria um profeta igual a ele. Por isto, os judeus estavam na expectativa de um Messias guerreiro, invencível, que livrasse a Palestina dos invasores romanos e restabelecesse o poder ao povo de Israel. Como Jesus não veio como um rei, nem trouxe a espada para lutar, mas ao contrário, veio em uma família humilde, pregava o amor, não desejava nenhum poder nem posição política, ordenava que a espada fosse guardada, trouxe como apóstolos humildes pescadores, prometia a bem-aventurança aos pacificadores e aos mansos, recomendava que se perdoasse o inimigo não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete, suas palavras não tiveram muito crédito. Por isto Ele não foi aceito como o Messias, e os seus inimigos não descansaram enquanto não O crucificaram. Entretanto, Jesus nos revelou um Pai diferente, um Pai de infinito amor e misericórdia, soberanamente justo e bom, que ama a todos sem distinção.
            Jesus veio cumprir a lei de Deus, desenvolvendo-a, dando-lhe o seu verdadeiro sentido e a apropriando ao grau evolutivo alcançado, então, pelos homens. Por isso é que, na base de sua doutrina, Ele estabelece o princípio dos deveres para com Deus e para com o próximo.         Quanto às leis civis de Moisés, propriamente ditas, Ele as aboliu. E fez mais, resumiu com clareza e sabedoria os Dez Mandamentos em apenas dois, para facilitar o aprendizado e a prática das leis naturais: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento. E amarás ao teu próximo como a ti mesmo”. “Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mateus, cap. XXII vv. 36/40).
Da passagem evangélica, que é objeto do nosso estudo, vamos destacar o que a citação de Jesus quer dizer: em todo o ciclo de existência do planeta, até que o céu e a terra se anulem, ou seja, haja uma só vibração, tudo terá que evoluir de acordo com as leis divinas. E durante todo esse período nenhuma vírgula da Lei caducará, nada poderá ser omitido sem que seja cumprido. Então, toda a Lei se cumprirá até que implacavelmente tudo evolua. Isto quer dizer que, no nosso campo de provas, enquanto não demonstrarmos em ações e atitudes o aprendizado integral das leis morais, nós teremos que retornar a uma nova etapa, repetindo os exercícios, até que se cumpra cada vírgula, cada ponto. De que serviria estabelecer aquela lei, se ela viesse a constituir-se o privilégio de alguns poucos homens ou mesmo de um simples povo?
Todos os homens são filhos de Deus e são, por isso, sem nenhuma distinção entre eles, objeto da mesma atenção, da mesma solicitude da parte do Pai Celestial.
O papel de Jesus não foi simplesmente o de um legislador moralista, cuja autoridade repousasse exclusivamente em sua própria palavra. Cabia-lhe cumprir, também, as profecias que lhe anunciavam a vinda. A sua autoridade lhe vinha da natureza excepcional de seu Espírito e de sua missão divina. Ele veio fazer com que os homens aprendessem que a verdadeira vida não está sobre a Terra, mas ela se encontra no reino dos céus. Veio ensinar-lhes o verdadeiro caminho que conduz a esse reino; os meios de reconciliar-se com Deus e ensiná-los a pressentir no desenvolvimento das coisas futuras o cumprimento dos destinos humanos.
            Enquanto nós desconhecermos a interpretação espiritual dessa passagem de Jesus, vamos continuar agindo de forma inadequada nas nossas atitudes, através de nossas palavras, podendo até deixar nas entrelinhas a nossa revolta por aquilo que nos acontece. Até, que Deus é injusto. Porque nós sempre achamos que não merecíamos passar por tudo aquilo que normalmente passamos. Isto é a prova de quanto ainda não entendemos essa orientação do Cristo. Então, cada detalhe, cada vírgula da lei precisa ser compreendido e ser realizado.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1 – Por que Moisés decretou as leis civis ou disciplinares?
R – Porque se viu obrigado a conter, pelo temor, um povo turbulento e indisciplinado, no qual tinha ele de combater arraigados abusos e preconceitos, adquiridos durante a escravidão no Egito.
2 – Se Jesus não veio destruir a lei, isto é, a lei de Deus. O que veio fazer então?
R – Veio cumpri-la, ou seja, desenvolvê-la e dar-lhe o verdadeiro sentido; adaptá-la ao grau de adiantamento dos homens, pois a lei não podia mais se apoiar num sentido punitivo e sim num sentido educativo e reabilitador.
3 – Qual foi o ensinamento principal que o Cristo deu?
R – Que a verdadeira vida não é a que transcorre na Terra e sim a que é vivida no reino dos céus.
4 – O que podemos entender da frase: “Até que o céu e a terra passem, nem uma vírgula ou um til se omitirá da lei, sem que tudo esteja cumprido?”
R – Que a lei de Deus tivesse cumprimento integral. Deveria ser praticada na Terra em toda a sua pureza, com toda a extensão que se lhe possa dar e com todas as suas consequências.
CONCLUSÃO:
Daí concluirmos que todos os homens são filhos de Deus e são, por isso, sem nenhuma distinção entre eles, objeto da mesma atenção, da mesma solicitude da parte do Pai Celestial.
A lei de Deus é perfeita. Não tem contradições. Nós é que precisamos de modificações para compreendê-la. E, para isto, precisamos amadurecer espiritualmente.
O papel de Jesus não foi simplesmente o de um legislador moralista, cuja autoridade repousasse exclusivamente em sua própria palavra. Cabia-lhe cumprir, também, as profecias que lhe anunciavam a vinda. A sua autoridade lhe vinha da natureza excepcional de seu Espírito e de sua missão divina.
E o estudo desse evangelho, onde está descrita pelos evangelistas a passagem de Jesus pela Terra, com seus pensamentos, suas palavras e seus atos, nos faculta essa possibilidade. Nos auxilia na nossa modificação interior.
            Por este estudo, podemos perceber a importância da vinda do Cristo, trazendo para nós novos conceitos e uma proposta de entendimento da lei em espírito.
            Cabe a nós, agora, colocar Jesus em nosso coração e começarmos a buscar o sentido espiritual que vivifica, e não a letra que mata.
Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
 INTRODUÇÃO

PARTE IV – SÓCRATES E PLATÃO, PRECURSORES DA IDEIA CRISTÃ
E DO ESPIRITISMO

TEXTO DE APOIO:
Pelo fato de haver Jesus conhecido a seita dos essênios, é um equívoco concluir-se que a sua doutrina foi copiada dessa seita e que, se tivesse vivido noutro meio, teria professado outros princípios. As grandes jamais irrompem de súbito. As que assentam sobre a verdade sempre têm precursores que lhes preparam parcialmente os caminhos. Depois, em chegando o tempo, envia Deus um homem com a missão de resumir, coordenar e completar os elementos esparsos, de reuni-los em corpo de doutrina. Desse modo, não surgindo bruscamente, a ideia, ao aparecer, encontra espíritos dispostos a aceitá-la. Tal o que se deu com a ideia cristã, que foi pressentida muitos séculos antes de Jesus e dos essênios, tendo por principais precursores Sócrates e Platão.
Sócrates, como o Cristo, nada escreveu, ou, pelo menos, nenhum escrito deixou. Como o Cristo, teve a morte dos criminosos, vítima do fanatismo, por haver atacado as crenças que encontrara e colocado a virtude real acima da hipocrisia e do simulacro das formas; por haver, numa palavra, combatido os preconceitos religiosos. Do mesmo modo que Jesus, a quem os fariseus acusavam de estar corrompendo o povo com os ensinamentos que lhe ministrava, também ele foi acusado, pelos fariseus do seu tempo, visto que sempre os houve em todas as épocas, por proclamar o dogma da unidade de Deus, da imortalidade da alma e da vida futura. Assim como a doutrina de Jesus só a conhecemos pelo que escreveram seus discípulos, da de Sócrates só temos conhecimento pelos escritos de seu discípulo Platão.
Neste quarto e último item da introdução de o Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec cita vinte e um pontos da doutrina de Sócrates e Platão, mostrando sua identidade com o Cristianismo e com o Espiritismo. Destaca que as grandes ideias não surgem de repente. O progresso da Humanidade é lento e gradual. Como nós já sabemos, a natureza não dá saltos.
As ideias que se baseiam na verdade, sempre tem alguém que lhes preparam o terreno e plantam a semente da ideia. Após a semeadura, ao chegar o momento da germinação, Deus envia um homem com a missão de coordenar e completar os elementos dispersos. Assim, também aconteceu com os princípios cristãos. Quinhentos anos antes de Jesus Cristo, e trezentos e cinquenta anos antes dos essênios, Sócrates defendia princípios muito semelhantes com a doutrina de Jesus. Sócrates, grandiosa figura na Atenas antiga, era considerado superior a Anaxágoras, seu mestre. O grande filósofo que ensinara à Grécia as mais belas virtudes, como precursor dos princípios cristãos, deixou vários discípulos, dos quais se destacaram Antístenes, Xenofonte e Platão, sendo este o mais fiel. Sócrates, nas praças públicas, ensinara à infância e à juventude o famoso ideal da fraternidade e da prática do bem, lançando as sementes generosas da solidariedade para as gerações futuras. Sócrates não deixou nenhum escrito. O que chegou ao nosso conhecimento da filosofia socrática foi realizado pelo seu discípulo Platão, que teve a felicidade de anotar as coisas que foram ensinadas pelo seu mestre. Platão, nascido Arístocles, recebeu esse apelido por causa de seu porte atlético. Quando conheceu Sócrates, estava com dezoito anos de idade, tendo-o acompanhado durante dez anos, até 399 a.C., quando Sócrates morreu. Atenas, como cérebro do mundo de então, apesar do seu vasto progresso, não conseguiu suportar a lição avançada do grande mensageiro de Jesus. Sócrates foi acusado de perverter os jovens atenienses. Preso e humilhado, seu espírito generoso não se acovarda diante das provas rudes que lhe extravasam do cálice de amarguras. Consciente da missão que trazia, recusa fugir do próprio cárcere, cujas portas se lhe abriram às ocultas pela generosidade de alguns juízes. E quando a esposa, Xantipa, surgiu junto às grades da prisão para comunicar-lhe a nefanda condenação à morte pela cicuta no auge da angústia e desesperação, responde o filósofo resignadamente: “Que tem isso? Eles também estão condenados pela natureza”. Como Jesus, Sócrates também foi morto, porque combatia a hipocrisia.
Sua existência e suas ideias, em algumas circunstâncias, eram muito parecidas com as de Jesus. Professava que bastava conhecer o bem para praticá-lo, e que, por conseguinte, a virtude é ciência e o vício ignorância. Daí a razão porque Sócrates tinha a convicção de que aquele que é mau, o é porque não sabe. Proclamava a unidade de Deus, a imortalidade da alma e a vida futura. E dessa similitude Kardec destaca itens que falam da imortalidade da alma, da reencarnação, da comunicação espiritual e da conduta de vida. Certamente, se não soubéssemos que esses ensinamentos são de Sócrates, poderíamos até pensar que se trata de ideias cristãs. E, Kardec, ainda diz mais: que encontramos nos seus ensinamentos os princípios fundamentais do Espiritismo.
Kardec faz um resumo da doutrina de Sócrates e Platão, e nós vamos apreciar somente alguns itens dessa doutrina:
I – O homem é uma alma encarnada. Antes da sua encarnação, existia unida aos tipos primordiais, às ideias do verdadeiro, do bem e do belo; separa-se deles, encarnado, e, recordando o seu passado, é mais ou menos atormentada pelo desejo de voltar a ele.
Temos nesse pensamento um enunciado de independência entre o princípio inteligente e o princípio material. E, além disso, fica evidenciada uma doutrina de preexistência da alma, que guarda uma vaga intuição de um outro mundo, a que aspira; da sua sobrevivência ao corpo; da sua saída do mundo espiritual, para encarnar, e da sua volta a esse mesmo mundo, após a morte. Em outras palavras, trata-se da lei da reencarnação, que é uma lei natural, uma lei de Deus.
Entendemos, então, que a alma não se limita a ser entendida como o princípio da vida, mas também como o princípio de conhecimento.
II – A alma se transvia e perturba, quando se serve do corpo para considerar qualquer objeto; tem vertigem, como se estivesse ébria, porque se prende a coisas que estão, por sua natureza, sujeitas a mudanças.
Assim, o homem ilude a si mesmo ao considerar as coisas de modo terra-a-terra, ou seja, do ponto de vista material. Para as apreciar com justeza, tem de as ver do alto, isto é, do ponto de vista espiritual. Por este motivo, nós temos que nos libertarmos de todas as ilusões. Pois, a vida nos oferece inúmeras ilusões, que nos puxam para baixo, na maioria das vezes.
III – Enquanto tivermos o nosso corpo e a alma se achar mergulhada nessa corrupção, nunca possuiremos o objeto dos nossos desejos, a verdade. Com efeito, o corpo faz aparecer mil obstáculos pela necessidade em que nos achamos de cuidar dele. Além disso, ele nos enche de desejos, de apetites, de temores, de mil fantasias e de mil tolices, de maneira que, com ele, impossível se nos torna ser ajuizados, sequer por um instante.
Temos, então, nesse item, o princípio das faculdades da alma, obscurecidas por motivo dos órgãos corporais, e o da expansão dessas faculdades depois da morte.
V – Após a nossa morte, o gênio (daimon, demônio), que nos fora designado durante a vida, leva-nos a um lugar onde se reúnem todos os que devem ser conduzidos ao Hades, para serem julgados. As almas, depois de haverem estado no Hades o tempo necessário, são reconduzidas a esta vida em múltiplos e longos períodos.
Vejam bem! Neste trecho, nós temos mais um encontro com a Doutrina Espírita. Kardec explica que é a doutrina dos anjos guardiões, ou espíritos protetores, e das reencarnações sucessivas, em seguida a intervalos mais ou menos longos de erraticidade.
VI – Os demônios ocupam o espaço que separa o céu da Terra; constituem o laço que une o Grande Todo a si mesmo. Não entrando nunca a divindade em comunicação direta com o homem. É por intermédio dos demônios que os deuses entram em comércio e se entretêm com ele, quer durante a vigília, quer durante o sono.
Aqui, Kardec explica que a palavra daimon, da qual se originou demônio, escrita por Platão, não era tomada no mau sentido, na antiguidade, como nos tempos modernos. Ela não designava exclusivamente seres malfazejos, mas todos os espíritos, em geral, dentre os quais se destacavam os Espíritos superiores, chamados deuses, e os menos elevados, ou demônios propriamente ditos, que se comunicavam diretamente com os homens. Também o Espiritismo diz que os Espíritos povoam o espaço. Então, podemos entender que as palavras demônio e espírito são sinônimos. Porém, hoje em dia, quando se fala em demônio fala-se de uma coisa ruim, porque a palavra perdeu o seu verdadeiro sentido.
Nos dias de hoje, muitas pessoas tem medo do demônio, sem considerarem, na sua ignorância doutrinária, de que, elas mesmas são demônios possuindo um corpo.
VII – A preocupação constante do filósofo, tal como compreendiam Sócrates e Platão, é a de ter maior cuidado com a alma, menos pelo que diz respeito a esta vida, que é apenas um instante, do que tendo em vista a eternidade. Desde que a alma é imortal, não será prudente viver visando à eternidade?
O Cristianismo e o Espiritismo ensinam a mesma coisa. Arremata Kardec.
IX - Se a morte fosse a dissolução total do homem, isso seria de grande vantagem para os maus que, após a morte, estariam livres ao mesmo tempo, do corpo, da alma e dos vícios.
Isto equivale dizer que o materialismo decretando para depois da morte o nada, anula toda responsabilidade moral futura, sendo, portanto, um incentivo para o mal. Seria muito cômodo, cometermos dezenas de crimes e todos eles ficarem impunes.
X – O corpo conserva bem marcados os vestígios dos cuidados que se teve com ele e dos acidentes que sofreu. Acontece o mesmo com alma. Quando ela se desliga do corpo, ela conserva, evidentes, os traços do seu caráter, de suas afeições e as marcas que cada um dos seus atos lhe deixou.
Encontramos, aqui, outro ponto capital, confirmado nos dias de hoje pela ciência e pelo estudo, o de que a alma não depurada conserva as ideias, as tendências, o caráter e as paixões que teve na Terra.
XI – De duas uma: ou a morte é uma destruição absoluta, ou é passagem da alma para outro lugar. Se tudo tem de extinguir-se, a morte será como uma dessas raras noites que passamos sem sonhar e sem nenhuma consciência de nós mesmos. Mas, se a morte é apenas uma mudança de morada, a passagem para o lugar onde os mortos devem se reunir, que felicidade nossa reencontrar lá os nossos conhecidos.
Kardec comenta que: se Sócrates e Platão tivessem conhecimento dos ensinos que o Cristo difundiu, quinhentos anos mais tarde, e os que agora o Espiritismo espalha, não teriam falado de outro modo. Não há nisso, entretanto, o que surpreenda, se considerarmos que as grandes verdades são eternas e que os Espíritos adiantados hão de tê-las conhecido antes de virem à Terra, para onde as trouxeram. Esse é um dos pontos mais cheios de esperança da Doutrina Espírita.
XII – Não se deve nunca retribuir uma injustiça com outra, nem fazer mal a ninguém, seja qual for o dano que nos tenham causado. Poucas pessoas, no entanto, admitem esse princípio, e as que não concordam com ele só podem usar de desprezo uma às outras.
Reconhecemos nesse trecho o princípio de caridade, que prescreve não retribuir o mal com mal e o perdão das ofensas, que Jesus nos ensinou.
Para Platão, a ideia mais importante é a do bem, porque constitui a natureza de Deus, criador soberano.
XIII – É pelos frutos que se conhece a árvore. É necessário qualificar cada ação segundo o que ela produz.
Mais uma vez, nós encontramos aqui palavras de Jesus, adiantadas pelos ensinos de Sócrates.
XVII – A virtude não pode ser ensinada; vem por dom de Deus aos que a possuem.
Este trecho foi um pouco confundido quando se criou a doutrina cristã da graça. Ora, se a virtude é um dom de Deus, é um favor que Ele faz, por que essa benesse não é concedida a todos? Por outro lado, se é um dom, carece de mérito para aquele que a possui.
Kardec, no seu comentário, diz que o Espiritismo é mais explícito, ao afirmar que aquele que possui a virtude a adquiriu por seus esforços, em existências sucessivas, despojando-se pouco a pouco de suas imperfeições.
Então, nós podemos concluir que, se nós recebêssemos virtudes, ou seja, os dons, conhecimentos, sem nenhum esforço haveria aí uma certa injustiça. Nós aprendemos que existe uma consequência para as nossas virtudes; se elas forem más, se elas forem erradas, a consequência será dolorosa. É a lei de causa e efeito atuando. Nós não podemos receber simplesmente de mão beijada uma consequência boa, se nós fizermos coisas más, danosas.
Na doutrina da graça é diferente; se a pessoa fez uma coisa má, mas de repente ela se confessa crente em Deus, e que aceita Jesus, ela recebe a graça de ficar purificada de suas atitudes ruins, de seus erros. Então, nós poderíamos dizer que essa doutrina da graça é uma doutrina de injustiças, porque nega o nosso mérito na correção das coisas erradas que fizemos. Deus nos criou à sua imagem, ou seja, sem erros e sem culpas, e ignorantes, para que o mérito da aquisição de sabedoria fosse todo nosso.
XXI – Ajuizado serás, não supondo que sabes o que ignoras.
A sabedoria está em não pensar que sabe aquilo que não sabe. Podemos entender um recado para aqueles que criticam as coisas que, frequentemente, nada sabem. E Platão completa esse pensamento de Sócrates dizendo: “Tentemos, primeiro, torná-los, se for possível, mais honestos nas palavras; se não o forem, não nos preocupemos com eles e não procuremos senão a verdade. Cuidemos de instruir-nos, mas não nos injuriemos”.
Kardec encerra esse capítulo dando uma orientação, no sentido de que os espíritas devem proceder assim com relação aos seus contraditores de boa ou má fé.
QUESTÃO PARA REFLEXÃO
1 – Sendo Jesus um espírito de tão grande envergadura, por que haveria de enviar Sócrates e Platão para serem seus precursores?
R – Da mesma forma que temos que arar o terreno para receber a nova semente que irá produzir frutos, as grandes ideias terão uma maior receptividade das pessoas se houver precursores que lhe preparam o solo. Jesus, portanto, utilizou precursores para que sua encarnação na terra pudesse ser melhor compreendida entre os homens. Apesar de termos visto tanta iniquidade, tanta falta de compaixão, sabemos que os primeiros cristãos davam sua vida pelo ideal do amor. Isto se deve, justamente, aos corações já preparados para receber a palavra do Cristo.
CONCLUSÃO
Apesar de Sócrates nada ter deixado escrito, podemos conhecer sua doutrina através dos escritos de Platão. E, se a analisarmos, verificamos que existem diversos pontos em comum com os preceitos da Doutrina Espírita. Conforme sabemos, as grandes ideias jamais irrompem de súbito, portanto, devemos considerá-los como os precursores dessa doutrina.
Quando nós começamos a descobrir os ensinamentos de Jesus encontramos, como seria natural, dificuldade. Por isto, temos que ir aprendendo passo a passo, uns com os outros, procurando ouvir dos nossos irmãos mais experientes, que chegaram à doutrina primeiro do que nós, aquilo que necessitamos para o nosso esclarecimento.
A Doutrina Espírita é tão bonita, tão completa que, ao descobrirmos as verdades, nasce em nós um desejo muito grande de passar para as outras pessoas os nossos conhecimentos. Ora, se uma inteligência, generosamente, nos proporciona a oportunidade de aprender, é justo que também nós, generosamente, passemos adiante esse ensinamento, pelo qual nada pagamos.
Desse estudo que fizemos sobre a introdução ao Evangelho Segundo o Espiritismo, podemos retirar também que Sócrates, os essênios e outros mais vieram com a missão de preparar o terreno e plantar a semente, para que, quando Jesus chegasse, fosse mais fácil a propagação de suas idéias. E olha que a missão do Cristo foi bem difícil. Vamos imaginar se não tivesse tido esses precursores.
O nosso estudo prosseguirá, a partir da próxima lição, abordando todos os capítulos desse Evangelho, de uma forma gradativa e sistemática, para compreendermos os ensinamentos trazidos pelo Mestre Jesus, tendo sempre em mente a fé raciocinada, para podermos aceitá-los pela nossa razão, a fim de buscarmos a nossa transformação íntima, a nossa transformação moral, tão necessária para a nossa evolução.
Muita Paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
 INTRODUÇÃO

PARTE III – NOTÍCIAS HISTÓRICAS

TEXTO DE APOIO:
            Nessa terceira parte da introdução, nós vamos apreciar as definições de muitas palavras que são frequentemente empregadas pelos evangelistas no relato das passagens evangélicas que nos deixaram e que caracterizam os costumes da sociedade judia daquela época.
            Para que se possa interpretar corretamente o sentido desses textos há a necessidade de se compreender o significado de algumas palavras que, quando mal interpretadas, geram dúvidas quanto ao seu entendimento e, ao mesmo tempo, criam dificuldades na compreensão do sentido de certas máximas, que chegam até parecer estranhas.
            Ao estudarmos essas lições devemos nos colocar na cultura da época, tendo sempre em mente o grau de adiantamento do povo, sua linguagem e seus costumes, senão as passagens evangélicas podem perder todos os seus sentidos.
            Allan Kardec inicia essa parte da introdução esclarecendo quem eram os Samaritanos, muitas vezes referidos no Novo Testamento, inclusive por Jesus.
            Os samaritanos eram os naturais de Samaria, cidade sob domínio romano, que foi destruída e reconstruída numerosas vezes. Herodes, chamado o grande, a embelezou com suntuosos monumentos. Samaria se constituiu numa das quatro divisões da Palestina.
Os samaritanos estiveram quase sempre em guerra com os reis de Judá. Uma aversão profunda, datando da época da separação das dez tribos que compunha o reino de Israel, perpetuou-se entre os dois povos, que se esquivavam a todas as formas de relações recíprocas. Os samaritanos, para tornarem a cisão mais profunda e não terem de ir a Jerusalém para a celebração das festas religiosas, construíram um templo próprio e adotaram certas reformas. Admitiam somente o Pentateuco, que contém a lei de Moisés, e rejeitavam todos os demais livros que lhe haviam sido posteriormente anexados. Seus livros sagrados eram escritos em caracteres hebraicos da mais alta antiguidade.
 O antagonismo das duas nações, Samaria e Judá, tinha como único princípio a divergência de opiniões religiosas, embora as duas crenças tivessem a mesma origem. Para os judeus ortodoxos, os samaritanos eram heréticos. E, por isso mesmo, eram desprezados e perseguidos. Os samaritanos só se casavam entre eles.
Outra referência é sobre os nazarenos. Judeus que faziam votos, por toda a vida ou por algum tempo, de conservarem-se em pureza perfeita; adotavam a castidade, a abstinência de bebidas alcoólicas e não cortavam os cabelos. Sansão, Samuel, João Batista, dentre outros, eram nazarenos. Mais tarde os judeus deram esse nome aos primeiros cristãos, por alusão a Jesus de Nazaré.
Esse foi, também, o nome de uma seita herética (ateia) dos primeiros séculos da era cristã. E, à semelhança dos ebionitas, adotavam certos princípios misturando as práticas mosaicas aos demais dogmas cristãos. Essa seita desapareceu no quarto século.
Agora, nós vamos tratar do vocábulo Publicano, inúmeras vezes usado nos textos evangélicos e sobre o qual Kardec assim se pronunciou: eram assim chamados, na Roma antiga, os cavaleiros arrendatários das taxas públicas, encarregados da cobrança dos impostos e das rendas de toda espécie, fosse na própria Roma ou em outras partes do Império. Os riscos a que estavam sujeitos faziam que se fechassem os olhos para as riquezas que muitas vezes adquiriam, que, para muitos, eram produtos de cobrança e de lucros escandalosos. O nome publicano foi estendido mais tarde a todos os que lidavam com dinheiro público e aos seus agentes subalternos. Hoje, a palavra é empregada em sentido pejorativo para designar os negociantes e seus agentes pouco escrupulosos. É comum dizer-se: ávido (avarento; insaciável) como um publicano; rico como um publicano, referindo-se à fortuna de má procedência.
Kardec esclarece ainda que, durante a dominação romana, o imposto foi o que os judeus mais dificilmente aceitaram e o que mais causava irritação entre eles. Daí nasceram várias revoltas, fazendo-se do caso uma questão religiosa, por ser considerada contrária à lei. Chegaram mesmo a formar um partido poderoso que tinha como chefe um certo Judá, chamado o gaulonita, que estabelecera como princípio o não pagamento do imposto. Como vimos, os judeus tinham horror ao imposto e, por conseqüência, a todos os que se encarregavam de arrecadá-lo. Esse o motivo de sua aversão pelos publicanos. Os judeus bem considerados julgavam comprometer-se ao manter relações com eles. É por essa razão que encontramos freqüentemente no evangelho o nome publicano ligado à designação de gente de má vida. Era um termo de desprezo, sinônimo de gente de má companhia, gente indigna de conviver com pessoas de bem. Convém ressaltar que essa qualificação não fazia alusão aos dissolutos (libertinos) e aos vagabundos
A palavra a seguir é Portageiros, que não é muito empregada pelos evangelistas e muito menos pelos autores que os sucederam. A respeito dela Kardec diz o seguinte: eram os cobradores de baixa categoria, encarregados de receber a peagem, ou seja, a cobrança dos direitos de entrada nas cidades. Suas funções correspondiam mais ou menos à dos funcionários aduaneiros e dos cobradores de taxas sobre mercadorias. Sofriam também a reprovação aplicada aos publicanos em geral. Eram também conhecidos como peageiros.
Outra expressão muito mencionada nos evangelhos e nos demais livros do Novo Testamento é Fariseu, cujo sentido precisa ficar bem conhecido, para que possamos compreender corretamente os ensinamentos deixados por Jesus, uma vez que o próprio Jesus tantas vezes a usou. Kardec nos diz: a tradição constituía parte importante da Teologia (tratado de Deus) judaica. Consistia na reunião das interpretações sucessivas dadas aos trechos das Escrituras, que se haviam transformado em artigos de dogma, ou seja, cada um dos pontos fundamentais e indiscutíveis de uma crença religiosa. Isto era, entre os doutores, motivo de discussões intermináveis, na maioria das vezes, sobre simples questões de palavras ou de formas, à semelhança das disputas teológicas e das sutilezas da Escolástica (filosofia que se ensinava na Idade Média). Daí surgirem diferentes seitas que pretendiam cada qual o monopólio da verdade, detestando-se umas às outras. Noutras palavras: os judeus, os chamados doutores da lei, freqüentemente se achavam em divergência quanto à interpretação de determinados trechos das escrituras e por isso se dividiram em diferentes seitas. Entre essas seitas a mais influente era a dos fariseus, que se originou há dois séculos antes de Cristo. Eles eram líderes de um movimento para trazer o povo de volta a uma submissão estrita à palavra de Deus e eram considerados como os servos mais espirituais e devotos de Deus. Seguiam não somente a lei escrita de Deus, mas também as tradições orais que lhes tinham sido passadas. Eles acreditavam que ambas eram a vontade de Deus. Jesus não seguiu as tradições deles. Tinha como chefe Hillel, não confundir com seu homônimo que viveu duzentos anos mais tarde e estabeleceu os princípios religiosos e sociais de um sistema todo de tolerância e amor, sistema hoje conhecido por Hilelismo. Hillel era doutor judeu, nascido na Babilônia, fundador de uma célebre escola onde se ensinava que a fé só era dada pelas Escrituras.
Durante o período em que Jesus viveu na terra a influência dos fariseus era muito grande, pois desempenhavam papel ativo nas controvérsias religiosas. Servis cumpridores das práticas exteriores do culto e das cerimônias, e cheios de ardoroso proselitismo, inimigos das inovações, fingiam ter grande severidade de princípios. Mas, sob as aparências de meticulosa devoção, escondiam costumes dissolutos (libertinos; devassos), muito orgulho e, sobretudo, excessivo desejo de dominação. A religião para eles era mais um meio de chegarem às suas finalidades do que como objeto de uma fé sincera. Apresentavam apenas exterioridade e ostentação de virtudes, e com isso exerciam grande influência sobre o povo, a cujos olhos passavam por santas criaturas. Daí o motivo de serem muito poderosos em Jerusalém. Acreditavam, ou pelo menos fingiam acreditar na providência, na imortalidade da alma, na eternidade das penas e na ressurreição dos mortos. Jesus que, acima de tudo, prezava a simplicidade e as qualidades do espírito que vivifica à letra que mata, se aplicou durante toda a sua missão a desmascarar essa hipocrisia, e em conseqüência os transformou em encarniçados inimigos. Por esta razão os fariseus se uniram aos príncipes dos sacerdotes para amotinar o povo contra o Cristo e sacrificá-lo.
Os fariseus em diversas épocas foram perseguidos, especialmente por Hircano, soberano pontífice e rei dos judeus, Aristóbulo e Alexandre, rei da Síria. Mas, em determinado momento da História recuperaram o poder e o conservaram até a ruína de Jerusalém, no ano 70 da era cristã, quando os judeus se dispersaram e o seu nome desapareceu.
A palavra seguinte é Escriba, nome dado, a princípio, aos secretários dos reis de Judá e certos intendentes dos exércitos judeus. Mais tarde essa designação foi aplicada especialmente aos doutores que ensinavam a lei de Moisés e a interpretavam para o povo. Faziam causa comum com os fariseus, participando dos seus princípios e de sua aversão aos inovadores. Daí, porque Jesus os envolve na mesma reprovação que fazia aos fariseus. Um dos famosos sermões do Cristo consistiu em séria advertência aos escribas e fariseus, que ofereciam tremendo obstáculo à divulgação da mensagem que Ele, Jesus, trazia à humanidade. Nesse sermão, o Mestre criticou os escribas e fariseus, chamando-os de hipócritas. E recomendou aos que o ouviam para que fizessem aquilo que eles ordenassem, mas que não agissem em consonância com o que eles praticavam, uma vez que eles estavam muito distanciados da exemplificação do que ensinavam.
Já foi dito que, entre os intérpretes das escrituras formaram-se diferentes seitas, que pretendiam ter o monopólio da verdade, e uma delas foi a dos Saduceus. Seita judaica que se formou por volta do ano 248 antes de Cristo, e cujo nome teve origem no nome do seu fundador, Sadoc. Não acreditavam na imortalidade da alma, nem na ressurreição ou na existência dos anjos bons e maus. Apesar disso, acreditavam em Deus, e embora nada esperassem após a morte, serviam-no com interesse de recompensas temporais, ao que, segundo eles, se limitava a providência divina. A satisfação dos sentidos físicos era para eles o objetivo principal da vida. Quanto às escrituras, apegavam-se ao texto da antiga lei, não admitindo nem tradição, nem qualquer outra interpretação. Colocavam as boas obras e a observância pura e simples da lei acima das práticas exteriores do culto. Como podemos observar, eram os materialistas, os deistas (que crêem em Deus, mas rejeitam a revelação) e os sensualistas (que acreditam que as fontes sensoriais são a origem de todos os fenômenos intelectuais) da época. Seita pouco numerosa, mas que contava com personagens importantes, tornando-se um partido político em oposição aos fariseus.
Outra palavra muito empregada nos evangelhos é sinagoga, que na língua grega significa assembléia, congregação. Na Judéia só existia um Templo, o de Salomão, situado em Jerusalém, onde se celebravam as grandes cerimônias do culto. Todos os anos os judeus se dirigiam a ele em peregrinação, para as festas principais, como a de páscoa, da dedicação e a dos tabernáculos. Por ocasião dessas festas é que Jesus costuma ir à Jerusalém. As demais cidades não tinham templos, mas sinagogas que eram locais onde os judeus se reuniam aos sábados para fazerem as suas preces públicas sob a direção dos Anciãos, dos Escribas e dos Doutores da Lei. Ali se faziam também a leitura dos livros sagrados, seguidas de comentários e explicações. Cada um podia participar e foi por isso que Jesus, sem ser sacerdote, ensinava nas sinagogas.
A próxima palavra a ser apreciada é Essênios, que se constituíam em mais uma das muitas seitas judaicas. Fundada por volta do ano 150 antes de Cristo.Seus membros moravam em construções semelhantes a mosteiros e formavam uma espécie de associação moral e religiosa. Distinguiam-se pelos costumes suaves e as virtudes austeras, ensinando o amor a Deus e ao próximo, a imortalidade da alma, e crendo na ressurreição. Eram celibatários (não se casavam), condenavam a escravidão e a guerra, tinham bens em comum e se entregavam à agricultura. Não tinham nenhuma participação nas disputas dos Saduceus e Fariseus. Aproximavam-se por seu gênero de vida dos primeiros cristãos, e os princípios de moral que professavam levaram algumas pessoas a supor que Jesus fizera parte dessa seita, antes do início de sua missão pública. Ele devia conhecê-la, mas nada prova que fosse filiado a ela. Tudo quanto tenha se escrito a respeito é hipotético.
Por fim, a palavra Terapeutas. Embora não seja muito encontrada nos evangelhos, é destacada por Allan Kardec. Eram adeptos do judaísmo, contemporâneos do Cristo. Estabelecidos principalmente em Alexandria, no Egito. Tinham intensas relações com os Essênios, cujos princípios adotavam, e como eles se davam à prática de todas as virtudes. Eram de extrema frugalidade na alimentação, voltados ao celibato, à contemplação e à vida solitária, constituindo uma verdadeira ordem religiosa.
Kardec conclui o seu comentário sobre os Terapeutas esclarecendo que Filon, filósofo judeu platônico, de Alexandria, foi o primeiro a falar dos Terapeutas, considerando-os uma seita. Eusébio, S. Jerônimo e outros pais da Igreja pensavam que eles eram cristãos. Quer tenham sido judeus ou cristãos, é evidente que, como os Essênios, representaram um traço de união entre o judaísmo e o cristianismo.
Kardec achou necessário conhecermos o sentido dessas palavras, para podermos compreender melhor certos trechos dos Evangelhos, que vamos estudar posteriormente.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1 – Quem eram os fariseus e por que Jesus se opunha tanto a eles?
R – Eram um grupo religioso que seguia não somente a lei de Deus, mas também as tradições orais que lhes tinham sido passadas. Jesus lhes mostrou que, guardando a tradição, eles na realidade quebravam a palavra de Deus.
2 – Por que Jesus condenou os fariseus?
R – Pelo interesse deles em impressionar os outros, como chamar atenção para fazê-los parecer mais religiosos. Eles limpavam minuciosamente o exterior, ou seja, a parte que as pessoas podiam ver, mas negligenciavam com a parte interior. Eram falsos, portanto.
CONCLUSÃO DO ESTUDO:
Para melhor compreensão das passagens bíblicas, faz-se necessária uma série de informações históricas. Por isto, o codificador da Doutrina Espírita, com o seu comprovado bom senso, e inspirado pelos Espíritos, fez essa compilação simples e ao alcance de todos.
            Dessa forma, alguns trechos bíblicos que, anteriormente, passavam despercebidos por muitos, puderam ser bem compreendidos.
Muita paz!
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
 INTRODUÇÃO

PARTE II – AUTORIDADE DA DOUTRINA ESPÍRITA
CONTROLE UNIVERSAL DOS ENSINOS DOS ESPÍRITOS

TEXTO DE APOIO:
            “Se a Doutrina Espírita fosse de concepção puramente humana, não ofereceria por penhor senão as luzes daquele que a houvesse concebido”.
            “Se os Espíritos que a revelaram se houvessem manifestado a um só homem, nada lhe garantiria a origem, porquanto fora mister acreditar, sob palavra, naquele que dissesse ter recebido deles o ensino”.
            “O Espiritismo não tem nacionalidade e não faz parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo”.
            “Milhares de vozes se fazem ouvir simultaneamente em todos os recantos do planeta, proclamando os mesmos princípios e transmitindo-os aos mais ignorantes, como aos mais doutos, a fim de que não haja deserdados”.
            “Uma só garantia bastaria para o ensino dos Espíritos: a concordância que haja entre as revelações que eles façam espontaneamente, servindo-se de grande número de médiuns estranhos uns aos outros e em vários lugares”.
            Nós já sabemos que o estudo da introdução de qualquer livro é fundamental, para o entendimento da própria obra. Agora vamos destacar os objetivos maiores da introdução desse Evangelho, para que possamos estudá-lo: nos inteirarmos do conteúdo da obra; verificarmos o aspecto religioso e a consequência moral da Doutrina Espírita, já que vamos observar uma doutrina científica, que faz uma proposta filosófica. O livro dos médiuns nos dá a parte científica, nos mostrando a metodologia de experimentação. O Evangelho Segundo o Espiritismo nos dá o caráter religioso. E, por último, compreendermos os pontos básicos da Doutrina Espírita, que vão nos auxiliar no estudo do Espiritismo.
            Nessa parte da introdução, Allan Kardec nos fala da autoridade da Doutrina Espírita, já que muitos opositores e difamadores dessa doutrina questionam essa autoridade, porque não veem nela tal condição para falar de situações que Jesus não havia abordado. Mas nós sabemos que Jesus abordou, sim. Só que de uma forma indireta, através de parábolas, numa linguagem simbólica. Somente estudando essa introdução nós vamos ter a oportunidade de entender o porquê das aparentes contradições, e ter o fundamento necessário para defender a nossa doutrina e mostrarmos a sua autoridade. Para isso, é preciso que façamos um estudo aprofundado das obras basilares da codificação. Estudando repetidamente, pacientemente e ordenadamente, criando uma rotina, no sentido de nos disciplinarmos, reservando um tempo para esse estudo, para podermos obter subsídios para que as nossas interpretações se aproximem o máximo possível da verdadeira orientação que o mestre Jesus passou para nós. Obviamente, guardadas as devidas proporções, em virtude do nosso estágio moral, ainda deficiente. Logicamente, nós temos que tomar em consideração os textos oferecidos. Como toda a linguagem nos foi transmitida por meio de parábolas, nós temos duas possibilidades de interpretação. A interpretação ao pé da letra e a interpretação em espírito.
            Fazendo esse estudo aprofundado, nós chegaremos aos verdadeiros conceitos da obra, e teremos condições, antes mesmo de iniciarmos o estudo do primeiro capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, para percebermos a importância da Doutrina Espírita, devido as consequências morais que o Espiritismo nos oferece, já que ele é o cristianismo redivivo.
            Essa segunda parte da introdução talvez seja a mais importante, porque aborda dois aspectos que dão ao Espiritismo credibilidade e respeito necessários.
            No primeiro parágrafo, Kardec diz que se a Doutrina Espírita fosse uma criação humana, não teria como garantia senão as luzes daquele que a tivesse concebido. Daí, nós podemos concluir que a Doutrina Espírita não é uma criação humana. E isso confirma um dos requisitos necessários para que essa doutrina possua autoridade. E seja de fato o Consolador prometido. A autoridade da doutrina foi dada pelo seu orientador, que é Jesus Cristo, e foi trazida até nós por uma legião de Espíritos, distribuídos por diversas nacionalidades e classes sociais. Dessa forma, e com esse caráter universalista, surge a força do Espiritismo. E esses Espíritos que participaram da confecção da doutrina, restabeleceram em espírito, as verdades que o Cristo nos trouxe há quase dois mil anos. Então, nós já sabemos que a doutrina não é de concepção humana. Que ela provém dos espíritos. Porém, só isso não é suficiente. Faz-se necessário que essas informações não venham de um único espírito, porque um único espírito não oferece garantia alguma. É preciso que venham de vários espíritos. Mesmo assim, comunicando mensagens idênticas em conteúdo e por vários médiuns, de casas espíritas diferentes e, se possível, de locais diferentes. Só assim é que teremos a certeza da seriedade da informação. Por isso é que Kardec diz que só existe uma garantia séria para o ensino dos espíritos, a concordância que haja entre as revelações feitas espontaneamente e servindo-se de grande número de médiuns, estranhos uns aos outros, e em vários lugares. O Codificador só mencionou algo como verdadeiro, após ter sido divulgado em diversas comunicações, distribuídas por vários médiuns, e em diversas cidades, depois de ser analisado e ter passado pelo crivo da razão. Aí, sim, foi dado como verdade. Então, por tudo que já aprendemos, podemos constatar que a autoridade da doutrina procede dos ensinamentos de Jesus.
            Nesse outro item que vamos estudar, o controle universal dos ensinos dos espíritos, a metodologia é de caráter científico, que retira as dúvidas à cerca da seriedade e da superioridade dos espíritos comunicantes. São fatores fundamentais para que nós possamos levar a sério as orientações, as explicações e as interpretações desses espíritos, com relação às citações bíblicas. Com esse estudo aliado ao estudo do livro dos médiuns, nós vamos retirar da doutrina tudo aquilo que ela pode nos oferecer, para facilitar a nossa compreensão sobre o que Jesus passou e, consequentemente, conseguirmos colocá-la em prática, num outro momento. Se nós observarmos bem, vamos ver que com esse estudo que estamos fazendo, ficaremos resguardados das possíveis mistificações, que é um obstáculo no nosso estágio moral. Também podemos entender a diferença entre a fidelidade doutrinária, que é imprescindível e a ortodoxia, que é fidelidade com qualquer doutrina ao pé da letra, ou seja, a intransigência, a intolerância. O ortodoxo é aquele que não abre mão, em hipótese nenhuma, de que as interpretações deverão ser as mesmas. É sectário; é autoritário. Desde que não seja exatamente como ele deseja, na forma e não no conteúdo, ele não aceita. Já a fidelidade doutrinária é diferente. Ela elimina a forma ao pé da letra, valorizando o conteúdo. É preciso, portanto, ao adotarmos como princípio moral que rege as nossas existências a Doutrina Espírita, estar em perfeito acordo e em perfeita harmonia com os princípios básicos dessa doutrina.
            Um exemplo de fidelidade doutrinária é Paulo de Tarso. Enquanto Saulo perseguia os cristãos, porque acreditava cegamente que aqueles conceitos das Sagradas Escrituras eram realmente o verdadeiro norte, para a sua orientação. Mas, no momento em que ele encontra Jesus, e é tocado pelo amor do Cristo, desperta para a grande realidade e percebe que Jesus é realmente o caminho, a verdade e a vida. Então se converte, e toda a fidelidade que possuía e que oferecia às Escrituras, transferiu-se para a doutrina do Cristo, realizando aquela maravilhosa divulgação.
            Para usarmos essa linha de raciocínio é importante nós lembrarmos qual a origem e o contexto histórico que nos possibilitou chegar a essa doutrina de maioridade espiritual. Isso vai nos ajudar muito. Porque, é através desse contexto histórico que vamos aprender a utilizar o nosso raciocínio de forma constante. E a partir daí teremos uma fé raciocinada. Fé raciocinada que estamos acostumados a ouvir falarem muito, mas que muitos não sabem o que significa.
            O nosso contexto histórico se inicia por volta do ano 476 dC. Com a queda do Império Romano e a constituição dos impérios germânicos, iniciou-se a Idade Média, que representou para a evolução da Humanidade, mil anos de trevas. Ocasião em que o povo era impossibilitado de pensar, de raciocinar, para não ferir interesses religiosos, políticos e econômicos. Toda vez que o povo se insubordinava, usando o seu livre arbítrio, raciocinando, ia para as fogueiras da inquisição. Quando a providência divina se fez presente e permitiu que dos ideais revolucionários de 1759 surgisse o iluminismo, ou seja, a doutrina filosófica e religiosa do século XVIII, baseada na existência de uma inspiração sobrenatural, que posteriormente teve como alicerce o binômio razão e crítica, que permitiu que os homens reiniciassem a partir daí o treinamento do raciocínio, para articular o pensamento, visando os questionamentos.E essas mentes adormecidas, incapacitadas de usar o raciocínio, se preparariam novamente, para o advento do Consolador em 1857. Então, podemos observar que a fé raciocinada necessita de um método científico. E deverá ser usada integralmente, para que realmente nós estejamos em consonância com as propostas de Jesus, para compreendermos a sua mensagem em essência. Toda essa informação histórica nos prova que na verdade não podemos prescindir de tal razão, sob pena de estarmos sendo um obstáculo às diretrizes espirituais.
            Kardec nos diz que o primeiro exame que comprova é, pois, sem contestação, o da razão, ao qual é necessário que se submeta, sem exceção, tudo que venha dos Espíritos. Toda teoria em evidente contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa e com os dados positivos já adquiridos, deve ser rejeitada, por mais respeitável que seja o nome que traga como assinatura.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
Vamos destacar alguns fatores que corroboraram para a autenticidade da Doutrina Espírita.
1 – A Doutrina Espírita não é de concepção puramente humana;
2 – Os Espíritos que a revelaram se manifestaram através de diversos médiuns;
3 – O Espiritismo não tem nacionalidade e não faz parte de nenhum culto existente; nenhuma classe social o impõe, visto que qualquer pessoa pode receber instruções de seus parentes e amigos de além-túmulo.
 CONCLUSÃO:
            Não será à opinião de um homem que se aliarão outros, mas à voz unânime dos Espíritos; não será um homem, nem nós, nem qualquer outro que fundará a ortodoxia espírita, tampouco será um espírito que se venha impor a quem quer que seja. Será a universalidade dos espíritos que se comunicam em toda a Terra, por ordem de Deus.
            Pode fazer-se que desapareça um homem; mas não se pode fazer que desapareçam as coletividades; podem queimar-se os livros, mas não se podem queimar os Espíritos. Ora, se todos os livros fossem queimados a fonte da doutrina não deixaria de conservar-se inesgotável, pela simples razão de não estar na Terra, de surgir em todos os lugares.
            Esse o caráter essencial da Doutrina Espírita; essa a sua força, a sua autoridade. Quis Deus que a sua lei se assentasse em base que não pode ser modificada e, por isso, não lhe deu por fundamento a cabeça frágil de um só.
Muita paz!
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(Conclusão as Parte I)
Quem percebeu essa manifestação de efeito físico (vidência)? Apenas João ou todos os presentes? Mateus dá a impressão de que só João viu. Marcos e Lucas apresentam o fato. Marcos e Lucas não eram apóstolos. Decerto, os que viram eram médiuns videntes, e interpretaram a descida do Espírito como característica de uma pomba. E o que teria acontecido então, se não foi uma pomba de verdade? Com certeza, foi um espírito luminoso, da falange que ajuda Jesus e o acompanha sempre, que naquele momento testemunhava o ato.
Essa trindade é muito interessante, e nos chama a atenção para o seguinte: Maria não toma parte; José não toma parte; os pais de Jesus, responsáveis pelo seu corpo físico, não são considerados.
Sobre o ritual do batismo, em especial o batismo de Jesus, nos causa espécie, uma vez que esse ritual não fazia parte das práticas religiosas dos hebreus. O ritual praticado naquela época era a circuncisão. E a prova disso é que em o livro Gênesis (17-14) há uma advertência: “O incircunciso que não for circuncidado, será eliminado”. O que significa circuncisão e qual a sua utilidade? O Velho Testamento diz que Abraão recebeu de Deus uma ordem, para que fossem retirados os prepúcios de todos os homens, e que eles deveriam guardá-los como símbolo da aliança com Deus. Sem a menor dúvida, o ritual do batismo não resistirá a uma análise mais aprofundada. Mas isto será assunto para um estudo futuro.
Outro aspecto a considerar: no entender da Igreja, Deus, Jesus e o Espírito Santo são a mesma coisa. Então não há a configuração de três deuses. É um Deus só, representado por três seres distintos. E a isso chamamos de o mistério da santíssima trindade. Detalhe: as Igrejas Protestantes também admitem que Jesus e Deus sejam a mesma coisa. Que Jesus é a encarnação de Deus, que esteve entre nós durante muito tempo. E, aí, nós podemos raciocinar: se Jesus é Deus encarnado, durante o período em que o Cristo estava aqui na terra, claro, era Deus quem aqui estava. Portanto, o resto do Universo estava sem Deus. Isto é possível? Hoje em dia não. Mas a época favorecia a criação de dogmas, pois se pensava que a terra era a única coisa que existia. Sendo definida como um imenso campo plano, com uma abóbada em cima, muito firme, chamada firmamento, palavra que até hoje é usada poeticamente, para se referir ao céu, com as estrelas pregadas, e o sol que saía de um lado e se punha no outro. Portanto, naquela época foi fácil criar esse dogma. Claro, porque enquanto Deus estava na terra encarnado em Jesus, não havia que se preocupar com outra coisa. Não havia mais nada além da terra. Tanto fazia Ele estar no céu ou na terra. Mas, quando tomamos conhecimento das palavras de Jesus nos dizendo que “há muitas moradas na casa de meu pai”, e saber que no Universo existem inúmeros planetas, a resposta da nossa indagação feita inicialmente se confirma. Não é possível que os outros planetas tenham ficado sem Deus.
É importante registrar que no início do cristianismo, os Evangelhos eram em grande número, sendo posteriormente reduzidos para quatro. Foram excluídas todas as teologias que geravam questionamentos, incluindo as que mostravam Jesus como homem, médium e mestre. Isto aconteceu no Concílio de Nicéia, em 325 D.C., na província de Anatólia, na Turquia. Nesse primeiro Concílio Ecumênico da Igreja, convocado pelo Imperador Constantino, trezentos Bispos se reúnem para condenar o Arianismo, ou seja, heresia que nega a Divindade de Jesus Cristo.
O momento decisivo sobre a doutrina da Trindade ocorreu nesse Concílio, quando a Igreja rejeitou a idéia ariana de que Jesus era a primeira e mais nobre criatura de Deus, e afirmou que Ele era da mesma “substância” ou “essência” do homem.
O interessante disso tudo são as versões de como se deu a seleção entre os Evangelhos canônicos e apócrifos, durante o Concílio de Nicéia, e também singular. Uma das versões diz que estando os Bispos em oração, os Evangelhos “inspirados” foram depositar-se no altar por si só. Outra versão informa que todos os Evangelhos foram colocados sobre o altar, e os apócrifos caíram no chão. Uma terceira versão afirma que o Espírito Santo entrou no recinto do Concílio em forma de pomba, através de uma vidraça, sem quebrá-la, e foi pousando no ombro direito de cada Bispo, cochichando nos ouvidos deles os Evangelhos “inspirados”.
Quais os motivos da exclusão dos livros apócrifos (autenticidade duvidosa) nós já sabemos: eram escritos de assuntos sagrados que não atendiam a interesses da versão de Roma, pois contrariava a divinização de Jesus e, que, por isto, não foram incluídos pela Igreja no Cânon (decreto da Igreja sobre princípios de fé) das Escrituras autênticas e divinamente “inspiradas”.
A Bíblia como um todo, não apresentou sempre a forma como é hoje conhecida. Vários textos, chamados hoje de “apócrifos”, figuravam anteriormente na Bíblia, em contraposição aos textos canônicos reconhecidos pela Igreja.
A instituição da Santíssima Trindade e a do Espírito Santo redundou em interpolações e cortes de textos sagrados, para se adaptar a Bíblia às decisões do conturbado Concílio de Nicéia e outros, como o de Constantinopla, em 381 D.C., cujo objetivo foi confirmar as decisões daquele. As doutrinas resultantes desses Concílios se firmaram na Igreja não pela lógica e a razão, mas à base da espada e da fogueira, contra àqueles que ofereciam resistência à nova ideia.
Agora fica a pergunta: de que poder esses “santos padres” se revestiam a ponto de afirmarem que alguns textos evangélicos não representavam os ensinamentos e a palavra de Deus?
As palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja foram durante séculos algemas e mordaça da Humanidade.
Agora só nos resta apreciar a parte mais importante: o ensino moral. Essa parte nos dá duas opções: obedecermos e seguirmos esses ensinos morais, para nos transformarmos em seres felizes, e levarmos para outras encarnações esse estado de felicidade e sabedoria, ou não obedecermos, o que normalmente acontece com a maioria.
Se as quatro primeiras partes são motivos de discussões e controvérsias, entre as diversas religiões, a última permanece inatacável, tornando-se um código divino, ditando uma conduta de vida para todos nós. Não podemos deixar de nos curvarmos diante da verdade, por mais incrédulos que sejamos. Hoje, com todos esses conhecimentos, não há a menor chance de se inventar lendas ou dogmas para fazer valer o nosso pensamento. Não adianta dizer que o sol nasce do poente para o nascente, pois, estamos vendo que é ao contrário. Portanto, nós temos o direito e o dever de manter a ideia do Cristo Jesus. O ensino moral é o terreno onde todos os cultos podem reunir-se. Estandarte sob o qual todos podem colocar-se, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto jamais constituiu matéria de disputas religiosas que sempre, e por toda parte, se originaram das questões dogmáticas. Aliás, se o discutissem, nele teriam as seitas encontrado a sua própria condenação, visto que, na maioria, elas se agarram mais à parte mística do que à parte moral, que exige de cada um a reforma de si mesmo. Jesus não veio trazer nenhuma religião e, sim, uma conduta de vida. Um caminho que todos podem e devem seguir.
Muitos acreditam no Evangelho de Jesus apenas pela fé. A forma alegórica e o misticismo da linguagem fazem com que a maioria das pessoas leia esse Evangelho apenas por desencargo de consciência, sem compreender os seus conceitos, o que vale dizer sem proveito. Confiam no que ouviram dizer ou se baseiam em máximas que se tornaram provérbios.
Kardec reuniu no Evangelho Segundo o Espiritismo, as principais passagens do Evangelho de Jesus. Explicando-as de forma que se possa entender e, por isto, acreditar, principalmente pela nossa razão. É a fé raciocinada imperando, e não a fé imposta. Complementando cada ensinamento, o Mestre lionez acrescenta algumas instruções que os Espíritos ditaram, clareando ainda mais as passagens do Cristo. Finalizando, o Codificador diz que as instruções que procedem dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu, que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.
QUESTÕES PARA REFLEXÃO:
1-Por que o ensino moral do Cristo é roteiro infalível para a felicidade vindoura?
R - Porque ele nos traz a regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça.
2-Quais os principais objetivos de o Evangelho Segundo o Espiritismo?
R - Conhecermos, compreendermos e deduzirmos as consequências da moral evangélica.
Explicação de passagens obscuras e o desdobramento de todas as consequências.
CONCLUSÃO:
O Evangelho Segundo o Espiritismo deixa de ser fonte de meditação, consolo e oração que nos ajuda a enfrentar dificuldades, e passa a ser um instrumento de aperfeiçoamento do indivíduo. É um guia insubstituível para a adaptação do homem às crescentes formas de vida. Refletindo sobre os seus conteúdos morais, o homem começa a evangelizar-se, ou seja, começa a criar novos hábitos e atitudes, a tornar operante a sua fé, a exercitar mais e mais vezes a paciência.
Adquire, assim, uma nova postura com relação à vida e ao seu próximo, porque aprendeu que o único evangelho vivo é aquele em que os outros o observam.
A moral do Cristo é o terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual podem todos se colocar, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas.
Devemos, portanto, utilizá-la em nosso dia-a-dia, buscando sempre a autossuperação no lado positivo da vida.
Muita paz!
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(Continuação da parte I)
Kardec divide a introdução em quatro partes, a saber: na primeira, ele coloca o objetivo da obra; na segunda, explica a autoridade da Doutrina Espírita; na terceira, coloca definições históricas; na última, compara os ensinos de Sócrates e Platão com a ideia cristã.
No trecho da abertura da primeira parte da introdução, o Codificador nos diz que podemos dividir em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos, a saber: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. E informa que o objetivo da obra é a 5ª parte, ou seja, o ensino moral. É o caminho da felicidade, regra de conduta que abrange todas as circunstâncias da vida, e sobre as quais é possível o entendimento comum. Entretanto poucos conhecem a fundo os ensinos de Jesus; poucos os compreendem bem e sabem tirar-lhes as conseqüências. Isto ocorre pela forma alegórica de muitos textos, o misticismo intencional e o fato de que muitos o lêem por obrigação. E adianta o Codificador: “para evitar esses inconvenientes reunimos nesta obra os trechos que podem constituir um código de moral universal. As máximas foram agrupadas e distribuídas metodicamente, segundo a sua natureza, de maneira a que umas se deduzem das outras”.
Então, é muito importante que nós aprendamos o que Kardec nos diz na abertura deste livro. Porque algumas coisas da vida de Jesus foram passadas para nós no momento da Codificação do Espiritismo.
Observando os fatos que podemos recolher dos Evangelhos e que são como alicerces para a nossa evolução moral, nós vamos perceber que eles não são apenas essenciais, mas os únicos eficazes para que nós evoluamos moralmente.
Na primeira parte da divisão dos Evangelhos, feita por Kardec, que se relaciona, como já dissemos acima, com os atos comuns da vida do Cristo, nós vamos encontrar um Jesus ser humano normal. Um homem entre os outros homens. Com pai, mãe, família, parentes e conhecidos. Enfim, um homem comum. E os atos comuns da vida desse homem, foram iguais aos dos demais. Jesus não se separou dos outros homens. Enfrentou todas as circunstâncias que um ser encarnado enfrenta no seu desenvolvimento, até chegar à idade adulta. Portanto, os atos comuns de sua vida não têm importância para a nossa evolução.
A seguir, Kardec trata dos milagres, que a ciência explica perfeitamente, e que o Espiritismo explica cientificamente. Mas que desde aquela época esses fatos foram chamados de milagres, como se fossem coisas impossíveis de acontecer. Milagres, nem Jesus os fez. Ele usou seus próprios potenciais, sua energia, sua vibração de altíssima freqüência e seus conhecimentos sobre os recursos da própria natureza, das leis naturais, para realizar as curas e demais atos incomuns. O Espiritismo não aceita milagres, porque sabe que todas as coisas têm uma explicação cientifica. São mecanismos naturais, com manipulação de energias, quando as condições são favoráveis. E, também, porque a existência do milagre seria a derrogação da Lei de Deus. Portanto, os milagres também não têm a mínima importância para o nosso estudo, porque não existem.
Com relação às profecias, que são aqueles trechos em que Jesus nos faz advertências, com vistas ao futuro da humanidade, são chamadas assim porque tudo que é dito por antecipação tem essa denominação. E Jesus fez isso para nós. Nos mostrou que a nossa evolução nos traria momentos difíceis e, fez mais, nos ensinou como enfrentar esses momentos. Portanto, as profecias são entendidas apenas por algumas pessoas que recebem-nas inteligentemente e se previnem. O que muitas não fazem.
Quanto às palavras que serviram para o estabelecimento dos dogmas da Igreja, tomando por base as palavras de Jesus, nós vamos verificar que são distorções dessas palavras. Por exemplo: quando Jesus diz “eu e o pai somos um”, quis dizer que uma pessoa que compreende a outra, que ama a outra, que está sempre com a outra, demonstra um sentido de que aquela pessoa e a outra são apenas uma, ou seja, um só pensamento. Mas a Igreja interpretou que Jesus e Deus eram uma coisa só. Então, o dogma foi se estendendo e nós recebemos a idéia desse modo: Jesus é o filho. Deus é o pai. Mas Jesus também é Deus.
Depois, criou-se também um Espírito Santo, porque a passagem que está no Evangelho foi distorcida. Espírito Santo quer dizer o Espírito que é Santo, ou seja, um Espírito que vem de Deus. São os Espíritos que auxiliaram e continuam auxiliando Jesus, na administração das coisas e dos seres do planeta.
Jesus ao receber o batismo, dado por João Batista, o Espírito que desceu sobre Ele é visto como pomba, com base no relato de João, o evangelista: “Vi o Espírito descer do céu como pomba e permanecer sobre Ele”. (João, 1;32). Então, o Espírito é visto como uma pomba, ou seja, não era realmente uma pomba. Aproveitando-se disso, a Igreja desenhou uma pomba e, a partir daí, passou a chamar essa pomba de Espírito Santo. Criou-se, então, uma trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
(Continua)
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
 INTRODUÇÃO

PARTE I – OBJETIVO DESTA OBRA

TEXTO DE APOIO
Podem dividi-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino  moral. As quatro primeiras têm sido objetos de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável. Diante desse código divino, a própria incredulidade se curva. É terreno onde todos os cultos podem reunir-se, estandarte sob o qual podem todos se colocar, quaisquer que sejam suas crenças, porquanto jamais ele constituiu matéria das disputas religiosas, que sempre e por toda a parte se originaram das questões dogmáticas. Aliás, se o discutissem, nele teriam as seitas encontrado sua própria condenação, visto que, na maioria, elas se agarram mais à parte mística do que à parte moral, que exige de cada um a reforma de si mesmo. Para os homens, em particular, constitui aquele código uma regra de proceder que abrange todas as circunstâncias da vida privada e da vida pública, o princípio básico de todas as relações sociais que se fundam na mais rigorosa justiça. É, finalmente e acima de tudo, o roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. Essa parte é a que será objeto exclusivo desta obra.  A forma alegórica e o intencional misticismo da linguagem fazem que a maioria o leia por desencargo de consciência e por dever, como leem as preces, sem as entender, isto é, sem proveito. Passam-lhes despercebidos os preceitos morais, disseminados aqui e ali, intercalados na massa das narrativas. Impossível, então, apanhar-se-lhes o conjunto e tomá-los para objeto de leitura e meditações especiais.
         Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral só são ininteligíveis, parecendo alguns até irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo, como já o puderam reconhecer os que o têm estudado seriamente e como todos, mais tarde, ainda melhor o reconhecerão.
            Esta obra é para uso de todos. Dela podem todos haurir os meios de conformar com a moral do Cristo o respectivo proceder. Aos espíritas oferece aplicações que lhes concernem de modo especial. Graças às relações estabelecidas, doravante e permanentemente, entre os homens e o mundo invisível, a lei evangélica, que os próprios Espíritos ensinaram a todas as nações, já não será letra morta, porque cada um a compreenderá e se verá incessantemente compelido a pô-la em prática, a conselho de seus guias espirituais. As instruções que promanam dos Espíritos são verdadeiramente as vozes do céu que vêm esclarecer os homens e convidá-los à prática do Evangelho.
NOTÍCIAS SOBRE ESTE LIVRO
É o terceiro livro da Codificação do Espiritismo, e constitui um desenvolvimento do aspecto religioso de O Livro dos Espíritos – Parte III – Das Leis Morais. Herculano Pires afirma que é nesse livro que a Religião Espírita se define e se amplia, embora já esteja firmada de maneira indiscutível em O Livro dos Espíritos.
A primeira edição deste livro apareceu em abril de 1864 com o título de Imitação do Evangelho. Foi por influência do editor Didier e de outros amigos que Kardec modificou o título para a segunda edição, ampliando o volume para vinte e oito capítulos mais a introdução, e que ficou sendo a definitiva.
COMENTÁRIO
Por que Allan Kardec faz essa explicação? É porque em toda publicação é importante que nós tomemos conhecimento da introdução, porque ela é uma peça fundamental para quem vai ler a obra. A respeito, por exemplo, vale ressaltar que a introdução que Allan Kardec fez neste livro, objeto do nosso estudo, orienta o leitor, quebra aquele misticismo (tendência a acreditar em algo sobrenatural) que é muito comum nas pessoas, acreditar por acreditar. Enfim, a introdução de qualquer obra, como já dissemos, é muito importante, principalmente quando se trata de uma obra séria, como é o caso do Evangelho Segundo o Espiritismo.
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O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
ESTUDO SISTEMATIZADO
APRESENTAÇÃO

A VINDA DE JESUS À TERRA

Allan Kardec, ao brindar a Humanidade com o Evangelho Segundo o Espiritismo, não quis, em hipótese alguma, tornar desnecessária a leitura do Novo Testamento; sua intenção foi fazer através desta, que é sem dúvida uma das obras mais importantes de to
dos os tempos, uma ligação definitiva entre a Doutrina Espírita e a moral cristã. Quis nos dar a chave para interpretar as sábias lições de Jesus.
Essa apresentação visa facilitar o estudo do conteúdo desse Evangelho, para conhecimento e fixação de suas ideias principais.
O estudo sistemático se faz necessário para que se possa absorver de forma gradativa e paciente os ensinamentos, para que possamos nos aproximar da verdadeira interpretação daquilo que Jesus, esse eminente Espírito reencarnado entre nós, quer do nosso comportamento.
Esse estudo é um processo lento e gradativo, que demanda de nós justamente a paciência. E, a cada releitura, nós vamos detectando pontos que antes não eram percebidos por nós.
Com um estudo perseverante nós vamos conseguindo, cada vez mais, alcançarmos a verdadeira ideia do Mestre, para que o nosso comportamento seja todo pautado, alicerçado nesses conhecimentos, que são o desdobramento das leis divinas.
É necessário sempre fazermos uma ponte do conteúdo do Evangelho para a nossa vida diária, a fim de que o mesmo tenha uma aplicação e vivência prática em nossa existência.
1. ETIMOLOGIA
Jesus Cristo (de Jesoûs, forma grega do hebraico Joxuá, contração de Jehoxuá, isto é, “Jeová ajuda ou é salvador”, e de Cristo, do grego Christós, que corresponde ao hebraico Moxiá, escolhido ou ungido).
2. O MESSIAS
A ideia de um messias geralmente atribuída ao judaísmo é historicamente anterior e encontra-se em outras crenças, entre vários povos. Ela é explicada, porém, com base na concepção de um passado remoto em que os homens teriam vivido situação melhor e que voltaria a existir pela mediação entre os homens e a divindade, de um salvador.
Entre os judeus a ideia do Messias Salvador surge entre os séculos IV e III a.C. pela literatura profética. É o ungido, o enviado de Iavé com missão de instaurar o reino de Deus no mundo.
3. A MANJEDOURA
A manjedoura assinalou o ponto inicial da lição salvadora do Cristo, como a dizer que a humildade representa a chave de todas as virtudes. Começando assim a era definitiva da maioridade espiritual da Humanidade, de vez que Jesus, com sua exemplificação divina, entregaria o código da fraternidade e do amor a todos os corações.
Jesus nasceu em Belém e morreu nos anos trinta de nossa era. O mês e o ano do nascimento de Jesus Cristo são incertos.
4. A VIDA DE JESUS
A história de Jesus, tal como se processou sua vida, é muito difícil de se reconstituir hoje. No Novo Testamento, a narrativa da vida Dele sofre um hiato entre sua infância e a idade varonil, isto é, dos treze aos trinta anos. Os Evangelhos a única fonte existente a fornecê-la, descrevem muito mais o que Jesus vem a significar, após a sua morte para a Igreja, do que os fatos tal como aconteceram.
O Evangelho nos diz que para fugir à matança das crianças, a Sagrada Família julgou conveniente fugir para o Egito. Depois da morte de Herodes regressou do exílio e estabeleceu-se em Nazaré, na Galileia. Aí passou Jesus a infância e a juventude, elevando pelo exemplo, como operário na oficina de seu pai, a dignidade do trabalho. Além disso, pouco ou nada se sabe acerca de sua infância. Narra-se que certa vez, na Páscoa, quando contava doze anos, seus pais o perderam, reencontrando-o só após três dias, assentado no meio dos doutores da lei, ouvindo-os e interrogando-os.
5. A GRANDE LIÇÃO
O mundo era dominado por Roma. Israel havia perdido a própria identidade sob o jugo impiedoso do conquistador romano e se transformou num imenso rebanho desgarrado. E essa dominação fez com que as paisagens morais fossem sombrias, em razão da corrupção que se tornara uma doença incurável, levando as criaturas a situações morais deploráveis. Cada povo fazia da religião uma fonte de vaidades, salientando-se que muitos cultos religiosos do oriente caminhavam para o terreno da dissolução e da imoralidade. Os valores éticos eram esquecidos. A desconsideração moral permitia que os ideais da Humanidade fossem manipulados pela estruturas políticas odientas, que levavam por terra as construções filosóficas e espirituais do passado. O povo sofria o abandono e a perseguição inclemente dos agentes de repressão de ambos os lados, que o afligia impiedosamente.
Foi nessa paisagem moral de sofrimento que Jesus veio apresentar a doutrina de amor, propondo uma nova ordem, fundamentada na solidariedade fraternal, sinalizando a era da esperança para os sofredores. Surgia na Terra o Homem-Luz para modificar a arcaica estrutura de então. Vinha trazer ao mundo os fundamentos eternos da verdade e do amor. Suas palavras mansas e generosas, Seus feitos, dividiram os tempos e os fatos da história.
Conviveu com a ralé. Com os pequeninos das margens do lago, com os pobres dos subúrbios de Jerusalém, reunindo todos os infortunados e todos os pecadores e, trabalhando-os, logrou fazer heróis e santos, servidores incansáveis e ases da abnegação.
Ensinava nas vilas, andando a pé pelas estradas. A vida humilde que viveu demonstra-nos que nunca se importou com as grandezas do mundo, nem com os poderosos de seu tempo.
6. A MISSÃO DE JESUS
Moisés trouxe a primeira revelação; Jesus a segunda. A primeira revelação dá relevância ao olho por olho e dente por dente; a segunda fala do amor incondicional, estendendo-o até ao amor ao inimigo.
Jesus não veio destruir a lei, quer dizer, a lei de Deus; ele veio cumpri-la, ou seja, desenvolvê-la, dar-lhe seu verdadeiro sentido, e apropriá-la ao grau de adiantamento dos homens; por isso, se encontra nessa lei o princípio dos deveres para com Deus e para com o próximo, que constituem a base de sua doutrina. Quanto às leis de Moisés propriamente ditas, ao contrário, ele as modificou profundamente, seja no sentido, seja na forma; combateu constantemente o abuso das práticas exteriores e as falsas interpretações, e não poderia fazê-las sofrer uma reforma mais radical do que as reduzindo a estas palavras: “Amar a Deus acima de todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”. E dizendo: “Está aí toda a lei e os profetas”.
7. A PREGAÇÃO
Contava trinta anos quando começou a pregar a “Boa Nova”. Compreende a sua vida pública um pouco mais de três anos. Utilizou-se, na sua pregação, do apelo combinado à razão e ao sentimento, por meio de parábolas ilustrativas das verdades morais.
As duas regiões de sua pregação:
• Galileia (Nazaré) – as cercanias do lago de Genesaré e as cidades por ele banhadas, e principalmente Cafarnaum, centro da atividade messiânica de Jesus;
• Jerusalém – que visitou quatro vezes durante o seu apostolado e sempre por ocasião da Páscoa.
Na Galileia, percorrendo os campos, as aldeias e as cidades, Jesus anunciava às turbas que o seguiam o Reino de Deus. É aí, também, que recruta os seus doze apóstolos e os prepara para serem as suas testemunhas.
Em Jerusalém, continuamente perseguido pela hostilidade dos fariseus (em estudo futuro nós vamos saber quem são esses fariseus), ataca e desmascara a hipocrisia deles e esquiva-se às suas ciladas. E Jesus foi mais longe: praticou o que acreditava, rompeu com tradições e costumes de sua época, desafiou poderosos e trouxe novos ensinamentos. Como prova de sua missão divina, apresenta-lhes a cura de um cego de nascença e a ressurreição de Lázaro.
Utilizando-se do cenário da natureza, compôs a mais comovedora sinfonia de esperança. Na cátedra natural de um monte, Ele apresentou a regra áurea para a Humanidade, através dos robustos e desafiadores conceitos contidos nas Bem-aventuranças.
O Mestre falou também da “Boa Nova”, que é uma cascata de Luz e alegria, prenunciando a vitória da vida sobre a morte; do bem sobre o mal; da bondade sobre a perversidade.
8. JESUS E O ESTADO
Rejeitando transformar-se em chefe político, conforme o desejo de muitos dos seus seguidores, Jesus, desde o início do seu ministério, teve de enfrentar a ordem estabelecida, pois o Estado contrariava as suas prédicas do Sermão do Monte. A execução de Jesus pelos romanos, sob o letreiro Rei dos Judeus, indicava que fora legalmente condenado à morte como rebelde contra o Estado romano, isto é, como se fora um zelota, equivalente hoje a um terrorista árabe.
Certas afirmações suas: “Não vim trazer a paz, mas a espada”, a expulsão dos vendilhões do templo, as críticas violentas à corte em geral e a Herodes pessoalmente, pareciam colocar Jesus na linha do radicalismo político.
A esfinge da moeda não nega a realidade do poder constituído, mas o que realça é a preeminência de Deus na vida humana. “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” significa, antes de tudo, a recusa de dar a César o que é de Deus. Jesus parece defender não a separação das esferas de poder, mas a submissão de todos os poderes à vontade de Deus, a que também César deveria submeter-se.
9. O EXEMPLO DO CRISTO
No período em que esteve convivendo mais diretamente com os homens, Jesus exemplificou para toda a Humanidade a vivência da lei do amor que emanava de Deus, nosso Pai, como Ele identificou o Criador; ensinou aos homens tudo o que eles já tinham condição de compreender; curou enfermos de toda ordem; convidou as criaturas a não errarem mais, para que não surgisse coisa pior; preparou os discípulos para espalharem a “Boa Nova” (o Evangelho), que liberta o homem da ignorância e da maldade; testemunhou a resignação ao aceitar o martírio na cruz: Jesus roga a Deus com extrema sinceridade: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”.
10. CONCLUSÃO
Jesus, embora não tenha deixado nada escrito, é o modelo enviado por Deus para nos ensinar a lei do amor. A Sua vida de obediência ao Pai, renunciando a própria vida, deve constituir-se, para todos os cristãos, um estímulo constante à prática do bem na Terra. Deixou para todos um roteiro de vida marcado pela prática do amor incondicional: “Um novo mandamento vos dou; que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei”.
Sua proposta é nortear o comportamento individual de cada um de nós, proporcionando-nos ensinamentos que provocam profundas reflexões e ensejam orientações que despertam para o desenvolvimento espiritual.
A palavra de Jesus, na tônica do amor, é a canção sublime que embalou Sua época e, até hoje, constitui o apoio e a segurança das vidas que se lhe entregam em totalidade. Compete-nos apenas, como seus adeptos, à observação do ensino imortal, aplicando-o a nós mesmos, no mecanismo da vida de relação, de modo que se verifique a renovação geral, na sublime exemplificação, porque, se a manjedoura e a cruz constituem ensinamento inolvidável, muito mais devem representar, para nós outros, os exemplos do Divino Mestre, no Seu trato com as vicissitudes da vida terrestre.

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